{"id":1687,"date":"2022-06-01T14:34:16","date_gmt":"2022-06-01T17:34:16","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1687"},"modified":"2023-03-23T20:43:41","modified_gmt":"2023-03-23T23:43:41","slug":"figuras-do-sofrimento-psiquico-contemporaneo-no-brasil-entre-a-pandemia-e-o-pandemonio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/figuras-do-sofrimento-psiquico-contemporaneo-no-brasil-entre-a-pandemia-e-o-pandemonio\/","title":{"rendered":"Figuras do sofrimento ps\u00edquico contempor\u00e2neo no Brasil: entre a pandemia e o pandem\u00f4nio"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Figuras do sofrimento ps\u00edquico contempor\u00e2neo no Brasil: entre a pandemia e o pandem\u00f4nio<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Ana Lucia Panach\u00e3o e Tatiana Inglez-Mazzarella<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Boa tarde a todas e todos,<\/p>\n<p>Gostaria, em meu nome e de Ana Lucia Panach\u00e3o, e em nome de nossos colegas do Curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, agradecer o convite para participar dessa mesa hoje. \u00c9 com alegria e entusiasmo que encaramos a oportunidade de conversar com os colegas latino-americanos.<\/p>\n<p>As possibilidades de recorte para pensar as cartografias cl\u00ednicas do sofrimento ps\u00edquico contempor\u00e2neo, em nosso pa\u00eds, podem ser in\u00fameras.<\/p>\n<p>Escolhemos falar a partir do que estamos vivendo, no decorrer do momento pand\u00eamico. Se por um lado sabemos da dificuldade de an\u00e1lise de situa\u00e7\u00f5es em tempo presente, por outro, entendemos que h\u00e1 uma especificidade do que vivemos no Brasil. Tais circunst\u00e2ncias t\u00eam sido bastante exigentes em termos da escuta cl\u00ednica, uma vez que analistas e analisandos est\u00e3o atravessados por um contexto de suma complexidade.<\/p>\n<p>Situamo-nos diante de uma cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria aliada a s\u00e9rias quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais, que causam consequ\u00eancias traum\u00e1ticas, tanto em termos individuais quanto coletivos. Tomaremos o trauma, segundo as palavras de Fuks (2014, p.95):<\/p>\n<p>&#8220;As situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas se caracterizam pela emerg\u00eancia de uma magnitude excessiva de ang\u00fastia real, devido a acontecimentos que implicam uma amea\u00e7a para a vida da pessoa e uma fonte de enorme sofrimento ps\u00edquico. O efeito traum\u00e1tico \u00e9 produzido pelo excedente de ang\u00fastia n\u00e3o pass\u00edvel de simboliza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o represent\u00e1vel por meio da palavra. Sendo transbordadas as defesas, uma ang\u00fastia autom\u00e1tica, catastr\u00f3fica, avassala o eu, impondo um estado de estupor, paralisia, inermidade, desvalimento e desamparo. Imp\u00f5e-se um padecimento imposs\u00edvel de suportar, incompreens\u00edvel, impens\u00e1vel e indiz\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>Entendemos que, para al\u00e9m da cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria de ordem mundial, a pandemia atinge-nos em tempos de uma virul\u00eancia de outra ordem: &#8220;O Sars-Cov 2 chegou no Brasil em um momento hist\u00f3rico de grande vulnerabilidade, no qual a pol\u00edtica do \u00f3dio e do exterm\u00ednio j\u00e1 vinham ganhando terreno frente a Eros e ao processo civilizat\u00f3rio, desde as elei\u00e7\u00f5es de 2018<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>&#8220;.