{"id":1489,"date":"2022-04-12T00:12:30","date_gmt":"2022-04-12T03:12:30","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1489"},"modified":"2022-04-14T23:13:01","modified_gmt":"2022-04-15T02:13:01","slug":"reflexoes-sobre-vida-e-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/04\/12\/reflexoes-sobre-vida-e-morte\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre vida e morte"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Reflex\u00f5es sobre vida e morte<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Renata Barone<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1553\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14a.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"633\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14a.jpg 281w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14a-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1554\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14b.jpg\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"623\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14b.jpg 281w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14b-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 440px) 100vw, 440px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Morte, a ang\u00fastia de quem vive. Assim definiu Vin\u00edcius de Moraes, a morte como ang\u00fastia.<\/p>\n<p>A morte como a \u00fanica certeza de quem vive. A nossa pr\u00f3pria morte, a morte de quem amamos, do que amamos, a pequena morte de cada dia, a imensa morte de uma grande perda.<\/p>\n<p>A morte, nossa companheira de jornada, inescap\u00e1vel, onipresente e eterna.<\/p>\n<p>A morte e a vida. Sempre juntas numa dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Desde os prim\u00f3rdios essas palavras \u2013 e conceitos &#8211; caminham juntas. Como for\u00e7as complementares, como \u00edm\u00e3s insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>A natureza nos ensina, em um ciclo cont\u00ednuo, que para nascer \u00e9 preciso morrer. Um organismo se alimenta de plantas e animais mortos para depois devolver ao solo e a outros seres vivos as subst\u00e2ncias e energias necess\u00e1rias para a vida recome\u00e7ar outra vez.<\/p>\n<p>A morte pode ser vista e analisada de muitos \u00e2mbitos. Vamos traz\u00ea-la para perto, diante do momento de incertezas que estamos vivendo como sociedade e humanidade, para observar sua presen\u00e7a dentro da nossa subjetividade ps\u00edquica e relacion\u00e1-la aos nossos processos internos.<\/p>\n<p>Os tempos pand\u00eamicos, como os tempos de guerra, nos aproximam da ideia de caducidade, de perda. A destrutividade e a morte nos rondam e exp\u00f5em o nosso desamparo, nossa mortalidade.<\/p>\n<p><u><\/u>H\u00e1 um bel\u00edssimo texto de Freud, que foi publicado em 1915 durante a primeira guerra mundial, quando essas quest\u00f5es estavam evidentes, que nos traz aspectos importantes para refletirmos sobre esse tema. Uma oportunidade para resgatar alguma esperan\u00e7a em meio a barb\u00e1rie dos nossos tempos e para pensarmos no que pode ser feito a partir desse cen\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse texto, cujo t\u00edtulo \u00e9 Transitoriedade, Freud traz a conversa dele com um poeta durante uma caminhada na natureza. Ao caminhar e observar a beleza do que os rodeava, o amigo poeta exprime a sua tristeza em constatar que tudo aquilo era ef\u00eamero. Que as flores j\u00e1 n\u00e3o estariam ali no inverno; que ao secar, os galhos levariam com eles a beleza que havia ali. Assim como a beleza humana e de tudo o que o homem criou que, sujeitos ao tempo, estavam fadados a desvanecer.<br \/>\nO olhar do poeta desvalorizava as coisas do nosso mundo por conhecer o seu destino determinante: a finitude.