O estranho caso da separação da pulsão de morte – Por Fabio M. Chiossi

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O estranho caso da separação da pulsão de morte[1]

 Agosto de 2014

 

“É suficiente dizer, então, que não apenas passei a ver meu corpo natural como a mera aura e o fulgor de alguns dos poderes que constituíam meu espírito, como ainda consegui formular uma droga através da qual esses poderes seriam destronados de sua supremacia, de modo que uma segunda forma e semblante os substituíssem, não menos naturais para mim,

porque seriam a expressão e exibiriam a marca dos

elementos mais baixos da minha alma.”

Dr. Jekyll

O conto O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de autoria do escocês Robert Louis Stevenson, foi publicado em janeiro de 1886.
Ambientada em Londres, a história do médico que desenvolveu uma droga que, após ingerida, o transforma em um tipo de monstro entrou no imaginário da cultura. Baseadas nela foram produzidas, ao longo do tempo, diversas obras distintas, entre peças de teatro, filmes e até desenhos animados. Todos conhecem o básico da história do “médico e do monstro”.
No texto de Stevenson, um narrador nos conta como um advogado e seu assistente entram em contato, paulatinamente, com um tal Mr. Hyde. Primeiro ficam sabendo por terceiros de ações maléficas que ele pratica –derrubou uma criança e, mais tarde, assassinou um homem. Depois chegam a vê-lo, a conversar com ele.
É assim que o advogado, Utterson, amigo do Dr. Jekyll, lembra-se do encontro que teve com Hyde: “Mr. Hyde era pálido e nanico, dava a impressão de ter alguma deformidade, sem que entretanto houvesse alguma anomalia que pudesse ser apontada, tinha um sorriso desagradável, apresentara-se ao advogado com uma espécie de mistura devastadora de acanhamento e audácia, e falava com uma voz rouca, sussurrante, algo irregular; todos esses pontos depunham contra ele, mas nem tudo isso reunido seria capaz de explicar a repugnância jamais experimentada, a aversão e o medo com que Mr. Utterson o encarou (…) ‘Porque, ah meu pobre, velho Harry Jekyll, se alguma vez li a assinatura de Satanás num rosto, foi no desse seu novo amigo!’”[2].
Utterson só vai descobrir no fim da história que seu amigo Henry Jekyll é também Edward Hyde –ou melhor, era, pois a descoberta só se dará quando Hyde/Jekyll já estiver morto. Jekyll conseguia se “transformar” em Hyde ao ingerir uma droga que ele mesmo desenvolvera.
É importante enfatizar, como faz o escritor Vladimir Nabokov em um ensaio sobre esse conto[3], que Hyde não se transforma em Jekyll, mas este está, de certo modo, contido naquele. É como se Hyde fosse o mal que está presente em Jekyll. A poção apenas “projetaria” –como diz Nabokov– essa maldade concentrada para fora do médico. Essa interpretação se sustenta, diz o autor de Lolita, porque a história nos faz ver que há sempre em Jekyll um pouco de Hyde, e vice-versa. A porção Jekyll que está em Hyde é a que faz o doutor querer consumir a droga que o “transforma”; e a porção Hyde que está em Jekyll é a que faz esse “monstro” ter, ainda, aversão aos estragos que produz.
Um começo interessante para estabelecer uma analogia entre as pulsões de vida e de morte e os personagens Jekyll e Hyde -que é o objetivo deste trabalho-, é essa imbricação entre o médico e o “monstro”. É como no caso das pulsões, que estão sempre cindidas no indivíduo. Jekyll já era Jekyll e Hyde antes de inventar sua poção. Hyde sempre esteve lá.
No entanto é importante, antes de prosseguir, tentar resumir a origem e o significado do conceito de pulsão no pensamento de Freud.

