A clínica da psicose: limites e possibilidades

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* Gisele Assuar – Psicanalista, membro do Depto Formação em Psicanálise

Pedro morou na rua.  Conta que gostava de dormir “a céu aberto”.  Ele chega à clínica encaminhado pelo abrigo que o acolheu.  Sua mãe não quis sua guarda, disse que a atrapalhava muito, porque não era um bom menino. Antes disso e antes de morar na rua, ele viveu com sua avó.  Dessa avó não gosta de falar, ela batia muito nele, “de pau de vassoura, com o ferro”. Fruto de um abuso quando a mãe ainda era uma menina, Pedro talvez seja filho do avô, ou do tio; pouco sabe-se sobre essa história.

O garoto de 15 anos chega a primeira sessão dizendo que quer encontrar seu pai, que vai morar com ele e que “lá” poderá ter tudo o que quiser.  Seu pai é poderoso, ora é um chefe do tráfico no morro, ora um empresário muito bem-sucedido.  Na casa desse pai terá muitos videogames, uniformes de jogador de futebol, batata frita e todos os brinquedos que quiser.  Lembra que a mãe os apresentou certa vez, no Rio de Janeiro, e eles combinaram que ficariam juntos.

Pedro conta detalhes fragmentados e incoerentes de encontros com esse pai, de aventuras nas ruas, de seu treinamento especial no exército… A fala é entrecortada, difícil de seguir, muitas vezes sem sentido.  As frases são interrompidas, ele sussurra, parece conversar com mais alguém.

Aquilo que inicialmente poderia parecer fantasia de criança, aos poucos vai se configurando cada vez mais delirante.

Se a fala do neurótico ganha sentido porque é possível colocar um ponto final e a partir desse ponto atribuir significação (Lacan chama isso de ponto de basta),na psicose isso não acontece.  O que existe é uma erupção do inconsciente que provoca a alucinação, um deslizamento sem fim na cadeia significante que se põe a falar à revelia do sujeito.  “O neurótico habita a linguagem, o psicótico é habitado por ela”.

A carência no simbólico do Nome-do-Pai corresponde a uma fenda na realidade do sujeito psicótico que é preenchida pelo delírio.  Por isso podemos entender o delírio como uma tentativa de restauração, de sutura da realidade.

No neurótico, pelo recalque, o Outro vai para o inconsciente.  No psicótico, o Outro está presente o tempo todo, conversa com ele, lhe dá ordens.  O Outro, que fica numa posição de gozo absoluto, fala a esse sujeito no Real, provocando o delírio.  Como nos diz Lacan, “o que está forcluído, aparece no Real”.

Conforme a transferência vai se estabelecendo, a fala de Pedro sobre o pai muda de direção.  O pai foi preso, roubou algo, “vai colocar a culpa em mim”. Ele fica persecutório, se desestabiliza, foge diversas vezes do abrigo, pede dinheiro na rua.

O “abrigo” aonde está Pedro não o abriga de sua angústia, não pode abrigá-lo, ele está permanentemente a céu aberto.

O menino alucina um pai, um pai poderoso, onipotente, como a mãe/avó de sua infância, que dispõe dele como quer para seu próprio gozo.  Por isso fica persecutório em relação a todos, à analista também.

Se não é o pai, é a terapeuta que não atende suas demandas:

Acusa-me de não dividir a comida com ele, de não lhe dar dinheiro, não visitá-lo no abrigo, de atendê-lo por poucas horas, de não participar de sua audiência, de não protegê-lo de sua mãe.  Tempo e espaço se embaralham.  O inconsciente é mesmo atemporal.

“Você não lembra de quando vivia no abrigo?”, me pergunta.

Parece que Pedro tem sempre certeza de que sei tudo o que se passa ou se passou com ele, como se fossemos um só.

