{"id":1482,"date":"2022-04-11T23:53:51","date_gmt":"2022-04-12T02:53:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1482"},"modified":"2022-04-14T23:13:17","modified_gmt":"2022-04-15T02:13:17","slug":"breve-comentario-sobre-literatura-erotismo-e-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/04\/11\/breve-comentario-sobre-literatura-erotismo-e-feminismo\/","title":{"rendered":"Breve coment\u00e1rio sobre literatura, erotismo e feminismo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Breve coment\u00e1rio sobre literatura, erotismo e feminismo<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Maria Carolina Accioly<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEla me perguntou o quanto eu a amava. Reuni em vidro todos os humores vertidos: sangue, s\u00eamen, l\u00e1grimas. Amo voc\u00ea tantos rios.\u201d Assim come\u00e7a o romance <em>Tudo \u00e9 rio,<\/em> de Carla Madeira, que me foi indicado por uma amiga ano passado. Logo soube de outras mulheres que tamb\u00e9m o estavam lendo, e alguns meses depois soube que foi um grande sucesso de vendas, com 40.000 exemplares vendidos.<\/p>\n<p>Quando eu estava no meio do livro, a amiga que me indicou me disse que escutou cr\u00edticas ferozes ao livro e ela se deu conta de que essas cr\u00edticas tinham for\u00e7a e talvez consist\u00eancia, inclusive com muitos pensamentos feministas que compartilhamos. Eu j\u00e1 estava envolvida na leitura, no enredo e na forma de escrita, e n\u00e3o saber quais as cr\u00edticas me deu mais vontade de prosseguir, pois eu mesma, leitora, podia desconfiar quais eram: lendo, senti ambival\u00eancias.<\/p>\n<p>Antes de falar das cr\u00edticas e de seus poss\u00edveis efeitos, saliento que, enquanto eu lia, notei que a maioria das leitoras desse livro ao meu redor eram mulheres e estas, enquanto liam, eram tocadas pela dimens\u00e3o er\u00f3tica do livro.<\/p>\n<p>Escolhi algumas frases do livro que grifei aleatoriamente por me soarem bonitas. Apresento as belezas antes das cr\u00edticas pois sentir ambival\u00eancias atrav\u00e9s da poesia e literatura (e artes em geral) faz parte dessa experi\u00eancia est\u00e9tica, sensorial e tamb\u00e9m \u00e9tica de sermos afetados.<\/p>\n<p>\u201camor demais \u00e9 um despreparo para a dor\u201d<\/p>\n<p>\u201cperder amores \u00e9 escurecer por dentro, uma mem\u00f3ria do corpo que o entardecer evoca quando tinge o c\u00e9u de vermelho. Para quem est\u00e1 sozinho depois de ter amado, o fim do dia \u00e9 muito triste\u201d<\/p>\n<p>\u201co amor, quando nasce forte, tem pressa de ser eterno. Nem se d\u00e1 conta de que \u00e9 carne \u00famida (&#8230;) aquele desejo despreparado de limites, (&#8230;) s\u00f3 queriam saber das vertigens\u201d<\/p>\n<p>\u201cEssas coisas n\u00e3o se separam. O lugar que d\u00f3i \u00e9 o mesmo que sente arrepios. \u00c9 no corpo, no amor e na liberdade de escolher as coisas que a gente fica inteiro ou despeda\u00e7ado\u201d<\/p>\n<p>\u201cn\u00e3o sabia se livrar daquele sentir, e do sentir para o consentir \u00e9 s\u00f3 um tombinho de nada, basta um descuido para quem est\u00e1 andando trope\u00e7ar\u201d<\/p>\n<p>\u201ca bondade n\u00e3o afasta o desejo da gente\u201d<\/p>\n<p>Ao dizer que a ambival\u00eancia \u00e9 uma experi\u00eancia est\u00e9tica, sensorial e \u00e9tica, n\u00e3o busco aqui &#8211; nesse escrito &#8211; aprofundar as importantes e instigantes an\u00e1lises filos\u00f3ficas sobre estes temas (est\u00e9tica e \u00e9tica). Mas sim pensar como a ambival\u00eancia, caracter\u00edstica dos registros pulsionais mais prim\u00e1rios para a psican\u00e1lise, pode ser experimentada como incoer\u00eancia radical que parece precisar ser suprimida em rela\u00e7\u00e3o aos discursos emancipat\u00f3rios contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>O romance (para quem n\u00e3o leu o livro, esse texto pode ser <em>estraga-prazeres <\/em>&#8211; <em>spoiler) <\/em>come\u00e7a com a hist\u00f3ria de uma prostituta, que usufrui de um impens\u00e1vel prazer em ser puta. O