{"id":1689,"date":"2022-06-01T14:42:52","date_gmt":"2022-06-01T17:42:52","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1689"},"modified":"2022-06-07T20:27:44","modified_gmt":"2022-06-07T23:27:44","slug":"reich-e-a-relacao-entre-psicanalise-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/reich-e-a-relacao-entre-psicanalise-e-politica\/","title":{"rendered":"Reich e a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Reich e a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Mario Pablo Fuks<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em novembro de 2016 o Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae de S\u00e3o Paulo convocou seus membros para um encontro interno sobre Psican\u00e1lise e Pol\u00edtica. Acabava-se de produzir o impeachment de Dilma Rousseff e v\u00e1rios ind\u00edcios permitiam prever desenvolvimentos fascistas no Brasil. Um dos temas sugeridos foi A luta contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial<em>. Este trabalho apontou desde o in\u00edcio a mostrar com W. Reich defendeu a psican\u00e1lise como instrumento de compreens\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o dos conflitos pol\u00edticos assim como seu impacto na hist\u00f3ria institucional do movimento psicanal\u00edtico.<\/em><\/em><\/p>\n<p><em>Proponho-me a trabalhar a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica a partir da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica e pol\u00edtica de W. Reich e de sua obra Psicologia de massas do fascismo, apontado as liga\u00e7\u00f5es poss\u00edveis de serem estabelecidas com alguns dos aspectos mais inquietantes da realidade conjuntural brasileira.<\/em><\/p>\n<p>A presen\u00e7a marcante e conflitiva de Wilhelm Reich no movimento psicanal\u00edtico foi processada institucionalmente pela via de sua expuls\u00e3o da Sociedade Internacional de Psican\u00e1lise, em 1934. Este acontecimento coincide com o in\u00edcio de um longo per\u00edodo de fechamento ideol\u00f3gico e doutrin\u00e1rio da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Internacional (IPA) e de suas filiais nos diversos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Nos anos 70, com os ventos de libera\u00e7\u00e3o que percorrem o mundo, a rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica-psican\u00e1lise volta a movimentar a psican\u00e1lise e o \u201ccaso Reich\u201d (Rodrigu\u00e9, 1995) \u00e9 retomado como um analisador desta problem\u00e1tica e dos processos de institucionaliza\u00e7\u00e3o. A institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica \u201coficial\u201d \u00e9 questionada, e se produzem movimentos de inova\u00e7\u00e3o, ruptura e cria\u00e7\u00e3o de novos projetos coletivos, entre os quais a cis\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Argentina, em 1973, a cria\u00e7\u00e3o do Centro de Doc\u00eancia e Investiga\u00e7\u00e3o da Coordenadoria de Trabalhadores de Sa\u00fade Mental em Buenos Aires e a cria\u00e7\u00e3o do Curso de Psican\u00e1lise em 1976 e, posteriormente, em 1985, do Departamento de Psican\u00e1lise, ambos no Instituto Sedes Sapientiae de S\u00e3o Paulo, como espa\u00e7os psicanal\u00edticos aut\u00f4nomos e politizados.<\/p>\n<p>Marie Langer, psicanalista argentina de origem austr\u00edaca, nos fala sobre esses dois momentos hist\u00f3ricos: \u201cNos anos 30 em Viena, a juventude intelectual era atra\u00edda intensamente pela Psican\u00e1lise e pelo Marxismo.<\/p>\n<p>Hoje em dia, em Buenos Aires, a juventude que conhe\u00e7o se dedica com igual interesse a esses grandes temas\u201d (Langer, 1973, p. 251).<\/p>\n<p>Freud e Marx haviam criado duas ci\u00eancias que traziam uma nova consci\u00eancia ao homem. Um grupo significativo de analistas austr\u00edacos e alem\u00e3es compartilhava esse interesse. O mais destacado entre eles foi Wilhelm Reich, para quem a aproxima\u00e7\u00e3o e a complementa\u00e7\u00e3o entre ambos os pensamentos iriam enriquecer cada um deles.<\/p>\n<p>Para o historiador Rodrigu\u00e9 (1995), assim como para E. Roudinesco (1998), n\u00e3o resta d\u00favida de que a expuls\u00e3o de Reich foi uma decis\u00e3o pol\u00edtica, e n\u00e3o cient\u00edfica, decis\u00e3o ditada, em grande medida, como reflexo do p\u00e2nico diante de uma situa\u00e7\u00e3o de grande risco real.<\/p>\n<p>Langer aporta seu testemunho direto sobre as circunst\u00e2ncias reais pol\u00edtico-institucionais. Ela, que tinha na \u00e9poca 24 anos, era m\u00e9dica e estava iniciando sua forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica em Viena, relata que esteve em 1932 em Berlim, ouviu Hitler falar diante de uma concentra\u00e7\u00e3o multitudin\u00e1ria de nazistas e tomou a decis\u00e3o de militar na esquerda. Sentia que era absurdo entregar-se sem lutar. Freud \u2013 diz ela \u2013 negava o perigo, idealizava a Alemanha de Goethe, que achava avessa \u00e0s extravag\u00e2ncias b\u00e9licas. \u201cN\u00f3s, os jovens politizados, pens\u00e1vamos diferente\u201d, diz a autora. Na \u00c1ustria todos os partidos de oposi\u00e7\u00e3o foram proibidos; a metade da popula\u00e7\u00e3o pertencia a eles, e muitos militavam clandestinamente. Frente a isto, as autoridades da Associa\u00e7\u00e3o Vienense decidem que, para preservar a psican\u00e1lise, era necess\u00e1rio proibir seus integrantes de exercer qualquer atividade pol\u00edtica ilegal e de atender pessoas que estivessem em tal situa\u00e7\u00e3o. Precisavam optar. Frente \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de rumores quanto ao engajamento pol\u00edtico de Langer, o analista lhe colocou as seguintes possibilidades: ou ela escolhia a milit\u00e2ncia pol\u00edtica e abandonava a an\u00e1lise, ou ficava na psican\u00e1lise e renunciava \u00e0 pr\u00e1tica pol\u00edtica. Havia uma terceira possibilidade, manter as duas coisas, mas evitar falar muito disso na an\u00e1lise. Solu\u00e7\u00e3o obviamente problem\u00e1tica desde o ponto de vista dos princ\u00edpios do m\u00e9todo e da \u00e9tica da psican\u00e1lise. Ficou nessa situa\u00e7\u00e3o por um tempo, decidiu sair dela e exilar-se. Vai para a Espanha e se engaja como m\u00e9dica nas Brigadas Internacionais, que lutam contra o franquismo.