Da Pandemia – Passarei Desta Para Uma Melhor

Por Eduardo Lara*  
eduardo.rlara@gmail.com

Isto aqui não é uma carta de despedida para o mundo, de mais um indivíduo cansado dentre tantos que já começaram a vazar por aí. Talvez seja uma carta para não me despedir. Mas passar desta para uma melhor parece urgente. Motivos não faltam.

Eu quero, e logo. Tenho que escolher entre o futuro e a morte. Luto é a palavra da pandemia, por tudo o que morreu: pessoas queridas, conhecidos ou não, uma ideia de país, o cafezinho na padaria da esquina, o espaço do trabalho, vários sonhos e planos, um Eu meu, já tão longínquo – que morreu por acidente trágico. Esperança – seria o nome. Luto pela palavra.

Hoje, no final de abril de 2020, nós brasileiros já temos evidências suficientes de que o fascismo chegou aqui e não recuará: somos obrigados a assistir à jogatina política de nosso presidente em meio à pandemia, carreatas de brancos pedindo a volta dos pretos e pardos ao trabalho, o apoio ao seu governo se ajustando aos seus absurdos. E quando o absurdo me invade por todos os poros, chega a dar inveja de quem já morreu: não de covid-19, agonizando, mas no ano passado, ou em março de 2020. O Brasil e mais Turcomenistão, Bielorússia e Nicarágua – 3 ditaduras –   somos os únicos que não seguimos as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, e não porque aqui descobrimos evidências de pesquisas, fruto de nosso investimento pesado em pesquisa: mas porque ela é comunista, assim como eu, porque para mim a Terra é redonda. No nosso país do século 21, virou questão de ponto-de-vista o resultado de 2+2, ou o interesse público. 

Se está chovendo e o presidente diz que não em rede nacional, ou se ele classifica uma pandemia de gripezinha, ou se demite o Ministro da Saúde em meio à crise sanitária por inveja de sua imagem, ou o ex-herói nacional que está no Ministério da Justiça, ou se faz ato pró (porões da) ditadura em frente ao exército, se troca o diretor-geral da PF por interesses familiares e etc, imaginamos que ele vai perder apoio. Em tempos normais seria assim. Mas não, não são: dois dias depois chegam discursos e mais discursos via whatsapp, de um exército de “tiozões” até então relegados à mesquinharia que fizeram de suas vidas, cheios de libido porque a economizaram a vida toda. Tais discursos invariavelmente suavizam a bizarrice da fala impossível do presidente, defendendo que se está ou não chovendo é uma questão de opinião democrática. Mas vão além: que como a guerra é cultural, tudo se resume à luta comunismo vs capitalismo, e aos comunistas interessa dizer que chove para efetivar o golpe em acordo entre a Globo, a China e o Maia (presidente da câmara, está no DEM, ex-PFL, ex- ARENA, base da nossa última ditadura). Faz cinco dias que o Moro também virou comunista. E os números da Pandemia indicam que nossa taxa de contágio é a maior do mundo, em pesquisas realizadas por institutos também classificados como comunistas, tal como o Imperial College, da Inglaterra. Os ressentidos estão no poder, e lá chegaram afirmando o seu “não” ao outro: negando a esquerda, qualquer “outro” projeto afirmativo; mas, principalmente, “a política”. E assim governam: pela via da destruição, do “anti”; um funcionário (!) da secretaria de Direitos Humanos, em horário de expediente, sai para a esplanada dos Ministérios a fim de agredir profissionais de saúde que querem chamar a atenção das autoridades para o quão expostos estão no combate à pandemia. Não há o mínimo de decoro. Vestem amarelo, tem uma marreta na mão, e manjam muito mais de saúde, de política, de geografia, de sociologia, de educação, do que qualquer vagabundo da USP ou da Oxford.

Será que nos campos de concentração da II Guerra também circulava a inveja daqueles que morreram em 1939? Mas a inveja faz que sinto sorte e amor, também: um estranho amor por um filho que não tivemos. Me pego emocionado assistindo seu rosto que não existe, justamente porque não existe, em uma espécie de saudade, lamento, alívio e dor que invade uma tarde qualquer. E a compreensão pelo argumento de Machado de Assis que, por Brás Cubas, escreve: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Choro nossa existência. Calado. É preciso passar desta para uma melhor.

