{"id":1700,"date":"2022-06-01T15:12:19","date_gmt":"2022-06-01T18:12:19","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1700"},"modified":"2023-03-23T20:34:36","modified_gmt":"2023-03-23T23:34:36","slug":"uma-experiencia-construida-com-os-alunos-do-curso-psicopatologia-psicanalitica-e-clinica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/uma-experiencia-construida-com-os-alunos-do-curso-psicopatologia-psicanalitica-e-clinica-contemporanea\/","title":{"rendered":"Uma experi\u00eancia constru\u00edda com os alunos do curso Psicopatologia psicanal\u00edtica e cl\u00ednica contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Uma experi\u00eancia constru\u00edda com os alunos do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong>por<strong> M\u00e1rcia de Mello Franco<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em mar\u00e7o deste ano, logo ap\u00f3s a aula inaugural dada dia 10 por Mario Fuks, coordenador do curso <em>Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Clinica Contempor\u00e2nea<\/em>, fomos surpreendidos pela atordoante not\u00edcia de que o Sedes fecharia devido \u00e0 pandemia causada pelo Covid-19. Naquele momento, n\u00e3o t\u00ednhamos ideia do que viria pela frente. Duas semanas ap\u00f3s o fechamento do Instituto, depois de muitas discuss\u00f5es e n\u00e3o sem hesita\u00e7\u00e3o, passamos a realizar as aulas de modo <em>on line<\/em>. Um argumento que pesou a favor de retomarmos nossas atividades desta forma foi a aposta que fizemos em torno da import\u00e2ncia de sustentar espa\u00e7os coletivos de troca e reflex\u00e3o naquele momento t\u00e3o amea\u00e7ador. A partir da\u00ed, o que se passou com os alunos dos dois anos de nosso curso foi uma nova surpresa, dessa vez uma boa surpresa. Mesmo desde suas janelinhas do Zoom, os alunos desses anos constitu\u00edram uma forte grupalidade e seguiram bastante participativos, implicados e ativos com rela\u00e7\u00e3o aos estudos. De nossa parte, esfor\u00e7amo-nos para cuidar do processamento dos conte\u00fados program\u00e1ticos e tamb\u00e9m para realizar a transmiss\u00e3o da melhor forma poss\u00edvel atrav\u00e9s de um meio que ainda era muito desconhecido para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quando os semin\u00e1rios te\u00f3ricos e as supervis\u00f5es j\u00e1 flu\u00edam no novo esquema, observamos que os alunos nos demandavam maior espa\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o daquilo que todos viv\u00edamos em fun\u00e7\u00e3o tanto da pandemia e suas consequ\u00eancias, quanto da grave crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica e ambiental. Uma pergunta insistia: \u201cser\u00e1 que estamos todos loucos?\u201d Sintonizados com essa demanda e comprometidos com a especificidade do curso, cuja proposta remete \u00e0s articula\u00e7\u00f5es entre subjetividade e momento hist\u00f3rico, sentimo-nos convocados a abrir um espa\u00e7o de conversa com os alunos sobre as quest\u00f5es que ainda hoje nos impactam. Na ocasi\u00e3o, perto de 120 mil mortos em virtude da pandemia j\u00e1 eram contabilizados. Al\u00e9m daqueles que perderam a vida ou entes queridos, muitos foram privados de sua renda e quem j\u00e1 vivia em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social teve sua situa\u00e7\u00e3o muito agravada. Diante da assustadora crise que permanece nos amea\u00e7ando, n\u00e3o h\u00e1 reconhecimento por parte do poder p\u00fablico da gravidade da situa\u00e7\u00e3o e, ao contr\u00e1rio, direitos que visavam garantir um m\u00ednimo de bem-estar social correm s\u00e9rio risco de serem eliminados. Em meio a esse cen\u00e1rio desolador, temos passado por uma experi\u00eancia in\u00e9dita. H\u00e1 alguns meses seria impens\u00e1vel darmos um curso pelo Zoom, migrarmos nossa cl\u00ednica para atendimento <em>on line<\/em>, ficarmos restritos, na medida do poss\u00edvel, \u00e0s nossas casas. As refer\u00eancias de leitura da realidade vacilam, o desamparo e o desalento tomam a cena social.