<\/p>\n<p>As posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas assumidas pelos analistas de esquerda<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> &#8211; e, principalmente, por Reich \u2013 entram em uma din\u00e2mica de debate \u2013 e posteriormente de oposi\u00e7\u00e3o e antagonismo \u2013 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es dominantes na institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, o que desembocou na formula\u00e7\u00e3o, pela primeira vez, de uma pol\u00edtica oficial. Rodrigu\u00e9 (1995) afirma que Wilhelm Reich foi o primeiro sintoma, no sentido anal\u00edtico do termo, da institucionaliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. O pr\u00f3prio Reich utilizava o conceito de sintoma institucional. Para ele, por exemplo, a teoria da puls\u00e3o de morte, introduzida por Freud em <em>Mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, era um sintoma do conflito criado entre a pot\u00eancia cr\u00edtica e criativa de Freud e as tend\u00eancias conservadoras e regressivas, que chegavam at\u00e9 a dessexualizar a teoria psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>O processo de afastamento institucional de Reich come\u00e7a na Sociedade Psicanal\u00edtica de Berlim e culmina no Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Internacional em Lucerna em 1934. Sobre as vicissitudes da institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica na Alemanha ap\u00f3s a ascens\u00e3o do nazismo, a \u201climpeza \u00e9tnica\u201d de analistas judeus e de teorias e linguagens psicanal\u00edticas, considerados \u201cci\u00eancia judaica\u201d, e sua concomitante uniformiza\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria (<em>Gleichschaltung<\/em>) n\u00e3o falaremos nesse trabalho.<\/p>\n<p>Com o in\u00edcio da guerra se produz a di\u00e1spora para diversas regi\u00f5es do mundo, e a psican\u00e1lise torna-se n\u00e3o s\u00f3 apol\u00edtica, mas tamb\u00e9m acr\u00edtica, adaptativa, tendendo ao isolamento e ao encapsulamento intrainstitucional. As institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas se transformaram em corpora\u00e7\u00f5es profissionalistas, verticais, burocr\u00e1ticas. Segundo Roudinesco, os analistas da esquerda freudiana, assim como muitos outros da chamada segunda gera\u00e7\u00e3o internacional, tiveram que enfrentar o ex\u00edlio e a integra\u00e7\u00e3o numa nova cultura. \u201cEncontraram na IPA uma nova p\u00e1tria freudiana, e foram ent\u00e3o os art\u00edfices do legitimismo ou, ao contr\u00e1rio, contestaram o aparelho freudiano, chegando at\u00e9 a cis\u00e3o, o ex\u00edlio interior, ou ainda a mudan\u00e7a de pr\u00e1tica\u201d. (Roudinesco &amp; Plon, 1998, Verbete Fenichel, p. 230).<\/p>\n<p>Continuando com o analisador Marie Langer, depois da luta nas Brigadas Internacionais, ela abandona a Europa, vai para Uruguai e acaba por radicar-se finalmente em Buenos Aires, onde retoma o trabalho psicanal\u00edtico. Junto a colegas argentinos e outros analistas, tamb\u00e9m imigrantes, funda em 1946 a Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Argentina (APA), a primeira na Am\u00e9rica do Sul a ser reconhecida pela IPA.<\/p>\n<p>Em 1971 ela escreveu, para um encontro da Internacional, um artigo intitulado <em>Psican\u00e1lise e\/ou revolu\u00e7\u00e3o social<\/em>, em que relatou esta hist\u00f3ria, afirmando que nos anos 30 os analistas da gera\u00e7\u00e3o jovem foram convencidos pelo grupo de analistas mais velhos a optar por uma ou pela outra. J\u00e1 naquele momento, em 1970, os analistas mais velhos acompanharam os jovens que decidiram questionar a institui\u00e7\u00e3o e construir um caminho que n\u00e3o exclu\u00edsse essas possibilidades. Langer se constituiu em porta-voz do Grupo Plataforma que, junto com o Grupo Documento, tamb\u00e9m da APA, protagonizaram a primeira cis\u00e3o por motivos ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos na hist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico. Al\u00e9m dos analistas europeus ligados \u00e0 Plataforma Internacional, j\u00e1 existiam, na Am\u00e9rica Latina, outros grupos, como aqui em S\u00e3o Paulo, que questionavam o funcionamento da SBPSP, tentando resistir ao processo de centraliza\u00e7\u00e3o de poder e isolamento ideol\u00f3gico e t\u00e9cnico que nela se instalara desde a d\u00e9cada de 60. Um destes grupos organizou-se em 1976, formado por psicanalistas, extra e intrainstitucionais \u2013 Regina Schnaiderman, Roberto Azevedo, Fabio Hermann e Isaias Melsohn<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, entre outros &#8211; e come\u00e7ou a desenvolver uma proposta de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, fundando o Curso de Psican\u00e1lise do Sedes Sapientiae, ao qual psicanalistas argentinos que emigramos para o Brasil viemos a nos incorporar (Ver Cytrynowicz, 2006). O Sedes era um lugar de acolhimento e apoio aos movimentos que lutavam contra o arb\u00edtrio, pelo retorno da democracia e a favor da transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, ao longo da Guerra Fria, em diversos graus e formas, as institui\u00e7\u00f5es oficiais estiveram submissas aos regimes ditatoriais, e at\u00e9, por vezes, sintonizadas com eles, fato do qual no Brasil existiram exemplos flagrantes, como o relatado em <em>N\u00e3o conte a ningu\u00e9m<\/em>, de Helena Besserman Vianna (1994), e tamb\u00e9m os analisados recentemente por Marilucia Meirelles no lan\u00e7amento e apresenta\u00e7\u00e3o do livro <em>Ditadura civil-militar no Brasil: o que a psican\u00e1lise tem a dizer<\/em>, do Departamento de Psican\u00e1lise (Arantes, M. A. e Ferraz, F., 2016).<\/p>\n<p>Do ponto de vista pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, as atitudes, principalmente dos dirigentes e de muitos membros das Sociedades Psicanal\u00edticas ligadas \u00e0 IPA \u2013 que naquela ocasi\u00e3o congregavam um n\u00famero bem expressivo de membros \u2013 foram de aus\u00eancia e ambiguidade, disfar\u00e7ando t\u00e1cito apoio ao regime autorit\u00e1rio (Meirelles, 2016).