Hipóteses patológicas sobre o grupo e a mente

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O pensar requer muito de cada um. Requer cuidados, requer asas e, algumas vezes, requer
sementes novas e férteis. Esse é o poder da reflexão curta, densa e aguda de Emir Tomazelli:

Hipóteses patológicas sobre o grupo e a mente

 

Então, se vencermos estes árduos passos iniciais, talvez possamos ver ocorrer de o grão germinar e se inserir num fruto maior”. Esta é a esperança. Este é o gesto que se pode esperar como sendo indicativo da existência de um agrupamento humano bom e capaz de manter o indivíduo nele, permitindo que este indivíduo ainda preserve a própria singularidade. O grupo[1], neste caso, poderia ser uma estufa para os psíquicos recém-chegados, e assim permitiria a cada um crescer, e nele se proteger, se alimentar, evoluindo na jornada.
Porém, temos sempre que recordar que é nos grupos em que os “eus” germinam e se tornam (ou não se tornam) humanos. É nos grupos que, também, estes “eus” testemunham a força para a fusão de todas as individualidades, se tornando uma massa violenta e amorfa.
Isto é, no grupo é possível testemunhar a força devoradora das identidades do próprio agrupamento humano e de como esta ‘devoração’ se soma ao poder de eliminação e de desaparecimento quase completo desses “eus” no interior desses adensamentos humanos que são as civilizações, e que as atuais nebulosas urbanas materializam de forma radical, onde ninguém sabe nada de ninguém, tal é o excesso de tudo que acontece nesse todo.

Se, por outro lado, é no grupo – esse emaranhado de “eus”[2], – em que são chocados os ovos fertilizados da mente humana, é também aí onde eles, por vezes, são ingeridos, servindo apenas para serem eliminados.

Hipóteses a partir da cogitação acima:
O grupo e a esquizofrenia. O bando interno está a solta e o sujeito assustado não sabe o que faz, além de agir sem pensar, ou se congelar, para tentar não ser humano. Retrai-se a tal ponto que só gasta energia para manter-se vivo. O sujeito esquizofrênico aparece ao mundo em pequenos surtos de sanidade em meio ao extenso caminhar na obscuridade. O autoerotismo é uma fragmentação psicótica, tendo o corpo e as zonas erógenas como a base desse despedaçamento.

O grupo e a paranoia. Dois mundos: interno e externo. O externo está repleto de perseguidores, os objetos internos maus foram vomitados, o bando foi vomitado, e o eu, entrincheirado em seu narcisismo destrutivo, vive agarrado aos “objetos idealizados”, fixa-se atrás de fortes paredes – alucinóides e deliróides – que impedem o acesso do estrangeiro ao interior da cidadela do sujeito, ao mesmo tempo que barram o que lá no interior reside. O mundo interno se transforma em urna funerária e mesmo vivo o sujeito permanece soterrado e impedido de perceber o outro.


[1] – “Grupo ao que pertencemos”? O que é isto? Seria um espaço-prisão, um campo de confinamento e de tortura, um lugar, um território repleto de armadilhas? Ou seria um código ao qual se deve submissão? Uma hierarquia, um exercício do hétero sem mediação. O que seria o grupo, um super-superego desumanizado repleto de partículas que se despedaçaram?

[2]Gaburri, Eugenio  ‘Dal gemello immaginario al compagno segreto’. Rivista di psicoanalisi, 32(4):509-20, 1986

Sobre Emir Tomazelli:
Psicólogo, Psicanalista e Professor do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
Doutor pela USP

Livros publicados:
Corpo e conhecimento – uma visão psicanalítica – Casa do Psicólogo, 1995
Psicanálise: uma leitura trágica do conhecimento – Rosari, 2003


 COMENTÁRIOS (retirados do blog antigo)

 

    • Interessantes e boas palavras Emir.
      O grupo é um sonho, sonhamos quando estamos em grupo, sonhamos coletivamente o grupo. E às vezes os sonhos são pesadelos. Mas nem sempre, nem todo o tempo, nem nas mais terríveis psicoses. Não temo tanto isto, se buscarmos e pudermos acordar individualmente de vez em quando e fazer trocas com outros humanos que estão no mesmo agrupamento nosso, por um tempo, certo tempo, às vezes a vida toda. E respeitarmos estas trocas.
      Às vezes os sonhos de grupo são idealizados, ufanistas e parasidíacos e esses sim é que são perigosos: vide Inquisição, Alemanha nazista, ditaduras de extermínio, guerras em defesa da democracia… E nâo são pesadelos para quem está nesses grupos. Só para quem está fora do grupo. Para quem está dentro demora para que se transforme em pesadelo ou nunca se transforma.
      Às vezes o que temo é quando a psicanálise e seus grupos escorregam por aí.

Maria Luiza Scrosoppi Persicano said this on 2012/03/12 at 05:31 | Resposta


    • Maria Luiza,
      adorei teu comentário. A ideia de o grupo como um sonho/pesadelo é muito boa e tuas observações também.
      Emir

Emir said this on 2012/03/13 at 11:03 | Resposta

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