As pulsões
A teoria pulsional surge no momento em que Freud precisa dar conta da constatação de que o princípio de prazer não pode mais, em virtude do apreendido em suas observações clínicas e suas reflexões teóricas, sustentar-se no corpo da metapsicologia como um princípio do funcionamento psíquico. Ele deve ser uma tendência do funcionamento do aparelho, mas não um princípio.
Isso porque o que Freud constata é que boa parte de nossas ações não visa direta e exclusivamente ao prazer. Essa constatação é exemplificada por ele no que chamou de “Fort-Da”, termo que surge em Além do princípio do prazer, texto de 1920. O “Fort-Da” era o movimento de ir e vir que um de seus netos, ainda bebê, imprimia a um carretel amarrado a uma linha. O avô notou que, se a vontade da criança fosse governada apenas pelo prazer de manter consigo o carrossel, ela não repetiria o movimento de empurrá-lo para longe e escondê-lo, e depois trazê-lo de volta. Ela simplesmente o manteria consigo. Esse movimento, em que prazer e desprazer -perda e recuperação, no caso- se alternam, refuta a busca pelo prazer como princípio.
De qualquer modo, ainda constitui pilar do pensamento freudiano o funcionamento do aparelho psíquico com base na movimentação de energia psíquica.
E essa repetição de uma experiência desprazerosa, como a do neto de Freud ao esconder o carretel, está “a serviço” da tentativa de uma descarga de energia psíquica que não consegue se efetuar. É o mesmo caso dos sonhos traumáticos, que, embora também desprazerosos, retornam constantemente. O que o psiquismo está tentando fazer, diz Freud, é ligar a alguma representação uma quantidade de energia que não encontra ligação. E esse é um processo anterior ao princípio de prazer. Uma vez ligada essa energia, o princípio de prazer entra em ação e a energia pode ser descarregada.
“As principais fontes dessas quantidades internas de excitação [ou de energia]”, diz Oswaldo Giacoia Jr., “são as pulsões orgânicas, que são os representantes psíquicos de forças geradas no interior do corpo e transmitidas ao aparelho mental.”[4] As pulsões têm, portanto, origem e atuação orgânica.
Se as pulsões buscam uma ligação representacional no aparelho psíquico, a meta do aparelho continua sendo a descarga de energia, que é o movimento que rege o princípio de prazer -ou a tendência ao prazer.
Assim, independentemente de a busca pelo prazer ser imediata ou não, vige um princípio de descarga de energia. Mas uma descarga total de energia, se alcançada, significaria o fim da vida, posto que é preciso pelo menos alguma movimentação de energia psíquica para que haja vida. É preciso, para ficar num exemplo básico, que sintamos o desprazer da fome para que busquemos comida e nos mantenhamos vivos.
Essa é uma ponta do processo. A outra é a ligação. É preciso, a fim de que a vida permaneça, que a energia se ligue a alguma representação para que, aí sob o domínio do princípio de prazer, seja escoada. Voltando ao exemplo dado logo acima, é preciso que a fome me faça ir em busca de comida, para que eu efetivamente me alimente -aconteceu aqui a modificação do princípio de prazer em princípio de realidade: ao sentir fome, em vez de ficar sonhando com uma pizza de calabresa, eu peguei dinheiro e comprei uma, para comer.
Assim sendo, Freud chamará a pulsão que se liga às representações de pulsão de vida. Ela é composta pelas pulsões eróticas e pelas de autoconservação -como a do exemplo da fome.
Já a pulsão de morte é a que não se liga a representações; ela é composta por descargas diretas de energia. Logo é um caminho mais “curto” para o fim da vida.
Ora, se tanto a pulsão de morte como a de vida são energias que buscam descarga de modos distintos, o fim do processo ainda é a descarga total de energia, ou seja, a morte.
Freud conclui, portanto, que há uma precedência ontológica da morte sobre a vida. Ou seja, a tendência natural do organismo vivo seria um retorno ao inorgânico. Como diz Giacoia Jr., ele buscará inclusive na biologia a legitimação para esse postulado: “É necessário procurar uma indispensável legitimação junto à biologia para afirmar o caráter ontologicamente originário da morte, em relação á vida, uma vez que o pulsional é o signo de uma inscrição da tendência à morte no âmago de todo ser vivente”[5].