<\/p>\n<p>Solicitados por organismos federativos regionais, omitiam solidarizar-se publicamente com o analista uruguaio Marcelo Vi\u00f1ar, por exemplo, alegando que os estatutos da institui\u00e7\u00e3o proibiam pronunciamentos sobre assuntos pol\u00edticos, mas n\u00e3o deixavam de expressar, por carta, seu desejo de que o colega afetado (preso e sob tortura) \u201c&#8230;estivesse gozando de sa\u00fade, esperando que seu caso se resolvesse satisfatoriamente\u201d (idem, p. 2). Vemos que os sintomas institucionais identificados por Rodrigu\u00e9 se reproduzem ao longo do tempo, ganhando fei\u00e7\u00f5es t\u00e3o absurdas quanto tr\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Os acontecimentos na Sociedade Psicanal\u00edtica do Rio de Janeiro, referidos ao \u201ccordeiro-lobo\u201d, se revestem de uma gravidade sem compara\u00e7\u00e3o; descobre-se a\u00ed que um candidato em forma\u00e7\u00e3o, o Dr. Am\u00edlcar Lobo, atuava, paralela e clandestinamente, como tenente-m\u00e9dico das equipes de tortura, com o codinome de \u201cDr. Cordeiro\u201d. Este permanecia na institui\u00e7\u00e3o como candidato Am\u00edlcar Lobo, mesmo que j\u00e1 fosse conhecida sua participa\u00e7\u00e3o criminosa. Helena Besserman Vianna, a analista carioca que denunciou o fato atrav\u00e9s de uma carta an\u00f4nima dirigida a Marie Langer, foi identificada atrav\u00e9s de uma investiga\u00e7\u00e3o grafol\u00f3gica de perfil claramente policial, encomendada pelas autoridades locais. \u201cN\u00e3o conte a ningu\u00e9m\u201d, foi a orienta\u00e7\u00e3o dada para a autora de dita carta, em 1993, por um alto diretor da IPA, frente ao relato desta s\u00e9rie de acontecimentos. \u00c9 o contr\u00e1rio da posi\u00e7\u00e3o assumida publicamente por Langer junto a Armando Bauleo, no livro <em>Cuestionamos II<\/em> em 1983: \u201cEnviamos a den\u00fancia a diversas sociedades psicanal\u00edticas, esperamos que sejam tomadas as medidas correspondentes\u201d e, acrescenta: \u201cO que mais pode se dizer frente a esta den\u00fancia? O que sentir sen\u00e3o horror e indigna\u00e7\u00e3o? (&#8230;). Sem nenhuma d\u00favida a sobreviv\u00eancia institucional pode implicar um alt\u00edssimo pre\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise institucionalizada havia silenciado mais uma vez. Publicado em 1997, o livro sacudiu o <em>establishment<\/em> psicanal\u00edtico com a den\u00fancia desse encobrimento, tendo diversos desdobramentos dentro do movimento psicanal\u00edtico. Quando perguntam a Ren\u00e9 Major, em 2003, por que criou os <em>Estados Gerais da Psican\u00e1lise<\/em>, ele responde:<\/p>\n<p>\u201cO principal motivo veio do esquecimento, do recalcamento e mesmo da ignor\u00e2ncia intr\u00ednseca da pol\u00edtica no movimento psicanal\u00edtico. A hist\u00f3ria da psican\u00e1lise no Brasil teve um papel desencadeador nessa tomada de consci\u00eancia.\u201d Foi durante o lan\u00e7amento do livro de Besserman Vianna em Paris, do qual ele fez o pref\u00e1cio, que foi decidida a convoca\u00e7\u00e3o dos Estados Gerais.<\/p>\n<p>Tivemos que tomar conhecimento dos sintomas que podem produzir na realidade a implica\u00e7\u00e3o desconhecida da dimens\u00e3o pol\u00edtica na transmiss\u00e3o da experi\u00eancia anal\u00edtica e nas institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas. Os sintomas que se manifestaram no Rio n\u00e3o eram apenas locais ou regionais, mas internacionais, pois diziam respeito a todo o movimento desde a Segunda Guerra (Duarte-Plon, 2003).<\/p>\n<p>A ideologia fascista involucrada em processos institucionais que davam sustenta\u00e7\u00e3o a poderes autorit\u00e1rios e ditatoriais j\u00e1 havia sido denunciada e analisada nos debates europeus dos anos 70. Em um col\u00f3quio sobre psican\u00e1lise e pol\u00edtica em Mil\u00e3o, Philippe Sollers valorizava a posi\u00e7\u00e3o de Reich pondo \u00eanfase na quest\u00e3o do fascismo.<\/p>\n<p>\u201cQuem pode afirmar que o fascismo seja um perigo descartado, quando se implanta em toda Am\u00e9rica do Sul, est\u00e1 vivo na Europa e carcome os pa\u00edses revisionistas? (..). \u00c9 preciso ter do fascismo um conhecimento preciso, claro, sem pudor. Uma pol\u00edtica sem psican\u00e1lise, e uma psican\u00e1lise sem pol\u00edtica constitui hoje o risco mesmo do fascismo nos pa\u00edses capitalistas industrializados!\u201d (Sollers,1974)<\/p>\n<p>Qual era o panorama te\u00f3rico institucionalizado no qual se inseriu a gera\u00e7\u00e3o que encarava a forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica entre os anos 60 e 70, quando a pol\u00edtica voltou a se fazer presente? Na concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica da vida ps\u00edquica estava ausente a dimens\u00e3o do social, a significa\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o havia sido exclu\u00eddo somente Reich. Havia sido exclu\u00eddo tamb\u00e9m o Freud que revolucionou a cultura, o que tinha contribui\u00e7\u00f5es importantes a fazer sobre o social e sobre a pol\u00edtica. Assim o testemunham v\u00e1rios de seus trabalhos, como <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do Eu<\/em>, <em>Por que a guerra?<\/em> e <em>Mois\u00e9s e o monote\u00edsmo<\/em>. Era o Freud que afirmava que uma cultura que n\u00e3o satisfaz um n\u00famero t\u00e3o grande de seus integrantes e os impulsiona para a rebeli\u00e3o, n\u00e3o tem a possibilidade de conservar-se definitivamente \u2013 e nem o merece.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, analistas dos anos 70, tinha sentido a aproxima\u00e7\u00e3o entre Marx e Freud. Estud\u00e1vamos os dois. Na reflex\u00e3o te\u00f3rica sobre a ideologia, Althusser, com sua forte presen\u00e7a da psican\u00e1lise, nos atra\u00eda enormemente. Havia algo no tipo de pensamento que tornava Marx e Freud pr\u00f3ximos e afins.<\/p>\n<p>Este car\u00e1ter conflitual e provocador de cis\u00f5es \u2013 afirma o autor \u2013 \u00e9, por natureza, constitutivo de sua cientificidade, de sua objetividade. Em uma realidade assim, necessariamente conflitual, n\u00e3o d\u00e1 para ver tudo desde toda parte. N\u00e3o se pode ver, a n\u00e3o ser ocupando uma determinada posi\u00e7\u00e3o no conflito e n\u00e3o outra, n\u00e3o se deixando arrastar pelas ilus\u00f5es da ideologia dominante. \u00c9 preciso desenvolver posi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas materialistas, dial\u00e9ticas, que s\u00e3o posi\u00e7\u00f5es de classe, para poder conhecer o que \u00e9 encoberto, o que \u00e9 velado pela ideologia.