<\/p>\n<p>J\u00e1 trabalh\u00e1vamos com os alunos do primeiro ano a quest\u00e3o do traumatismo de dimens\u00f5es coletivas e, em 2020, introduzimos no segundo ano um espa\u00e7o para a reflex\u00e3o sobre a montagem de dispositivos cl\u00ednicos pelo psicanalista para lidar com essa problem\u00e1tica. Resolvemos ent\u00e3o inventar um dispositivo com um duplo objetivo de realizar uma interven\u00e7\u00e3o, em que os alunos pudessem viver ali uma experi\u00eancia, e favorecer a transmiss\u00e3o de alguns conte\u00fados. Convidamos os alunos para um encontro <em>on line<\/em> no hor\u00e1rio das aulas, dia 1 de setembro, com a participa\u00e7\u00e3o de todos os professores e dos alunos dos dois anos. Dividimos o encontro em dois blocos, cada um com a conversa sendo aberta ap\u00f3s breves apresenta\u00e7\u00f5es de tr\u00eas professores sobre temas concernentes ao atual momento. Nossa ideia era que os aportes dos professores tivessem alguma rela\u00e7\u00e3o com os conte\u00fados de nosso programa e servissem como disparador para o debate. No primeiro bloco, depois de uma pequena introdu\u00e7\u00e3o realizada por mim, falaram Mario Fuks, Tatiana Inglez-Mazzarella e Ana Lucia Panach\u00e3o. No segundo bloco falaram Ana Maria Siqueira Leal, Roberta Kehdy e Marcelo Soares da Cruz. Usufru\u00edmos ainda um pouco de arte fechando o primeiro bloco com a leitura, feita por Tatiana, do poema <em>Tecendo a manh\u00e3<\/em> de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e o segundo bloco ouvindo a m\u00fasica <em>Paci\u00eancia<\/em> de Lenine.<\/p>\n<p>Acreditamos que s\u00f3 a posteriori poderemos ter a dimens\u00e3o do que vivemos hoje. Estamos ainda no meio do olho do furac\u00e3o, muito pr\u00f3ximos de uma viv\u00eancia que requer dist\u00e2ncia para ser processada. Pensamos que uma situa\u00e7\u00e3o como a que vivemos, pela sua intensidade, pela gravidade e pelo contexto pouco favorecedor em que ocorre, tende a produzir rombos na trama ps\u00edquica impedindo o pensamento. Ao propor esse encontro, n\u00e3o t\u00ednhamos (nem temos) teorias prontas para oferecer aos alunos, mas era poss\u00edvel, com nossas falas, fornecer alguns fios para que n\u00f3s todos, coletivamente, pud\u00e9ssemos construir um tecido para pensar sobre o que acontecia. Talvez seja essa afinal a principal contribui\u00e7\u00e3o dos psicanalistas neste momento: buscar condi\u00e7\u00f5es para sustentar a possibilidade de pensar.<\/p>\n<p>Ficamos contentes com o clima amistoso e colaborativo em que se desenvolveu um debate rico e permeado por diferentes afetos. Um bom sinal disso \u00e9 que a primeira interven\u00e7\u00e3o realizada por um aluno se deu a partir de uma associa\u00e7\u00e3o com sua cl\u00ednica, suscitada pela fala dos professores. Ao publicar aqui neste <em>boletim<\/em> os textos elaborados para esse encontro, esperamos poder compartilhar com voc\u00eas algo disso que buscamos construir. Tomara que nossas palavras tamb\u00e9m possam despertar novas palavras naqueles que as lerem pois, assim como \u201cum galo sozinho n\u00e3o tece uma manh\u00e3\u201d, necessitamos uma multiplicidade de vozes para construir uma linguagem que possibilite fazer frente ao potencial traum\u00e1tico da atual situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Pandemia e la\u00e7o social<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Mario Pablo Fuks<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de