{"id":1697,"date":"2022-06-01T15:00:48","date_gmt":"2022-06-01T18:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1697"},"modified":"2023-03-23T20:41:22","modified_gmt":"2023-03-23T23:41:22","slug":"os-mitos-de-ewa-como-poeticas-de-encantamento-da-existencia-diante-da-angustia-e-do-desamparo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/os-mitos-de-ewa-como-poeticas-de-encantamento-da-existencia-diante-da-angustia-e-do-desamparo\/","title":{"rendered":"Os mitos de Ew\u00e1 como po\u00e9ticas de encantamento da exist\u00eancia diante da ang\u00fastia e do desamparo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Os mitos de Ew\u00e1 como po\u00e9ticas de encantamento da exist\u00eancia diante da ang\u00fastia e do desamparo<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Simone Pi\u00f1eiro Bressan Robles<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1698\" aria-describedby=\"caption-attachment-1698\" style=\"width: 296px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1698\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/b63_16a-296x300.jpg\" alt=\"\" width=\"296\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/b63_16a-296x300.jpg 296w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/b63_16a.jpg 420w\" sizes=\"(max-width: 296px) 100vw, 296px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1698\" class=\"wp-caption-text\">C\u00e9u de <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=51rqWR1oycg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ew\u00e1<\/a>. Foto de Camila Flaborea<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A proposi\u00e7\u00e3o do presente artigo \u00e9 realizar uma an\u00e1lise preliminar dos mitos de Ew\u00e1, Orix\u00e1 Feminina do Pante\u00e3o Nag\u00f4-Iorub\u00e1, \u00e0 luz da psican\u00e1lise, buscando articula\u00e7\u00f5es para pensar a ang\u00fastia e o desamparo e suas possibilidades de caminhos de cuidado, promovendo o encontro, na for\u00e7a da encruzilhada, de saberes dissociados pela colonialidade. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que, em sua dimens\u00e3o pol\u00edtica, intersubjetiva e social, a viol\u00eancia colonial e patriarcal atravessa e marca a nossa sociedade e as subjetividades, instaurando diferen\u00e7as epistemol\u00f3gicas, ontol\u00f3gicas, filos\u00f3ficas, culturais, sociais, mitol\u00f3gicas entre os povos, categorizadas como superiores\/inferiores, civilizadas\/primitivas, reproduzindo l\u00f3gicas de cis\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, produzindo efeitos traum\u00e1ticos no la\u00e7o social e nas realidades ps\u00edquicas individuais e interps\u00edquicas, intergeracionais e transgeracionais. Lembremos que o trauma \u00e9 o acontecimento origin\u00e1rio da ang\u00fastia e do desamparo.<\/p>\n<p>Encruzilhada aqui n\u00e3o \u00e9 pensada apenas como cruzamento de for\u00e7as ambivalentes que imp\u00f5e um dilema, um atravessamento e uma decis\u00e3o que envolve uma supera\u00e7\u00e3o, mas sim esse posicionamento ativo e desejante diante dos acontecimentos no curso da vida, encarnando nas encruzilhadas a for\u00e7a do v\u00ednculo, espa\u00e7o intermedi\u00e1rio potencial de transforma\u00e7\u00e3o, onde todos os elementos invocam as mat\u00e9rias de composi\u00e7\u00e3o para o que vir\u00e1, ainda desconhecido e inesperado, l\u00e1 onde nos precipitamos na beira do abismo que nos convoca a fazer pontes, escadas e, quem sabe, asas.<\/p>\n<p>Promover o encontro entre o pensamento psicanal\u00edtico e a mitologia dos Orix\u00e1s se inscreve na busca pela aproxima\u00e7\u00e3o de campos de cuidado em sa\u00fade mental, de leitura e compreens\u00e3o de mundo, de modos de subjetiva\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o social dissociados \u2013 pela tradi\u00e7\u00e3o ocidental colonialista, na sua l\u00f3gica de apropria\u00e7\u00e3o de alguns elementos da cultura negra \u2013de suas origens, que foram demonizadas, subjugadas, violentadas pelo processo de domina\u00e7\u00e3o e (de)nega\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, (re)produzindo dores e sofrimentos que nos comp\u00f5em como sujeitos e como sociedade.<\/p>\n<p>Vivenciamos esses aspectos negados como zonas inacess\u00edveis, encriptadas, carregadas de ang\u00fastia, uma vez que, como nos aponta Fanon, a l\u00f3gica colonial opera identifica\u00e7\u00f5es com o colonizador, introje\u00e7\u00e3o do sentimento de inferioridade frente a nossas origens e seus s\u00edmbolos, colocando em marcha afetos como a vergonha, a humilha\u00e7\u00e3o, a inferioridade, o n\u00e3o pertencimento e os sofrimentos da ordem do n\u00e3o reconhecimento das potencialidades e identifica\u00e7\u00f5es com a pr\u00f3pria origem, cultura e saberes ancestrais.