<\/p>\n<p>Freud n\u00e3o tinha como contestar tal fato &#8211; a transitoriedade em geral -, mas contestava o amigo em rela\u00e7\u00e3o ao valor que se associa a ela, afirmando que a \u201c<em>limita\u00e7\u00e3o das possibilidades de frui\u00e7\u00e3o eleva a sua preciosidade\u201d<\/em><\/p>\n<p>Para ele, dever\u00edamos desfrutar ainda mais das coisas por saber que elas s\u00e3o transit\u00f3rias.<br \/>\nFreud tenta argumentar sobre o valor e a beleza do transit\u00f3rio, mas n\u00e3o consegue modificar a vis\u00e3o pessimista do poeta e de seu amigo.<br \/>\nAo pensar sobre a atitude dos amigos, Freud diz: \u201c<em>deve ter sido a revolta ps\u00edquica contra o luto, o que desvalorizou, para eles, a frui\u00e7\u00e3o do belo.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Aqui Freud nos indica a rela\u00e7\u00e3o entre luto e frui\u00e7\u00e3o do belo. Ignor\u00e1-lo nos distancia da possibilidade de ver e desfrutar belezas.<\/p>\n<p>H\u00e1 diferentes movimentos ps\u00edquicos que podem derivar desse encontro com a falta.<br \/>\nO que a psican\u00e1lise nos prop\u00f5e \u2013 e que est\u00e1 em absoluto alinhamento com o que nos mostra a natureza &#8211; \u00e9 uma travessia dessa ferida, atrav\u00e9s da entrega a um processo longo e gradual em que h\u00e1 possibilidade de se criar uma realidade diferente e de fazer novas inven\u00e7\u00f5es de si mesmo.<\/p>\n<p>Partindo da ideia que Freud nos traz no texto, temos o caminho da revolta e da fuga como causador de um aborrecimento doloroso e encobridor do belo. Podemos ent\u00e3o pensar no luto n\u00e3o como um buraco escuro e sim como um igarap\u00e9 que, apesar de estreito, \u00e9 um importante caminho rumo \u00e0 vaz\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o e encontro. A morte como uma porta para a vida, como uma passagem entre diferentes estados e lugares que podemos ocupar, assim como a \u00e1gua em seu caminho entre c\u00e9u e terra, condensando, movimentando e sublimando.<\/p>\n<p>Importante levar em conta o sentido amplo da concep\u00e7\u00e3o de morte, suas diversas camadas, sua presen\u00e7a viva e constante no cotidiano. Culturalmente, s\u00e3o in\u00fameros os prismas para conceitu\u00e1-la. H\u00e1 rituais de festejos e lamentos a partir de diferentes convic\u00e7\u00f5es, mas de forma geral podemos pensar que o ser humano contempor\u00e2neo preza e luta por manter-se vivo e de prefer\u00eancia banhado na fonte da juventude, ignorando o processo natural de envelhecimento e morte.<\/p>\n<p>Em todas as esferas, morrer nos fala sobre perder e talvez esteja a\u00ed a motiva\u00e7\u00e3o para negar esse fato. N\u00e3o queremos perder nada. Entrar em contato com a falta \u00e9 desconfort\u00e1vel, mas tamb\u00e9m \u00e9 um motor que nos coloca em movimento. A aus\u00eancia da falta (a falta da falta) faz surgir a ang\u00fastia e o sintoma.<\/p>\n<p>Na busca eterna pelo objeto perdido, perder tamb\u00e9m pode ser ganhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1555\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14c.jpg\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"623\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14c.jpg 281w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14c-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 440px) 100vw, 440px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Envolver-se na seda do casulo, entregar-se ao fluxo do tempo e esperar acordar em outro lugar, sob uma nova forma. Fazer um trabalho de travessia, de mudan\u00e7a de corpo, de olhar, de escuta.