<\/p>\n<p>Maquiavel dizia que h\u00e1 que ser povo para conhecer os pr\u00edncipes. Althusser parafraseia: para compreender o capital; ter reconhecido sua exist\u00eancia, ter compartilhado suas lutas. N\u00e3o existe nenhum outro meio al\u00e9m da pr\u00e1tica, para que esse deslocamento aconte\u00e7a. \u201cAgora bem\u201d \u2013 sublinha \u2013 \u201c<em>para um intelectual n\u00e3o existe nenhuma outra maneira que ser povo, que converter-se em povo por meio da experi\u00eancia pr\u00e1tica da luta desse povo<\/em>\u201d (p. 117, it\u00e1lico do autor).<\/p>\n<p>Cabe questionar esse conceito de convers\u00e3o, que tem resson\u00e2ncias tanto psicanal\u00edticas como hist\u00f3ricas, as convers\u00f5es religiosas. Esta palavra &#8211; <em>povo <\/em>\u2013 mexia com muitos de n\u00f3s, pois nos v\u00edamos integrando o campo popular. N\u00f3s \u00e9ramos parte do povo, e de povos em luta. H\u00e1 algo para pensar, nesta linha, quanto aos processos de ressignifica\u00e7\u00e3o e ressubjetiva\u00e7\u00e3o envolvidos nas experi\u00eancias transformadoras, que operam rupturas. Freud teve que deslocar-se subjetivamente de uma posi\u00e7\u00e3o de superioridade m\u00e9dica e de g\u00eanero, para poder escutar as pacientes hist\u00e9ricas. Teve que deixar que se fizessem ouvir, acolher suas ideias, reconhecer e teorizar a \u201climpeza da chamin\u00e9\u201d proposta e sustentada por elas, mudar sua t\u00e9cnica inicial: assim p\u00f4de ver a sexualidade infantil falando em seus sintomas corporais. Porque \u00e9 necess\u00e1rio um deslocamento do ponto geogr\u00e1fico de observa\u00e7\u00e3o, dentro de um sistema, para poder desvelar uma realidade encoberta.<\/p>\n<p>Foi preciso tamb\u00e9m sair para as ruas nas manifesta\u00e7\u00f5es, para reconhecer a cidade e come\u00e7ar a entender a pol\u00edtica do espa\u00e7o, da circula\u00e7\u00e3o e da n\u00e3o circula\u00e7\u00e3o, da rebeldia latente e seu sufocamento permanente, as ruas s\u00f3 para os carros, a falta de espa\u00e7os p\u00fablicos, at\u00e9 que algo se quebrasse, acionando o sufocar agudo por parte da tropa de choque.<\/p>\n<p>S\u00e3o acontecimentos associados \u00e0 viol\u00eancia da repress\u00e3o policial ou militar contra movimentos de protesto, contra injusti\u00e7as, os que levam \u00e0 assun\u00e7\u00e3o de um compromisso pol\u00edtico e um engajamento na luta. Para Reich, foi a experi\u00eancia da greve que aconteceu em Viena em 16 de julho de 1927. Ele <em>estava<\/em> l\u00e1. \u201cSe me dediquei ao movimento de higiene mental, n\u00e3o foi precisamente para curar algumas pessoas ou melhorar sua sa\u00fade: comecei depois desse dia, quando foram mortas cem pessoas na rua e feridas umas mil\u201d &#8230; (Reich, citado por Langer, 1973, p. 9). O movimento na Argentina surgiu como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 repress\u00e3o no Cordobazo, em 1969, que deslanchou uma greve geral \u00e0 qual os analistas aderiram. Nos diversos casos trata-se de observa\u00e7\u00f5es e interroga\u00e7\u00f5es impregnadas de uma inquietante estranheza. Reich se pergunta sobre essa inibi\u00e7\u00e3o submissa, essa passividade por parte dos manifestantes.\u00a0Por que os repressores s\u00e3o t\u00e3o violentos e indiferentes ao sofrimento, tratando-se de pessoas de sua pr\u00f3pria classe social?<\/p>\n<p>Marcelo Freixo fala da mesma coisa no artigo Exterm\u00ednio, publicado pela <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em> de 5 de julho de 2016: policiais militares, muitas vezes negros, pobres e favelados, matando meninos negros, pobres e favelados. Matando e morrendo em n\u00famero crescente.<\/p>\n<p>Ser afetado pelo sofrimento dos outros desloca o observador implicado dos lugares \u201cnaturais\u201d, e este deslocamento \u00e9 pol\u00edtico; desloca-nos dos lugares institu\u00eddos, de nosso pertencimento ao estabelecido, de nossas identidades fixadas, em fun\u00e7\u00e3o de um reconhecimento solid\u00e1rio frente \u00e0 injusti\u00e7a, o desamparo que nos demanda, nos convoca, nos induz a uma responsabilidade.<\/p>\n<p>Foi preciso, como destacam quase todos os autores, que Reich sa\u00edsse do consult\u00f3rio cl\u00ednico para as manifesta\u00e7\u00f5es de rua em 1927 para que decidisse se engajar na luta pol\u00edtica. Mas foi preciso, tamb\u00e9m, passar pela indaga\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica sobre a articula\u00e7\u00e3o entre as condi\u00e7\u00f5es subjetivas (para a revolu\u00e7\u00e3o social) e o questionamento da moral sexual burguesa, atrav\u00e9s da experi\u00eancia multiplicadora de Sex-Pol<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, ou seja, deslocar-se para outros lugares, outras parcerias e outros modos de interlocu\u00e7\u00e3o e agir sobre uma realidade, para se lan\u00e7ar em outro modo de a\u00e7\u00e3o em 1933 \u2013 a escrita do livro sobre psicologia de massas do fascismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A psicologia de massas do fascismo<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o novas perguntas emergindo tamb\u00e9m de novos acontecimentos pol\u00edticos o que leva Reich a escrever uma de suas obras mais importantes: a <em>Psicologia de massas do fascismo<\/em>. Por que a proposta socialista, com seus ideais de liberdade e igualdade, foi derrotada nas urnas, subjugada pela ideologia nacional-socialista? Hitler chega ao poder pela via eleitoral e este \u00e9 o fato mais inquietante, o fato maldito, para as for\u00e7as de esquerda, e que requer novas respostas.