<\/p>\n<p>O campo do origin\u00e1rio \u00e9 fundamental em psican\u00e1lise, esse momento m\u00edtico e arcaico que nos constitui como sujeitos singulares e como humanidade, que nos escapa e nos determina, e instaura a dimens\u00e3o inconsciente em seus aspectos econ\u00f4micos, t\u00f3picos e din\u00e2micos, objeto primordial da psican\u00e1lise, que tem seus in\u00fameros pontos de conflu\u00eancia com as mitologias, e nesse caso, com as mitologias dos Orix\u00e1s. A nega\u00e7\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o do origin\u00e1rio e das origens na\/da nossa cultura produzem importantes traumas narc\u00edsicos transgeracionais, materializados pelo racismo estrutural que atravessa todas as dimens\u00f5es da nossa sociedade. No entanto, atrav\u00e9s da resist\u00eancia negra, ind\u00edgena e das pol\u00edticas afirmativas, tais viol\u00eancias v\u00eam cada vez mais sendo denunciadas e combatidas, ganhando visibilidade e, finalmente, espa\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que honra sua diversidade, multiplicidade, interculturalidade, revelando a\u00ed suas pot\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00c9 desse mesmo campo do origin\u00e1rio que vemos emergir tamb\u00e9m a problem\u00e1tica do desamparo, condi\u00e7\u00e3o humana que nos lan\u00e7a de forma radical no encontro com o outro e funda a complexidade da vida ps\u00edquica e interps\u00edquica, num cont\u00ednuo trabalho de lidar com as puls\u00f5es de vida e de morte que nos habitam, com a alteridade, com a singularidade das for\u00e7as desejantes, com os lutos e renascimentos que vamos tecendo na trama da exist\u00eancia. Esse nosso tecido social t\u00e3o desfiado pela viol\u00eancia colonial, pela viol\u00eancia de Estado, pela viol\u00eancia do patriarcado, que desde as popula\u00e7\u00f5es expostas \u00e0s mais duras vulnerabilidades sociais at\u00e9 \u00e0s mais de 600.000 pessoas mortas na pandemia gerida por um governo genocida, e seus milh\u00f5es de enlutados, provocou de modo t\u00e3o intenso e sens\u00edvel a for\u00e7a sombria da ang\u00fastia e do desamparo.<\/p>\n<p>\u00c9 pr\u00f3prio das m\u00e1quinas colonizadoras a produ\u00e7\u00e3o de dissocia\u00e7\u00f5es, cis\u00f5es, separa\u00e7\u00f5es, categoriza\u00e7\u00f5es enrijecidas, que visam segregar mundos para melhor domin\u00e1-los. Tamb\u00e9m \u00e9 pr\u00f3prio da modernidade seu projeto de ordena\u00e7\u00e3o, de divis\u00e3o, de um excesso de conceitua\u00e7\u00e3o, em uma busca incessante de apropria\u00e7\u00e3o do real, como nos aponta Maia. No entanto, n\u00e3o s\u00f3 de sofrimento e indetermina\u00e7\u00e3o vivemos como resposta p\u00f3s-moderna, tamb\u00e9m investimos o lugar de encontro libert\u00e1rio entre o ancestral e o contempor\u00e2neo, implicado com a interculturalidade, a diversidade, a multiplicidade da exist\u00eancia.\u00a0 Assim, reivindico aqui a ousadia e o atrevimento exus\u00edaco, para articular na encruza saberes para promover a abertura e a liberdade do pensamento, tantas vezes interditos nas clausuras epistemol\u00f3gicas da l\u00f3gica ocidental.<\/p>\n<p><strong>Exu, o mensageiro da \u00c9tica desejante<\/strong><\/p>\n<p>Para ativar a for\u00e7a da encruzilhada, de seus cruzos, da amarra\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e as mitologias dos Orix\u00e1s, e mais especificamente Ew\u00e1, \u00e9 preciso primeiramente invocar Exu, orix\u00e1 demonizado pela cultura colonizadora, por representar justamente aquilo que n\u00e3o \u00e9 domestic\u00e1vel, aquilo que escapa a qualquer forma de subordina\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a subversiva capaz de inventar mundos, por ocupar as frestas, romper com dicotomias, devir-boca antropof\u00e1gica que tudo engole e devolve ao mundo investido de pot\u00eancia e for\u00e7a de cria\u00e7\u00e3o. Exu \u00e9 abertura para composi\u00e7\u00e3o e encontro entre as diferen\u00e7as. Exu evoca a pr\u00f3pria for\u00e7a pulsional inconsciente a favor da exist\u00eancia, \u00e9 puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte, em seus movimentos que afirmam a vida. \u00c9 pot\u00eancia on\u00edrica que nos d\u00e1 a conhecer as for\u00e7as desejantes inconscientes por uma \u00e9tica que propicia a nossa emerg\u00eancia enquanto sujeitos, resistindo a qualquer l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o das singularidades \u00e0s coletividades. Exu mora nas encruzilhadas, encarna a for\u00e7a transgressiva que desloca, inverte, brinca, ginga, debocha com as l\u00f3gicas, liberando os m\u00faltiplos sentidos encarcerados nos signos repressores e colonizadores. \u00c9 o ato-falho, o chiste, o lapso que irrompe fissuras nas muralhas ordenadoras da consci\u00eancia, abrindo novas passagens para que fluam os fluxos inconscientes represados. \u201cO inconsciente surge nas lacunas do discurso consciente como o totalmente inesperado e o inteiramente outro\u201d. (Zeferino, R. pag. 333)<\/p>\n<p>No sistema m\u00edtico Nag\u00f4-Iorub\u00e1, por sua natureza de versatilidade e movimento, Exu \u00e9 o mensageiro que transmite as mensagens entre o Orun (c\u00e9u) e o Ay\u00ea (terra), ele \u00e9 como uma for\u00e7a pulsional circulando em busca de sentido e liga\u00e7\u00e3o. Conta-se que ele fez o trabalho de escuta das narrativas das vicissitudes humanas, narrativas contadas por todas as formas de vida, nas m\u00faltiplas linguagens dos seres que habitam a Terra. Tal como o Inconsciente, Exu \u00e9 polif\u00f4nico. E traduz a polifonia dos m\u00faltiplos sentidos da exist\u00eancia no investimento da palavra entre-mundos, entre-corpos, entre-t\u00f3picas, habita o entre e ocupa as frestas atrav\u00e9s da puls\u00e3o e da palavra.