<\/p>\n<p>Como elaborar o peso da constata\u00e7\u00e3o de que a morte \u00e9 um destino incontorn\u00e1vel e sobretudo uma companheira permanente? Diante da viv\u00eancia coletiva da pandemia, estreitamos a nossa rela\u00e7\u00e3o com a morte e mais do que nunca se faz necess\u00e1rio enfrentar o luto.<\/p>\n<p><em>\u201cO luto, de modo geral, \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 perda de um ente querido, \u00e0 perda de alguma abstra\u00e7\u00e3o que ocupou o lugar de um ente querido, como o pa\u00eds, a liberdade ou o ideal de algu\u00e9m, e assim por diante.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Para al\u00e9m da morte real, h\u00e1 v\u00e1rias camadas de morte que constantemente nos separam do outro. Estamos em permanente necessidade de lidar com a perda. Seja de ideais, seja de n\u00f3s mesmos, seja do outro. Pensando no momento atual, essas camadas ganharam bastante amplitude e desvelaram in\u00fameros ossos que estavam embaixo do tapete.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de isolamento social que vivemos coletivamente em 2020 (os que tiveram o privil\u00e9gio e\/ou a civilidade de cumprir com essa recomenda\u00e7\u00e3o) nos deixou cara a cara conosco mesmos e possibilitou o encontro com algumas quest\u00f5es \u00edntimas, com um modo de estar no mundo diferente. Para al\u00e9m do medo, da ang\u00fastia e da inseguran\u00e7a causada pelos momentos iniciais dessa crise, pudemos rever nossa rela\u00e7\u00e3o com o tempo e \u2013 no melhor dos casos &#8211; dar um respiro ps\u00edquico para fora dessa correnteza mec\u00e2nica de produ\u00e7\u00e3o exaustiva que nos imp\u00f5e o sistema capitalista vigente. Realizar alguns lutos.<\/p>\n<p>Freud nos diz que o trabalho de luto consiste basicamente em perda do objeto de amor, sobre-investimento libidinal no objeto perdido, desinvestimento desse objeto e por fim um reinvestimento em outro(s) objeto(s).<\/p>\n<p>Parece simples e natural, mas o grande desafio est\u00e1 justamente em poder <em>realizar<\/em> o luto, elaborar esse processo da perda, da separa\u00e7\u00e3o com o outro sem cair em nega\u00e7\u00e3o ou melancolia.<\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise o luto \u00e9 um modo de subjetiva\u00e7\u00e3o, um processo atrav\u00e9s do qual nos tornamos sujeitos.<\/p>\n<p>Freud usa o termo<em> Trauerarbeit &#8211; trabalho de luto<\/em> &#8211; indicando que h\u00e1 um trabalho ativo a ser feito, de movimentos ps\u00edquicos, para superar uma perda. Uma necessidade de enfrentamento da dor para que o luto seja um novo pren\u00fancio da vida.<\/p>\n<p>Se temos a falta como constituinte do sujeito, o que estar\u00edamos perdendo ao evit\u00e1-la?<\/p>\n<p>Ao aproximarmos esse pensamento da nossa sociedade moderna iremos facilmente notar que, como humanidade, estamos cada vez mais <em>descolados do organismo vivo que \u00e9 a terra<\/em> e consequentemente cada vez mais distantes de uma conex\u00e3o com a pluralidade e com o ritmo natural da vida (veja que n\u00e3o trato de totalidade org\u00e2nica, mas sim de reconhecimento de identidade x diferen\u00e7as), assim impossibilitados de ocupar o lugar do transit\u00f3rio de maneira saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 nossa subjetividade e diferencia\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida que busca imergir os indiv\u00edduos em uma massa homog\u00eanea.<\/p>\n<p><em>\u201cA era da individualidade substituiu a da subjetividade: dando a si mesmo a ilus\u00e3o de uma liberdade irrestrita, de uma independ\u00eancia sem desejo e de uma historicidade sem hist\u00f3ria, o homem de hoje, transformou-se no contr\u00e1rio de um sujeito.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ao perdermos o contato conosco mesmos, se torna custoso afirmar nossa verdadeira diferen\u00e7a (logo, o nosso desejo). Assim, ficamos em um lugar de paralisia, de imobilidade, ang\u00fastia e sofrimento.