Interpretação dos Sonhos, 120 anos

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Publicado em 02 de dezembro de 2020

Por Taís Viana*

taisviana@terra.com.br

Muito se estudou, e ainda se estuda, a respeito dos sonhos.

A obra A Interpretação dos Sonhos, publicada por Sigmund Freud (1856-1939) em 1899 com a data de 4 de novembro de 1900, está completando 120 anos e, além de se manter atual, é a base para os avanços nas pesquisas sobre os sonhos até hoje.

O tema dos sonhos é muito relevante na literatura psicanalítica. 

Freud deu grande atenção e se dedicou de forma detida ao estudo, pesquisa e escrita de textos sobre os sonhos e sua interpretação, assim como os psicanalistas que vieram depois dele, mantendo o assunto como um dos temas mais importantes e instigantes da psicanálise.

Freud, desde a juventude, já se interessava pelas produções oníricas e sonhava muito, tendo o hábito de anotar seus sonhos. Em julho de 1895 teve um sonho, conhecido na literatura psicanalítica como o Sonho da injeção de Irma, cujo insight lhe revelou como interpretar sonhos. “A ideia de escrever um livro sobre os sonhos data de maio de 1897, pouco antes de Freud iniciar o que ele chama de ‘autoanálise’, realizada por meio da interpretação de seus próprios sonhos.”

A interpretação dos sonhos tem permeado, com frequência, meus estudos, minha prática clínica, minhas supervisões e minha análise pessoal.

Resolvi então levar esse tema para a área da pesquisa, e o escolhi como o texto base para a pesquisa de meu mestrado.

Decidir escrever sobre sonhos e suas análises foi a parte fácil, mas escolher o público da pesquisa se tornou uma questão difícil para mim, pois eu precisava ter um recorte, pessoas que estivessem em um mesmo cenário. E eu não tinha claro exatamente o que buscaria nos sonhos, provavelmente por não saber ainda de quem eram os sonhantes que eu analisaria.

Naquele momento ocorreu uma ameaça de corte de bolsas que desestabilizou os estudantes que a recebiam e dela dependiam para realizar sua graduação. 

Utilizando o texto de Freud sobre a interpretação dos sonhos e O Mal-Estar na Civilização (1930), tive como objetivo identificar o que esses estudantes sonharam no período em que começaram as notificações quanto ao corte de bolsas.

Sustentei, como hipótese, que a situação de ameaça de cortes materializou-se nos sonhos dos estudantes por meio de sonhos de angústia, seja imbricando-se no material para constituição da cena onírica, mantida como realização de desejo, seja para constituir a própria estrutura do sonho de modo semelhante ao observado na neurose traumática.

Essa pesquisa foi realizada com abordagem qualitativa, utilizando o método psicanalítico de investigação. Sendo assim, uma entrevista aberta iniciada com uma questão disparadora foi feita com os 15 estudantes, visando identificar o conteúdo dos sonhos deles.

Na análise dos dados, observei que a ameaça do corte foi vivida como uma situação traumática, e os sonhos como uma tentativa de elaboração de tudo que estava sendo vivenciado pelos entrevistados.

Sentimentos de angústia, desamparo, humilhação, diferentes formas de elaboração e a ausência de sonhos marcam o material onírico visto em minha pesquisa.

A ameaça do corte da bolsa-permanência foi vivenciada de forma traumática, de modo que aquela realidade sentida como extremamente hostil na qual estavam inseridos – sob efeito da situação traumática – fez com que alguns estudantes sentissem uma espécie de esgotamento emocional, uma quebra de esperança, ocorrendo assim o colapso do sonho (termo cunhado pelo colega psicanalista Décio Gurfinkel).

Utilizar a psicanálise e a interpretação dos sonhos recriando o setting em um espaço de pesquisa psicanalítica foi, para mim, desafiador, estimulante e gratificante.

Cento e vinte anos de um texto base para a psicanálise, que atrai muitos de fora da área e encanta a todos.

Em nossas clínicas a interpretação dos sonhos traz momentos ricos no processo de análise de nossos pacientes.

Eu pude, com a experiência de meu mestrado, ver a possibilidade de trabalhar esse texto fazendo uma escuta fora do setting tradicional, realizando uma pesquisa-intervenção e criando um dispositivo de escuta no qual eu  – enquanto pesquisadora, mas sempre psicanalista – pude acolher a angústia de estudantes e ressaltar as produções do inconsciente como disparadores de processos, ainda que lentos, de elaboração psíquica.

*Taís Viana é psicanalista. Atende em consultório particular em Santos (SP) www.taisviana.com.br

Os textos publicados aqui são de inteira responsabilidade de seus autores e, portanto, não refletem obrigatoriamente a posição do Departamento Formação em Psicanálise.

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