A Separação: a ética em questão

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A Separação é um ótimo filme político e uma bela aula de ética.  Nela o roteirista e diretor Asghar Farhadi retrata um pequeno grupo de personagens que vivem uma sucessão de impasses que levam à impossibilidade do convívio, apesar dos contínuos esforços na busca da reconciliação e do entendimento.  Vemos encenada com intensa verossimilhança a difícil interação de sujeitos de diferentes estratos sociais, que se encontram e desencontram provocando crises entre si e em si, sem cair em estereotipias sociológicas e psicológicas.  Surgem na tela com tanta verossimilhança que esquecemos tratar-se de atores; vemos personagens insuportavelmente humanos em busca de sentido para suas vivências, imersos nas contradições, insuficiências e obscuridades de sua subjetividade e de seu tempo.
O filme, tenso, se equilibra sobre um fio de navalha, onde assistimos o empenho pela aproximação e o entendimento que, no entanto, só reafirma a insuperável distância e a crescente incompreensão. Com insuportável realismo vemos encenada a fábula do porco-espinho de Schopenhauer: a separação mata, a aproximação fere.  As diferenças que de início se infiltram e corroem a esfera doméstica, deflagrando um processo de divórcio, se amplia e se propaga demonstrando sua real dimensão social.  O final do filme não oferece qualquer síntese redentora; num lance genial, o filme é interrompido, deixando o espectador em suspense, tão desamparado e inquieto quanto os personagens da tela.

No julgamento do divórcio que inaugura o filme, um casal explicita para um juiz sem rosto o porquê de não poderem permanecer casados.  A filha – ponto nodal de toda a trama – é ao mesmo tempo o impedimento ao divórcio e a razão deste, sendo a destinatária comum de dois projetos de vida incompatíveis: a mãe quer levá-la para o Ocidente, na crença de que ela terá um futuro melhor, e o pai quer que ela permaneça no Irã e, como ele, honre suas raízes.  Surge então o impasse: qual desses caminhos é o melhor para ela? Quem abrirá mão de seu projeto?  O juiz tem pouco a oferecer e os pais, fiéis a seus ideais, optam pela separação informal, enquanto aguardam por uma solução definitiva.

É, portanto, a impossibilidade de síntese entre anseios, projetos de vida, valores e ideais que redunda na separação, e não qualquer desilusão amorosa.  De imediato somos colocados perante sujeitos francos que não se omitem frente aos próprios desejos nem mascaram suas diferenças e conflitos.  Não se trata, portanto, de uma família disfuncional ou neurótica, mas, ao contrario, de sujeitos que zelam por seus desejos, inventam seu futuro e realizam seus ideais, sem recuar diante dos inevitáveis conflitos gerados.
Consumada a separação, faz-se necessário contratar uma diarista para realizar os serviços domésticos. Coloca-se em cena uma segunda família, levando à segunda potência o drama inicial.  Novamente o convívio se mostra impossível, apesar da comunidade histórica e lingüística e da dependência mútua que os une.  Acrescenta-se agora às diferenças de geração, de gênero, e de apego à tradição, presentes na situação inicial do divórcio, diferenças socioeconômicas e religiosas. Passa a imperar o desentendimento, a desconfiança, a ofensa, o sentimento mútuo de dano, fomentando ao mesmo tempo o empenho desesperado para se fazer ouvir e reconhecer num mundo que se mostra cada vez mais fraturado, obscuro, tenso e desconcertante.
Esse grupo de oito personagens, que por vezes se apóia em outros secundários, retrata com grande agudeza alguns dos vários “Irãs” existentes.  Nós, ocidentais, tendemos a imaginar o Irã como um bloco opaco, homogêneo em si, enquanto o filme o retrata em toda sua complexidade, multifacetado, estratificado, atravessado por múltiplas temporalidades e mais ou menos permeável aos processos de globalização.  Coloca-se então a questão: a despeito de todas as críticas que possamos ter ao regime político do Irã, será que a visão monolítica do país, tão difundida na imprensa e sobreinvestida politicamente, não se origina na experiência de Unheimlich (sinistro) que, como demonstra Freud, recobre nossas experiências de encontro com o Outro?

A separação que inaugura o filme se repete então no rompimento do vínculo empregatício.  Tudo se aborta, tudo entra em crise; a cizânia se alastra e tudo se desestabiliza.  A filha, depositária dos sonhos de seus pais, se ressente da mãe e desconfia do pai.  Ao mesmo tempo, todos se esforçam para se fazer ouvir, para mostrar ter agido de boa fé e, não sendo onipotentes, experimentam momentos de hesitação e dúvida.  Sucedem-se vozes e olhares dirigidos a juízes interessados, mas sempre insuficientes, capazes de abalar as certezas e perfurar as acusações, mas nunca de proferir a sentença, pedindo sempre novas provas e sinalizando que a Verdade, ansiada por todos, se encontra mais além.

