Identificação e narcisismo: a classe média nas manifestações contra o aumento da tarifa de transporte público em SP – por Olívia Lucchini

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Em junho de 2013 eclodiram diversas manifestações na cidade de São Paulo que acabaram por atingir um nível nacional. A demanda principal, inicialmente, foi a redução da passagem do transporte público, enfim alcançada em 47 municípios (até 21/06/2013). Após essa conquista, as manifestações cresceram em número, em segmentos da população, em reivindicações e em novos líderes.(1*)
Podemos observar dois momentos distintos nestas manifestações: num primeiro, baixíssima adesão da classe média e repúdio aos manifestantes, retratados por ela – e pela mídia a ela destinada – de vândalos, esquerdistas, sem uma boa causa. A luta era por “apenas” 20 centavos e ridicularizava-se a possibilidade de uma tarifa zero para o transporte público, já que esta implicaria em uma escolha política de transferência de riqueza e socialização dos custos desse transporte.

Num segundo momento, aqueles que antes repudiavam o movimento e suas manifestações, a eles aderiram: a classe média vai às ruas, se junta a esses outros antes rechaçados e engrossa o coro, paulatinamente transformando também o caráter das reivindicações. Nomeou-se a massa em movimento, de forma bastante vaga e genérica, de povo brasileiro e o objetivo político se esfumaçou, perdendo sua clareza e assumindo a máxima dos “contra a corrupção”.

Minha proposta nesse artigo é analisar as manifestações que tomaram conta do Brasil à luz da teoria psicanalítica, ou melhor, a partir dos conceitos de narcisismo e identificação. Meu recorte se dará na adesão da classe média, em São Paulo(2*), a um movimento e a reivindicações, inicialmente, de lutas populares. Neste sentido, pergunto: até que ponto podemos entender essa adesão massiva da classe média como a formação de um grupo em que houve renúncia narcísica em prol de um outro, aqui entendido como a classe popular?

De forma nenhuma entendo o ponto de vista que se apresentará esgota o tema ou mesmo é suficiente para elucidá-lo. Ressalto ainda que estamos, ainda agora, vivenciando transformações no caráter das manifestações; por isso, talvez o que seja escrito aqui hoje não represente mais a situação amanhã, mas nem por isso se torna inválida a tentativa de analisar a movimentação que se deu em junho do ano passado.

Mesmo com tais ressalvas, entendo que a psicanálise possa – e deva – contribuir nessa interlocução, ultrapassando os limites do setting e oferecendo reflexões acerca desse fenômeno social. Afinal, se entendermos o sujeito enquanto sujeito social, não há porque pensarmos que a psicanálise, estando cônscia de suas limitações, não possa se prestar a tal propósito. Nas palavras do próprio Freud:
“(…)contudo, raramente e sob certas condições excepcionais, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificado das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social.” (Freud, S; Psicologia de Grupo e Análise do Ego [1921]. In: ESB, Vol. XVIII. Pag. 81)

Para analisar a questão acima proposta, terei como base o texto Psicologia das Massas e Análise do Eu, escrito por Freud em 1921. Nele, o autor tem a preocupação de analisar os efeitos do grupo sobre o indivíduo. Formula a hipótese de que não nos agrupamos em virtude de uma pulsão social, mas sim em virtude da força da libido, através da qual renunciamos ao amor por nós mesmos em troca do amor ao outro.