que j\u00e1 o imagin\u00e1vamos, hoje n\u00e3o cabe d\u00favida de que estamos imersos em tempos sombrios, tendo que penar por uma enorme quantidade de mortos, tendo que assistir a processos de destrui\u00e7\u00e3o material e moral de grande parte do que foi constru\u00eddo em nossa hist\u00f3ria democr\u00e1tica, somado a fatores conjunturais como o pr\u00f3prio Corona v\u00edrus que n\u00e3o conhec\u00edamos e o governo desastroso, negacionista, violento e fascista, que pod\u00edamos haver previsto mas n\u00e3o se quis ver. Muitos fecharam os olhos para essa realidade, a recusaram, e o elegeram presidente.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 bom reencontr\u00e1-los. Desde a aula inaugural n\u00e3o vejo voc\u00eas. Estar \u201caqui\u201d [na sala virtual do curso] me faz sentir feliz, sinto que \u00e9 algo que pudemos e soubemos construir.<\/p>\n<p>Quero falar sobre o la\u00e7o social. \u00c9 um conceito que foi-se constituindo para n\u00f3s em importante articulador te\u00f3rico para o estudo da subjetividade contempor\u00e2nea, e dos elementos que tendem a estrutur\u00e1-la. E fomos trabalhando algumas ideias nesse sentido.<\/p>\n<p>Freud postulava que a subjetividade pr\u00f3pria de sua \u00e9poca estava sustentada por um la\u00e7o social que reunia tr\u00eas elementos: a ilus\u00e3o religiosa, a lealdade pol\u00edtica ao monarca e a proibi\u00e7\u00e3o de pensar a sexualidade.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> Este la\u00e7o implica na produ\u00e7\u00e3o de um <em>Eu conflituado<\/em>, o qual, impulsionado pela ang\u00fastia, tende a se defender atrav\u00e9s da opera\u00e7\u00e3o do recalque. Corresponde ao que \u00e9 conhecido como o <em>sujeito disciplinado<\/em>, dos primeiros tempos da modernidade.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Consideremos a hip\u00f3tese de que, na contemporaneidade, tem emergido um tipo de la\u00e7o social novo, caracterizado pela articula\u00e7\u00e3o entre a <em>compuls\u00e3o consumista<\/em> \u2013 sujeito do consumo -, <em>a fascina\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica pela m\u00eddia <\/em>\u2013 sujeito do espet\u00e1culo &#8211; e a ilus\u00e3o de suprimir tecno-magicamente a dor e o sofrimento, atrav\u00e9s dos f\u00e1rmacos<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Hoje poder\u00edamos denomin\u00e1-lo, caricaturalmente, <em>sujeito da cloroquina<\/em>.<\/p>\n<p>Esse la\u00e7o \u00e9 produtor, tendencialmente, de um Eu narcisista que, quando desestabilizado, p\u00f5e em funcionamento mecanismos de defesa e compensa\u00e7\u00e3o baseados <em>j\u00e1 <\/em><em>n\u00e3o no recalque<\/em>, <em>mas na cis\u00e3o e na recusa<\/em>. Quando estabilizado, corresponde ao <em>sujeito de desempenho<\/em>, e \u00e9 chamado de sujeito neoliberal<em>.<\/em><a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a><a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Mas, nas situa\u00e7\u00f5es de crise, \u00e9 capaz de se instaurar uma cultura narc\u00edsica da viol\u00eancia e do \u00f3dio dirigido contra bodes expiat\u00f3rios. Trata-se aqui de um sujeito narcisista e violento, tendencialmente paranoico. Esta cultura, que \u00e9 uma anti-cultura, j\u00e1 existiu nas crises anteriores da era industrial, nos come\u00e7os do s\u00e9culo XX. O nosso presidente e sua base pol\u00edtica, suas Saras Winters e seus milicianos, s\u00e3o exemplos de sujeitos desse tipo. Os milhares de neonazistas do movimento anti-m\u00e1scaras alem\u00e3o tamb\u00e9m. N\u00e3o podemos deixar de incluir que temos, no Brasil, uma cultura da desigualdade, do racismo e da viol\u00eancia que vem da escravid\u00e3o, frente \u00e0 qual ganha express\u00e3o pol\u00edtica crescente um movimento de resist\u00eancia e de revolta.