<\/p>\n<p>Exu representa a condi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica da subjetividade humana, for\u00e7a de encontro cruzado entre um e outro que faz brotar o singular, do vazio povoado e pulsional que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia, do v\u00ednculo que \u00e9 espa\u00e7o de emerg\u00eancia ps\u00edquica e continente dos processos de elabora\u00e7\u00e3o, metaboliza\u00e7\u00e3o, da genealogia que nos inscreve na cadeia de transmiss\u00e3o ps\u00edquica narc\u00edsica, dos espa\u00e7os ps\u00edquicos intermedi\u00e1rios, estabelecendo as negocia\u00e7\u00f5es, as alian\u00e7as inconscientes, as liga\u00e7\u00f5es, as conex\u00f5es, as associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desse trabalho de escuta incans\u00e1vel das vicissitudes humanas, Exu elabora um conjunto de narrativas m\u00edticas que abarcam e ancoram recursos poliss\u00eamicos para os humanos lidarem com as vicissitudes da exist\u00eancia, recursos de simboliza\u00e7\u00e3o, historiciza\u00e7\u00e3o, de atribui\u00e7\u00e3o de sentido, e as entrega a Orunmil\u00e1, tamb\u00e9m chamado de If\u00e1, o adivinho, o destino. Essa divindade rege o or\u00e1culo de If\u00e1, operado pelo jogo de b\u00fazios pelos babala\u00f4s ou pais de segredo. Trata-se de narrativas origin\u00e1rias, transmitidas pela tradi\u00e7\u00e3o oral na cadeia transgeracional, que apoiam uma \u00e9tica do bem-viver singular e coletivo.<\/p>\n<p>Os mitos, tamb\u00e9m chamados de Itans, trazem em suas narrativas tanto a problem\u00e1tica vivenciada por aquele que o encontra atrav\u00e9s de If\u00e1, quanto sua solu\u00e7\u00e3o, sua possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o, que envolve sempre uma oferenda aos Orix\u00e1s, onde Exu \u00e9 o agente libert\u00e1rio dessas trocas, transforma\u00e7\u00f5es e necess\u00e1ria implica\u00e7\u00e3o com a alteridade.<\/p>\n<p>Tal estrutura nos remete \u00e0 l\u00f3gica das forma\u00e7\u00f5es inconscientes, desde a sua funda\u00e7\u00e3o, do desejo ao sintoma: junto do desprazer ou do sintoma reside tamb\u00e9m a sua pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o, operada pelas trocas simb\u00f3licas em suas dimens\u00f5es econ\u00f4micas, din\u00e2micas e t\u00f3picas inconscientes.<\/p>\n<p>\u201cO desamparo infantil implica uma abertura desde o in\u00edcio do beb\u00ea para o mundo adulto. Esse encontro primordial inscreve-se definitivamente como processo de desejo. O desejo surge no mesmo lugar onde anteriormente tinham se manifestado o desamparo e a impot\u00eancia.\u201d (Pereira, p. 137)<\/p>\n<p>Entre as in\u00fameras narrativas elaboradas por Exu, apresentamos tr\u00eas mitos da Orix\u00e1 Ewa como pot\u00eancias po\u00e9ticas para encantar a ang\u00fastia e o desamparo, operadas especialmente pela sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Os encantos de Ewa e o campo do angustiante: possibilidades po\u00e9ticas para pensar o desamparo.<\/strong><\/p>\n<p>A mitologia Nag\u00f4-Yorub\u00e1, tal como outras mitologias<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> (sendo a mitologia greco-romana a mais articulada com a psican\u00e1lise, especialmente os mitos de Narciso e \u00c9dipo, estruturantes simb\u00f3licos da teoriza\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica), abarca narrativas origin\u00e1rias, que visam dar conta e ancoragem simb\u00f3lica de aspectos da experi\u00eancia humana que tocam quest\u00f5es de ordem existencial, como os mist\u00e9rios da vida e da morte, o imponder\u00e1vel e intang\u00edvel da exist\u00eancia, os conflitos humanos internos e de sua rela\u00e7\u00e3o com o outro, entre outras. Podemos considerar que os mitos cumprem uma fun\u00e7\u00e3o simbolizante e imagin\u00e1ria frente \u00e0s ang\u00fastias do real: o desamparo como condi\u00e7\u00e3o humana, a radicalidade da morte, a impot\u00eancia ante \u00e0s fatalidades e conting\u00eancias inerentes \u00e0 vida, trazendo uma possibilidade de representa\u00e7\u00e3o do que poderia ser experimentado apenas no campo do excesso pulsional, que justamente caracteriza o trauma em psican\u00e1lise. Esse resto de experi\u00eancia n\u00e3o elaborado, que retorna por n\u00e3o se inscrever, que ser\u00e1 definido Freud como compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o operado pela puls\u00e3o de morte<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Na mitologia Nag\u00f4-Yorub\u00e1, os Orix\u00e1s s\u00e3o Deuses e Deusas criados por Olorum, o Deus Supremo, que receberam \u201ca incumb\u00eancia de criar e governar o mundo, ficando cada um deles respons\u00e1vel por alguns aspectos da natureza e certas dimens\u00f5es da vida em sociedade e da condi\u00e7\u00e3o humana.\u201d (Prandi, 2001, p.20). Nesse sistema de organiza\u00e7\u00e3o cultural, social e religiosa, atravessados por uma \u00e9tica do bem-viver, os Orix\u00e1s, al\u00e9m de representa\u00e7\u00f5es antropomorfizadas, s\u00e3o tamb\u00e9m encarnados como for\u00e7as da natureza. Suas narrativas est\u00e3o carregadas de situa\u00e7\u00f5es que envolvem conflitos existenciais, \u00e9ticos e morais, bem como media\u00e7\u00f5es, trocas e negocia\u00e7\u00f5es para enfrentar as vicissitudes que se apresentam no enredo.