Como então, a partir dessa concepção, explicar a adesão de sujeitos da classe média – com sua conseqüente renúncia narcísica – a um movimento, inicialmente, com demandas populares?(3*) Para responder a tal pergunta, penso ser necessário introduzir o conceito de identificação, conhecido na psicanálise como “a mais remota expressão de um laço emocional”. (Freud, S; Psicologia de Grupo e Análise do Ego [1921]. In: ESB, Vol. XVIII. Pag. 115)

Freud postula a existência de três tipos distintos de identificação. A primária, diz respeito ao enlace com os primeiros objetos, os parentais. Tendo havido uma escolha de objeto, abre-se espaço para uma identificação secundária, de caráter regressivo, como na melancolia, em que a “sombra do objeto cai sobre o ego” (Freud, S; Luto e Melancolia [1915]. In: ESB, Vol. XIV. Pag. 254). Aqui, a vinculação com o objeto libidinal se dá por meio da introjeção do mesmo no ego. Por fim, existe um terceiro tipo, denominado identificação histérica, no qual não existe necessariamente um vínculo entre o sujeito e o objeto. Ela acontece a partir de um traço inconsciente comum entre ambos: “pode surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum partilhada com alguma outra pessoa que não é objeto de instinto sexual. Quanto mais importante essa qualidade comum é, mais bem-sucedida pode tornar-se essa identificação parcial, podendo representar assim o início de um novo laço.” (Freud, S; Psicologia de Grupo e Análise do Ego [1921]. In: ESB, Vol. XVIII. Pag. 117)
No caso das manifestações em questão, penso que esse conceito de identificação histérica pode nos ajudar a entender a adesão da classe média ao movimento. Essa adesão massiva ocorreu precisamente após uma severa repressão policial contra o 4º ato no dia 13 de junho, em São Paulo. A partir disso, poderíamos perguntar: qual o traço inconsciente mobilizou a identificação histérica dessa classe média com o alvo da violência policial? Casos de brutalidade policial são extremamente recorrentes no estado de São Paulo. No entanto, raras vezes foram suficientes para promover tal identificação.(4*) O que houve de especial, então, neste caso?

Essa é uma pergunta complexa e penso que ainda não temos todos os elementos para respondê-la. No entanto, tenho por hipótese que tanto o lugar onde se deu a violência – centro financeiro e bairros nobres da cidade – quanto a presença de muitos estudantes e jornalistas da classe média dentre os presos e agredidos pela polícia mobilizaram um traço inconsciente que permitiu uma identificação histérica.

A meu ver, esse traço identificatório decorre, em primeiro lugar, do medo inconsciente da possibilidade de se colocar naquela situação de violência tão comum e recorrente das periferias das grandes cidades. Em segundo lugar, decorre do sentimento de culpa, também em parte inconsciente para a maioria, de ter, na semana anterior, conclamado a repressão policial. Isso fica claro na seguinte citação, extraída do jornal O Estado de São Paulo, de 18/junho: “Até 5ª feira passada, a aposentada Maria Silvia Migliori, de 61 anos, classificava como vândalos os estudantes que saiam às ruas para protestar contra o aumento do transporte público. Mas mudou de idéia quando a polícia resolveu atacar. ‘Tremi de raiva quando vi isso e resolvi que a única forma de pedir desculpas aos jovens era participar hoje. Estou cheia de emoção’, disse.”

Cremos que se trata do mesmo mecanismo identificado por Freud no caso das meninas do internato:
“Suponha-se, por exemplo, que uma das moças de um internato receba de alguém de quem está secretamente enamorada uma carta que lhe desperta ciúmes e que ela reaja por uma crise de histeria. Então, algumas de suas amigas, que são conhecedoras do assunto, pegarão a crise, por assim dizer, através de uma infecção mental. O mecanismo é o da identificação baseada na possibilidade ou desejo de colocar-se na mesma situação. As outras moças também gostariam de ter um caso amoroso secreto e, sob influência do sentimento de culpa, aceitam também o sofrimento envolvido nele. Seria errado supor que assumissem o sintoma por simpatia. Pelo contrário, a simpatia só surge da identificação e isso é provado pelo fato de que uma infecção ou imitação desse tipo acontece em circunstâncias em que é de presumir uma simpatia preexistente ainda menor do que a que costumeiramente existe entre amigas.” (Freud, S; Psicologia de Grupo e Análise do Ego [1921]. In: ESB, Vol. XVIII. Pag. 117. Grifos meus)