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 pandemia. Para realizar adequadamente uma preven\u00e7\u00e3o do crescente cont\u00e1gio massivo se requeria um reconhecimento do perigo, uma aceita\u00e7\u00e3o do conhecimento transmitido pela OMS, uma coordena\u00e7\u00e3o de iniciativas e recursos pelas inst\u00e2ncias sanit\u00e1rias do Estado, uma disciplina coletiva dos cidad\u00e3os, confiante nessas inst\u00e2ncias e respeitosa da lei.<\/p>\n<p>Para que possamos pensar que o que cada um faz afeta os outros, precisa-se que as inst\u00e2ncias do p\u00fablico, de governo e de coordena\u00e7\u00e3o se sustentem. Trata-se de um pacto de civilidade, que em certas circunst\u00e2ncias se torna pacto civilizat\u00f3rio, como quando se promulgou a constitui\u00e7\u00e3o de 1988. N\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o ut\u00f3pico. Pode parecer assim na distopia em que nos encontramos, mas tem sido uma realidade recente nos pa\u00edses asi\u00e1ticos (Coreia do Sul, China, Singapura). N\u00e3o foi assim no come\u00e7o da pandemia no ocidente, devido a prioridade neoliberal do econ\u00f4mico, e continua n\u00e3o sendo assim, hoje em dia no Brasil e nos EEUU<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>. Por negacionismo, por desincumbimento irrespons\u00e1vel, por essa deser\u00e7\u00e3o imoral e c\u00ednica que se manifestou no \u201c&#8230;e da\u00ed?\u201d de Jair Messias.<\/p>\n<p>O que quero enfatizar \u00e9 que <em>a recusa da realidade,<\/em> que vem\u00a0 se operando atualmente na subjetividade individual e coletiva, \u00e9 <em>tanto de origem\u00a0 estrutural<\/em>, baseada na l\u00f3gica neoliberal que trazemos desde os 80, <em>como de origem conjuntural<\/em>, associada \u00e0 ascens\u00e3o dos governos de ultra direita e fascistas, <em>sendo induzida<\/em> (por exemplo, atrav\u00e9s do medo) <em>pela cultura narc\u00edsica da viol\u00eancia<\/em> que eles imp\u00f5em. O resultado da soma de ambos, al\u00e9m da cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria, \u00e9 um <em>empobrecimento crescente da subjetividade individual e coletiva.<\/em><\/p>\n<p>Walter Benjamin havia diagnosticado com precis\u00e3o essa <em>pobreza da experi\u00eancia<\/em> da \u00e9poca moderna, e situava as causas na 1\u00aa Guerra Mundial, de cujos campos de batalha<\/p>\n<p>\u201cas pessoas regressavam emudecidas&#8230; n\u00e3o mais ricas e sim mais pobres em experi\u00eancias compartilh\u00e1veis&#8230; <u>Porque jamais h\u00e1 havido experi\u00eancias t\u00e3o desmentidas como as estrat\u00e9gicas pela guerra de trincheiras, as econ\u00f4micas pela infla\u00e7\u00e3o, as corporais pela fome, as morais pelo tirano<\/u>. Uma gera\u00e7\u00e3o que havia ido \u00e0 escola em bondes puxados por cavalos, estava de p\u00e9 sob o c\u00e9u numa paisagem na qual somente as nuvens continuavam sendo iguais e em cujo centro, num campo de for\u00e7as de correntes destrutivas e explos\u00f5es, estava o fr\u00e1gil e min\u00fasculo corpo humano\u201d (Benjamin <em>apud <\/em>Agamben, 2007, p. 20). [sublinhado nosso]<\/p>\n<p>Entretanto, e em sentido contr\u00e1rio, como resist\u00eancia e contra-efetua\u00e7\u00e3o, emergem experi\u00eancias e processos que recriam o coletivo, e inventam novas formas de conv\u00edvio e auto-organiza\u00e7\u00e3o. Estas experi\u00eancias podem ser desencadeadas por viv\u00eancias de desamparo compartilhadas que suscitam rea\u00e7\u00f5es de solidariedade e investimentos libidinais rec\u00edprocos. Apoiam-se frequentemente em movimentos identit\u00e1rios. Elas contribuem na cria\u00e7\u00e3o do <em>comum<\/em>, configurando um la\u00e7o