Resenha: ‘Por que, Ferenczi?’, de Daniel Kupermann

Por Wilson de Albuquerque Cavalcanti Franco*  

wilsondeacfranco@gmail.com

 

Resenha do livro Por que Ferenczi?, de Daniel Kupermann. São Paulo: Editora Zagodoni. 2019. 176 pgs.

Ainda há quem não conheça Ferenczi. Não me refiro ao homem Sándor, claro – esse, que eu saiba, nenhum brasileiro vivo atualmente chegou a conhecer. Mas há quem não conheça o autor, a figura histórica e a obra de Ferenczi, e isso é efetivamente um fenômeno notável. Notável, e também impressionante que se ouça, diga, escreva e leia tanto sobre Winnicott e Lacan, sobre Bion e sobre Klein, e ainda haja quem não tenha ouvido falar de Ferenczi. Impressionante, e também triste, porque é um sinal de um desprestígio injusto com a estatura de Ferenczi no horizonte do movimento e do pensamento psicanalíticos. Triste, mas também aviltante, já que essa obscuridade se deve em grande medida a um ataque injusto perpetrado por Jones e sancionado pelo establishment ipeísta.

As pessoas que se dedicam a estudar Ferenczi frequentemente se ressentem com esse desprestígio, com o pouco impacto relativo que o autor tem no pensamento psicanalítico brasileiro em face da importância histórica e da contundência inovadora de sua obra (ressentimento que se organiza mais ou menos conforme refleti no parágrafo acima). Esse desprestígio tem, mesmo, um cheiro ruim, cheiro de conspiração, de golpe, de ostracismo; ficamos relembrando a velha história: Jones noticiou de maneira infundada a senilidade de Ferenczi, pôs em xeque sua obra, sua criatividade e suas inovações, o establishment psicanalítico recolheu as marcas da obra e silenciou acerca de sua existência (do homem e da obra, na verdade), com o que Ferenczi foi puxado para debaixo do tapete.

Velhas histórias. Sombrias, tenebrosas histórias. Ao que tudo indica, verdadeiras histórias. 

Mas são histórias. E parece-me que houve, por um tempo, o risco de que o resgate da obra de Ferenczi ficasse marcado – e limitado – pela reiteração dessa história, pela atribuição desse lugar. Parece-me que houve o risco de que o pensamento ferencziano fosse condenado à repetição por força dessa história, da reiteração dessa história, eterna insistência desse trauma. “Sabe quem é Ferenczi?”, e a resposta seria “sei, sim, é aquele que foi injustamente esquecido, que foi genial e deveria ser mais estudado”. Melhor que nada, claro – mas é pouco, e não é muito bom.

Muito oportuna e felizmente, no entanto, Daniel Kupermann contribui significativamente para esquivar o pensamento ferencziano desse destino funesto a partir da publicação de “Por que Ferenczi?”. Nesta obra inspirada e inspiradora, Kupermann apresenta um Ferenczi liberto desta história: uma apresentação ao pensamento ferencziano que é viva, criativa, ousada e contemporânea.

A escolha do autor me parece das mais felizes. “Por que Ferenczi?” poderia ser um “por que devemos conhecer Ferenczi, injustamente proscrito e cuja obra apresentava insights importantes, potentes, pertinentes e ainda não plenamente integrados, insights que podem nos ajudar a compreender a clínica de hoje?”. Esse, no entanto, correria o risco de ser um Ferenczi morto-vivo, apresentado à moda “a volta dos que não foram”. Muito, mas muito melhor que isso, o que temos aqui é um “Por que Ferenczi?” que funciona como um “como Ferenczi pode ser mobilizado para pôr em movimento nossa compreensão da história, da clínica, da teoria da clínica e da psicopatologia psicanalíticas”; escapa-se ao risco reativo e ressentido e se acessa um pensamento vivo e engajado.

Coerentemente com isso, o leitor do livro não deve esperar resumo de obra, panorama biografista, esquemas e resumos – não se trata de um “Ferenczi: manual para preguiçosos”; o que temos aqui, pelo contrário, é uma articulação inovadora, mais exemplar e “mostrativa” do que analítica e esquemática. Kupermann centra seus esforços em três grandes formas de abordar Ferenczi: 1. a aproximação crítica de sua obra com as de Freud, Lacan e Winnicott, 2. o tensionamento biográfico analítico de sua relação com Freud e 3. o desdobramento da potência clínica de suas inovações clínicas e em teoria da clínica, sistematizadas principalmente nas publicações do período 1928-1933. Mas essas formas se entrecruzam ao longo dos seis ensaios que compõem o livro, como fios a compor uma trama, e o arremesso desses três eixos é sempre em direção ao contemporâneo e ao atual – um trabalho sobre Ferenczi escrito para os vivos e pensantes.

O espaço de uma resenha certamente não contemplaria as minúcias das argumentações cruzadas que compõem a obra, de forma que nem me proponho a tentar um “sumário” desse gênero. Talvez baste dizer, como tentativa de aguçar o paladar de quem chegou até este ponto na leitura, que “Por que Ferenczi?” logra uma difícil façanha: apresentar e substanciar a teoria da clínica que deve subjazer às tais “clínica sensível” e “clínica do cuidado”, motes clínicos que parecem urgentes em nossos tempos e que corriam o óbvio risco de se tornar alcunha vazia para práticas ecléticas, ética e teoricamente pouco rigorosas (e, por isso, potencialmente lesivas a despeito de suas boas intenções). Ocupado há tempos com a ética do cuidado em psicanálise e com a presença sensível na clínica psicanalítica, Kupermann articula a partir da obra de Ferenczi (e mobilizando os três “feixes” de temas que elenquei acima) uma teoria robusta para esta forme de compreensão e implementação da clínica psicanalítica. Sistematiza, neste mesmo impulso e com o mesmo propósito, um “tripé” para a formação (continuada) do psicanalista, tripé que seria complementar ao já conhecido tripé teoria-análise pessoal-prática clínica supervisionada – este outro tripé, menos falado e talvez (também) por isso menos cuidado, compõe-se pela hospitalidade, empatia e saúde do analista (elementos que são discutidos e abordados em detalhe na obra, evidentemente). Por fim – mas sempre no propósito de fornecer um lastro teórico robusto à ideia de uma “clínica sensível” – articula a noção de uma via sensível da perlaboração, associada a uma leitura corajosa e consistente do conceito ferencziano de neocatarse.

Como o leitor pode ver, “Por que Ferenczi?” vai muito além de um “porque ele é importante e foi injustamente esquecido”. Além de mostrar a potência do pensamento ferencziano para substanciar a clínica psicanalítica contemporânea (no sentido forte de “contemporâneo”, dizendo respeito não só a uma clínica que acontece hoje, mas acima de tudo a uma clínica que responde às injunções e desafios da sociedade e cultura atuais e a seus modos de cristalização, entristecimento e embrutecimento), Kupermann consolida um horizonte ética e teoricamente compromissado para a “clínica sensível” e para a “clínica do cuidado”: uma clínica sensível e cuidadora que não é piegas ou caridosa, por um lado, e uma clínica rigorosa que não é distante e intelectualista, por outro.

*Docente do curso de Psicologia da Universidade Mogi das Cruzes (campus Villa-Lobos) e do Curso de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.  

 

Esta resenha foi originalmente publicada na revista Trivium vol.12 no.1 Rio de Janeiro jan./un. 2020

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912020000100012&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

 

 

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