Acto Falho 27 – Episteme: Suzana Alves Viana

1. Quais são os fundamentos filosóficos e/ou epistemológicos que sustentam sua prática clínica?
Posso te contar como fui construindo os fundamentos da minha clínica, algo que se deu numa confluência entre o fazer clínico e meu interesse pela pesquisa. Me formei por Ribeirão Preto e como lá não havia formação psicanalítica, o forte de Ribeirão era Skinner – terapia behaviorista – comecei a viajar semanalmente para São Paulo para ter supervisão, ao mesmo tempo, prestei os exames da pós-graduação em Psicologia Clínica na USP e entrei.

Durante o curso aproximei-me dos professores que eram psicanalistas, como Ryad Simon, Walter Trinca, dentre outros, ao mesmo tempo, que a questão piagetiana sobre o desenvolvimento do pensamento me atraiu, particularmente pelas aulas que tive com Zélia Chiarottino. Então me propus como dissertação do mestrado, fazer uma relação entre a aquisição da permanência do objeto – segundo Piaget, e a reação ao estranho, usando para tanto uma situação teste – A Situação Estranha – elaborada por Ainsworth, baseada na teoria do Apego de Bowlby.

Trabalhei com bebês dos 9 aos 11 meses. Ao longo do desenvolvimento do trabalho fui-me apropriando mais do interesse que se tornou objeto do doutorado: percebi, com o mestrado, que criei duas “situações de laboratório”, que pressupus, medissem, uma, a situação cognitiva e a outra, a situação emocional, em separado. E achei que isto era um viés, porque o pensamento é expressão, resultado do quanto e do como nossa organização cognitiva consegue trabalhar afetada pelas nossas emoções conscientes e inconscientes.

Já no percurso da formação psicanalítica, que começo a fazer entre o mestrado e o doutorado, sou atraída pela questão colocada pela escola inglesa sobre contratransferência: a de que as emoções experimentadas pelo analista na sessão de análise poderiam constituir-se em trabalho interno, levando o analista a uma expansão do seu pensamento e consequentemente à compreensão da interpretação que lhe viria através da experiência emocional.

Portanto a questão do pensamento, que emerge para o psicanalista na sessão, tornou-se minha questão manifesta e, a partir daí mergulho nela e realizo um trabalho de doutorado muito diferente do mestrado. Muito mais do lado de dentro de mim.

2. Sobre formação continuada, o que você recomenda aos analistas em formação sobre a formação de cada um?
Manter-se analista em formação deve ser uma espécie de contrato do analista consigo mesmo. Sua formação se dá no tempo verbal do gerúndio – o aoristo dos gregos – que marca uma ação iniciada no passado, mas cuja realização alcança o presente. Um contrato épico diria, algo como um desenrolar em direção ao infinito de si, enquanto o si mesmo guarda esta potência épica. É preciso estar direcionado para um além, uma transcendência a ser alcançada através dos rituais que a regra da formação prega- o tripé da formação – análise, supervisão e atendimento clínico. Mas, jamais confundir a execução da regra com formação.

Enfatizo o épico e o transcendente, porque o método a ser apreendido envolve um processo de fazer e desfazer, construir, destruir e transformar em um movimento cuja forma tende para a espiral. O analista não pode perder a capacidade de se surpreender e com isto, de inventar. Para mim, escrever, de modo a ver nascer na escrita, uma configuração que contenha a experiência emocional vivida no exercício do trabalho analítico é uma das formas de se manter em formação.

3. Você poderia comentar brevemente sobre os fundamentos estéticos que norteiam o seu entendimento da Psicanálise?
Acho que ao me inclinar sobre a Contratransferência como a questão fundamental do analista, me direcionei para buscar uma forma para a experiência emocional – experiência do sensível – que se dá na relação analista-analisando.

Meltzer na Apreensão do Belo nos fala que o método psicanalítico, com sua intimidade, privacidade, ética, atenção, tolerância, postura não julgadora, continuidade, abertura, prontidão implícita ao sacrifício por parte do analista, compromisso em reconhecer erros, senso de responsabilidade em relação ao paciente e sua família, enfim, tudo que está incorporado no fazer um exame do processo transferência-contratransferência – todas estas facetas ligadas por um esforço sistemático, tornam o método um objeto estético.

Meltzer teoriza sobre o conflito estético como a primeira experiência emocional do bebê que ocorre frente ao contato impactante com o mundo exterior. O representante da beleza que lhe impacta é a “linda mãe-seio pensante”, mas simultaneamente o bebê sente dúvidas a respeito do seu interior. E o bebê só poderá tolerar esta experiência estética de espanto e admiração, se tais sentimentos forem recíprocos por parte da mãe. Ao ser contido, nasce um pensamento. No mesmo sentido, acompanhando o analisando pelos múltiplos caminhos que a angústia toma em seu interior, o analista pode tornar a experiência estética numa forma de conhecimento.

Este é o modelo da experiência emocional na análise: é uma experiência de construção e destruição que pode ser entendida através do conceito de mudança catastrófica de Bion. A experiência emocional na análise é uma travessia pela turbulência emocional que esperamos resultar numa transformação, ou seja, na Apreensão (mais profunda) do Belo.

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