A infecção mental da classe média, portanto, não é necessariamente um laço de simpatia pelo outro, antes tomado como adversário; não estão relacionando-se libidinalmente com o objeto receptor da agressão. No entanto, ao se sentiram ameaçados, pontualmente, pela violência cotidiana do Estado Brasileiro que veio bater às suas portas, descem às ruas, mobilizados por tais traços inconscientes.
Essa hipótese nos leva a entender tal adesão como algo que pode assumir um caráter efêmero. Aderir de outra maneira a esse grupo, numa identificação que não histérica, exigiria renúncias do ponto de vista narcísico. Esses setores da classe média estariam dispostos a, por exemplo, apoiar uma proposta de IPTU progressivo de acordo com a qual imóveis mais valorizados arcariam com parte do custo do transporte de moradores da periferia? Ou mesmo apoiar a desmilitarização da PM e a alteração da política de segurança pública pautada em bater, prender e matar?
Aqui se coloca o eixo central da questão que formulei anteriormente: os interesses narcisistas podem ser opor aos sociais. “A libido atua à maneira de uma cola que mantém a coesão e compele à harmonia, embora esteja sempre ameaçada e em perigo pelos interesses narcisistas e pelas tendências tanáticas”. (Miguelez, Oscar M; Narcisismos. São Paulo: Escuta, 2007. Pg. 125)

As pessoas coloriram o rosto, vestiram-se com bandeiras brasileiras, gritaram que o povo unido jamais será vencido. Pois bem, até que ponto esse nacionalismo constitui força libidinal suficiente para manter coeso um grupo com sujeitos cujas demandas narcísicas teriam que ser abnegadas, ao menos parcialmente? Levando o questionamento às últimas conseqüências: disso tudo, criou-se algo que ultrapasse os limites da identificação histérica e solidifique-se enquanto um laço social menos efêmero?

Talvez a classe média esteja em movimento como no símile schopenhauriano do grupo dos porcos-espinhos, que Freud retoma em seu texto: indo para frente e para trás buscando achar uma distância em que possa mais toleravelmente coexistir com o outro, sem morrer congelado, mas também sem se deixar furar por seus espinhos. Só não sabemos ainda até onde irão – realmente – tolerar o espinho do outro.

1* As primeiras duas manifestações em São Paulo acontecerem entre os dias 6 e 7 de junho de 2013, e segundo Movimento Passe Livre, contaram com 5 a 6 mil pessoas. Na semana seguinte, ocorreram mais duas manifestações na capital paulista (11 e 13/junho), com 10 e 12 mil pessoas segundo noticiado pela imprensa. O dia 13 foi marcado pelo ápice da violência policial, com mais de 200 presos e 105 feridos, incluindo 15 repórteres. A terceira semana de manifestações iniciou-se no dia 17 de junho com 230 mil pessoas em 20 cidades e atingiu seu ápice no dia 20 com mais de 1 milhão de pessoas em 75 cidades brasileiras.

2* As manifestações ao redor do Brasil são bastante heterogêneas. Não podemos generalizar as hipóteses levantadas nesse texto a respeito da cidade de São Paulo para as demais cidades do país.

3* A nossa história já mostrou que não se trata de uma renúncia óbvia, fácil. Quem não se lembra do movimento dos moradores de Higienópolis contra a construção de uma estação de metrô no bairro, já que traria consigo a então chamada “gente diferenciada?”.

4* Para citar apenas alguns exemplos mais recentes, temos o caso do Pinheirinho, no qual 6.000 famílias foram violentamente expulsas pela PM das casas onde moravam há 8 anos, tendo seus pertences destruídos (22/janeiro/2012). Ainda em 2012, podemos destacar as diversas execuções, realizadas pela ROTA, de jovens negros na periferia de São Paulo. Ambos os casos foram amplamente divulgados pela mídia.

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