<\/p>\n<p>A Orix\u00e1 Ew\u00e1 \u00e9 descrita como uma mulher de rara beleza, ex\u00f3tica e sublime. Inteligente e guerreira, \u00e9 associada \u00e0s capacidades de vid\u00eancia e intui\u00e7\u00e3o. Muitas vezes se apresenta tamb\u00e9m como cobra, que evoca as transforma\u00e7\u00f5es nas trocas de pele e o rastejar do submundo \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o na copa das \u00e1rvores. Suas representa\u00e7\u00f5es encarnadas no corpo da Terra s\u00e3o tamb\u00e9m as fontes de \u00e1gua, o rio Ewa situado na Nig\u00e9ria (considerado seu santu\u00e1rio), a n\u00e9voa, a bruma, o arco-\u00edris e o entardecer, com suas cores rosadas, amarelas, avermelhadas. Ela faz a comunica\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9u e a terra, o p\u00f4r do sol e o crep\u00fasculo, o dia e a noite, sustentando a penumbra e a passagem que nos permite acessar aquilo que est\u00e1 oculto \u00e0 consci\u00eancia. Por essas sutilezas po\u00e9ticas, \u00e9 tamb\u00e9m conhecida como a senhora dos disfarces e das infinitas possibilidades&#8230; Ew\u00e1 tem o dom da sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o, embora articulada nos textos de Freud desde a primeira t\u00f3pica, n\u00e3o foi um conceito com defini\u00e7\u00e3o muito precisa. Talvez o pr\u00f3prio n\u00e3o acabamento do conceito revele a abertura desse movimento pulsional, mencionado e n\u00e3o desenvolvido em \u201cA puls\u00e3o e seus destinos\u201d, e que nas in\u00fameras passagens no decorrer da obra freudiana vai se delinear como desvio da puls\u00e3o sexual, tanto na meta quanto no objeto, se transformando em dessexualizada e investida de valor social e est\u00e9tico. \u00c9 nesse campo que Freud situa as produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, filos\u00f3ficas, liter\u00e1rias, prazeres de m\u00faltiplos sentidos que n\u00e3o encontram satisfa\u00e7\u00e3o sexual direta.<\/p>\n<p>Em um de seus mitos, Ew\u00e1 justamente vivencia um intenso sofrimento diante do conflito promovido pelas proje\u00e7\u00f5es narc\u00edsicas carregadas por sua m\u00e3e Nan\u00e3, que deseja que a filha se case a qualquer custo. Ap\u00f3s sua m\u00e3e pedir a Olodumare pelo casamento, muitos pretendentes come\u00e7am a disputar a<em> conquista<\/em> da bela jovem e o resultado disso \u00e9 guerra, mortes, terra arrasada. Ew\u00e1, muito angustiada com toda devasta\u00e7\u00e3o, faz um apelo a Olodumare e ent\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>\u201cOs ventos mudaram, os c\u00e9us se abriram, o sol escaldava a terra<br \/>\ne, para o espanto de todos,<br \/>\na princesa come\u00e7ou a desintegrar-se.<br \/>\nFoi desaparecendo, perdendo a forma,<br \/>\nat\u00e9 evaporar-se completamente e transformar-se<br \/>\nem densa e branca bruma.<br \/>\nE a n\u00e9voa radiante de Ew\u00e1 espalhou-se pela Terra.<br \/>\nE a n\u00e9voa da manh\u00e3 Ew\u00e1 cantarolava feliz e radiante.<br \/>\nCom for\u00e7a e express\u00f5es inigual\u00e1veis cantava a bruma.\u201d<br \/>\n(Prandi, 2001, p. 234)<\/p>\n<p>Diante do conflito entre atender aos anseios maternos, \u00e0s tentativas de domina\u00e7\u00e3o dos homens fascinados por sua beleza, e a impossibilidade de sucumbir \u00e0s exig\u00eancias dirigidas a ela, Ew\u00e1 experimenta a ang\u00fastia, o sofrimento, a desintegra\u00e7\u00e3o. Entre a beleza ex\u00f3tica feminina que ela era e a n\u00e9voa encantadora, incaptur\u00e1vel e livre em que se transforma, h\u00e1 um hiato de indetermina\u00e7\u00e3o, de sustenta\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, de reconhecimento de uma dor e de uma suspens\u00e3o eg\u00f3ica, onde a ang\u00fastia de vida sinaliza um risco de despotencializa\u00e7\u00e3o e apoia um processo de desterritorializa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a uma nova composi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia e um novo territ\u00f3rio ps\u00edquico.<\/p>\n<p>Birman, em seu <em>Gram\u00e1ticas do Erotismo<\/em>, ao se debru\u00e7ar sobre as formas de subjetiva\u00e7\u00e3o e a feminilidade, ir\u00e1 justamente situar o feminino nesse desvio pulsional operado pela sublima\u00e7\u00e3o, na intensidade do fluxo libidinal n\u00e3o mediado pelo falo, na busca de um novo objeto para a puls\u00e3o, em uma ultrapassagem de limites que \u201cpermitiria tamb\u00e9m relativizar o lugar do falo na erogeneidade humana e nos descaminhos do desejo, redefinindo ent\u00e3o as trilhas da sua err\u00e2ncia.\u201d (Birman, p. 243).<\/p>\n<p>Pois se o falo \u00e9 significante de poder, onipot\u00eancia, completude, o feminino e a sublima\u00e7\u00e3o \u201cindicaria as potencialidades humanas para a erogeneidade e para a experi\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o, na qual se reconheceria implicitamente que a subjetividade seria, pois, imperfeita, incompleta, inconclusa e finita.\u201d Encarnando-se ent\u00e3o enquanto pot\u00eancia de devir no fluxo da vida, isso n\u00e3o \u00e9 vivido sem ang\u00fastia, por articular de forma t\u00e3o radical o encontro entre a vulnerabilidade de se lan\u00e7ar ao desconhecido devir e a pot\u00eancia da abertura para encantamento de mundos e ultrapassagem de limites; afinal, uma das marcas da ang\u00fastia \u00e9 a indetermina\u00e7\u00e3o e o excesso pulsional que invade o psiquismo, sem defesas.<\/p>\n<p>Muitas vezes, na cl\u00ednica, acompanhamos esses movimentos com certo assombro, diante do mist\u00e9rio que Ew\u00e1 sustenta da transi\u00e7\u00e3o do peso \u00e0 leveza, do excesso pulsional \u00e0s suas transforma\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, das passagens da circula\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte \u00e0 puls\u00e3o de vida. Esse entre vazio indeterminado pr\u00f3prio da transitoriedade, que traz tanto a experimenta\u00e7\u00e3o do desamparo quanto a pot\u00eancia do devir, quando \u00e9 poss\u00edvel sustentar a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Em \u201cA transitoriedade\u201d, pequeno texto de 1916, Freud traz uma reflex\u00e3o sobre o tempo, a vida, a efemeridade, a for\u00e7a do encontro no seu momento de frui\u00e7\u00e3o no presente que n\u00e3o se pretende dur\u00e1vel, diante de uma conversa com um jovem amigo depressivo que n\u00e3o conseguia apreciar a beleza de uma flor, por saber de sua efemeridade.