<\/p>\n<p>O discurso violento foi disseminado prioritariamente por meio das m\u00eddias sociais, usadas como principal ferramenta eleitoral multiplicadora de <em>fake news<\/em>. Essa pr\u00e1tica continua sendo utilizada e nela predomina um tipo de comunica\u00e7\u00e3o que visa, justamente, desorganizar as refer\u00eancias. Os ditos e os desmentidos publicados cotidianamente s\u00e3o assim incorporados, causando efeitos de desorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Drapeau (2019), h\u00e1 um plano em curso que segue a seguinte estrat\u00e9gia pensada por Steve Bannon<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>: &#8220;(&#8230;) uma articula\u00e7\u00e3o orquestrada para que a cada dois ou tr\u00eas dias, um ministro do governo, ou um membro do segundo escal\u00e3o solte uma frase com imbecilidades planejadas e das mais absurdas&#8221;.<\/p>\n<p>Uma verdadeira estrat\u00e9gia de <em>marketing<\/em> que se vale da grande m\u00eddia, da m\u00eddia progressista e de influenciadores digitais e, at\u00e9, da oposi\u00e7\u00e3o para fazerem o papel de impulsionadores dessas mensagens. Publicando-as e republicando-as nas redes sociais, produzem efeitos secund\u00e1rios: o de sustentar o discurso da extrema direita e o de desviar a aten\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es importantes para o pa\u00eds, dos erros e da incompet\u00eancia pol\u00edtica do governo.<\/p>\n<p>O discurso enlouquecedor produzido por falsas not\u00edcias foi incrementado por mentiras cuidadosamente arquitetadas pelos governantes, levando \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma realidade paralela. Mentiras proferidas pelo presidente em alto e bom som, exaltaram a inefic\u00e1cia das vacinas, a n\u00e3o necessidade do uso de m\u00e1scaras e a promessa de medicamentos preventivos e curativos comprovadamente ineficazes, levando ao descuido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transmissibilidade do v\u00edrus e \u00e0 sua letalidade.\u00a0 Somado a isso, assistimos ao desprezo pelo saber cient\u00edfico, pelas orienta\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade para conter o cont\u00e1gio, pelas vacinas e por aqueles que poderiam fornec\u00ea-las.\u00a0Tal conduta obstruiu a possibilidade de respostas r\u00e1pidas que poderiam ter minimizado os avan\u00e7os da doen\u00e7a e evitado o aumento do n\u00famero de mortes no pa\u00eds, que contabilizamos hoje, estarrecidos, em torno de 600 mil. Algo disso j\u00e1 estava presente nos anos anteriores \u00e0 pandemia e nas atuais circunst\u00e2ncias afirma-se como express\u00e3o m\u00e1xima da necropol\u00edtica na qual estamos imersos. Ainda nesse contexto, os desacordos p\u00fablicos entre o presidente, os governadores e os prefeitos, quanto \u00e0s medidas de isolamento a serem adotadas, evidenciaram uma polariza\u00e7\u00e3o entre os imperativos da vida e da economia.<\/p>\n<p>Birman (2021, p. 130), apoiado nas ideias de Bateson, destaca os efeitos de cis\u00e3o ps\u00edquica resultante de um sistema de comunica\u00e7\u00e3o caracterizado pela dupla mensagem das autoridades. Para ele, h\u00e1: &#8220;(&#8230;) a produ\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de um estado ps\u00edquico de confus\u00e3o mental. N\u00e3o se sabia em quem acreditar nesse contexto comunicativo, uma vez que a incerteza ps\u00edquica era alimentada permanentemente pela simultaneidade e pela injun\u00e7\u00e3o da dupla mensagem pela m\u00eddia.&#8221;<\/p>\n<p>A complexidade dessas vari\u00e1veis e seus efeitos comparecem cotidianamente na cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Camila trabalha em um servi\u00e7o hospitalar e atende diretamente afetados pelo coronav\u00edrus em sua fase cr\u00edtica. A constata\u00e7\u00e3o da insufici\u00eancia dos saberes advindos da forma\u00e7\u00e3o e da pr\u00e1tica m\u00e9dicas, para acompanhar e intervir evitando o agravamento de seus pacientes, a faz sofrer. Simultaneamente a confronta com a impot\u00eancia diante da morte. Logo, come\u00e7a a sentir-se muito amea\u00e7ada pela condu\u00e7\u00e3o da crise sanit\u00e1ria. Fica enraivecida