Nesses momentos percebo que fico no lugar do Outro absoluto, em relação ao qual ele se sente completamente submetido.  Seu delírio desvela a posição que o psicótico ocupa de  objeto de gozo do Outro e a equivalência que faz entre saber e gozo.Poderiamosdizer que a suposição de saber que o neurótico atribui ao analista é substituída no psicótico por uma certeza.

Em alguns momentos Pedro fica enfurecido e é necessário contê-lo fisicamente.  Tirar-lhe uma tesoura das mãos, uma corda enrolada no pescoço, segurá-lo para que não corra para a rua.  Poder acolher e também conter sua fúria geralmente leva a um segundo momento de entrega e confiança.  “Obrigada, só você me ajuda tanto,”

Aceitar essa posição é, por um lado, a possibilidade de ajudá-lo na construção de uma barreira para o gozo, apresentando-lhe a possibilidade de um Outro protetor, diferente daquilo que jamais conheceu.  Por outro lado, essa posição implica que o analista ocupe o lugar do Outro materno absoluto, do qual ele é objeto de gozo, correndo o risco de fabricar com ele um delírio a dois.

Pedro nos coloca os muitos desafios em relação a clínica da psicose.  Quais os limites e as possibilidades da psicanálise nesses casos?

A teoria nos dá algumas pistas importantes para pensarmos a posição do analista diante do psicótico e de como a transferência se coloca.

Segundo Lacan, como objeto do gozo do Outro, o psicótico muitas vezes se coloca na relação com o analista como objeto de uma “erotomania mortífera”.  Essa situação frequente é também insustentável.  Aceitar essa posição implica aceitar o lugar do supereu terrível e gozador.

O delírio tem na psicose uma função importante de suplência na estrutura o que nos indica que a cura com o sujeito psicótico não está na supressão do delírio, mas num apaziguamento do gozo absoluto ao qual o sujeito está submetido.

É preciso construir uma metáfora delirante, ou mais precisamente, o psicótico precisa construir algo que venha suprir o Nome-do-Pai, inventando uma maneira de existir fora da ordem fálica.  A metáfora delirante é uma possibilidade de dar um sentido, um contorno para a relação com o Outro, barrando o gozo absoluto e construindo uma suplênciada metáfora paterna.

Essa ideia aponta para uma clínica das suplências.  Freud, no seu texto “A perda da Realidade na Neurose e na Psicose”, de 1924, já indica algo nesse sentido:  “(…) tanto para a neurose quanto para a psicose, a questão que vem a ser colocada não é apenas a da perda da realidade, mas também a de um substituto da realidade.”( Freud,S. – A Perda da realidade na Neurose e na Psicose)

A clínica das suplênciaspode ser um caminho bastante interessante para pensarmos as possibilidades da psicanálise em relação a psicose, nem por issoseu manejo se mostra de algum modo fácil.  Talvez só possamos encontrar respostas a cada paciente, a cada caso, a cada sessão.  Talvez nunca possamos realmente encontrá-las.  Como nos diz Michel Foucault, “a psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia”.

 

 

Bibliografia

 

FREUD, S. – Neurose e psicose.  Tradução Paulo césar de Souza, Obras completas, vol. 16. São Paulo, Ed. Companhia das letras, 2010.

FREUD, S. – A perda da realidade na neurose e na psicose.  Tradução Paulo césar de Souza, Obras completas, vol. 16. São Paulo, Ed. Companhia das letras, 2010

AULAGNIER, P. –Observações sobre a estrutura psicótica. Tradução de Alba Senna.

QUINET, A. – Teoria e Clinica da Psicose. Rio de Janeiro, Ed. Forense Universitária, 2014.

SIMANKE, R.T –A formação da teoria freudiana das psicoses. Rio de Janeiro, Ed.34, 1994.

 

* Gisele Assuar – Psicanalista, membro do Depto Formação em Psicanálise

Rua Girassol, 139 cj 52 – Vila Madalena

São Paulo -SP

telefone 11 99688 0830

email gisele.assuar@gmail.com

 

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