<\/p>\n<p>\u201cQuanto \u00e0 beleza da natureza, ela sempre volta depois que \u00e9 destru\u00edda pelo inverno, e esse retorno bem pode ser considerado eterno, em rela\u00e7\u00e3o ao nosso tempo de vida. Vemos desaparecer a beleza do rosto e do corpo humano no curso de nossa vida, mas essa brevidade lhes acrescenta mais um encanto. Se existir uma flor que flores\u00e7a apenas uma noite, ela n\u00e3o parecer\u00e1 menos formosa por isso (&#8230;) se o valor de tudo quanto \u00e9 belo e perfeito \u00e9 determinado somente por seu significado na nossa vida emocional, n\u00e3o precisa sobreviver a ela e, portanto, independe da dura\u00e7\u00e3o absoluta. (Freud, <em>Obras completas<\/em>, v. 12)<\/p>\n<p>Talvez esse seja um dos poucos textos ou mesmo o \u00fanico que traz uma no\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o, de ciclos em Freud, que aponte para a vida, independente de suas constru\u00e7\u00f5es metapsicol\u00f3gicas. E o mais interessante \u00e9 que justamente na abertura da transitoriedade entre as repeti\u00e7\u00f5es \u00e9 que Freud localiza o sublime, nisso que evidencia aquilo que escapa, para a n\u00e3o captura, para o impermanente, para a beleza que representa Ew\u00e1.<\/p>\n<p>Pois, a cada repeti\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m a repeti\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, algo que vai promovendo alargamento dos sentidos conforme vamos margeando as zonas traum\u00e1ticas em busca de significa\u00e7\u00e3o, sem conseguir ainda acessar alguma representa\u00e7\u00e3o que libere o circuito da ang\u00fastia. Talvez a cl\u00ednica da ang\u00fastia e do traum\u00e1tico resida justamente nesse lugar de enigma e pot\u00eancia da amplia\u00e7\u00e3o poliss\u00eamica do vivido, podendo a partir da\u00ed ser apreendido como experi\u00eancia. Como diria o poeta Manoel de Barros, \u201cRepetir, repetir, repetir\/At\u00e9 ficar diferente\/Repetir \u00e9 um dom do estilo.\u201d<\/p>\n<p>O conflito que Ew\u00e1 nos apresenta \u00e9 justamente sobre o deserto da <em>conquista<\/em>, do encarceramento da exist\u00eancia, como terra a ser conquistada e arrasada, como quer a l\u00f3gica colonizadora disparadora das ang\u00fastias depositadas no la\u00e7o social da nossa sociedade e nas subjetividades advindas das viol\u00eancias de apropria\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o, segrega\u00e7\u00e3o, desigualdade e vulnerabilidade social, vivenciadas ainda mais intensamente pelas mulheres racializadas e n\u00e3o-brancas.<\/p>\n<p>Ew\u00e1 \u00e9 essa for\u00e7a de resist\u00eancia que habita igualmente no la\u00e7o social e nas subjetividades, que n\u00e3o se permite domesticar. Ewa n\u00e3o se submete \u00e0s investidas da biopol\u00edtica e do biopoder (Foucault), esse dispositivo pol\u00edtico e econ\u00f4mico de normatiza\u00e7\u00e3o dos corpos a servi\u00e7o do sufocamento das liberdades. Ew\u00e1 aponta para a abertura pela sublima\u00e7\u00e3o, para finalmente poder liberar o circuito pulsional mort\u00edfero imposto pelas l\u00f3gicas violentas e dar passagem ao encantamento da vida, \u00e0 po\u00e9tica da micropol\u00edtica cotidiana pela reterritorializa\u00e7\u00e3o em um territ\u00f3rio incaptur\u00e1vel, cuja pot\u00eancia reside na autonomia e na liberdade pela afirma\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Articulando com a cl\u00ednica ampliada presente na pol\u00edtica p\u00fablica de assist\u00eancia social, observamos o quanto as dimens\u00f5es traum\u00e1ticas do la\u00e7o social est\u00e3o atravessadas pelo racismo, pelo patriarcado, pela l\u00f3gica e viol\u00eancia colonial e pelas transmiss\u00f5es transgeracionais. Ao mesmo tempo que se evidenciam as resist\u00eancias micropol\u00edticas que podem inventar contra essas viol\u00eancias a favor da Vida&#8230; a sublima\u00e7\u00e3o encarnada por Ew\u00e1 ajuda a compreender como se operam essas inven\u00e7\u00f5es libert\u00e1rias, esses encantamentos nas frestas, flores no asfalto, que podem produzir aberturas de sentido&#8230;<\/p>\n<p>Trabalhando no CRAS h\u00e1 mais de 12 anos, atendendo popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, \u00e9 n\u00edtido o retrato social da desigualdade brasileira, cujos rostos, corpos e almas s\u00e3o de mulheres, negras, com condi\u00e7\u00f5es muito prec\u00e1rias de exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m muita for\u00e7a de vida capaz de inventar mundos e sa\u00eddas para suas necessidades, para o enfrentamento das situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o que podem se colocar nas situa\u00e7\u00f5es de desamparo em suas mais variadas formas.