com as autoridades e com as pessoas que seguem negando a gravidade daquilo que ela vive -na pele- todos os dias na unidade de terapia intensiva. Fragilizada diante do descaso e do descuido que percebe, \u00e9 tomada por uma grave crise de ang\u00fastia frente \u00e0 amea\u00e7a de que ela pr\u00f3pria seja contaminada e morra. Sente-se extremamente desamparada e at\u00e9 invisibilizada com tamanho desprezo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. De que vale o risco a que se exp\u00f5e, se o entorno n\u00e3o v\u00ea valor nos cuidados e na preserva\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria vida?<\/p>\n<p>O que o sofrimento de Camila revela de sua singularidade \u00e9 pr\u00f3prio de todo processo anal\u00edtico. Mas o que o sofrimento de Camila tamb\u00e9m nos revela do que estamos vivendo no Brasil?<\/p>\n<p>&#8220;Levallois (2007) chama a aten\u00e7\u00e3o para o quanto a articula\u00e7\u00e3o hist\u00f3ria\/Hist\u00f3ria, quando considerada em um processo anal\u00edtico, permite analisar o modo como a hist\u00f3ria coletiva foi absorvida e interiorizada, o modo como o sujeito se localiza em um espa\u00e7o social&#8221; (Inglez-Mazzarella, 2021, p. 103). N\u00e3o seria poss\u00edvel pensar nas an\u00e1lises individuais sem levar em conta o contexto atual no qual o sujeito, exposto \u00e0 invas\u00e3o traum\u00e1tica, sofre graves consequ\u00eancias ps\u00edquicas que podem levar do desamparo ao desalento.<\/p>\n<p>Ao abordar o contexto da pandemia, Kupermann (2021) aponta para tr\u00eas tipos de negacionismo no cen\u00e1rio brasileiro: o ilus\u00f3rio, o hip\u00f3crita e o pragm\u00e1tico. Essa divis\u00e3o nos ajuda a compreender o negacionismo como ato pol\u00edtico e como defesa ps\u00edquica. Assim se manifesta desde a condu\u00e7\u00e3o governamental frente \u00e0 pandemia at\u00e9 suas manifesta\u00e7\u00f5es em setores da sociedade civil e nas subjetividades. Sua proposta visa contribuir para uma cartografia do sofrimento com as especificidades do Brasil, dando especial destaque \u00e0 desesperan\u00e7a e ao ceticismo.<\/p>\n<p>O negacionismo ilus\u00f3rio responde como defesa ps\u00edquica frente a situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade e impot\u00eancia e seduz boa parte da popula\u00e7\u00e3o angustiada frente aos riscos pand\u00eamicos, &#8220;(&#8230;) o que confere a essa forma de negacionismo grande potencial ludibriador das massas assustadas e descrentes&#8221; (p. 150).<\/p>\n<p>O negacionismo hip\u00f3crita, presente em uma parcela das classes privilegiadas, est\u00e1 assentado no narcisismo das pequenas diferen\u00e7as. Ele se apoia numa invulnerabilidade seletiva devido \u00e0s melhores condi\u00e7\u00f5es de cuidado e prote\u00e7\u00e3o, o que lhe confere tamb\u00e9m algum grau de ilus\u00e3o. Segundo o autor, \u00e9 ele o respons\u00e1vel pelo falso problema: ou se salvam vidas ou se salva a economia.<\/p>\n<p>O negacionismo pragm\u00e1tico, por sua vez, \u00e9 localizado nas camadas econ\u00f4micas mais vulner\u00e1veis como defesa frente \u00e0 doen\u00e7a e \u00e0 morte. Essas pessoas n\u00e3o tiveram alternativa a n\u00e3o ser trabalhar, fato que confirma a extrema desigualdade social brasileira e o pouco valor atribu\u00eddo a essas vidas.<\/p>\n<p>Apesar do descaso daqueles que deveriam proteger a popula\u00e7\u00e3o e do desmonte que o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) vem sofrendo nos \u00faltimos anos, os brasileiros responderam imediata e positivamente quando as vacinas foram disponibilizadas, demonstrando, assim, seu desejo de preservar a vida.<\/p>\n<p>De que modo o negacionismo, enquanto ato pol\u00edtico, afeta as subjetividades?