O passado do “país” Brasil – seja lá o que isso for – já demonstrou em sua trajetória que a inveja predomina por aqui, e que o atual presente é um legado: um único governo que deu passos tímidos em outra direção do que a marcha autodestrutiva, escravagista e exploratória, que resume-se no nome desta nossa pátria (Brasil, nome de um produto colonial; caso único no planeta!), foi perseguido até ser extirpado, descontextualizado, apagado como se aquilo não devesse ter existido, pois teriam sido esses 13 anos nos quais todos nós enriquecemos (e não os outros 507 anos em que contornamos o “Brasil”) que acabou com o destino do país. E não é verdade? “Não atrapalhem meu destino marcado em meu nome, de ser produto colonial”, é como se gritassem portando agora bandeiras e camisetas amarelas em carreatas, bravando pelo Mito. A minha inveja é daqueles que passaram desta para uma melhor. Eu quero, e logo.

Hoje, daqui a 50 anos, 50 minutos ou em 5 semanas. Passarei desta para uma melhor.

Eu fico triste à tarde. Desta vez porque ouvi que é uma “boa ação” esses milhares de psicanalistas que estamos oferecendo escuta neste momento. Não é. Como não fazê-lo? É uma questão civilizatória, não é heroísmo. Ora, sempre proliferamos a peste trágica em sentido simbólico, que é exatamente isto que chega agora materialmente: esta consciência da morte é índice que deve extrair da vida a sua máxima potência, pender para o lado do desejo, da experimentação. É justamente do pânico que pode surgir um novo marco civilizatório, e não no manejo econômico calcado na avareza libidinal ou nos registros da ilusão de que “na semana que vem ou quando eu me aposentar, eu faço”: isso é a morte em vida, ao menos no Brasil atual. Sim, nós vamos morrer, todos. A peste que prolifera a tragédia, à qual Freud evoca metaforicamente na castração, é o que, contraditoriamente, traz horror, pânico, paralisação e… Uma saída em nome da vida – e ser a força motriz para o abandono do registro das paralisias em conta-gotas, proliferadas pelas ilusões de imortalidade.

Isso soa Hobbes: justamente porque os humanos sabem dos desejos destrutivos é que abdicam dele, e em seguida entregam tal força renunciada a algo acima de cada indivíduo: a lei, o Estado, o contrato social, um trato com o outro, como seu estranho, com o estrangeiro. É um cálculo pela vida, mais exato que humano, mais civil que natural. Não é pelo encontro com o Bem. Devemos ter medo de quem vem em nome do Bem, pois foi em nome dele que a humanidade cometemos as maiores barbaridades; devemos temer os que não querem saber que o dito Mal mora dentro de nós, e negam confrontá-lo, viram-lhe o rosto, como se não lhe dissesse respeito. Todos nós, mesmo os iludidos de que não.

Todas estas ilusões que combinam Platão, Cristo e uma boa dose de sonhos pervertidos em prateleiras do capitalismo, nos permitem viver ignorando a mensagem de que vamos morrer, e de que o aqui e agora é o único e todo o lugar da existência e da luta. Vamos ter que fazer o luto desta ilusão, e mergulhar na luta. O novo marco civilizatório viria do pânico que o nosso presidente quer transformar em “histeria”. É uma guerra de palavras, que ele tão bem fez durante sua campanha e primeiro ano de governo: o empalavramento de uma sensação, esvaziando o corpo de significado e dizendo “eu sei, e só eu sei, o que é isso que sentes”. Desarticula o luto na pandemia, tenta desarticular a luta. Mas agora a palavra“histeria” não cola, pois o corpo de todos grita de horror e transborda. E o presidente transmuta, joga bombas de fumaça, outras palavras-bomba, outras bombas de palavras. Psicanaliticamente aproximamos a tentativa de transformação de pânico em histeria com o fim de contrato-social pela desarticulação caótica. Se em 64 foi o fim do laço pelo corte do fio, hoje nos vemos travados em um novelo acumulado por uma sucessão de nós. 

O modo de vida proliferado por esta tríade, e em nome do Bem (que aliás elegeu nosso presidente), promove a desafetação e a desconexão entre a experiência e sua simbolização: já é possível ver que cai água do céu mas pensar que não está chovendo, sendo isto só uma questão de opinião. É muito mais do que isso. É mais um nó, quem sabe o fatal. A desafetação é a incapacidade, ou melhor, a capacidade de não ser afetado pela experimentação, pelo aqui e agora da água que cai – vulgarmente chamado de presente. Pelo peso da tragédia de que é só aqui e agora que nós vivemos. O humano tem uma relação com o futuro muito particular, muito crente em sua existência: não digo só da existência do futuro, mas a dele humano, e que estará lá como protagonista. Com a desafetação parimos a morte da possibilidade de fazermos escolhas com a consciência de que vamos morrer. Vamos morrer! Assim como a água que cai do céu é chuva! Por mais invertido que possa parecer: mas quando desconectados da tragédia somos incapazes, portanto, de fazermos escolhas à favor da vida. São escolhas que se tornam inimigas da vida. Contraditoriamente, o ser humano caminha mais rapidamente para seu suicídio enquanto se ilude de que é imortal. 

