Sobre Corpos, a Peste e o Sedes

Fabiana Villas Boas
Aluna do curso Formação em Psicanálise

Em meio a efervescência intelectual do século XIX, Freud pôde ouvir as burguesas histéricas de Viena, quando uma sociedade inteira as silenciava. Aquelas mulheres não tinham o direito à palavra e suas dores eram manifestadas no corpo. No mesmo período, como se fosse um mundo à parte, o negro estava sendo tomado como mercadoria. Sua história pessoal e enquanto povo estava sendo apagada. Assim, o filho, a mãe, o engenheiro, a médica, o filósofo – sim, existiram – foram transformados em peça.  E como isso foi possível? 

O mesmo século XIX foi o ápice do Racismo Científico, uma pseudociência que tinha como objetivo a hierarquização das raças para provar a superioridade branca. Ela foi sustentada pela Neurologia, pela Genética, pela Psicologia e pelos ideais Iluministas (BOLSANELLO, 1996). Seria algo assim: “igualdade e fraternidade aos meus irmãos brancos; para os negros, que são inferiores a mim, a privação da liberdade e a colonização, como forma de prover, àquela pobre alma preta, condições de alcançar à superioridade branca”. Depois, a branquitude resolve só matar o negro. Mbembe explica. 

Agora, compartilho algo como aluna do primeiro ano da Formação em Psicanálise deste Departamento. Na aula inaugural deste ano, 2021, fomos brindados com falas belíssimas e com algumas particularmente assustadoras, para mim, que sou negra. Lembro de uma professora dizer que o Sedes tinha ideais iluministas. Quis acreditar que era ingenuidade do Instituto através da fala da professora. Paguei para ver, literalmente, porque o Instituto não possui medidas de ações afirmativas. Sabemos que há medidas assistenciais fora do Instituto, mas não dentro dele. É um trabalho bonito: tenho orgulho em estar numa instituição criada por Madre Cristina. Mas, essas não seriam medidas que fariam a manutenção do pobre e do negro fora do Instituto, em vez de dentro dele? 

Lembro que em 2012 participei como ouvinte do evento “O Racismo e o Negro no Brasil: questões para a Psicanálise”. Foi lá que conheci o Instituto AMMA Psiquê e Negritude, através da Maria Aparecida Miranda, e assisti pela primeira vez palestra da Isildinha Baptista Nogueira. Em 2017, o evento virou livro, sob o mesmo título, organizado por Maria Lúcia da Silva, Cristiane Abud e Noemi Kon. Uma dica: neste mês, agora, Isildinha, umas das referências da Psicanálise e Relações Raciais, lança seu livro, “A Cor do Inconsciente”. Ambos publicados pela editora Perspectiva. Miranda e Anne Egydio, Marisa Correa da Silva propuseram o Grupo de Trabalho “A Cor do Mal Estar” no Departamento de Psicanálise. E, assim, deu-se a cor no Sedes.

Por algum tempo, fiz parte do AMMA e participei brevemente de uma iniciativa junto ao extinto Nuraaj, que buscava racializar a escuta dos analistas que faziam parte do Projeto. Esta parceria foi contemplada com o “Prêmio Jonathas Salathiel de Psicologia e Relações Raciais”, promovido pelo CRP-SP. O livro do evento está no site do CRP-SP. A parceria AMMA-Sedes ainda rendeu o Curso de Expansão Cultural “Psicologia, Cultura e Política: Raça, Classe e Gênero em Questão”, que co-coordenei com Marcio Farias, em 2019. O curso se propôs a fazer um resgate de teorias e práticas em Psicologia e Relações Raciais, tanto do meio acadêmico, quanto do movimento social. 

Volto ao Sedes, em 2021, como aluna, ano em que o Emiliano de Camargo David está coordenando a “Roda de Conversa e Letramento Racial”. Que bom que depois do iluminismo, a coisa começou a escurecer neste Departamento. Espero, como membro da comunidade Sedes, que todas essas ações nos tragam a Peste. Todos nós aqui sabemos que chegada da Peste levantou resistências. Com certeza aqui no Instituto não será diferente. Mas conto que possamos lidar com elas, assim como Freud fez lá trás, escutando aquilo que se apresenta pelo corpo. 

 

Referências

BOLSANELLO, M.A. Darwinismo social, eugenia e racismo “científico”: sua repercussão na sociedade e na educação brasileira. Educ. rev., Curitiba ,  n. 12, p. 153-165,  Dec.  1996.

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