<\/p>\n<p>Entendemos que frente \u00e0s amea\u00e7as de perigo real incrementadas pelas inconsequ\u00eancias do discurso negacionista, o mecanismo ps\u00edquico da recusa opera como forma de defesa no sujeito. A recusa mant\u00e9m afastadas as representa\u00e7\u00f5es que seriam contradit\u00f3rias e, assim, interrompe o processamento antes que o conflito se instale; isto impede que se tire consequ\u00eancias daquilo que \u00e9 percebido. Esse processo afeta diretamente a capacidade de simboliza\u00e7\u00e3o com consequ\u00eancias para a formula\u00e7\u00e3o do pensamento.<\/p>\n<p>Tyszler (2021) argumenta que a incerteza inibe a simboliza\u00e7\u00e3o e a imagina\u00e7\u00e3o. Entendemos que esse fen\u00f4meno pode ser efeito da recusa. Se, por um lado, a recusa defende dos excessos desse discurso que deixa o sujeito imerso em desamparo extremo, por outro, custa-lhe a capacidade de pensar, de habilitar a ang\u00fastia sinal e de acionar defesas eficazes.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia traum\u00e1tica presente como pano de fundo na cl\u00ednica e provocada pela eclos\u00e3o da pandemia, manifesta-se singularmente em cada sujeito. Birman (2021) aponta para a exacerba\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas nesse contexto. Dentre elas evidencia a neurose de ang\u00fastia (s\u00edndrome do p\u00e2nico) na qual a ang\u00fastia real \u00e9 o sinal manifesto do impacto traum\u00e1tico sobre o sujeito. Entregue ao desamparo origin\u00e1rio, o sujeito experimenta a sensa\u00e7\u00e3o de morte e dificuldades respirat\u00f3rias que tamb\u00e9m est\u00e3o presentes como um dos sintomas na infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus.\u00a0 O temor da morte, ligado a varia\u00e7\u00f5es de intensidades corporais, assume um car\u00e1ter patol\u00f3gico levando o sujeito a fazer interpreta\u00e7\u00f5es hipocondr\u00edacas sobre seu mal-estar.<\/p>\n<p>Como efeito do confinamento, do isolamento social e da aus\u00eancia dos processos de intera\u00e7\u00e3o, o autor afirma que os sujeitos est\u00e3o mais expostos a manifesta\u00e7\u00f5es de depress\u00e3o. Observa tamb\u00e9m, um aumento de ritualiza\u00e7\u00f5es obsessivo-compulsivas ligadas \u00e0s novas pr\u00e1ticas de higiene, assim como um incremento de viol\u00eancia dom\u00e9stica pensado como resposta contra a fragilidade e a impot\u00eancia frente ao desamparo. Aponta ainda como destinos para o trauma a automedica\u00e7\u00e3o, a ingest\u00e3o de \u00e1lcool e de drogas e as compuls\u00f5es alimentares.<\/p>\n<p>A partir da cl\u00ednica, observamos que a vida familiar e a conjugalidade foram afetadas. As brigas passaram a ganhar um lugar de destaque nas queixas relatadas.\u00a0 A diminui\u00e7\u00e3o do investimento na vida er\u00f3tica foi outra queixa que se tornou comum.<\/p>\n<p>Birman (2021) destaca ainda como forma\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, o conjunto de efeitos ps\u00edquicos que o incremento das mortes pelo v\u00edrus provoca no sujeito, devido \u00e0 impossibilidade de realiza\u00e7\u00e3o do trabalho de luto. Acompanhamos a presen\u00e7a de quadros com caracter\u00edsticas melanc\u00f3licas que vem chamando a aten\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica, inclusive dentre os muitos jovens. Os adolescentes, para quem a companhia dos pares \u00e9 t\u00e3o fundamental, est\u00e3o sendo especialmente afetados pelo isolamento e pelos per\u00edodos de suspens\u00e3o das aulas presenciais.<\/p>\n<p>Gostar\u00edamos de salientar outro aspecto: os efeitos do excesso de tempo ao qual as crian\u00e7as est\u00e3o expostas \u00e0s telas. A hiper digitaliza\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia tem agravado os quadros depressivos e contribu\u00eddo para uma vis\u00edvel desorganiza\u00e7\u00e3o corporal e para dificuldades de sono e alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quais poderiam ser as sa\u00eddas para esse cen\u00e1rio desolador?