<\/p>\n<p>Foi a pr\u00e1tica em Sex-Pol a que lhe possibilitou ver, por exemplo, a crise em que estava imersa a juventude. Ver de que maneira e at\u00e9 que ponto a moral autorit\u00e1ria implantada desde a inf\u00e2ncia, atrav\u00e9s da repress\u00e3o sexual inerente ao patriarcado, entrava em choque com novos valores morais, formas de vida e concep\u00e7\u00f5es de mundo que irrompiam na cena social, sinalizados pelos movimentos art\u00edsticos de vanguarda, revolucion\u00e1rias descobertas cient\u00edficas, a onda de impacto produzida pela Revolu\u00e7\u00e3o Russa, a luta pelos direitos sociais da mulher, as formula\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise e a franqueza maior com a qual as quest\u00f5es sexuais come\u00e7avam a ser abordadas. Por outro lado, o jovem carregava em sua estrutura uma moral autorit\u00e1ria, milenarmente patriarcal e sexo-negativa. Este conflito axial tornava o jovem ap\u00e1tico e temeroso de se responsabilizar por seu pr\u00f3prio destino. \u201cAs massas, frustradas sexualmente, tornam-se neur\u00f3ticas, e o neur\u00f3tico sabe sofrer mas n\u00e3o sabe lutar\u201d, dir\u00e1 mais tarde Marie Langer, comentando as conclus\u00f5es de Reich (Langer, p. 9): \u201cNa verdade Hitler nada mais representava do que a express\u00e3o da tr\u00e1gica contradi\u00e7\u00e3o entre o anseio por liberdade e o medo real da liberdade\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> (Reich, 1942).<\/p>\n<p>\u00c9 nesse campo ideol\u00f3gico contradit\u00f3rio que o nazismo vai explorar e manipular a ideologia nacionalista, racista, da honra e do dever, da disciplina e da exalta\u00e7\u00e3o da virilidade.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um ponto importante a destacar de come\u00e7o: a an\u00e1lise que faz Reich da psicologia de massas da classe m\u00e9dia, em fun\u00e7\u00e3o do papel determinante que lhe coube naquelas elei\u00e7\u00f5es. O sucesso de Hitler n\u00e3o est\u00e1 em sua personalidade nem em sua ideologia objetiva e n\u00e3o se explica por uma \u201cmistifica\u00e7\u00e3o\u201d das massas induzida desde fora. A quest\u00e3o central \u00e9 saber o que acontecia no seio das massas para que elas se unissem a um partido cujos chefes perseguiam uma pol\u00edtica oposta aos interesses dos trabalhadores. O nacional-socialismo p\u00f4s a descoberto o conjunto de contradi\u00e7\u00f5es que caracterizam a psicologia de massas da pequena burguesia.<\/p>\n<p>Reich produz uma an\u00e1lise detalhada e penetrante de cada um dos elementos dessa complexidade, e de como eles operam de modo diverso diante do agravamento da crise. Destacamos a seguir alguns aspectos.<\/p>\n<p>O pequeno burgu\u00eas n\u00e3o pode solidarizar-se, nem com a pr\u00f3pria camada social, nem tampouco com o proletariado; com a pr\u00f3pria camada social, porque nela reina a concorr\u00eancia e, com o proletariado industrial, porque o que ele mais teme \u00e9 precisamente a proletariza\u00e7\u00e3o (p. 46).<\/p>\n<p>O nacional-socialismo \u00e9 o que lhe trar\u00e1 a possibilidade de um sentimento de uni\u00e3o. Como se forma e se sustenta dito sentimento? O fato de que o movimento fascista tenha podido unificar a pequena burguesia se explicar\u00e1 pela psicologia de massas.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias \u00e9 determinada pela sua posi\u00e7\u00e3o no modo produ\u00e7\u00e3o capitalista, pela sua posi\u00e7\u00e3o no aparelho do estado capitalista, pela situa\u00e7\u00e3o familiar particular, que \u00e9 determinada diretamente pelo processo de produ\u00e7\u00e3o, mas que fornece a chave para compreender a sua ideologia.<\/p>\n<p>Podemos comprov\u00e1-lo no fato de que os pequenos camponeses, funcion\u00e1rios e comerciantes m\u00e9dios mostram diferen\u00e7as econ\u00f4micas entre si, mas se caracterizam por uma situa\u00e7\u00e3o familiar, em seus grandes tra\u00e7os, id\u00eantica\u201d (p. 44).<\/p>\n<p>A consci\u00eancia social do funcion\u00e1rio do Estado e do empregado m\u00e9dio n\u00e3o se caracteriza pela consci\u00eancia de uma comunidade de destino com seus colegas de trabalho, mas por sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade e \u00e0 na\u00e7\u00e3o. \u201cEsta posi\u00e7\u00e3o consiste no funcion\u00e1rio p\u00fablico <em>numa completa identifica\u00e7\u00e3o com o poder de estado<\/em>; no empregado, numa identifica\u00e7\u00e3o com a empresa que serve\u201d (Reich, 1933, pp. 46-47, it\u00e1lico do autor). Tudo se resume a uma f\u00f3rmula: \u201cEu sou o estado, a autoridade, a empresa, a na\u00e7\u00e3o\u201d; esta identifica\u00e7\u00e3o \u201crepresenta uma <em>realidade ps\u00edquica<\/em> e constitui um dos melhores exemplos de uma ideologia transformada em for\u00e7a material\u201d (p. 47, it\u00e1lico meu).<\/p>\n<p>Trata-se, ent\u00e3o, de algo da ordem do ser, que o coloca acima do prolet\u00e1rio e no meio, entre ele e a autoridade. Reich explicita claramente o sentido do conceito de identifica\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise e que, conforme sabemos, foi amplamente trabalhado por Freud em <em>Psicologia de massas e an\u00e1lise do Eu<\/em> como determinante constitutivo da estrutura de uma massa psicol\u00f3gica, pela dupla identifica\u00e7\u00e3o dos membros com o l\u00edder e consequentemente entre seus Eus.<\/p>\n<p>Esta identifica\u00e7\u00e3o vertical n\u00e3o daria lugar a uma identifica\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria lateral com seus colegas, com sua classe, n\u00e3o s\u00f3 em raz\u00e3o da concorr\u00eancia, mas tamb\u00e9m porque o que galvaniza o sujeito \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria que ocupa entre a autoridade e o trabalhador manual ou prolet\u00e1rio. \u00c9 um subalterno com respeito a essa autoridade, e um representante da mesma em suas rela\u00e7\u00f5es com seus subordinados, gozando, por esse motivo, de uma especial prote\u00e7\u00e3o moral (n\u00e3o material). Poder\u00edamos dizer que se trata de um halo protetor, de uma investidura emblem\u00e1tica, de um efeito fetich\u00edstico, resultado de um processo que come\u00e7a com buscar parecer-se com seus superiores idealizados, para ir transformando-se em algo \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a da classe dominante. \u201cCom o olhar constantemente virado para o alto, o pequeno burgu\u00eas forma uma forquilha [ou acaba por cavar uma fossa segundo a tradu\u00e7\u00e3o em espanhol]<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> entre sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e sua ideologia\u201d (p. 47). Vive em condi\u00e7\u00f5es de pen\u00faria, mas se preocupa antes de mais nada com a