De volta a Londres
Isto posto, temos, creio, as referências necessárias para prosseguir na análise do conto de Robert Louis Stevenson.
A dualidade apontada por Nabokov, do bem e do mal contidos em uma mesma alma, é reconhecida pelo próprio Jekyll. Nós o sabemos por meio de uma carta que ele mesmo escreveu e que é lida por seu amigo Utterson quando aquele já estava morto, no último capítulo do conto. Nessa carta, Jekyll conta o que o fez pesquisar e criar a droga, bem como tudo o que essa criação lhe causou, em termos de sensações, pensamentos e ações.
Conta ele que “era a natureza exigente de minhas aspirações, mais do que qualquer degradação em meus defeitos, o que me levava a ser o que eu era, e, cavando uma trincheira ainda mais profunda do que costuma fazer a maioria dos homens, eu separava em mim essas esferas de ação do bem e do mal que dividem e compõem a natureza dual de todo homem”[6].
Segundo Nabokov, Jekyll está contando, nesse momento, como “seus prazeres juvenis, que sempre ocultou, resultaram numa profunda duplicidade existencial”[7].  O que quer dizer que há um gozo ligado à pulsão de morte, e é como se Jekyll houvesse se dado conta disso.
No entanto, a fim de estabelecermos uma conexão entre o mal e a pulsão de morte, que é algo que nos interessa aqui, é necessário, antes de tudo, reconhecer que a tentativa de definir e compreender tanto o conceito de bem como o de mal, em princípio antagônicos, atravessa toda a história do pensamento ocidental. E o que nos permite associar o pensamento contido em Além do princípio do prazer a uma reflexão, mesmo que implícita, sobre o mal são as manifestações da pulsão de morte na cultura. São elas a agressividade, a compulsão à repetição e a volta ao inanimado.
A agressividade pode produzir destruição. A volta ao inanimado é a morte. A compulsão à repetição é a impossibilidade de evolução. Obviamente uma definição satisfatória do mal a partir desses três conceitos requereria uma reflexão de um fôlego e uma monta que não apenas não tem espaço aqui como não teria, pelo menos por enquanto, como sair de minha pena.
Não obstante, veremos como Mr. Hyde, que é sempre visto como mal, reúne essas três características e, portanto, pode simbolizar a pulsão de morte.
A motivação do Dr. Jekyll para a criação da famosa poção será justamente tentar separar em si essas duas “esferas de ação (…) que dividem e compõem a natureza dual de todo homem”. Ou seja, ele pretende separar as pulsões de vida e de morte.
Segue sua carta: “Aprendi a demorar-me com prazer, como se num precioso devaneio, na ideia da separação desses elementos. Se cada um, pensei, pudesse ao menos ser abrigado em identidades distintas, a vida seria aliviada de tudo o que era insuportável; o injusto poderia seguir seu caminho, liberto das aspirações e do remorso de seu gêmeo mais honrado, enquanto o justo poderia caminhar inabalável e com segurança em sua trajetória ascendente, realizando as coisas boas, das quais extraia grande satisfação, não mais exposto à desgraça e penitência por obra daquele mal extrínseco. Foi a maldição da humanidade que esses dois ramos incompatíveis tivessem sido amarrados juntos dessa maneira -que no agoniado ventre da consciência aqueles gêmeos de características opostas devessem estar em luta permanente. Como, então, poderiam ser dissociados?”[8].
Aqui também nos é indicado que, quando Jekyll “assume”, a consciência moral de Hyde fica esvanecida. Não há mais uma interdição ao gozo no personagem do “monstro”. Ele quer, ele deseja, ele age. Mas isso o torna uma criatura na qual está “a assinatura de Satanás”. Segue a missiva de Henry Jekyll: “[Em Hyde], aquele íntimo que eu convocava em minha própria alma e deixava partir sozinho em busca de seu prazer era um ser maligno e perverso. Cada ação e cada pensamento seu centravam-se nele próprio. Com avidez bestial, era capaz de extrair prazer de qualquer nível de tortura a que submetesse alguém. Era inflexível como se feito de pedra”.[9]
Ao fim do relato, o Dr. Jekyll conta que não consegue mais controlar a emergência de Hyde, e precisa tomar a poção para revertê-la, não mais para provocá-la. Mais do que unido a Jekyll, Hyde está aos poucos se apossando dele.
Nesse trecho, surgem de forma até surpreendente alguns elementos que Freud tratará quando elaborar a ideia da pulsão de morte: “Ele [Jekyll] agora enxergava a total deformidade daquela criatura [Hyde] que com ele compartilhava alguns dos fenômenos da consciência e era junto dele co-herdeiro da morte; e para além desses elos de semelhança, que por si sós já constituíam a parte mais pungente de sua aflição, ele pensou em Hyde, apesar de toda a energia vital que possuía, como algo não apenas infernal mas inorgânico. Isto era o mais chocante: que o lodo no fundo do poço parecesse emitir gritos e vozes, que a poeira amorfa gesticulasse e pecasse, que o que estava morto e não tinha forma pudesse usurpar as funções da vida. E, além disso, que esse horror insurgente estivesse mais ligado a ele do que uma esposa, mais próximo que um olho, aprisionado em sua carne, onde ele o ouvia murmurar e o sentia lutar para nascer, e a cada hora de fraqueza e na vulnerabilidade do sono prevalecesse contra ele e o destruísse da vida. O ódio de Hyde por Jekyll era de um tipo diferente. Seu temor da forca impelia-o continuamente a cometer um suicídio temporário e a voltar a sua condição subalterna de ser uma parte e não uma pessoa; mas ele abominava essa necessidade, abominava essa melancolia na qual Jekyll se encontrava naquele momento e se ressentia da repugnância da qual ele próprio era objeto. Daí as peças que pregava em mim [Jekyll], rabiscando blasfêmias com a minha letra nas páginas de meus livros, queimando cartas e destruindo o retrato de meu pai”[10].
Está explícito nessa passagem que Mr. Hyde é o inorgânico. “Não apenas infernal, mas inorgânico.” Jekyll se dá conta dessa força que quer arrastá-lo com ele. Tanto que seu destino final é a morte. Transformado definitivamente em Hyde, sem haver conseguido encontrar um elemento fundamental da composição eficaz de sua droga, ele se suicida.
A agressividade de Mr. Hyde é patente ao longo do conto. E ela surge, mais uma vez, no trecho acima, na destruição do retrato do pai, na queima das cartas.
Quanto à compulsão à repetição, creio que ela esteja expressa nas constantes ações agressivas de Hyde, bem como no movimento de Jekyll de sempre retornar à forma de Hyde. No início, voluntariamente, quando ele ainda acredita poder controlar o ir e vir do processo. Mais tarde, involuntariamente, quando Hyde o surpreende cada vez com maior freqüência. É como se a pulsão de morte insistisse em voltar e trouxesse com ela a agressividade, a destruição -ou seja, Edward Hyde.
Eis, então, o que traz consigo a criatura que carrega a “assinatura de Satanás”: a agressividade, a morte e a repetição incessante.
Ao tentar se separar de sua porção Hyde, o Dr. Jekyll procurava duas coisas, ao que parece. Uma delas era dar vazão aos “prazeres juvenis, que ocultou”, sem culpa. Segundo Nabokov, nunca fica claro, na história, que prazeres são esses. Mas, muito possivelmente, algo condenado pela moral vitoriana. Assim, talvez Jekyll imaginasse que sua poção o transformasse em um Hyde que pudesse gozar sem os “empecilhos” da castração. O resultado, porém, foi o surgimento de uma criatura desligada da cultura -desligamento da cultura que, a propósito, pode contar também como uma definição de mal, feitas as mesmas ressalvas já feitas às definições anteriores. Uma criatura destrutiva. Uma criatura que representa e é movida pela pulsão de morte.
O outro objetivo do médico seria, talvez, criar um Dr. Jekyll que não precisasse do prazer que é vetado pela cultura. Um Dr. Jekyll plena e perfeitamente castrado, circulando apenas no gozo que é permitido pela cultura. O homem absolutamente bom[11].
O resultado, inevitavelmente, é a morte.

