Do punctum da fotografia ao punctum da monografia. – por Ligia Valdés Gomez

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Quando fui convidada por esse quarteto afinado de eventos e sua regente batuta, recebi várias sugestões: falar sobre as monografias da Cristina e da Ana, falar da escrita, de monografias em geral e do ateliê de palavras.

Pensei que de algum modo, daria para estabelecer algumas ligações sobre essas sugestões, desde que pudesse começar com o que me tocou. Uma primeira impressão, uma primeira associação…

Não conhecia o trabalho da Cristina, só o título “Mar de Histórias”. Por outro lado, conhecia bem o trabalho da Ana inclusive o título “Algaravias”.

Começarei com as associações que fui fazendo com esses títulos, e depois, como fui articulando a relação analista analisando na clínica psicanalítica e na construção da escrita em uma monografia.

Associei “Mar de Histórias” com uma cena do filme “O carteiro e o Poeta.” O filme narra a amizade entre um carteiro que costumava pegar a correspondência do poeta, Pablo Neruda e assim conheceu a sua poesia.

A cena que lembro é a dos dois, carteiro e poeta, sentados em frente ao mar e o diálogo que tiveram: O carteiro queria saber o que era uma metáfora. O poeta queria saber por que a poesia encantava ao carteiro. Ele responde algo como,” é porque eu me sinto um barco jogado pelas palavras”. O poeta lhe diz, “você acaba de fazer uma metáfora”.

Encontrei proximidade entre mar de histórias e um barco jogado pelas palavras mas, não é o conteúdo dessa metáfora que me interessa, e sim, a maneira como esse laço, me disparou, para a importância da metáfora. Pude lembrar da necessidade da metáfora na escrita, que ao me tocar, me fez lembrar, associar, construir.

A primeira vez que a palavra algaravia chegou até mim foi ligada à cantinela ruidosa das mulheres árabes quando reunidas. Nesse ruído musicado, imagino os sons se deslocando e organizando uma espécie de canto. Dá a idéia de que toda palavra, num certo sentido emite uma música composta pelo timbre, pelo ritmo e articulação de quem fala ou mesmo grita É a respiração, a angústia ou tranqüilidade de quem fala, a paixão, a raiva. É um mundo sensorial que se apresenta. O deslocamento se torna visível e o som como um significante, permite o movimento do desejo.

Temos aqui o que interessa a todos nós, quando analisamos e quando escrevemos, a metáfora e a metonímia, dando forma ao desejo.
Desejo que nos permite sonhar e também escrever.

Na clínica psicanalítica atual, temos observado que os pacientes, no trabalho de análise, passam por momentos de angústia, de estranhamento, em que experimentam coisas que não conseguem nomear. Marcadamente trazem em si a situação da cultura. Vivem momentos de angústia, às vezes silenciosa, excessiva, traumática que transborda, e faz com que tudo permaneça sempre igual e desconhecido.

Nós analistas escutamos e esperamos, sem uma leitura prévia, sem antecipar um saber (na melhor das hipóteses), a expressão desses estados dos analisandos. São momentos que merecem vir à tona, sem qualquer gesto precipitado do analista, sem serem encaixados em pré-concepções científicas, que misturam os sujeitos aos modelos, ao designá-los iguais sem singularidade.

O espaço analítico deve se configurar como um espaço da diferença, de ruptura das relações tendentes ao homogêneo, onde o heterogêneo pode e consegue emergir.

A diferença ao ser soberana permite que o novo, o original possa se processar. Os acontecimentos então apontam para um trânsito que vai da unidade para o caótico, que vai da organização para a confusão. São movimentos que, longe de acirrar dicotomias, aceleram suas implosões. Os processos do sujeito se engendram nesse trânsito, entre traços cristalizados do sujeito, para um vir a ser em que ocorre a tensão, o estranhamento e a idéia de inacabado. Os paradoxos imperam.

As palavras não são mais veículos de comunicação, e sim, uma forma de transmissão entre sujeitos. Aí o que se transmite não são saberes absolutos e verdades universais iguais a todos, e sim, saberes que vão sendo construídos pelas subjetividades dos sujeitos na relação, vão sendo tecidos na história pessoal de cada um. Ética e Estética se mesclam na relação transferencial.

Na clínica a relação entre analista analisando pode ser percebida, como um campo também de experiência estética, que captura nossa percepção, sentidos e reflexão, que nos faz percorrer o caminho da investigação e pesquisa; lugar onde se insere a escrita na psicanálise e a importância da monografia.

Falamos então, sobre o diálogo entre essas duas áreas do saber: aquela que diz respeito à psicanálise e a outra que remete ao campo da estética enquanto contemplação sensível de uma obra de arte, de um objeto, um acontecimento.