<\/p>\n<p>Desde que a assist\u00eancia social se reorientou para uma primazia dos servi\u00e7os socioassistenciais, para al\u00e9m dos benef\u00edcios assistenciais (igualmente fundamentais, mas facilmente capturados pela biopol\u00edtica), a dimens\u00e3o do desejo, das potencialidades, da hist\u00f3ria, da mem\u00f3ria, do resgate cultural e ancestral, da valoriza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ps\u00edquicos, sociais, culturais e geogr\u00e1ficos, do trabalho psicossocial com os v\u00ednculos familiares e comunit\u00e1rios, essa pol\u00edtica p\u00fablica, quando ofertada desde suas diretrizes e princ\u00edpios, pode representar essa contin\u00eancia dos sofrimentos e ang\u00fastias vivenciadas e buscar caminhos de ressignifica\u00e7\u00e3o em uma po\u00e9tica e uma pol\u00edtica de reescrita simb\u00f3lica de suas trajet\u00f3rias na articula\u00e7\u00e3o com suas origens, encantando novos horizontes rosados ao entardecer.<\/p>\n<p>Em outro mito, Ew\u00e1 aparece como a m\u00e3e de dois filhos, que coleta lenha no bosque, para vender no mercado e, assim, sustent\u00e1-los. Certa vez, Ew\u00e1 e seus filhos se perderam e foram se embrenhando cada vez mais na floresta. Quanto mais andavam, mais eram invadidos pela sede e pela fome. Ent\u00e3o, Ew\u00e1 implorou aux\u00edlio a Olodumare, deitou-se ao lado dos filhos e se transformou em uma fonte de \u00e1gua. A \u00e1gua matou a sede das crian\u00e7as e continuou jorrando, originando o novo rio Ew\u00e1. (Prandi, p. 232)<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se trate aparentemente de dois beb\u00eas, podemos identificar aqui a problem\u00e1tica do desamparo e o papel fundamental de aten\u00e7\u00e3o e contin\u00eancia ps\u00edquica que representa a fun\u00e7\u00e3o materna no que diz respeito \u00e0 condi\u00e7\u00e3o existencial de desamparo. As necessidades do beb\u00ea devem ser atendidas por um outro que tem os recursos para auxiliar o beb\u00ea nessa situa\u00e7\u00e3o de total depend\u00eancia, atendidas n\u00e3o apenas de forma biol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m investidas do desejo do outro, ao escutar o seu apelo. Desejo do Outro que \u00e9 excessivo por defini\u00e7\u00e3o, pois est\u00e1 sempre aqu\u00e9m de significa\u00e7\u00e3o pelo beb\u00ea que o recebe de forma passiva, ainda sem dispor de um aparelho para interpretar.<\/p>\n<p>Ew\u00e1 encanta o desamparo quando ele quase encarna o desespero ao se transformar em rio, e o que se inicia como fonte que o sacia nesse momento origin\u00e1rio e perdido, portanto m\u00edtico, se inscreve como o rio que acompanhar\u00e1 o sujeito no curso da vida, como ondas de assombro diante do seu desamparo e da complexidade de suas profundezas que sempre fazem escapar um resto n\u00e3o apreens\u00edvel, revividos e irrepresent\u00e1veis nas situa\u00e7\u00f5es em que experimenta a ang\u00fastia. E ao mesmo tempo como condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia, de abertura, de navega\u00e7\u00e3o e saciedade nas \u00e1guas da vida, onde o novo sempre faz brotar as for\u00e7as de vida, liga\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o, afinal n\u00e3o se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Como nos apresenta Zeferino, a ang\u00fastia de desamparo que nos marca pelo limite, onde a morte figura como condi\u00e7\u00e3o existencial, tamb\u00e9m nos apresenta a dimens\u00e3o do poss\u00edvel, das infinitas possibilidades a\u00ed contidas, das conting\u00eancias, da abertura radical que articula liberdades, separa\u00e7\u00e3o e desamparo na beira do abismo.<\/p>\n<p>Freud em sua teoria da ang\u00fastia define dois tipos de ang\u00fastia, a ang\u00fastia sinal e ang\u00fastia autom\u00e1tica. A primeira, \u00e9 aquela que prepara e defende o psiquismo para o excesso pulsional diante de uma situa\u00e7\u00e3o potencialmente perigosa, a segunda deriva da ang\u00fastia experimentada no nascimento vivenciado como traum\u00e1tico. Assim, a ang\u00fastia sinal \u00e9 fundamental para a preserva\u00e7\u00e3o do delicado equil\u00edbrio pulsional, ps\u00edquico e emocional.<\/p>\n<p>Freud apresenta os afetos como origin\u00e1rios dos tra\u00e7os mn\u00eamicos das primeiras viv\u00eancias da exist\u00eancia do beb\u00ea e o afeto de ang\u00fastia, em especial, teria origem no trauma do nascimento, que no caso do beb\u00ea humano, que \u00e9 naturalmente prematuro, o lan\u00e7a numa condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de radical desamparo, ou seja, de depend\u00eancia absoluta de um outro que atenda as suas necessidades e do submetimento ao desejo desse outro, que atender\u00e1 a essas exig\u00eancias implicado com sua pr\u00f3pria subjetividade, que tamb\u00e9m lhe escapa. Esse \u00e9 um momento m\u00edtico e modelo para a ang\u00fastia, o trauma e a crise de ang\u00fastia, e configura o mesmo encadeamento de repercuss\u00f5es no corpo e no psiquismo, frente a situa\u00e7\u00f5es que nos exp\u00f5em tanto ao desamparo material quanto ao desamparo ps\u00edquico.<\/p>\n<p>\u201cA ang\u00fastia \u00e9, de um lado, expectativa do trauma, e de outro lado, repeti\u00e7\u00e3o atenuada no mesmo. (&#8230;) Sua rela\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia se liga \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de perigo, sua indetermina\u00e7\u00e3o e aus\u00eancia de objeto, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica do desamparo, que \u00e9 antecipada na situa\u00e7\u00e3o de perigo\u201d (Freud, 2014, p. 116).