<\/p>\n<p>Nesse sistema se intensifica cada vez mais uma busca pela solu\u00e7\u00e3o pronta que pode ser comprada em lojas, encontrada em p\u00edlulas m\u00e1gicas ou em templos salvadores ao inv\u00e9s de uma busca pela habilidade de supera\u00e7\u00e3o das dificuldades, de uma disposi\u00e7\u00e3o para entrar em contato com a dor.<\/p>\n<p><em>\u201cA substitui\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhada, com efeito, por uma valoriza\u00e7\u00e3o dos processos psicol\u00f3gicos de normaliza\u00e7\u00e3o, em detrimento das diferentes formas de explora\u00e7\u00e3o do inconsciente.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Um indiv\u00edduo que foge do seu inconsciente e est\u00e1 preocupado em retirar de si a ess\u00eancia de todo o conflito.<\/p>\n<p>Ao fugirmos do que nos \u00e9 doloroso, estar\u00edamos deixando de fruir do belo.<\/p>\n<p>Partindo de uma ideia de modernidade de Zygmunt Bauman, podemos pensar que atualmente vivemos uma transitoriedade l\u00edquida: n\u00e3o h\u00e1 investimento real e conex\u00e3o com os objetos de amor.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma superficialidade que propicia a r\u00e1pida substitui\u00e7\u00e3o (ou at\u00e9 a descartabilidade), uma troca fugaz ao inv\u00e9s de um espa\u00e7o de luto e elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma sociedade movida pela produtividade, pelo consumo, pelo entretenimento \u201cbarato\u201d, pela <em>entorpec\u00eancia<\/em> dos sentidos, que mascara a perda atrav\u00e9s da troca instant\u00e2nea e assim renuncia ao momento transit\u00f3rio de contempla\u00e7\u00e3o do presente, do usufruto do momento.<\/p>\n<p>Dessa crescente intoler\u00e2ncia ao sofrimento e ao desconforto, v\u00e3o surgindo muitos sintomas sociais que s\u00e3o fontes de lucros comerciais e, por essa raz\u00e3o, cada vez mais estimulados e alimentados pela m\u00e1quina capitalista, que nos rouba subjetividade, sonho, processo, natureza. O capitalismo nos afasta da falta simb\u00f3lica. Desse modo, a no\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica do sujeito de desejo fica perturbada. O sujeito pouco marcado pela falta, iludido por uma fantasia de completude.<\/p>\n<p>A internet e as redes sociais incitam essa fuga feroz e alimentam a inseguran\u00e7a e o medo de lidar com o mundo real.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, me deparei com um caso em que a paciente de 12 anos entrou de maneira profunda no mundo virtual e vem apresentando dificuldades de interagir e criar v\u00ednculos fora das redes. O que me parece n\u00e3o s\u00f3 consequ\u00eancia do per\u00edodo pand\u00eamico, mas tamb\u00e9m fruto dessa vis\u00e3o social-capital que vem se desenhando.<\/p>\n<p>Maria (nome fict\u00edcio) diz preferir muito mais o mundo <em>online<\/em> do que o real, gostaria de poder passar todas as horas do seu dia atr\u00e1s da tela. De fato, \u00e9 onde ela se sente protegida. Seu escudo, a tela.<\/p>\n<p>Observando esse movimento h\u00e1 algum tempo, notei que ocorria uma imers\u00e3o mais intensa durante os per\u00edodos marcados por uma perda ou mudan\u00e7a. Como se uma chave transformasse o lugar <em>online<\/em> de entretenimento em esconderijo de sentimentos.<\/p>\n<p>No virtual n\u00e3o h\u00e1 perdas reais, n\u00e3o h\u00e1 enfrentamento de conflitos, contato com dores e ang\u00fastias. Quando buscado como ref\u00fagio, o mundo virtual se torna uma esp\u00e9cie distorcida de casulo. Casulo de morte. N\u00e3o tem movimento, est\u00e1 robotizado, congelado, sem acesso ao calor da vida, ao movimento circular capaz de criar e transformar.