Psicanálise EnCena: Otelo, este estranho familiar

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No dia 4 de maio de 2016, as comissões de eventos e de divulgação do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae realizaram o primeiro Psicanálise EnCena.

A inauguração desse eixo de trabalho se deu através de uma parceria do departamento Formação em Psicanálise e a produção e direção da peça Otelo, de William Shakespeare, que estava em cartaz no teatro FAAP.

Realizamos um encontro para tratar tanto das ressonâncias provocadas pela peça pelo viés psicanalítico, quanto também para nos aproximar do processo de adaptação, trabalho com os atores, leitura atualizada, enfoques e recortes da diretora da peça.
Para tal feito, a mesa foi composta pela diretora Débora Dubois e pela nossa docente do curso Formação em Psicanálise Maria Teresa Scandell Rocco.

Débora nos falou que buscou enfatizar em sua adaptação o circuito do “morrer” e do renascer. Do fim, que sempre leva a um recomeço. Desse ciclo infindo que cabe perfeitamente na estória escrita por Shakespeare: a qual atravessa o tempo sem perder sua atualidade, pois trata de questões humanas que permanecem em todos nós. Para isso utilizou um recurso de enquadramento dos atores em uma estrutura de metal no início e no fim da peça que representava caixões, de onde os atores saiam e depois retornavam ao final da encenação.

Nos trouxe suas ideias sobre Machado de Assis em sua obra Dom Casmurro, que também trata do ciúme como tema; referência as triangulações das relações humanas. Traçou um perfil psicológico de cada personagem e apontou as adaptações realizadas para nossa realidade atual. Como exemplo citou o personagem Otelo sendo feito por um negro (originalmente na estória Otelo seria um mouro), marcando a questão racial que vivemos também em nosso país, e que sendo feito por alguém de outra etnia não teria o mesmo impacto social.

Abordou a questão das máscaras; referência a maquiagem das personagens. Através das máscaras que buscam esconder, acabam por revelar a verdadeira essência de cada um. Destaque para máscara inspirada no vilão Coringa de Batman, da personagem Iago antagonista da estória. Exaltou a pureza da personagem Desdemona, a única que não agiu em causa própria, provocando no público que assiste a peça inquietação e questionamentos: é possível existir alguém assim?
Dentro do enfoque psicanalítico, buscando pensar sobre as ressonâncias suscitadas, Maria Teresa Rocco fez um passeio por alguns textos de Freud, como: O Estranho/Unheimlich de 1919; Psicologia das Massas e Análise do Eu de 1921; Alguns Mecanismos Neuróticos no ciúme, na Paranóia e no Homossexualismo de 1922; O Mal-Estar na Civilização de 1930 e  Por Que a Guerra? de 1932.
Nos trouxe uma reflexão sobre o narcisismo das pequenas diferenças, mostrando que o que há de imperfeito e desconfortável em nós é sempre projetado em alguém, geralmente muito próximo da nossa mesma condição, para que assim ilusoriamente alcancemos um lugar onde prevalece uma superioridade às custas de que o que não me agrada não está em mim, mas sim sempre em alguém qualificado como inferior.

Articulou o ciúme, além do tema de Otelo, com Bento, Capitu e Ezequiel da obra Dom Casmurro de Machado de Assis, com Paulo Honório e Madalena do romance São Bernardo de Graciliano Ramos e fez menção ao filme: De olhos Fechados dirigido por Stanley Kubrick, proporcionando uma rica troca de experiências.

Prevaleceu a vontade do “quero mais”, de mais encontros com articulações teatrais, buscaremos promover outros. E que sejam tão agradáveis quanto esse!

Alessandra Ruivo
Comissão de Eventos do Departamento Formação em Psicanálise.

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