BIBLIOGRAFIA

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil [‘O homem dos lobos’], além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, v.14. (Obras completas)

GIACOIA, Oswaldo. Além do princípio do prazer. Um dualismo incontornável. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

NABOKOV, Vladimir. O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde por Vladimir Nabokov. In STEVENSON, Robert Louis. O clube do suicídio e outras histórias. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

STEVENSON, Robert Louis. O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. In STEVENSON, Robert Louis. O clube do suicídio e outras histórias. São Paulo: Cosac Naify, 2011.


[1] Este texto foi apresentado como trabalho final do seminário teórico As Pulsões, no segundo semestre de 2013.
[2] STEVENSON, R L. O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. In STEVENSON, R L. O clube do suicídio e outras histórias. São Paulo: Cosac Naify, 2011, P. 169-170.
[3] NABOKOV, V. O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde por Vladimir Nabokov. In STEVENSON, R L. O clube do suicídio e outras histórias. São Paulo: Cosac Naify.
[4] GIACOIA, O. Alem do princípio do prazer. Um dualismo incontornável. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 53.
[5] Ibid, p. 65.
[6] NABOKOV, V. O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde por Vladimir Nabokov. In STEVENSON, R L. O clube do suicídio e outras histórias. São Paulo: Cosac Naify, p. 425.
[7] Ibid, p. 425.
[8] Ibid, p. 426.
[9] Ibid, p. 427.
[10] Ibid, p. 431-432.
[11] Vale lembrar que se aplicam a essa definição de bom todos os poréns aqui levantados quanto às definições de mal.

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