social criativo baseado em iniciativas de coopera\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria e na sua capacidade de driblar a captura pelo individualismo e a rivalidade concorrencial promovidos permanentemente pelo modelo neoliberal. Unidos libidinalmente \u00e9 poss\u00edvel lutar juntos contra o perigo, \u00e9 poss\u00edvel esperar juntos apesar do isolamento, quando percebemos que <em>esperar \u00e9 saber<\/em>. Unidos libidinalmente, atrav\u00e9s do trabalho do pensamento, da arte, da cria\u00e7\u00e3o cultural em geral e da mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poderemos enfrentar com sucesso a cultura do \u00f3dio que procura dominar-nos e empobrecer-nos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Palavras e gestos, linha e agulha<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Tatiana Inglez-Mazzarella<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O que podemos pensar e do que podemos falar, sobre o que nos atravessa e a essa altura j\u00e1 contabiliza 117 mil mortos em nosso pa\u00eds? No momento boa parte de n\u00f3s encontra-se cansada, tentando dar conta de um estado de desamparo e de desalento provocado por uma inseguran\u00e7a potencializada por um inimigo comum e invis\u00edvel, mas n\u00e3o criada exclusivamente por ele: o SARS-Cov 2. Estamos em meio a uma situa\u00e7\u00e3o para a qual os protetores ps\u00edquicos encontram-se confrontados por uma situa\u00e7\u00e3o excessiva, intensa, que pode ultrapassar nossa capacidade representacional diante de sua imprevisibilidade e de seu potencial desorganizador.<\/p>\n<p>O Brasil parecia estar em \u201ccerta vantagem\u201d ao ser atingido um tempo depois de pa\u00edses que viveram situa\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis e a partir delas deixaram li\u00e7\u00f5es, frutos da \u00e1rdua experi\u00eancia. De alguns desses pa\u00edses nos chegavam imagens siderantes de situa\u00e7\u00f5es extremadas: UTIs lotadas, profissionais de sa\u00fade exauridos, assim como muitos mortos. Mas o Sars-Cov 2 nos atinge em um momento hist\u00f3rico de grande vulnerabilidade em nosso pa\u00eds, um momento no qual a pol\u00edtica do \u00f3dio e do exterm\u00ednio j\u00e1 vinham ganhando terreno frente a Eros e ao processo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u201cAssist\u00edamos pasmos a manifesta\u00e7\u00f5es de \u00f3dio e a promessas de elimina\u00e7\u00e3o de oponentes, tomados como inimigos por parte do ent\u00e3o candidato \u00e0 presid\u00eancia, hoje presidente, sem que qualquer medida de interdito capaz de barrar a pulsionalidade destrutiva tenha se efetivado. E pior, as vocifera\u00e7\u00f5es ganharam cada vez mais terreno, vindo a autorizar a coloca\u00e7\u00e3o em ato, por cidad\u00e3os comuns na busca pela afirma\u00e7\u00e3o do ser, desta pol\u00edtica de elimina\u00e7\u00e3o. Em vez de pensamento, j\u00e1 t\u00ednhamos vocifera\u00e7\u00f5es, recusa e passagens ao ato\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que chega a pandemia. Se as comunidades cient\u00edfica e m\u00e9dica sanit\u00e1ria deram os alertas de perigo, uma outra voz contr\u00e1ria bradava uma minimiza\u00e7\u00e3o dos riscos e a afirma\u00e7\u00e3o de que a verdadeira amea\u00e7a de morte vinha n\u00e3o do v\u00edrus, mas como resultado dos efeitos econ\u00f4micos que seriam gerados pelas a\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida indicadas. A partir da\u00ed, fomos lan\u00e7ados a dois discursos paralelos sobre os riscos e a morte. O reconhecimento dos riscos \u00e0 vida e a respectiva discuss\u00e3o de medidas de prote\u00e7\u00e3o do lado da ci\u00eancia, e a banaliza\u00e7\u00e3o do reconhecimento dos riscos, por parte do governo federal, passaram a conviver. Do \u00faltimo, a mesma l\u00f3gica de um discurso c\u00ednico, j\u00e1 instalado anteriormente, que transforma as mortes numa pandemia em um efeito natural da vida.