<\/p>\n<p>Integrar essas duas faces &#8211; virtual e real &#8211; \u00e9 um grande desafio do nosso s\u00e9culo. Encontrar uma medida que permita existirmos dos dois lados de uma forma inteira. Fuga e distra\u00e7\u00e3o x enfrentamento e conex\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s muitos meses de recolhimento (e an\u00e1lise), Maria recome\u00e7a a tatear o mundo real como se fosse a primeira vez. Vem fazendo todo um trabalho de reconhecimento e integra\u00e7\u00e3o que me parece fundamental, n\u00e3o apenas para habitar e se relacionar no mundo real, mas para que possa desfrutar do virtual sem que isso lhe roube nada, ou ao menos n\u00e3o lhe roube muito.<\/p>\n<p>N\u00e3o conv\u00e9m adentrar agora esse vasto tema de reflex\u00e3o (vida <em>online<\/em>), mas vale ter em mente esse cen\u00e1rio t\u00e3o presente em nossas vidas para pensarmos por quais vias nosso ser tem sido assaltado.<\/p>\n<p>No percurso de constru\u00e7\u00e3o de uma sa\u00edda poss\u00edvel, de uma transi\u00e7\u00e3o entre esses mundos, eu vejo a natureza como caminho. A natureza como espelho de diversidade e lugar para tecermos amorosamente um casulo, casulo de vida. Natureza como lugar poss\u00edvel para romper com o mal-estar diante da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>E novamente \u00e9 preciso ampliar o sentido da palavra. Do igarap\u00e9 estreito ao largo rio. Natureza como tudo o que h\u00e1, tudo o que vibra e pulsa vida ao nosso redor. Como professora, como escola, como terra f\u00e9rtil e criadora. Natureza como tecnologia. Como capacidade de organiza\u00e7\u00e3o, crescimento, desenvolvimento.<\/p>\n<p>Ao tecermos um casulo, criamos um espa\u00e7o para o processo de subjetiva\u00e7\u00e3o, para o movimento, para a falta.<\/p>\n<p>Um caminho que se distancia do homem m\u00e1quina e conduz ao encontro do homem desejante, \u00e0 metamorfose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1556\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14d.jpg\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"622\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14d.jpg 281w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/b62_9_14d-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 440px) 100vw, 440px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSempre sonhei com isso. Ter a for\u00e7a das lagartas. Ver asas surgindo do meu corpo de verme. Voar ao inv\u00e9s de arrastar-me pelo ch\u00e3o. Apoiar-me no ar e n\u00e3o sobre a pedra. Passar de uma exist\u00eancia a outra sem sequer o tocar. A mais perigosa forma de magia. A exist\u00eancia mais pr\u00f3xima da morte. A metamorfose.\u201d<\/p>\n<p>No <em>Livro dos s\u00edmbolos<\/em> (Taschen, 2010) a metamorfose \u00e9 descrita como algo que <em>acontece de um modo invis\u00edvel, o que atesta a din\u00e2mica inconsciente em funcionamento<\/em>. Sob o manto da invisibilidade, \u00e0 noite e sob a influ\u00eancia de \u201csonhos perturbadores\u201d ou metidas num casulo, as mudan\u00e7as radicais forjadas pela metamorfose ocorrem atrav\u00e9s de uma intensa incuba\u00e7\u00e3o e da liberta\u00e7\u00e3o da libido.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel articular essa descri\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio de funcionamento do trabalho do luto apresentado por Freud. Intensa incuba\u00e7\u00e3o &#8211; o sobre-investimento libidinal no objeto perdido &#8211; e liberta\u00e7\u00e3o da libido &#8211; desinvestimento desse objeto e possibilidade de reinvestimento em outro(s) objeto(s).<\/p>\n<p>Seria o processo da metamorfose uma indica\u00e7\u00e3o da natureza de um caminho poss\u00edvel para lidar com a perda?<\/p>\n<p>Talvez um esbo\u00e7o&#8230; que nos fala sobre a capacidade de mudan\u00e7a de lugar e estado. Que ilustra a beleza do transit\u00f3rio e a import\u00e2ncia da cad\u00eancia do tempo nos processos.