SÍLVIA NOGUEIRA DE CARVALHO [1]
Anri Sala é um jovem artista albanês que, desde muito novo, produz entre França e Alemanha. Conforme comentamos em outro escrito
[2], sua obra surpreende pelos paradoxos de tempo e espaço colocados em cena a partir da experiência acústica, tal como se deu em
O momento presente (IMS São Paulo, dezembro de 2017 a março de 2018). Dois anos depois da caprichada exposição paulistana, a perplexidade diante de um desastroso cenário mundialmente marcado pela pandemia CoVID-19 convida a revisitar
1395 dias sem vermelho (
1395 days without red, Bósnia, Herzegovina, Reino Unido, 2011, 44 min.), filme de arte para galeria que acompanha os riscos contemporâneos do viver. Ao som da
Sinfonia patética (Tchaikovsky, 1893), executada pela Filarmônica de Sarajevo, uma musicista atravessa a cidade sitiada entre 5 de abril de 1992 e 29 de fevereiro de 1996, durante a guerra da Bósnia-Herzegovina, a caminho do ensaio:
https://www.youtube.com/watch?time_continue=6&v=TK2-mV-qpx8&feature=emb_logo
Seus trajes discretos, sua insistência, seriam suficientes para atrair uma atenção alheia a critérios francoatiradores. Entretanto, trata-se ademais de um filme sem palavras, que convoca a delicadeza de uma escuta sensível às conversações entre a respiração da protagonista e a música, assim como de um olhar atento à produção coreográfica que antecede a elaboração discursiva, convidando-nos a reviver uma experiência que foi nossa sem nunca ter sido.
(Anri Sala interview: music before language: https://www.youtube.com/watch?v=uilnCeim0ZY ).
É que, lembrando a Aula inaugural de Roland Barthes no Colégio de França (1977), conservamos “sempre a idade dos medos sociais com os quais o acaso da vida nos pôs em contato”. Neste sentido, nosso corpo de agora é contemporâneo daqueles tempos de guerra e de morte, daquele conjunto humano à espreita da travessia de cada dia: https://www.youtube.com/watch?v=aNGXbyF4e_8
Porém, num conflito sem sintoma, deixemo-nos também ser levados pela espécie de esquecimento que Barthes alça à força de toda vida viva, para que possamos ser marcados pelo novo lugar que constituiremos juntos, fazendo trabalhar “o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos”. Pois ele nos lembra, por fim, que essa experiência tem um nome ilustre: “ Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível” [3].
Quem sabe assim possamos, com Ailton Krenak, somar ideias para adiar o fim do mundo. Afinal, “a gente não fez nada nas outras eras senão cair” (Krenak, A. “A humanidade que pensamos ser”. In Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2019, p. 62. Versão disponível em: https://www.buala.org/pt/mukanda/a-humanidade-que-pensamos-ser ).
Março de 2020
[1] Psicóloga, analista institucional, psicanalista. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, interlocutora do jornal digital Boletim Online e professora do curso Clínica Psicanalítica: Conflito e Sintoma. Integrante dos coletivos Escuta Sedes e troça coletiva – psicanálise, arte e política.
[2] “De ouvidos e olhos bem atentos: para localizar O momento presente”. In: Boletim Online do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Edição 45, abril de 2018. Disponível em: http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/index.php?apg=b_visor&pub=45&ordem=18&origem=ppag