Resposta ao Artigo Na Corrida pela Vacinação -Helenice Oliveira Rocha

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Resposta ao artigo Na corrida pela vacinação, psicólogos e terapeutas entram em surtos, de Marcelo Coelho, pela Folha de São Paulo do dia 09/02/2021.

Helenice Oliveira Rocha
Psicóloga e psicanalista.
Autora do livro “O ideal: um estudo psicanalítico”
Membro do Departamento Formação em Psicanálise

Escrevo aqui em meu nome, assumindo a total responsabilidade por este ponto de vista. Isso parece óbvio mas é necessário dizer.

Todos os psicólogos que como eu não estão trabalhando na linha de frente (em hospitais, em UBSs, em serviços vários de atendimento à população, etc) e se vacinaram por estes dias devem ter experimentado um sentimento de desconforto e estranheza.

Como nós, privilegiados por podermos trabalhar on-line, no conforto de nossas casas, estamos sendo vacinados agora, antes dos idosos de 85, 80, 75 anos?
Antes dos professores?
Antes dos coveiros?
Antes dos portadores de comorbidades?
Antes de tantos outros que estão infinitamente menos protegidos que nós?

Some-se a esse questionamento o fato de que se na cidade de São Paulo a vacinação para os “psis” foi direcionada aos profissionais com mais de 60 anos, aqui na minha cidade, em Guarulhos, não houve nenhuma restrição de idade. Todos os psis tiveram acesso à vacina, inclusive os bem jovens, recém formados.

Impossível ser vacinada nesse momento e não experimentar um misto de alegria (pela imunidade que fica mais próxima) e de tristeza por aqueles que certamente precisam muito mais do que eu.

Ser vacinada me custou reflexões muito dolorosas. A começar pela constatação, uma vez mais, de que esse desgoverno é o responsável por esse mal estar. Sim, é o governo o responsável por aquilo que deveria ser um plano decente de vacinação nacional, e ao fazê-lo, ficou muito, muito longe de algo minimamente responsável.

Se ficou a cargo das prefeituras esse plano, de modo que por exemplo em São Paulo usou-se um critério diferente de Guarulhos, isso não fala contra as prefeituras (repletas de erros e irresponsabilidades) mas fala sobre a inépcia do governo federal.

Não me vacinar faria com que “a minha dose” fosse para o coveiro? Ou para o professor? Ou para meu vizinho de 70 anos?

Não vou me alongar nessas questões que dariam lugar a muitas e boas reflexões, sobretudo com aqueles “colegas psi” que sempre se mostraram avessos ou mesmo com nojo de política, mas é imperativo dizer a eles que essa também é uma questão política.

Tudo isso pra dizer que o articulista Marcelo Coelho, ao chamar os psicólogos de “surtados” ao se referir a uma categoria com tanto descaso, de forma sarcástica e irresponsável, age no melhor estilo bolsonarista.

Atribui à nossa categoria a “culpa” por outras pessoas ficarem atrás na fila, ao invés de questionar o governo em sua inoperância, irresponsabilidade e desprezo pelo povo.

Marcelo Coelho, à moda Bolsonaro, responsabiliza as psicólogas e psicólogos por estarem se imunizando e não se refere, em nenhum momento, ao fato de que, se tivéssemos governantes responsáveis ao invés de psicopatas no poder, hoje e nos próximos dias, poderíamos estar vacinando em massa, já que temos o SUS e tudo o que esse grande projeto representa.

Mas não, o articulista prefere referir-se à nossa categoria com desprezo, como fazem aqueles empresários de quinta categoria que ao demonizarem o direito à greve, sinalizam aos trabalhadores que estes deveriam ser eternamente gratos por terem um emprego precário e um salário de fome.

Que esse episódio sirva de alerta a todos os “psis” uma vez mais, de que sem discussão sobre políticas públicas de saúde, naufragaremos todos. Seremos, em breve, inclusive, forçados a sentirmos culpa de termos acesso a algo que é da ordem do direito de todos nós.

De minha parte, pretendo manter o meu mal estar – fruto dessa reflexão que se originou exatamente no questionamento dessa política irresponsável do desgoverno desde o início da pandemia, culminando agora na definição dos grupos prioritários – ao invés de me render à insensibilidade no estilo “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro“.

Me nego, todavia, a engrossar o coro dos culpados, estes, que mesmo sem querer, vem contribuindo com a ideia de que termos o mínimo é suficiente. Estes, que mesmo sem querer – com suas taras masoquistas – vem contribuindo para que os bolsonaros do mundo nos imponham, cada dia mais, a tarefa de morrer por eles, sem darmos um pio. Os que se entregam à “servidão voluntária” e agradecem ao pão mofado de cada dia oferecido por aqueles que neste momento estão vendendo a Petrobrás, votando pela independência do Banco Central, comprando o congresso e faturando com as rachadinhas.

Não, Marcelo Coelho, não seja leviano, coloque uma pauta decente pra ser discutida e talvez o senhor tenha o respeito da nossa categoria.

A profissão de psicólogo e no meu caso de psicanalista, diferentemente do que o senhor menciona no seu texto, vai muito além de ler Piaget e Melanie Klein usando colar de pérolas.

Somos formados para lidar cotidianamente com as dores mais profundas e com o desamparo mais atroz, tentando criar, junto com nossos semelhantes, caminhos mais amenos, criativos e felizes pra essa dureza que é a vida e que graças ao nosso governo, tem se tornado, para alguns, insuportável.

Vacina para todas e todos.
Esta é a luta agora.

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