prazer em ser puta seria moralmente impens\u00e1vel<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> (ainda que invejado e fantasiado) pois remete obviamente \u00e0 real situa\u00e7\u00e3o que tantas meninas e mulheres vivem de viol\u00eancia e submetimento (ainda mais em nosso pa\u00eds, com n\u00fameros epid\u00eamicos de viol\u00eancia contra mulheres e crian\u00e7as, e com um sistema criminoso de prostitui\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico de meninas), mas tamb\u00e9m abarca um discurso moralista em rela\u00e7\u00e3o ao desejo e prazer sexual da mulher, discurso que sup\u00f5e que toda mulher que est\u00e1 vivendo a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma v\u00edtima necessariamente, ou pior, essencialmente.<\/p>\n<p>O livro costura a sensualidade e o erotismo em terreno conhecido, patriarcal. E dessa forma traz erotismo e gra\u00e7a tanto para cenas e detalhes tecendo em palavras imagens sensoriais e po\u00e9ticas, mas tamb\u00e9m para aspectos do machismo estrutural, que, sem d\u00favida, n\u00e3o tem gra\u00e7a nenhuma.<\/p>\n<p>Percebi logo por onde o mal-estar flu\u00eda nesse rio. Como ousar colorir o que insiste em aparecer nesses desejos ambivalentes e mort\u00edferos que precisam ser denunciados e desnaturalizados? A insensatez e a desraz\u00e3o perdem a cor quando justificam a misoginia assassina que trata o corpo da mulher como posse, invadido pelo desejo supostamente viril e violento do homem.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o seria a\u00ed, exatamente nas fissuras por onde algo escapa, e assim n\u00e3o deixa virar pensamento cristalizado e fechado, a\u00ed onde o conflito e a tens\u00e3o se desnudam, que a arte, e de outra maneira, a psican\u00e1lise, se atentam?<\/p>\n<p>Achei instigante e revelador o efeito quase de vergonha que gostar de um texto poderia causar. Como se, ao nos deparar com as ra\u00edzes patriarcais de nosso erotismo, tiv\u00e9ssemos que suprimi-lo\u00a0 das palavras (e fantasias) que se conectam de alguma forma a essas viol\u00eancias.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dessa prostituta se desenrola em uma narrativa de uma menina desamparada, \u00f3rf\u00e3, cujo tio, o adulto que mais afetivamente se conectou a ela, a desejava sexualmente (e que ela, menina adolescente, <em>irresist\u00edvel, seduziu!<\/em>); narrativa que escandaliza a naturaliza\u00e7\u00e3o da sexualiza\u00e7\u00e3o precoce que as meninas vivem em nossa sociedade e cultura (do estupro).<\/p>\n<p>Essa mulher, que <em>escolheu<\/em> ser prostituta, mito da mulher irresist\u00edvel (que se articula com o mito de um impulso libidinal masculino-viril incontrol\u00e1vel&#8230;), se depara com um \u00fanico homem que a rejeita, e isso incendeia seu desejo de conquista.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o essa mulher insaci\u00e1vel, que encobre seu desamparo numa postura poderosa, adentra na hist\u00f3ria do amor desse homem. Homem tamb\u00e9m sofrido, desamparado de certa forma, com um pai brutal e distante, apaixonado por uma mulher que, diferente da prostituta, vinha de uma fam\u00edlia amorosa, com uma m\u00e3e alegre e presente.<\/p>\n<p>Mas esse casal, de provocar inveja devido a tanta paix\u00e3o que exalava, vive uma dor e uma perda brutal, violenta e traum\u00e1tica, \u00a0escancarando o horror que a posse e o ci\u00fame podem provocar enquanto viol\u00eancias contra mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O enredo se desenla\u00e7a por fim e consegue \u00e0 sua maneira sair do horror traum\u00e1tico para reencontrar alguma cor, luz e erotismo. Isso talvez pare\u00e7a obsceno demais. Ser\u00e1 que o romance se arrisca (ou nos arrisca) ao <em>romantizar <\/em>o machismo em momento t\u00e3o crucial das lutas feministas? Ser\u00e1 poss\u00edvel inventar um final feliz quando o cen\u00e1rio \u00e9 de den\u00fancia e desnaturaliza\u00e7\u00e3o do lugar social e sexual que meninas e mulheres ainda vivem? Pode parecer ing\u00eanuo ou uma afronta criar personagens que encarnam clich\u00eas patriarcais, como a puta que goza e que captura todos os homens, os homens casados que passam a tarde no puteiro, a m\u00e3e bondosa, a tia invejosa, a esposa amorosa, o ci\u00fame doentio do marido, o crime passional.