A vista, a visita e a Jornada

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A Jornada, a décima quinta Jornada de Membros, foi realmente muito bacana, muito especial. Estive por lá e apreciei do começo ao fim um encontro intenso e produtivo, rico e enriquecedor, quente e fresco. Pessoas animadas e: que bom era o clima. Todos pareciam com Vontade de fazer e viver aquele momento, algo que possibilitou um verdadeiro à Vontade, uma espontânea e produtiva inter-ação.
Maria Tereza (Scandell Rocco) ‘abriu as portas’. Deu-nos as boas-vindas e convidou-nos ao bom ‘serão’: que unia a boa recreação à boa trabalhação. Também iniciou tecendo a singela mas profunda dedicatória do evento ao bom amigo Ésio que, deixando saudades e fotos de felizes momentos, já não nos acompanhava mais. Durval Mazzei (Nogueira Filho) pró-seguiu a abertura, curtamente, com seu garbo característico e graciosa elegância partidária: narrou-nos a idealização e a originação desse nosso Evento; contou-nos de como e quando, há 15 anos atrás, ele e (Maria) Cristina Perdomo promoveram a ação pública da produção interna do Departamento.
Olivia Lucchini, coordenando a primeira mesa, passou a palavra à certeira reflexão de Eduardo Leal, que facilmente nos instigou com as cobranças irrecusáveis de Nosso Outro e as ações farmacopsicóticas. Era só o primeiro ainda! Rogéria Brandani ‘clinicou’ sobre a menina Clara, que dureza! O Setting não era o mesmo, simples: abarcava mais – e a psicanálise daria qual apoio à constituição da inteligência? Francisco fez a última apresentação da primeira mesa, um palestrante desenvolto, com a heroica discussão sobre a trágica e mortífera poesia em La Luna, ajudado por não menos que Hölderlin. Para fechar a mesa, a maravilhosa interlocução de Ana Raquel (Bueno Moraes) Ribeiro: uma chave de ouro. Seria a falta ou o excesso? A produção daria conta do excessivo? O excessivo daria conta do excessivo? Excesso ‘pulsional’, excesso de anti-depressivo, excesso de: humanidade. Um corpo que não cabe em si. Foi o pouco do pano pra manga discutido no primeiro tempo público.
A segunda entrada, dirigida por Aline Choueke Turnowski, era uma verdadeira Távola arredondada, com a Pulsão de Morte no centro sendo devidamente, embora não esgotadamente, destrinchada pelo nobres psico-investigadores (como rendeu o Seminário de Ede [de Oliveira Silva] e Ligia [Valdez Gómez]). Gisele Assuar, um encanto, com Shame e contemporaneidade: uma escolha e uma combinação harmoniosamente desarmonizante, compulsória, mas só até a ‘ligação’ chegar. Haja criatividade fraternal. Fabio (M.) Chiossi, que perspicaz, do Médico e o Monstro, um leitor voraz. Uma beleza a sua fala, e que justa roupa para a fúnebre pulsação [mas a inesquecível partição foi a jogada fora, no fogo, do primeiro ensaio – que quase muito nos privou, inclusive desta própria explanação]. Olívia Lucchini, agora retornada, também com outras roupas: ‘roupas sob medida, sem etiqueta, sem nome verdadeiro ou falso, sem impressões digitais, dentárias ou de DNA, no máximo uma maquiagem, com cicatrizes sem história: verdadeira circulação pura. Genial a criatividade com o Coringa. Rodolfo Almeida ficou com a Melancolia, filmada e projetada, lutada mas não enlutada. Curioso efeito de o longa ter sido rejuvenescido pela tétrica teorização: quem não gostou do filme, que vá estudar pulsões. Duais ou monistas? Telma Ximenez respondeu de maneira sem igual. A co-incidência do pulsional: o objetivo vital é seu final! Telma era, em si, uma poesia afinal. [E por falar em poesia, nós não perderíamos por esperar]. A discussão que se seguiu não foi de repetição; ou era repetição com diferença. O objeto da vida é a morte? O que significa a vida é a morte! O ser-para-a-morte. A morte do Freud em cada um de nós: intensa criação.
Pausa para o almoço: oportunidade valiosa para as conversas extras, para as trocas extras, para conhecer e reconhecer colegas.
Alessandra Ruivo Jacob deu, da bancada, a última largada. E foi para o Eduardo, agora o Lara, que ofereceu a passada, que chegou em forma de palavra derretida, em estado de lágrima, nada presa, nada encravada: pessoa endurecida é tumor. Ele foi da vazão ao afloramento, ao aflu-ente, um tanto eloquente. Sirlei Herber fez a segunda jogada. Trouxe o amor e o Amor. Nos encontros e desencontros, nos acidentes e incidentes. Foi até a morte também. Falou profunda e amplamente. Amor circunstante. Amor que varia do momento inicial e jovial ao velho e terminal. Mas e como seria o amor pré-natal? Gustavo Adolpho Junqueira Amarante quis corajosa e autoralmente se debruçar nisso: um belo movimento e bom uso do espaço. Pra isso exercitou bastante sua inspiração kleiniana. Extra-vagou muito bem sobre o útero. E Eliane Accioly Fonseca, que dizer? Ela gentilmente nos embalou nos finalmentes, trazendo a psicanálise hieroglifada, pictografada, linguagem poética da evocação, não da informação. Apresentou-se de maneira dinâmica; mostrou o 1-8-0 vira I-ate-nothing. Até desenho suscitou-se. A síntese ficou nas precisas mãos de Luciana Bocayuva Khair, linda interlocutora da agradável terceira mesa. Trouxe consigo um outro bom amigo, do qual também fomos privados há não muito tempo, Homero Vettorazzo Filho – que bastante trabalhou na fecundidade das concepções voltadas à abertura, na contramão das repetições convictas e estéreis de caráter dogmático e autoexplicativo. Abriu viva conversação.
Encerrou-se a tão desfrutada organização eventual com votos e mais vontades de mais destas experiências horizontais e produtoras de horizontes. E, sim, agradecimentos e abraços.

Texto de Estanislau Alves da Silva Filho e fotos Nina Lira e Fernanda Molinaro

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