<\/p>\n<p>Um discurso pautado na recusa. Na recusa, \u201ccomo ressalta Penot (1992), h\u00e1 uma indecis\u00e3o no sentido da representa\u00e7\u00e3o, ou seja, uma suspens\u00e3o do julgamento. Ao abolir o sentido, a recusa diferencia-se do recalcamento, j\u00e1 que o recalcado \u00e9 aquilo que, justamente, ao manter uma liga\u00e7\u00e3o com um sentido inadmiss\u00edvel para a consci\u00eancia, precisa ser apartado. A recusa, como nos prop\u00f5e Figueiredo (2008), n\u00e3o permite que aquilo que foi percebido e armazenado leve o sujeito a uma tomada de decis\u00e3o, a um posicionamento. [&#8230;]\u00a0O que n\u00e3o ocorre, o que est\u00e1 impedido \u00e9 uma infer\u00eancia advinda do que foi percebido. Neste sentido, preserva-se uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva fixa, inalter\u00e1vel que desmente o percebido\u201d<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, estamos numa condi\u00e7\u00e3o muito desfavor\u00e1vel para o acionamento da ang\u00fastia sinal, aquela que protege o psiquismo ao prepar\u00e1-lo para o enfrentamento de uma situa\u00e7\u00e3o de perigo. Assistimos ent\u00e3o a uma condi\u00e7\u00e3o de estados de ang\u00fastia devastadores frente a uma situa\u00e7\u00e3o traumatizante. O sujeito fica lan\u00e7ado a um funcionamento ps\u00edquico que aponta na dire\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia autom\u00e1tica e da dor ps\u00edquica. Dessa situa\u00e7\u00e3o decorre um transbordamento pulsional, o que leva o sujeito a um estado de desamparo e vulnerabilidade colocando-o numa situa\u00e7\u00e3o de total passividade, \u00e0 merc\u00ea das intensidades e sem recursos para enfrentar o vivido. Se na ang\u00fastia sinal h\u00e1 a presen\u00e7a de uma libido que pode ser ligada, na ang\u00fastia autom\u00e1tica a libido desligada deixa o sujeito numa amea\u00e7a de aniquilamento que pode ser articulada com o conceito de puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Diante de um excesso de realidade da morte e desprotegidos por um tempo atravessado por intensas doses de recusa, nos encontramos na urgente e necess\u00e1ria tarefa de narrar o que nos passa, de nos lan\u00e7armos coletivamente em esfor\u00e7os de figurabilidade, de tentarmos proteger, o melhor que conseguirmos, nossos recursos de pensamento e nossa capacidade de afeta\u00e7\u00e3o. Ao nos colocarmos nessa empreitada, mesmo que seja a partir de fiapos, seguiremos resistindo a uma entrega passiva e dessubjetivante frente a uma realidade excessiva e, portanto, traum\u00e1tica. Palavras e gestos como linha e agulha tentando cerzir ali onde a cis\u00e3o e a viol\u00eancia ganham terreno frente ao conflito e a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tecendo a manh\u00e3<\/p>\n<p>1.<\/p>\n<p>Um galo sozinho n\u00e3o tece uma manh\u00e3:<br \/>\nele precisar\u00e1 sempre de outros galos.<br \/>\nDe um que apanhe esse grito que ele<br \/>\ne o lance a outro; de um outro galo<br \/>\nque apanhe o grito que um galo antes<br \/>\ne o lance a outro; e de outros galos<br \/>\nque com muitos outros galos se cruzem<br \/>\nos fios de sol de seus gritos de galo,<br \/>\npara que a manh\u00e3, desde uma teia t\u00eanue,<br \/>\nse v\u00e1 tecendo, entre todos os galos.<\/p>\n<p>2.<\/p>\n<p>E se encorpando em tela, entre todos,<br \/>\nse erguendo tenda, onde entrem todos,<br \/>\nse entretendendo para todos, no toldo<br \/>\n(a manh\u00e3) que plana livre de arma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA manh\u00e3, toldo de um tecido t\u00e3o a\u00e9reo<br \/>\nque, tecido, se eleva por si: luz bal\u00e3o.