apar\u00eancia, o chap\u00e9u alto e a casaca, como manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel desse olhar. N\u00e3o aparece no texto uma refer\u00eancia expl\u00edcita ao conceito de fetiche na explica\u00e7\u00e3o do fetichismo, introduzido por Freud no trabalho com esse t\u00edtulo, de 1927, mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil reconhecer sua poss\u00edvel pertin\u00eancia nesse valioso estudo sobre a ideologia da pequena burguesia, assim como a resson\u00e2ncia na ideia de \u201cforquilha\u201d ou de \u201cfossa que \u00e9 cavada\u201d do conceito de cis\u00e3o ou clivagem vertical do Eu, entre o reconhecimento, em uma parte, de uma realidade factual mas recusada (<em>verleugnen<\/em>) em sua significa\u00e7\u00e3o angustiante, e regi\u00f5es em que domina a ader\u00eancia a uma cren\u00e7a narc\u00edsica onipotente \u00e0 que n\u00e3o se renuncia, sustentada pelo investimento perceptual repetitivo e estereotipado do fetiche.<\/p>\n<p>Reich estuda assim modos de subjetiva\u00e7\u00e3o associados a determinadas formas de vida a partir de uma observa\u00e7\u00e3o muito detalhada, de um mergulho na vida social e pol\u00edtica, de um \u201cp\u00f4r a m\u00e3o na massa\u201d. Como a pequena burguesia \u00e9 o pilar principal da ordem autorit\u00e1ria, esta atribui grande import\u00e2ncia \u00e0 \u201cintegridade dos costumes\u201d e \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o de toda \u201cinflu\u00eancia inferior\u201d, sendo a fam\u00edlia o piv\u00f4 da pol\u00edtica cultural.<\/p>\n<p>Assim ver\u00e1 at\u00e9 que ponto ser portador de uma moral de honra e dever, originada na fam\u00edlia, implicar\u00e1 em possuir uma diferen\u00e7a essencial, uma superioridade ligada a uma identidade nacional e racial, que servir\u00e1 de suporte a movimentos massivos de estigmatiza\u00e7\u00e3o xen\u00f3foba e moralista focada em determinados indiv\u00edduos e grupos inferiores ou propiciadores da decad\u00eancia da sociedade \u2013 primeiro e principalmente judeus, negros, ind\u00edgenas, doentes mentais, comunistas, pervertidos sexuais, doentes cr\u00f4nicos. Esses movimentos ser\u00e3o impulsionados por estrat\u00e9gias discursivas e pr\u00e1ticas de controle, associadas aos diferentes poderes institu\u00eddos \u2013 e socioecon\u00f4micos, pol\u00edticos, religiosos, jur\u00eddicos, policiais, militares, m\u00e9dico-higienistas etc. \u2013, com forte apoio educacional e midi\u00e1tico, que desembocar\u00e1 em pol\u00edticas de segrega\u00e7\u00e3o e aniquilamento, tanto em territ\u00f3rio alem\u00e3o como nos pa\u00edses anexados e dominados pela expans\u00e3o militar imperialista.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o eixo em torno do qual se organiza a ideologia fascista alem\u00e3 e sua teoria racial: \u201cA tarefa mais nobre de uma na\u00e7\u00e3o consiste em salvaguardar a pureza da ra\u00e7a, e salvaguard\u00e1-la da mesti\u00e7agem, que a conduz sempre \u00e0 decad\u00eancia da ra\u00e7a superior\u201d. Esta ideologia se apoia em raz\u00f5es \u201cnaturais\u201d (sele\u00e7\u00e3o natural, sobreviv\u00eancia do mais forte) mas Reich destaca que <em>mescla de sangue<\/em> (<em>Blutschande<\/em>) tamb\u00e9m implica pecado, contrariar a vontade do Criador eterno. H\u00e1 em jogo uma ideologia pol\u00edtica nacionalista e imperialista, mas tamb\u00e9m fantasias inconscientes de forte carga afetiva: a outra acep\u00e7\u00e3o de <em>Blutschande<\/em> \u00e9 incesto.<\/p>\n<p>A estrutura\u00e7\u00e3o subjetiva do fascista se caracteriza, assim, pelo pensamento metaf\u00edsico, o sentimento religioso, a submiss\u00e3o a ideais abstratos e morais, e a cren\u00e7a na miss\u00e3o divina do <em>F\u00fchrer<\/em>, sobre um subsolo de ades\u00e3o submissa a um ideal de l\u00edder e de na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o que estabelece a massa com o l\u00edder est\u00e1 presente tamb\u00e9m esta identifica\u00e7\u00e3o profunda e fusional com ele e com a p\u00e1tria, a na\u00e7\u00e3o, que ele encarna, que ele \u00e9. O l\u00edder constr\u00f3i seu discurso sem necessidade de argumentos, baseado num apelo afetivo direto, de modo a propiciar essa identifica\u00e7\u00e3o. Isto nos lembra uma declara\u00e7\u00e3o, em junho de 2016, do deputado J. Bolsonaro, referida ao povo, em ocasi\u00e3o de responder se adequaria seu discurso \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de pr\u00e9-candidatura: \u201cCostumo dizer que n\u00e3o falo o que o povo quer. <em>Eu sou<\/em> o que o povo quer\u201d (it\u00e1lico meu). Trata-se aqui, novamente, de algo no sentido de um ser: um ser todo completo, autossuficiente, que n\u00e3o representa \u2013 haja vista a exist\u00eancia de uma crise de representatividade \u2013, que n\u00e3o precisa de mandato, que \u00e9 propriamente o soberano absoluto, ao modo do pai primevo onipotente e desp\u00f3tico da horda primitiva postulado por Freud. Esta figura pol\u00edtica que vinha obtendo n\u00fameros significativos nas pesquisas, j\u00e1 havia protagonizado diversos epis\u00f3dios de resson\u00e2ncia como sua homenagem p\u00fablica, durante o <em>impeachment<\/em>, ao Coronel Brilhante Ustra, torturador que chefiou um dos maiores \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o da ditadura; suas tomadas de posi\u00e7\u00e3o sexistas, homof\u00f3bicas e de justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra a mulher, com forte implica\u00e7\u00e3o pessoal, assim como suas manifesta\u00e7\u00f5es depreciativas para com a imagem dos membros das minorias \u00e9tnicas mostram claros sinais do perfil fascista descrito. Somam-se as amea\u00e7as condenat\u00f3rias e de puni\u00e7\u00f5es armadas dirigidas aos marxistas, promovendo um retrocesso em rela\u00e7\u00e3o ao pacto civilizat\u00f3rio atrav\u00e9s de liberaliza\u00e7\u00e3o das normas de armamento da sociedade civil e o direito a matar com menos justificativas por parte das for\u00e7as militares.