SÍLVIA NOGUEIRA DE CARVALHO [1]
Novembro de 2019 e eu devia ter ido a um congresso no Chile. No meio do caminho havia uma pedra.
Fui parar no Paraná. Lá escutei do Sr. José, jardineiro de 45 anos de ofício, a seguinte história:
Era uma vez uma imbuia. Nasceu, cresceu, deu filhos ao seu redor...
Morreu. Dela ficou o vazio. Esse vazio foi circundado pelo “abraço” dos filhos, a testemunhar sua presença-ausência.
Sr. José é poeta. Pediu-me o celular emprestado, este mesmo onde agora escrevo e, prometendo-me -risonho- não o derrubar, levou-o, mão ligeira, para o interior do espaço configurado pela existência das árvores-filhas. Fotografou pra mim, de dentro, a alma de uma imbuia-mãe.
Abriu-me essa janela ao tempo.
Março de 2020.
[1] Psicóloga, analista institucional, psicanalista. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Interlocutora da equipe editorial deste Boletim, professora no curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma e coordenadora do projeto de atendimento a residentes Sedes-Amerusp. Integrante dos coletivos Escuta Sedes e troça coletiva – psicanálise, arte e política.