<\/p>\n<p>Recentemente, na guerra contra o v\u00edrus da covid-19, percebemos outras batalhas importantes a serem travadas. De diferentes maneiras, alguns de n\u00f3s tivemos a oportunidade de perceber a pressa com que v\u00ednhamos caminhando, em uma busca incessante da produtividade, em uma luta contra o envelhecimento, uma fuga do sofrimento, da perda, do encontro consigo mesmo. Um ritmo onde se tentam alcan\u00e7ar respostas, mas as perguntas s\u00e3o esquecidas de se elaborar. Um estado de pris\u00e3o entre o passado que n\u00e3o volta e o futuro que n\u00e3o est\u00e1, onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a capacidade de usufruir do presente.<\/p>\n<p>E do que se trata o momento presente, o instante?<\/p>\n<p>O presente \u00e9 um lugar poss\u00edvel para se enfrentar a transitoriedade, um lugar onde pode haver imagina\u00e7\u00e3o, criatividade, esperan\u00e7a. Um lugar de contempla\u00e7\u00e3o da beleza do ef\u00eamero. Se assemelha ao que se passa com os espectadores de uma pe\u00e7a de teatro. Aquele espet\u00e1culo que s\u00f3 acontece naquele instante, onde o tempo n\u00e3o \u00e9 contado pelas horas e o que conta \u00e9 o que se passa dentro daquele que vive esse momento. O instante independe da dura\u00e7\u00e3o absoluta do tempo e permite que <em>as coisas sobrevivam em n\u00f3s atrav\u00e9s do significado que tenham em nossa vida sens\u00edvel. <\/em>Um tempo que est\u00e1 al\u00e9m do tempo cronol\u00f3gico onde \u00e9 poss\u00edvel criar fragmentos de eternidade.<\/p>\n<p>Nossa vida sens\u00edvel \u00e9 transit\u00f3ria, espontaneamente n\u00f3s morremos todos os dias!<\/p>\n<p>Seguindo a natureza, que afinal \u00e9 tudo o que h\u00e1, nos deparamos com uma trilha poss\u00edvel que \u00e9 um convite a nos conectarmos ao seu tempo circular e eterno &#8211; em que eternidade n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de morte &#8211; e quem sabe assim poderemos enfrentar de outra forma a ang\u00fastia que nos surge da rela\u00e7\u00e3o com o tempo ef\u00eamero.<\/p>\n<p>Me lembrei do conto da mulher esqueleto, um conto esquim\u00f3<em> inuit<\/em> que traz a ideia de acolher a morte, cuidadosamente desembara\u00e7ar os fios a ela ligados, num ritmo \u00fanico e intransfer\u00edvel.<\/p>\n<p>Nesse conto, um pescador sai para pescar em uma zona considerada mal-assombrada (por ser o lugar onde uma menina morta pelo pai havia sido jogada de cima de um penhasco) e acaba fisgando um esqueleto. Horrorizado, ele larga o esqueleto e tenta fugir. Por\u00e9m o esqueleto o persegue at\u00e9 chegar ao seu iglu. Ao acender a lamparina ele se d\u00e1 conta de que o esqueleto permanecia enroscado nas linhas da rede. J\u00e1 mais calmo, decide desemaranhar delicadamente os ossos da rede, os organiza e os cobre com uma pele. Finalmente se deita para descansar e ao dormir a mulher esqueleto come\u00e7a a ser revestida de carne novamente. Eles acordam abra\u00e7ados e unidos.<\/p>\n<p>Trazer a mulher esqueleto para perto. Reconhec\u00ea-la, desenred\u00e1-la, faz com que ela volte a se integrar \u00e0 vida e deixe de ser t\u00e3o assustadora. Podemos pensar nesse contato mais \u00edntimo com a natureza de vida-morte-vida como uma maneira de acessar o que em n\u00f3s precisa morrer e nascer. N\u00e3o se trata de vencer o vazio, mas unir-se a ele.<\/p>\n<p>A nega\u00e7\u00e3o da falta e do luto que nos mant\u00e9m ocupados nesse sistema. Devemos empenhar um trabalho para abrir uma fenda, um espa\u00e7o subjetivo onde possamos pensar criticamente, onde possamos aceitar que n\u00e3o somos iguais e que isso \u00e9 maravilhoso porque nos d\u00e1 a chance de conhecermos algo singular e primordial: o nosso desejo.