Diante da morte, da evidência da morte: o pânico e a vida. Passar desta para uma melhor.

De onde vem o Pânico? O Deus Pã do mito grego, que depois deu no Fauno “romano”, fazia ouvir sua flauta aqueles que tentavam atravessar a floresta fechada à noite, e se perdiam nas trevas e na solidão: “se perdiam” em sentido forte, de perder-se diante de si mesmo, perder todas as armas, recursos, conhecidas referências, e se achavam à beira da dissolução. Confrontando o pior. É de uma espécie de pânico, de iminência da morte, que nasce o Contrato Social em Hobbes; uma renúncia à favor da vida. 

As escolhas feitas à partir deste registro trágico tem a força motriz de constituir em marco civilizatório. Tem a força de fazer surgir não uma novidade que serve para “mudar para que nada se mude”, mas de trazer o próprio novo. É por isso, quiçá, que Bolsonaro queira desarticular o pânico e o luto; para permanecer em repetição: uma novidade como uma demissão bombástica, uma reforma ministerial, como tantas outras, e quanto mais chocante mais abafa o novo. O neurótico é o mestre do “o que eu tenho que mudar para não mudar nada”, ou, qual ajuste eu tenho que fazer no sistema para que ele, mesmo capenga, pare em pé? Onde está ajuste leia-se enforcamento. A morada da repetição, da pulsão de morte: as escolhas feitas para lá do desejo revolucionário. São em nome do gozo: um pacto de si com si mesmo, apagando o “com” do contrato, o outro, o que pode ser “o novo”.

Se desconexão é o oposto de conexão, e desencanto é o oposto de encantar-se, e desfazer é o oposto de fazer, e descontente se opõe ao contente, pensemos no prefixo “des”, também em desenvolvimento. O que é o desenvolvimento, afinal? Quanto é que a Vale do Rio Doce teve que se des-envolver dos eco-sistemas para fazer o que fez? E um sujeito, na posição de Presidente da República, quanto deve se des-envolver do laço social para dizer “e daí?” para 5 mil mortos? Quando governantes dizem que a usina Angra 3 ou a de Belo Monte são marcos do desenvolvimento, temos que concordar com eles. E temer. E escutar. E “os envolvidos com o rio que se explodam” para os que pregam a ilusão do des-envolvimento, da des-afetação, do protagonismo no futuro, do Bem, do Messias. É um trabalho do não, uma afirmação do não: condição do fascismo; por isso tanto afeto, tanto barulho; o ressentimento é um poderoso não. Um modo de economia da vida e da libido utilizado por ao menos 30% dos ainda vivos do Brasil, que deve ressoar um “sistema macro-econômico” tal como o vidro de sua casa que vibra no mesmo tom do caminhão de mortos que cruzará tua rua. Quantos escutarão? Este modelo de desenvolvimento deve urgentemente dar errado. Que seja agora. E passaremos desta para uma melhor, finalmente, envolvidos pela tragédia transmitida por um vírus – a forma mais rudimentar de vida. E se resistirmos a esta peste que a vida trágica sempre nos anunciou mesmo em uma pandemia, Bem, passaremos desta para uma melhor, no final, inevitavelmente.

* Eduardo Lara é filósofo e psicanalista, Membro do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. 

Junho de 2020. Em meio a pandemia do novo coronavírus (COVID 19) e a inúmeros discursos de ódio que já vinham sendo praticados, percebemos a necessidade de criar um espaço para acolher a voz dos Membros do Departamento sobre temas diversos da atualidade. Nasce, assim, a Coluna Acto Falho, um espaço mais dinâmico e digital de expressão. Nasce não como uma coincidência, mas antes, como um sintoma desse admirável mundo novo online, onde todos passamos a viver, desde Março de 2020.

Sintam-se todos os Membros do Depto convidados a participar!

Os textos publicados aqui são de inteira responsabilidade de seus autores e, portanto, não refletem obrigatoriamente a posição do Departamento Formação em Psicanálise.

 

 

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