O espectador também não é poupado, não ocupando o lugar da testemunha onisciente, exterior à trama dos eventos.  Os fatos que assiste se desdobram continuamente, revelando facetas não vistas, motivações ocultas, dimensões inesperadas.  Este se vê tão impotente quanto os juízes, ouvindo os relatos, concordando ora com um, ora com outro, desconfiando de todos e angustiado com a solução que nunca chega.  Percebemos, aflitos, que todos têm razão – e, portanto, que ninguém a tem.
Assistimos assim a glória e a miséria da modernidade, onde os sujeitos precisam continuamente se inventar, sendo autores de si.  A tradição já não ampara, sendo apenas um modelo possível, sem potência para designar posições ou oferecer ideais e modos de vida para realizá-los.  Vemos, nos diversos “Irãs” retratados no filme, a presença da tradição, ora como obstáculo, ora como amparo, insuficiente em diferentes graus para garantir o ato, impedir a dúvida e afastar o desalento.  Na contemporaneidade somos condenados a ser livres, parafraseando Sartre – temos de nos fazer, escolher ideais e criar modos de realizá-los, sendo muitas vezes o próprio juiz dessas realizações, já que o reconhecimento social é ambíguo e sempre incerto.

Nessa trama de desamparo esboçam-se parcerias temporárias, tecidas com enorme esforço, entre as mulheres e entre as crianças, que conseguem encontrar empatia onde prevalece a diferença. Por meio dessas pequenas parceiras os protagonistas exaustos visam realizar alguma formação de compromisso para interromper a escalada de acusações.  Aqui o filme parece ecoar o mito moderno que valoriza a mulher como o agente do entendimento e da negociação, aspecto importante da falência do Pai na contemporaneidade.  Mas mesmo esse esforço é vão; o acordo costurado pelas mulheres é instável e se rompe antes mesmo de consumado.

Como fazer então, para interromper esse circuito infernal?  Essa parece ser a questão colocada pelo filme: será possível construir uma nova saída ética, diferente daquelas ensaiadas no filme?  A impossibilidade do entendimento, do acordo, ou mesmo da sentença, talvez decorra do fato dessas visarem anular a alteridade dos agentes em conflito, não a reconhecendo como inexorável, numa sociedade dividida.  Tudo parece se organizar em torno da idéia de uma Razão, Verdade ou Justiça últimas, que dissolveriam os conflitos entre os sujeitos que, embora díspares,  deveriam equiparar-se enquanto cidadãos e compor uma sociedade homogênea, onde as diferenças só existiriam enquanto negatividade.  Esta Razão, Verdade ou Justiça são procuradas no plano dos eventos, fazendo do juiz uma espécie de árbitro habilitado a localizá-las e assim enunciar quem está com a razão e quem com a desrazão.  O que não se considera é a possibilidade destas não se encontrarem em alguma parte, tendo de ser construídas e realizadas a partir do reconhecimento e da legitimação das diferentes razões em jogo – razões  que não se harmonizam nem se anulam, já que sustentadas por sujeitos em diferentes posições dentro de uma sociedade em crise, fragmentada e em luta.  Paradoxalmente, foi o não reconhecimento das diferenças nessa dimensão estrutural, e não conjuntural, que lançou a todos numa exasperante espiral de desentendimento. O repuxo para o “centro”, impulsionado pela denegação da diferença só acirrou o desejo de reconhecimento e de afirmação de si, gerando uma força centrífuga proporcional ao empuxo contrário, numa dinâmica exasperante e desconcertante para todos.

Neste ponto de vista, a solução ética só poderia advir da aceitação da alteridade, ou seja, do reconhecimento pleno de que a sociedade não é una e sim composta por sujeitos internamente clivados (como demonstra Freud), que ocupam posições desiguais no jogo de forças que compõe o campo social, e que se agrupam em coletividades que também encerram contradições, compondo assim um todo heterogêneo e instável onde os conflitos são inerentes.  A solução não poderia ser sintética, portanto, e sim analítica; e a aproximação só poderia resultar da escolha ética movida pelo desejo de criar laços, por meio de fios flexíveis e sempre singulares, que não denegassem a alteridade dos sujeitos em conflito.

O filme revela assim toda sua dimensão política, apontando a necessidade de aprendermos a suportar a alteridade e a costurar entendimentos, não anulando a diferença de partida por um olhar onde esta é pura negatividade, resultando da incompreensão ou da má fé.  Esta “lição”, que poderia servir aos protagonistas do filme, cabe também a nós, e a nossas relações com o Irã e o mundo árabe.  O entendimento só poderá advir quando aprendermos a reconhecer e suportar o Outro.

No final do filme, retorna-se ao julgamento do divórcio, mas, desta vez, cabe à filha do casal dizer qual futuro escolherá.  Opera-se aqui um deslocamento importante: não estamos mais no plano onde o juiz deve enunciar quem tem razão, e sim no plano da escolha.  Repetidas vezes ouvimos a filha dizer que já tomou sua decisão, mas essa nunca é enunciada para nós, que vemos, aflitos, o término do filme antes de seu fechamento.  Nesse momento evidencia-se que de fato é a filha o pivô de toda a trama; a geração futura já definiu a sua escolha, e esta definirá o tempo vindouro, mesmo que este ainda permaneça inaudível para nós, presos que somos ao tempo presente.  Quais dos vários Irãs prevalecerão, quantos outros poderão ainda ser inventados, quais ninhos da serpente estão sendo gestados, quais alianças estão sendo tecidas?  E quanto à filha da diarista:  qual será sua posição frente a tudo que testemunhou?
Seja quais forem as respostas, elas já estão dadas – mas ainda não se oferecem para nós.

E nós, no Ocidente?  Qual será o futuro que já escolhemos, mas ainda desconhecemos?  Haverá lugar legítimo nele para o Outro?

Vera Warchavchik é filósofa e psicanalista, docente e membro do
Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
Tel: 3812-1753

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