<\/p>\n<p>Publicado no livro <em>A educa\u00e7\u00e3o pela pedra<\/em> (1966). In: MELO NETO, Jo\u00e3o Cabral de. <em>Obra completa<\/em>: volume \u00fanico. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.345. (Biblioteca luso-brasileira. S\u00e9rie brasileira).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O sonhar como tentativa de elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica frente \u00e0 invas\u00e3o traum\u00e1tica desencadeada pela pandemia<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Ana L\u00facia Panach\u00e3o<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia, observamos na cl\u00ednica um aumento de relatos de sonhos trazidos pelos pacientes que, por sua vez, tamb\u00e9m comentam lembrarem-se mais de seus sonhos. Muitas ang\u00fastias se exacerbaram com a eclos\u00e3o da crise mundial provocada pelo corona v\u00edrus, que trouxe consigo o risco de contamina\u00e7\u00e3o e a proximidade constante da amea\u00e7a de morte, obrigando os sujeitos ao isolamento social e \u00e0s suas consequ\u00eancias nefastas. O encontro com esse inusitado, para o qual possu\u00edmos refer\u00eancias escassas, tem nos exigido maior trabalho do aparelho ps\u00edquico. Sonhar mais ou lembrar mais dos sonhos s\u00e3o \u00edndices do excesso a ser processado a partir do que est\u00e1 sendo vivido.<\/p>\n<p>No texto <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>, Freud apresenta um modelo de funcionamento ps\u00edquico original capaz de dar conta, num primeiro momento, dos sonhos e em seguida dos processos ps\u00edquicos em geral. Um modelo de aparelho de sonhar, memorizar, fantasiar, pensar, falar, enfim, de simbolizar. Aparelho ps\u00edquico cujo trabalho \u00e9 capturar e distribuir as excita\u00e7\u00f5es provindas de est\u00edmulos internos e externos ao aparelho, possibilitando a diminui\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o geradora de desprazer.<\/p>\n<p>Os sonhos s\u00e3o realiza\u00e7\u00f5es de desejos, que pelas leis de deslocamento e condensa\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias ao funcionamento inconsciente e sob o regime do processo prim\u00e1rio correspondente \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o da energia ps\u00edquica sobre a cadeia de representa\u00e7\u00f5es, buscam reproduzir a experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o regida pelo <em>princ\u00edpio de prazer<\/em>. O sonho \u00e9 a via r\u00e9gia de acesso ao inconsciente, constitu\u00eddo pelas inscri\u00e7\u00f5es de tra\u00e7os mn\u00eamicos, derivados das experi\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o que repousam na prematuridade que caracteriza a esp\u00e9cie humana e sua condi\u00e7\u00e3o de desamparo original. A sobreviv\u00eancia f\u00edsica e ps\u00edquica do beb\u00ea depende da presen\u00e7a, acolhimento e cuidados de um outro humano. Reconhecemos aqui o ponto central e o papel crucial da alteridade na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, que o introduz na ordem simb\u00f3lica. Sonhar \u00e9 um trabalho ps\u00edquico simbolizante, mesmo quando os sonhos se apresentam como pesadelos ou em sua repeti\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica. \u00c9 um dos modos pelo qual o aparelho ps\u00edquico, organizado segundo suas inscri\u00e7\u00f5es e representa\u00e7\u00f5es, busca sa\u00eddas para lidar com a ansiedade, medos, desejos, amea\u00e7as e registros das experi\u00eancias cotidianas.