<\/p>\n<p>De algum modo, tais efeitos ambivalentes (perceber os clich\u00eas e ao mesmo tempo se afetar pelos personagens ou sentir vergonha ao se excitar com uma narrativa composta por fantasias machistas) n\u00e3o poderiam evocar nuances de uma profundidade necess\u00e1ria para acessarmos a complexidade dessa quest\u00e3o?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de certa forma o que escutamos na cl\u00ednica tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade: as repeti\u00e7\u00f5es, os descompassos, os encontros e desencontros, as ambival\u00eancias, os excessos pulsionais, os modos singulares de prazer, a pot\u00eancia inventiva do desejo?<\/p>\n<p>Os feminismos enquanto movimentos e discursos emancipat\u00f3rios extremamente importantes e necess\u00e1rios t\u00eam produzido transforma\u00e7\u00f5es na forma pela qual circulam e se articulam os desejos, os prazeres, as rela\u00e7\u00f5es sexuais-afetivas, e tamb\u00e9m as defesas e os imperativos superegoicos.<\/p>\n<p>Escutamos adolescentes e jovens mulheres iniciando uma vida sexual mais empoderadas da possibilidade de dizer sim ou n\u00e3o, assim como meninos e jovens homens atentos para escutar e respeitar o consentimento e o prazer do outro. S\u00e3o efeitos significativos e conquistados do feminismo contempor\u00e2neo. Concomitantemente percebemos \u00e0s vezes uma falta de espa\u00e7o e tempo para d\u00favidas ou ambival\u00eancias: <em>Ser\u00e1 que eu quero? Como sinto prazer, como dou prazer? Ser\u00e1 que ultrapassei o limite do outro\/a\/e? Meu desejo, voraz, pode se manifestar violento?<\/em> In\u00fameras d\u00favidas e confus\u00f5es que a sexualidade e o corpo despertam e que precisam transitar sem se agarrar rapidamente a respostas precipitadas podendo gerar um clima repressor um tanto paranoico e superegoico.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as mudan\u00e7as discursivas e narrativas vem desconstruindo o universal e soberano lugar de fala do homem branco e do pensamento euroc\u00eantrico, desarquivando narrativas e sustentando outras representatividades. Nos restam perguntas vivas, com as quais estamos lidando diariamente: como tais mudan\u00e7as efervescentes afetam os encontros e tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o cultural e cient\u00edfica, como isso nos atravessa na cl\u00ednica, o que se tornou inaceit\u00e1vel e precisa ser revisto tanto enquanto conceito e palavra como enquanto ato e posi\u00e7\u00e3o, o que precisa ser desconstru\u00eddo, e como faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p>Um caminho f\u00e9rtil tem sido as mulheres tomarem um lugar de fala e escrita que lhes seja pr\u00f3prio, que elas se escrevam e assim se inscrevam, uma escrita mulher, como prop\u00f5e H\u00e9l\u00e8ne Cixous<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>: \u201cescreva-te: \u00e9 preciso que seu corpo se fa\u00e7a ouvir\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Maria Carolina Accioly C. Silva, psicanalista membro do Departamento de psican\u00e1lise, participa dos grupos de trabalho \u201cO feminino e o imagin\u00e1rio cultural contempor\u00e2neo\u201d e do GTEP (Grupo de Transmiss\u00e3o e Estudos de Psican\u00e1lise).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Sobre este tema da prostitui\u00e7\u00e3o e da cultura do estupro recomendo o livro <em>Teoria King Kong<\/em> de Virginie Despentes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> <em>O riso da medusa<\/em>, H\u00e9l\u00e8ne Cixous (1975), publicado pela Bazar do Tempo em 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es acerca das tens\u00f5es e conflitos da sexualidade feminina e a pot\u00eancia inventiva do desejo. 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