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir desse encontro que se faz poss\u00edvel transformar morte em vida. \u00c9 o nosso desejo que nos move para uma experi\u00eancia singular de circula\u00e7\u00e3o pelo mundo.<\/p>\n<p>Ailton Krenak disse algo sobre a resist\u00eancia das sociedades ind\u00edgenas que me marcou:\u201cA gente resistiu expandindo a nossa subjetividade.\u201d Que lindo e f\u00e9rtil trabalho. Fa\u00e7amos! Enquanto o tempo que vivemos consome a natureza de maneira t\u00e3o avassaladora e indefens\u00e1vel, que sejamos capazes ao menos de proteger nossa alteridade e subjetividade atrav\u00e9s da arte, da poesia, da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Dizer<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Dizem<br \/>\nDepois da mais bela can\u00e7\u00e3o<br \/>\nDepois do mais vasto deserto<br \/>\nAqui come\u00e7a o resto da vida<br \/>\nDe fato<br \/>\nOutra coisa acontece<br \/>\nOutra bela can\u00e7\u00e3o<br \/>\nOutro vasto deserto<br \/>\nE o resto da vida \u00e9 vida outra vez<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Leonardo Gandolfi)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>BAUMAN, Zygmund. <em>Sociedade L\u00edquida<\/em><strong>. <\/strong>Rio de Janeiro:<strong>\u00a0 <\/strong>Zahar,1999.<\/p>\n<p>COCCIA, Emanuele. <em>Metamorfoses<\/em><strong>. <\/strong>Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2020.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. \u201cTransitoriedade\u201d (1915) <em>in Obras incompletas de Freud &#8211; Arte Literatura e os artistas<\/em><strong>. <\/strong>S\u00e3o Paulo<strong>: <\/strong>Aut\u00eantica, 2015.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. \u201cLuto e Melancolia\u201d (1917) <em>in Obras incompletas de Freud &#8211; Neurose, psicose e pervers\u00e3o<\/em><strong>.<\/strong>\u00a0 Aut\u00eantica, 2016.<\/p>\n<p>GANDOLFI, Leonardo. <em>Robson Cruso\u00e9 e seus amigos<\/em><strong>.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2021.<\/p>\n<p>KRENAK, Ailton. <em>Ideias para adiar o fim do mundo<\/em><strong>.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019.<\/p>\n<p>LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. <em>Vocabul\u00e1rio de Psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<p>MARTIN, Kathleen. <em>O livro dos s\u00edmbolos<\/em><strong>.<\/strong> Taschen, 2020<\/p>\n<p>PINKOLA, Clarissa. <em>Mulheres que correm com lobos<\/em><strong>.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Rocco, 2018.<\/p>\n<p>ROUDINESCO, Elisabeth. <em>Por que a psican\u00e1lise?<\/em> Rio de Janeiro, Zahar, 2000.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Monografia apresentada no 1\u00ba ano do curso Conflito e Sintoma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Ex-aluna do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renata Barone lembra a import\u00e2ncia da perda como elemento constituinte da subjetividade: luto e metamorfose.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1467,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[53],"edicao":[74],"autor":[93],"class_list":["post-1489","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-conflito-e-sintoma","edicao-boletim-62","autor-renata-barone","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1489"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1489\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1580,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1489\/revisions\/1580"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1489"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1489"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}