<\/p>\n<p>O <em>fato inaudito<\/em> destas evid\u00eancias de fascismo \u00e9 que um pr\u00e9-candidato, em ascens\u00e3o em novembro de 2016, se transforma no <em>fato maldito<\/em> em novembro de 2018, ao vencer o primeiro e segundo turno das elei\u00e7\u00f5es. As perguntas sobre o porqu\u00ea, sobre como isto foi poss\u00edvel, voltam a colocar-se com toda for\u00e7a e urg\u00eancia: n\u00e3o d\u00e1 para dizer que n\u00e3o se sabia do que se tratava. Como explicar esta ades\u00e3o? A classe m\u00e9dia voltou a desempenhar seu papel. Igual ao candidato da ultradireita, \u00e9 uma classe \u201cferida\u201d. Revoltada contra o desempenho estrutural, sob o perigo real de proletariza\u00e7\u00e3o, amea\u00e7ada pelo sentimento de fracasso derivado de sua ideologia de desempenho e sua mentalidade de carreira, tem despejado majoritariamente sua culpa autoagressiva e autodestrutiva sobre um bode expiat\u00f3rio: o PT esquerdista e corrupto. A ideologia fascista serviu para projetar para fora esta agress\u00e3o, configurando um la\u00e7o paranoico que impregna o ambiente pol\u00edtico cultural, incrementa a hostilidade e empobrece a reflex\u00e3o e o debate.<\/p>\n<p>O antipetismo \u00e9 incentivado atrav\u00e9s da campanha midi\u00e1tica a servi\u00e7o das elites, como meio de colonizar o sentimento antipopular de sua classe aliada e tropa de choque de seus interesses. \u00d3dio e desprezo pelo povo, encobertos por um \u00f3dio e desprezo pela pol\u00edtica, destinados a impedir \u2013 e isto \u00e9 o fundamental \u2013 a identifica\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias com os mais pobres que \u201cprecisam\u201d, esses sim, da pol\u00edtica. O medo da proletariza\u00e7\u00e3o de que sofrem estas classes m\u00e9dias \u00e9 um dos elementos mais importantes das ideologias totalit\u00e1rias e agressivas, a pr\u00f3pria sensibilidade moral demonstra a superioridade moral que falta \u00e0s pessoas inferiorizadas, que aceitam a corrup\u00e7\u00e3o seletiva porque, supostamente, sobrevivem \u00e0s custas do Estado. Por a\u00ed \u00e9 que medra o bolsonarismo, que se expressar\u00e1 no \u00f3dio ao pobre e \u00e0 sua representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a esquerda, abrindo o caminho para sua criminaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem os odeia mostra que n\u00e3o \u00e9 um deles, transfigurando seu desapre\u00e7o antipopular em virtude moral. \u201cSe n\u00e3o me dei bem foi por causa deles\u201d. Este parece ser o conte\u00fado crucial da pr\u00e9dica neofascista de Bolsonaro. Sem explicitar qualquer tipo de proposta pol\u00edtica, ela expressa o \u00f3dio e a frustra\u00e7\u00e3o de classe dos amea\u00e7ados pela decad\u00eancia social (Souza, 2018).<\/p>\n<p>Uma parte menor, por\u00e9m importante, da classe m\u00e9dia apoiava o candidato petista e se sentiu representada, configurando a base potencial para constituir uma frente antifascista entre o primeiro e o segundo turno eleitorais. Os psicanalistas brasileiros comprometidos na luta apoiaram ativamente este movimento em defesa dos direitos conquistados e em apoio \u00e0 democracia \u2013 e continuam a faz\u00ea-lo \u2013 atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de diversos espa\u00e7os de articula\u00e7\u00e3o e express\u00e3o. Formaram amplas redes organizativas, emitiram declara\u00e7\u00f5es coletivas, difundiram-nas dentro e fora do Brasil, publicaram-nas em FLAPPSIP. Tamb\u00e9m se manifestaram individualmente, em duplas e pequenos grupos, atrav\u00e9s de entrevistas nas redes sociais. Criaram em seus \u00e2mbitos institucionais dispositivos como as rodas de conversa, horizontais e espont\u00e2neas, abertas a uma escuta ampla, solid\u00e1ria e reflexiva, das demandas emergentes.<\/p>\n<p>Entretanto, a frente pol\u00edtica antifascista n\u00e3o prosperou. Acabou por ser consagrado um pol\u00edtico de ultradireita, negacionista da ditadura militar, autorit\u00e1rio e fascista, como presidente do Brasil.<\/p>\n<p>Jess\u00e9 Souza, intelectual e soci\u00f3logo brasileiro de cujo livro <em>A classe m\u00e9dia no espelho: sua hist\u00f3ria, seus sonhos e ilus\u00f5es, sua realidade<\/em> (2018) podemos extrair muitas ideias que permitem continuar e aprofundar as an\u00e1lises iniciadas por Reich, afirma o seguinte: \u201cMedo e agressividade \u00e9 o verdadeiro ar que todo fascismo respira. Foi a aus\u00eancia hist\u00f3rica de um contradiscurso que se opusesse \u00e0 narrativa dominante do que ele denomina o liberalismo vira-lata, o que jogou a classe m\u00e9dia no colo da elite conservadora. A classe m\u00e9dia rompeu o pacto democr\u00e1tico para abra\u00e7ar a ideia de que a corrup\u00e7\u00e3o do estado \u00e9 a fonte de todos os males do Brasil e n\u00e3o o assalto \u2018legalizado\u2019 realizado pelos bancos e as grandes corpora\u00e7\u00f5es.\u201d &#8230; \u201cA elite econ\u00f4mica conseguiu consolidar, junto a seus intelectuais e sua imprensa, a ideia de que o empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o teria sido causado pela corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O v\u00ednculo org\u00e2nico entre empobrecimento e corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 uma mentira. \u00c9 \u00f3bvio que a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 recrimin\u00e1vel, mas n\u00e3o foi ela que deixou a popula\u00e7\u00e3o mais pobre. Esta \u00e9 a grande quest\u00e3o que ficou fora do quadro. E era o que importava nas elei\u00e7\u00f5es\u201d, afirma o autor.<\/p>\n<p>O privil\u00e9gio da classe m\u00e9dia, que corresponde a 20 por cento da popula\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 principalmente o acesso ao capital cultural, ou seja, conhecimento, cursos, l\u00ednguas, universidades etc. Isto explica, por exemplo, a raiva de parte da classe m\u00e9dia ao ver pobres entrando na universidade, que era seu <em>bunker<\/em>, que garantiria sal\u00e1rios melhores, reconhecimento e prest\u00edgio.