Farei uma articulação entre a contemplação da fotografia, da imagem, do olhar, como experiência s estéticas da fotografia, segundo um texto de Barthes; e a nossa contemplação como analistas, a nossa captação sensorial durante uma sessão, e também, como nos apropriamos dessa experiência para outra mais subjetiva ainda, que é a construção, a tessitura da monografia para nós.

Nas duas monografias tanto a de Ana e Cristina, percebemos o cuidado com as palavras e com o que permanece além, com os estranhamentos. O estranho familiar que tão bem foi explicado no texto O sinistro de Freud (1919). Percebemos o trânsito entre gozo e desejo que podemos encontrar nos recantos mais escondidos de nossa psique, como a lalangue (alíngua) como nos informa Miller.
De lugares diferentes, de maneira singular, está presente nas duas monografias o trabalho clínico, e o desejo em escrever despertado a partir dessa experiência.

Nos diz Barthes:
“Tenho uma doença: eu vejo a linguagem. Aquilo que eu deveria somente escutar, por uma estranha pulsão, perversa porquanto o desejo aí se engana de objeto, me é revelado como uma visão (…).

A escuta deriva em scopia: da linguagem sinto-me visionário e voyeur.”
Essa passagem da escuta para a scopia que quer dizer visualização, é interessante por que nos traz a idéia de como os nossos sentidos e tecem e podem captar novos sentidos, de uma maneira criativa, chegando a novas figuras de linguagem, a neologismos. Num primeiro momento com e o que acontece na sessão, e depois, para o que pode vir a acontecer quando nos dedicamos a escrever, quando engendramos a narrativa.

E sobre escrever, sobre a escrita?
Roland Barthes em seu livro Câmara Clara, faz um estudo sobre fotografia muito diferente dos que constam na literatura que, ora versam sobre a técnica, ora sobre o aprendizado da fotografia.

Barthes faz um estudo estético fundamentado na psicanálise: destaca o olhar do sujeito, como o tecido que o revela, revela o próprio sujeito.

Ele usa duas categorias: studium e punctum assim mesmo em latim. Cada uma delas bem sinteticamente quer dizer…
O primeiro studium é o contato que estabelecemos com algo que é contemplado, a partir do nosso arcabouço cultural. Vamos organizando os dados contemplados, as informações que surgem, por meio de nossa razão.

O segundo punctum é aquilo que fere, que penetra, atravessa e depende das vivências pessoais de quem contempla algo. É o aspecto mais íntimo e subjetivo, que transparece no sujeito quando contempla algo. Seria o tempo do desejo… O reconhecimento desse algo mais que toca, fere e nos ultrapassa: quase uma poética.

O punctum se define por contraposição ao studium: Não é possível estabelecer uma regra de ligação entre o studium e punctum, mas, é aparente a contraposição entre os dois, trata-se de uma co-presença, onde um não impede o outro. O studium porque depende da cultura pode-se dizer que é o resultado de um pacto entre quem cria ou escreve e quem consome .

Há uma ligação estreita, entre o conceito de punctum e o de tempo subjetivo, ou o tempo do desejo. Os elementos registrados em nossa realidade psíquica como impressões, gesto, palavra, olhar, tensão, rompe com as demandas culturais do escrever, rompe e transgride, muda a direção da narrativa.Torna a relação entre autor e obra singular.

O tempo do desejo supõe uma suspensão do fluir temporal, tanto na clínica como na atividade de tessitura da monografia, porque o que emerge na narrativa é a própria experiência subjetiva do analista a respeito do seu ofício.

Assim o tempo do desejo, tempo por excelência simbólico numa narrativa, parte da subjetividade de quem escreve, de quem escuta, de quem olha, na mistura mesmo de sentidos, na captação sensorial e estética.

Escrever não será mais bonito ou mais fácil, mas terá a marca singular de quem teceu, de quem sentiu e, de quem pensou a escrita, e então, ousou…

Ligia Valdés Gomez

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8 Replies to “Do punctum da fotografia ao punctum da monografia. – por Ligia Valdés Gomez”

  1. Parabéns pelo texto, Ligia!
    Gostei muito de lê-lo e como estou enredado na minha monografia, não tenha dúvida de que me ajudou também!
    Abs!

  2. Berenice Neri Blanes disse:

    Ligia, que texto lindo, criativo!
    É profundo, tem musicalidade. Quantas coisas “punctum” e “studium”fazem pensar! Nosso dia a dia, nossa clínica…
    Como é bom aprender de maneira prazerosa.
    Parabéns, Beijos

  3. Rosangela disse:

    Nossa Ligia, que texto maravilhoso.

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