<\/p>\n<p>Sabemos que elas certamente v\u00e3o muito al\u00e9m daquelas que podem ser propostas apenas pela psican\u00e1lise. Situa\u00e7\u00f5es como a atual requerem a\u00e7\u00f5es nos campos jur\u00eddico, pol\u00edtico, social, econ\u00f4mico, sanit\u00e1rio etc. para que tenhamos maiores chances de construir uma sa\u00edda para o traum\u00e1tico. Contudo, visamos contribuir com essa ampla discuss\u00e3o a partir de nosso referencial de trabalho.<\/p>\n<p>Diante do desalento, da confus\u00e3o e do impedimento do pensar, a possibilidade de construir narrativas, aliada ao imprescind\u00edvel trabalho de luto diante de tantas perdas, constituem-se como pontos de partida. Sublinhamos qu\u00e3o imprescind\u00edvel \u00e9 a grupalidade nos trabalhos de elabora\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas e de lutos coletivos. Vale ainda lembrar a import\u00e2ncia da cultura, em suas v\u00e1rias dimens\u00f5es, como elemento de simboliza\u00e7\u00e3o para fazer frente a <em>Thanatos<\/em>.<\/p>\n<p>De acordo com as belas palavras de Bezerra J\u00fanior (2020, p. 95) \u201co fabuloso recurso de inventar recursos, \u00e9 tudo com o que podemos contar para enfrentarmos os aspectos tr\u00e1gicos da vida\u201d. Neste sentido, se assistimos, por um lado, a um esgar\u00e7amento do tecido social e ps\u00edquico que nos sustenta, assistimos, por outro, a cria\u00e7\u00e3o de diversas iniciativas pautadas em gestos de solidariedade diante da grave crise que atravessamos. Muitos dispositivos t\u00eam sido criados no Brasil por psicanalistas e por outros profissionais da \u00e1rea de sa\u00fade mental que oferecem, de forma volunt\u00e1ria, acolhida e escuta para aqueles que buscam ajuda diante do sofrimento produzido pelo atual contexto.<\/p>\n<p>No Instituto Sedes Sapientiae, uma iniciativa multidepartamental, envolvendo tamb\u00e9m funcion\u00e1rios da Cl\u00ednica do Instituto criou o coletivo Escuta Sedes e seu dispositivo <em>rodas de conversa<\/em>. Esse coletivo iniciou seu trabalho em 2018, per\u00edodo no qual Jair Bolsonaro foi eleito e a intoler\u00e2ncia atingiu de forma contundente o espa\u00e7o p\u00fablico, os n\u00facleos familiares, os grupos de amigos e as rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>As rodas de conversa se constituem como espa\u00e7o aberto, gratuito, n\u00e3o partid\u00e1rio, no qual a palavra circula e as ang\u00fastias advindas da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00e3o acolhidas a partir de uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica de respeito ao outro em sua singularidade. O grupo idealizador do projeto prop\u00f5e n\u00e3o naturalizar o sofrimento como condi\u00e7\u00e3o individual, buscando resgatar sua dimens\u00e3o coletiva. A proposta consiste em favorecer a cria\u00e7\u00e3o de novos la\u00e7os e a abertura para emerg\u00eancia do contradit\u00f3rio e do conflitivo. O coletivo Escuta Sedes aposta num espa\u00e7o grupal que, ao acolher o m\u00faltiplo e o diverso, contribui para restituir as condi\u00e7\u00f5es de pensamento que v\u00eam sendo t\u00e3o atacadas.<\/p>\n<p>O Escuta Sedes, bem como outras iniciativas, configura-se como tentativa de propiciar condi\u00e7\u00f5es para o trabalho de Eros frente ao caos e \u00e0 morte, motivo pelo qual temos prazer em partilhar nosso esperan\u00e7ar tal qual nos prop\u00f5e Paulo Freire (1992):<\/p>\n<p>\u201c<em>&#8230; \u00c9 preciso ter esperan\u00e7a, mas ter esperan\u00e7a do verbo esperan\u00e7ar; porque tem gente que tem esperan\u00e7a do verbo esperar. E esperan\u00e7a do verbo esperar n\u00e3o \u00e9 esperan\u00e7a, \u00e9 espera. Esperan\u00e7ar \u00e9 se levantar, esperan\u00e7ar \u00e9 ir atr\u00e1s, esperan\u00e7ar \u00e9 construir, esperan\u00e7ar \u00e9 n\u00e3o desistir! Esperan\u00e7ar \u00e9 levar adiante, esperan\u00e7ar \u00e9 juntar-se com outros para fazer de outro modo\u2026\u201d.