<\/p>\n<p>A neurose de ang\u00fastia justamente ativa o circuito \u201cang\u00fastia-perigo-desamparo (trauma)\u201d na tentativa do sujeito se posicionar diante de um poss\u00edvel trauma, de uma forma ativa, buscando recuperar seu controle sobre o desamparo (re)vivido. H\u00e1 algo nessa cena m\u00edtica de Ew\u00e1 com seus filhos que aponta para esse lugar de fun\u00e7\u00e3o materna, de contin\u00eancia, de escuta do grito transformando em apelo e produ\u00e7\u00e3o de sentido, que a cl\u00ednica pode ousar encantar a impot\u00eancia para a abertura de sentidos.<\/p>\n<p>Finalmente, o terceiro mito que evocamos \u00e9 aquele em que Ew\u00e1 salva Orunmil\u00e1 (o destino) de Icu (a morte). Conta-se que Orunmil\u00e1 estava fugindo de Icu, que o queria pegar de todo jeito. Ele fugiu de casa, correu e na sua fuga encontrou Ew\u00e1 lavando roupa em um rio. Ela percebeu o seu desespero e perguntou se ele fugia da morte e ele afirmou. Ent\u00e3o Ew\u00e1 escondeu Orunmil\u00e1 embaixo de sua t\u00e1bua de lavar roupas, que era um tabuleiro de If\u00e1. Logo chega a morte, esbaforida e putrefata, perguntando por Orunmil\u00e1. Ew\u00e1 despista e diz que Orunmil\u00e1 foi para outra dire\u00e7\u00e3o e j\u00e1 deveria estar muito longe. A morte ent\u00e3o desiste de sua empreitada, Ew\u00e1 leva Orunmil\u00e1 para casa, eles dormem juntos e ela engravida. Fez-se uma grande festa, onde todos cantavam que Ew\u00e1 livra da morte. (Prandi, pp. 235-236).<\/p>\n<p>Aqui temos o encanto (Ew\u00e1) dando amparo e prote\u00e7\u00e3o para que o destino (Orunmil\u00e1) possa escapar da morte (Icu). Orunmil\u00e1, sentindo a aproxima\u00e7\u00e3o da morte, \u00e9 tomado por intensa ang\u00fastia, que o faz buscar uma defesa para essa invas\u00e3o que coloca em risco o seu equil\u00edbrio ou sua conserva\u00e7\u00e3o, defesa que representa a fuga. Fugir \u00e9 tamb\u00e9m reconhecer sua vulnerabilidade, suas limita\u00e7\u00f5es; e sua ang\u00fastia o impele a se dirigir ao outro, a pedir apoio, a buscar liga\u00e7\u00e3o e ampliar suas possibilidades de exist\u00eancia. Da solid\u00e3o e impot\u00eancia que experimenta, abre-se para a alteridade, \u201co grito desesperado de ajuda lan\u00e7ado na dire\u00e7\u00e3o do outro.\u201d (Zeferino). Para ajud\u00e1-lo, Ew\u00e1 o envolve em um tabuleiro de If\u00e1 ao avesso, If\u00e1 \u00e9 tamb\u00e9m o nome de Orunmil\u00e1 e seu tabuleiro \u00e9 o palco onde se lan\u00e7am as infinitas possibilidades, no jogo de b\u00fazios, desde a sua pr\u00f3pria mat\u00e9ria, narrativas, linhagens, mem\u00f3rias, sonhos, destinos, apostas, sempre no encontro como outro. Ela oferta a sua pr\u00f3pria pele ps\u00edquica ao avesso, desde uma perspectiva que ele desconhecia e talvez, se apropriando dela, tal como se promove na cl\u00ednica, conseguir romper com o circuito da ang\u00fastia e transform\u00e1-la em outras expressividades do desejo&#8230; E quem sabe, nesse encontro ao avesso na po\u00e9tica da sublima\u00e7\u00e3o, construir outras modalidades de ideal que possam acolher nosso desamparo desde um outro lugar, mais potente.<\/p>\n<p>\u201cNaquilo que Freud escreveu sobre a sublima\u00e7\u00e3o certamente se pode encontrar uma abertura, rica de imensas possibilidades, para outra modalidade de ideal que, sem ocultar a falta, os limites e as imperfei\u00e7\u00f5es, assegura a possibilidade de investirmos nossa libido em sonhos e projetos que se nutrem no movimento do nosso desejo e de nossas possibilidades criativas.\u201d (Zeferino, pag. 338)<\/p>\n<p><strong>Ew\u00e1 e a (po)\u00e9tica feminista e decolonial frente ao desamparo pol\u00edtico de nosso tempo.<\/strong><\/p>\n<p>Por toda essa pot\u00eancia feminista encarnada em seus mitos, n\u00e3o \u00e0 toa o culto de Ew\u00e1 foi se tornando cada vez mais raro em uma sociedade patriarcal e colonialista como a nossa. No culto aos Orix\u00e1s, um rito a determinada Orix\u00e1 s\u00f3 \u00e9 realizado quando existem as filhas e filhos de santo na comunidade de terreiro e, atrav\u00e9s dos ritos, dos cultos, dos cantos, das dan\u00e7as os mitos s\u00e3o transmitidos oralmente e tamb\u00e9m na trama dos afetos, das mem\u00f3rias, da po\u00e9tica do cotidiano e do sagrado. Tenho a impress\u00e3o que por sua natureza libert\u00e1ria, desobediente e enigm\u00e1tica, que amea\u00e7a a estrutura colonialista e patriarcal, de controle e domina\u00e7\u00e3o, Ew\u00e1 foi deixando pouco a pouco de ter suas filhas e filhos de santo, condi\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o dos mitos e ritos, que no Brasil foi se perdendo paulatinamente, sendo considerada uma Orix\u00e1 rara, de pouca manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a abertura feminista, decolonial e desviante da sublime a\u00e7\u00e3o promove rasgos nos tecidos conservadores e traz a emerg\u00eancia novamente de suas narrativas e enredos trazidos e sustentados pela resist\u00eancia negra e abre para novas composi\u00e7\u00f5es, tessitura de novas malhas vinculares transformando o tecido social, bordando a rebeldia, o sublime e as infinitas possibilidades da exist\u00eancia. Tal como defende Verg\u00e8s, com seu <em>feminismo de quilombagem<\/em>:<\/p>\n<p>\u201cChamo aqui de quilombagem e de quilombolas todas as iniciativas, todas as a\u00e7\u00f5es, todos os gestos, cantos e rituais, que noite e dia, escondidos ou vis\u00edveis, representam uma promessa radical. A quilombagem afirmava a possibilidade de um futuro mesmo quando ele era negado pela Lei, pela Igreja, pelo Estado e pela cultura (&#8230;) (quilombolas) desenharam territ\u00f3rios soberanos no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o dos sistema escravocrata e proclamaram a liberdade. Seus sonhos, suas esperan\u00e7as, suas utopias, e mesmo o motivo de suas derrotas, permanecem espa\u00e7os de onde se pode tirar um pensamento de a\u00e7\u00e3o.