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do papel desempenhado pelo fascismo em suas diversas formas, nos come\u00e7os da Modernidade e na \u00e9poca dos regimes totalit\u00e1rios do s\u00e9culo XX, assim como o papel que lhe cabe hoje no capitalismo contempor\u00e2neo, j\u00e1 vinha adquirindo relev\u00e2ncia no debate pormenorizado em torno dos acontecimentos pol\u00edticos dos \u00faltimos tempos no continente, nos Estados Unidos e na Europa. Entretanto, depois dos \u00faltimos acontecimentos no Brasil, imp\u00f5e-se a necessidade de instaurar este debate na Am\u00e9rica Latina, por tudo o que atravessamos, por tudo o que nos irmana, por tudo o que nos une, aprofundando e ressignificando juntos, a partir de conjunturas novas, a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>Althusser, L. (1976). Marx y Freud. In <em>Nuevos escritos: La crisis del movimiento<\/em> <em>comunista internacional frente a la teoria marxista<\/em>. Laia: Barcelona, 1978, pp. 135-197.<\/p>\n<p>Arantes, M. A. A. C. e Ferraz, F. C. (orgs) (2016) <em>Ditadura civil-militar no Brasil: o que a psican\u00e1lise tem a dizer<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p>Bedani, A. e Albertini, P. (2009). Pol\u00edtica e sexualidade na trajet\u00f3ria de Reich: Berlim (1930-1933) <em>Arquivos Brasileiros de Psicologia<\/em>. Rio de Janeiro, v. 61, no. 2.<\/p>\n<p>Besserman-Vianna, H. (1994). <em>N\u00e3o conte a ningu\u00e9m&#8230;: contribui\u00e7<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o \u00e0 hist\u00f3ria das Sociedades Psicanal\u00edticas do Rio de Janeiro<\/em>. Rio de Janeiro: Imago.<\/p>\n<p>Cytrynowicz, M. M. e Cytronowicz, R. (2006). <em>Hist\u00f3ria do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae<\/em>. S\u00e3o Paulo: Narrativa Um.<\/p>\n<p>Duarte-Plon, L. O inconsciente sociopol\u00edtico \u2013 Entrevista a Ren\u00e9 Major (2003, 12 de outubro). Folha de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo, Caderno Mais.<\/p>\n<p>Katz, C. S. (1985). <em>Psican\u00e1lise e nazismo<\/em>. Rio de Janeiro: Taurus.<\/p>\n<p>__________ (2014). N\u00e3o nos curaremos somente com palavras. Entrevista. <em>Percurso<\/em>, Ano XXIV, n. 52.<\/p>\n<p>Laclau, E. (2013). <em>A raz\u00e3o populista<\/em>. S\u00e3o Paulo: Tr\u00eas Estrelas.<\/p>\n<p>Langer, M. (1973). a) Pref\u00e1cio pp. 9-13; b) Psican\u00e1lise e\/ou revolu\u00e7\u00e3o social (1971), pp. 251-263. In Langer, M. (Comp.). <em>Questionamos a psican\u00e1lise e suas institui\u00e7<\/em><em>\u00f5<\/em><em>es<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes.<\/p>\n<p>_________ (org.) (1973). <em>Cuestionamos II: Psicoanalisis institucional y psicoanalisis sin institucion.<\/em> Buenos Aires: Granica.<\/p>\n<p>Meirelles, M. L. A. (2016). Apresenta\u00e7\u00e3o do livro <em>Ditadura civil-militar no Brasil: o que a psican\u00e1lise tem a dizer<\/em>. Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. <em>Boletim Online n. 39<\/em>.<\/p>\n<p>Reich, W. (1933). <em>Psicologia de massas do fascismo<\/em> (Tradu\u00e7\u00e3o de J. Silva Dias a partir da vers\u00e3o francesa de \u00c9ditions La Pens\u00e9e Molle). Porto: Escorpi\u00e3o, 1974.<\/p>\n<p>_________ (1933) <em>La psicologia de masas del fascismo<\/em> (Tradu\u00e7\u00e3o de R. M. Ruiz a partir da edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u0303 de Sex-Pol Verlag, Zurique, 1933). M\u00e9xico: Roca, 1973.<\/p>\n<p>________ (1933). <em>The function of the orgasm: Sex-economic problems of biological energy.<\/em> (V. R. Carfagno, trad.). London: Souvenir Press, 1942-1989, p. 236 (citado por Bedani, 2009).<\/p>\n<p>Rodrigu\u00e9, E. (1995). O caso Reich. In <em>Sigmund Freud: o s\u00e9culo da psican\u00e1lise 1895-1995. <\/em>Vol. 3, (pp. 189-198). S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p>Roudinesco, E. e Plon M. (1998). Dicion\u00e1rio de psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/p>\n<p>Sollers, P. (1974). A prop\u00f3sito da dial\u00e9tica. In Verdiglione, A. (org.) <em>Locura y sociedad segregativa <\/em>(pp. 30-52). Barcelona: Anagrama, 1976.<\/p>\n<p>Souza, Jess\u00e9. <em>A classe m\u00e9dia no espelho: sua hist\u00f3ria, seus sonhos e ilus\u00f5es, sua realidade.<\/em> Rio de Janeiro: Esta\u00e7\u00e3o-Brasil, 2018.<\/p>\n<p>Wagner, C. M. (1995). <em>Freud e Reich \u2013 Continuidade ou ruptura?<\/em> S\u00e3o Paulo: Summus Editorial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Originalmente publicado no Congresso FLAPPSIP \u2013 Configura\u00e7\u00f5es atuais da viol\u00eancia; desafios \u00e0 psican\u00e1lise latino-americana \u2013 realizado em Montevid\u00e9u em maio de 2019, atrav\u00e9s de grava\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Annie Reich, S. Bernfeld, E. Jacobson, O. Fenichel, K. Friedlander, G. Gero etc.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Ver Cytrinowicz (2006).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Movimento surgido em 1931, do primeiro congresso da Associa\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 para uma Pol\u00edtica Sexual Prolet\u00e1ria, com amplas ramifica\u00e7\u00f5es nos centros industriais, baseados em exposi\u00e7\u00f5es e debates, focados em temas cotidianos e prementes: problemas de moradia, dilemas religiosos e atitude negativista dos educadores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade e as dificuldades emocionais e sexuais vivenciadas por crian\u00e7as e adolescentes. Reich, 1933, p. 87; Bedani &amp; Albertini, 2009, pp. 4-5.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Reich, 1942, citado por Bedani, p. 236.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Reich, W. (1933) <em>La psicologia de masas del fascismo<\/em> (Tradu\u00e7\u00e3o de R. M. Ruiz da edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de Sex-Pol Verlag, Zurich, 1933). M\u00e9xico: Roca, 1973.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O movimento psicanal\u00edtico e a <em>Psicologia de massas do fascismo<\/em>. Por Mario Pablo Fuks.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[113],"tags":[96,49,92],"edicao":[114],"autor":[115],"class_list":["post-1689","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-flappsip","tag-congressos","tag-flappsip","tag-historia-da-psicanalise","edicao-boletim-63","autor-mario-pablo-fuks","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1689"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1814,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1689\/revisions\/1814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1689"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1689"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}