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA:<\/p>\n<p>BEZERRA JUNIOR, B. \u201cO que a era do Covid-19 pode legar \u00e0 psican\u00e1lise e aos psicanalistas\u201d. In<em> Percurso<\/em>, Revista de Psican\u00e1lise. Ano XXXII.\u00a0 junho de 2020. N\u00famero: 64, p.95-106.<\/p>\n<p>BIRMAN, J. <em>O trauma da pandemia do Coronav\u00edrus: suas dimens\u00f5es pol\u00edticas, sociais, ecol\u00f3gicas, culturais, \u00e9ticas e cient\u00edficas.<\/em> Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2021.<\/p>\n<p>DRAPEAU, S. &#8220;A estrat\u00e9gia de Steve Bannon por tr\u00e1s das imbecilidades bolsonaristas&#8221;. <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/vermelho.org.br<\/a>, 2021. Dispon\u00edvel em\u00a0 <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2019\/12\/04\/a-estrategia-de-steve-bannon-por-tras-das-imbecilidades-bolsonaristas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/vermelho.org.br\/2019\/12\/04\/a-estrategia-de-steve-bannon-por-tras-das-imbecilidades-bolsonaristas\/<\/a>.\u00a0 Acesso em 06\/09\/21.<\/p>\n<p>FREIRE, P. <em>Pedagogia da esperan\u00e7a: um reencontro com a Pedagogia do oprimido<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1992.<\/p>\n<p>FUKS, M. &#8220;Trauma e Dessubjetiva\u00e7\u00e3o&#8221; In <em>Percurso<\/em>, Revista de Psican\u00e1lise: Ano XXVI: junho de 2014.\u00a0 N\u00famero 52, p. 95-102.<\/p>\n<p>INGLEZ-MAZZARELLA, T. <em>Hist\u00f3rias Recobridoras: quando o vivido n\u00e3o se transforma em experi\u00eancia. <\/em>S\u00e3o Paulo: Editora Blucher, 2021.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>KUPERMANN, D. &#8220;A cat\u00e1strofe e seus destinos: os negacionismos e o efeito vivificante do &#8216;bom ar&#8221;&#8217; In STAAL, A. &amp; LEVINE, H. B. <em>Psican\u00e1lise e vida covidiana: desamparo coletivo, experi\u00eancia individual.<\/em> S\u00e3o Paulo: Blucher, 2021.<\/p>\n<p>TYSLER, J-J. &#8220;Para al\u00e9m do todo-traum\u00e1tico: a imagina\u00e7\u00e3o narrativa e as novas temporalidades da sess\u00e3o In STAAL, A. &amp; LEVINE, H. B. <em>Psican\u00e1lise e vida covidiana: desamparo coletivo, experi\u00eancia individual.<\/em> S\u00e3o Paulo: Blucher, 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Originalmente apresentado na mesa FLAPPSIP da Asociaci\u00f3n Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados, de Buenos Aires em 2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Inglez-Mazzarella, T. Comunica\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Estrategista das elei\u00e7\u00f5es de Donald Trump em 2016 e das elei\u00e7\u00f5es brasileiras em 2018, sendo cotado tamb\u00e9m para esta fun\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras de 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Ana Lucia Panach\u00e3o e Tatiana Inglez-Mazzarella para mesa FLAPPSIP de 2021.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[113],"tags":[96,49,52],"edicao":[114],"autor":[117,118],"class_list":["post-1687","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-flappsip","tag-congressos","tag-flappsip","tag-psicopatologia-psicanalitica","edicao-boletim-63","autor-ana-lucia-panachao","autor-tatiana-inglez-mazzarella","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1687"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2353,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1687\/revisions\/2353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1687"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1687"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1687"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1687"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1687"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}