\u201d (Verg\u00e8s, 2019, pp. 49-50)<\/p>\n<p>Como guardi\u00e3 dos sonhos, Ew\u00e1 tamb\u00e9m nos convoca a fazer da ang\u00fastia mat\u00e9ria de encantar mundos, reivindicar nossa posi\u00e7\u00e3o como sujeitas\/sujeitos desejantes e utopizar novos modos de vida que defendam a diversidade, nesses tempos desafiadores que estamos vivendo hoje, onde a sublime a\u00e7\u00e3o possa operar desvios e subvers\u00f5es ali onde o desejo est\u00e1 impedido e o desamparo instalado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>Birman, J. <em>Gram\u00e1ticas do erotismo<\/em>: A feminilidade e suas formas de subjetiva\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2016.<\/p>\n<p>hooks, b. <em>O feminismo \u00e9 para todo mundo<\/em>: pol\u00edticas arrebatadoras &#8211; 13. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020.<\/p>\n<p>Foucault, M. O nascimento da biopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Freud, S. <em>Obras completas<\/em>, volume 12: Introdu\u00e7\u00e3o ao Narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. (1914 &#8211; 1916). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n<p>__________. <em>Obras completas<\/em>, volume 14: Hist\u00f3ria de uma neurose infantil (\u201cO homem dos Lobos\u201d), Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer e outros textos (1917 &#8211; 1920). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n<p>_________. <em>Obras completas<\/em>, volume 17: Inibi\u00e7\u00e3o, Sintoma e Angustia, O futuro de uma ilus\u00e3o e outros textos (1926-1929).1. ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014.<\/p>\n<p>_________. <em>Obras completas<\/em>, volume 18: O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise e outros textos (1930-1936). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n<p>Ka\u00ebs, R. <em>As alian\u00e7as inconscientes<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ideias e Letras, 2014.<\/p>\n<p>Ka\u00ebs, R. <em>Um singular plural<\/em>. A psican\u00e1lise \u00e0 prova do grupo. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2011.<\/p>\n<p>Laplanche, J. e Pontalis, J.-B. <em>Vocabul\u00e1rio da psican\u00e1lise<\/em>. 4 ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<p>Lopes, N. e Simas, L. A. <em>Filosofias africanas: uma introdu\u00e7\u00e3o<\/em>. 4. ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2021.<\/p>\n<p>Maia, M. S. <em>Extremos da Alma<\/em>. Dor e trauma na atualidade e cl\u00ednica psicanal\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Garamond, 2011.<\/p>\n<p>Martins, C. <em>Ew\u00e1: a senhora das possibilidades<\/em>. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.<\/p>\n<p>Pereira, M. E. C. <em>P\u00e2nico e desamparo<\/em>: um estudo psicanal\u00edtico. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2008.<\/p>\n<p>Prandi, R. <em>Mitologia dos Orix\u00e1s<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001.<\/p>\n<p>Rocha, Z. <em>Os destinos da ang\u00fastia na psican\u00e1lise freudiana<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2000.<\/p>\n<p>Rufino, L. <em>Pedagogia das encruzilhadas<\/em>. Rio de Janerio: M\u00f3rula, 2019.<\/p>\n<p>Simas, L. A. e Rufino, L. <em>Encantamento: Sobre pol\u00edtica de vida<\/em>. Rio de Janeiro: M\u00f3rula, 2020<\/p>\n<p>Verg\u00e8s, F. <em>Um feminismo decolonial<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, aluna do 2\u00ba ano do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea. Mestre em Psicologia Social pelo IPUSP, com especializa\u00e7\u00e3o em Semi\u00f3tica Psicanal\u00edtica \u2013 Cl\u00ednica da Cultura PUC\/ COGEAE e em Psican\u00e1lise dos La\u00e7os Sociais pelo IPUSP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Que diferen\u00e7as se operariam na teoria e na cl\u00ednica psicanal\u00edtica caso fossem articuladas outras mitologias para pensar os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o ps\u00edquica?<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Poder\u00edamos inferir que os ritos, que vivificam os mitos, cumprem uma fun\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o pulsional e simb\u00f3lica frente aos excessos de energia frente a essas ang\u00fastias?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob a prote\u00e7\u00e3o de uma guardi\u00e3 dos sonhos, para que o destino possa escapar da morte. Por Simone Bressan.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[54,40,52,44],"edicao":[114],"autor":[120],"class_list":["post-1697","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-decolonial","tag-negritude","tag-psicopatologia-psicanalitica","tag-sonhos","edicao-boletim-63","autor-simone-bressan","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1697"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1697\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2349,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1697\/revisions\/2349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1697"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1697"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}