<\/p>\n<p>O sono exerce uma a\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica sobre as atividades mentais e sonhar \u00e9 uma forma pela qual o sono propicia benef\u00edcios. O sono funciona como um afastamento &#8211; um intervalo temporal &#8211; uma retra\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria do interesse no mundo externo. O sonho \u00e9 guardi\u00e3o do sono \u00e0 medida que enla\u00e7a as excita\u00e7\u00f5es que poderiam perturbar o sujeito que dorme, numa cadeia de representa\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas. \u00c9 necess\u00e1rio dormir para poder sonhar. A rela\u00e7\u00e3o sono-sonho \u00e9 fundamental para o psiquismo e tem fun\u00e7\u00e3o de elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e de regenera\u00e7\u00e3o narc\u00edsica.<\/p>\n<p>O trabalho do sonho pode falhar em sua importante fun\u00e7\u00e3o elaborativa, como acontece no pesadelo, que implica num fracasso parcial da fun\u00e7\u00e3o on\u00edrica. Ainda assim, o pesadelo pode ser reconhecido no seu sentido psicopatol\u00f3gico positivo, como tentativa de elabora\u00e7\u00e3o de um conflito e como experi\u00eancia angustiante ou dolorosa que pode ser relatada e escutada, produzindo novas significa\u00e7\u00f5es. \u00c9 um sonho angustiado com imagens assustadoras, mas que podem ser retomadas na vida de vig\u00edlia dentro do campo representacional.<\/p>\n<p>Os sonhos traum\u00e1ticos tamb\u00e9m atestam o fracasso da fun\u00e7\u00e3o on\u00edrica, o que levou Freud a reconsiderar a afirma\u00e7\u00e3o feita em sua primeira teoria do aparelho ps\u00edquico, de que os sonhos seriam sempre realiza\u00e7\u00e3o de desejos. Frente \u00e0 compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o do desprazer, ele observa um funcionamento ps\u00edquico para al\u00e9m do princ\u00edpio de prazer, que o leva a formular o conceito de <em>puls\u00e3o de morte<\/em>. O sonho traum\u00e1tico falha pelo fracasso em transformar os tra\u00e7os mn\u00eamicos, em sua realidade traum\u00e1tica, num desejo realizado. Em situa\u00e7\u00f5es extremas de traumatismos violentos, a realiza\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria do desejo \u00e9 preterida por uma fun\u00e7\u00e3o primitiva do psiquismo que busca, atrav\u00e9s dos processos de liga\u00e7\u00e3o, dar vaz\u00e3o ao excesso de excita\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel, n\u00e3o process\u00e1vel pelo psiquismo. Apesar do fracasso dos processos de simboliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante salientar que, ainda assim, o sonho traum\u00e1tico det\u00e9m um potencial simbolizante, mesmo que evidencie a falha b\u00e1sica do princ\u00edpio de prazer.<\/p>\n<p>Embora o sonhar seja um trabalho singular para cada sujeito sonhador, os sonhos tamb\u00e9m apresentam elementos comuns captados do entorno social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico, e podem ser lidos a partir dessa dimens\u00e3o coletiva do contexto atual. As pessoas est\u00e3o muito angustiadas n\u00e3o somente com a amea\u00e7a real de adoecimento pelo v\u00edrus, pelo medo de morrer, mas tamb\u00e9m pela falta de perspectivas e refer\u00eancias para o enfrentamento da crise que causam um efeito de desorganiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Situa\u00e7\u00f5es de persegui\u00e7\u00e3o, medo e fuga de perigos difusos, isolamento e imagens de desabamento comparecem frequentemente nas narrativas on\u00edricas, principalmente nos relatos de sonhos de ang\u00fastia.<\/p>\n<p>N\u00e3o havendo inst\u00e2ncias pol\u00edticas confi\u00e1veis que antecipem ou atendam rapidamente \u00e0s necessidades que se apresentaram e na falta de um discurso simb\u00f3lico capaz de acolher as tens\u00f5es geradas pela amea\u00e7a \u00e0 sobreviv\u00eancia, estamos sujeitos ao desamparo.<\/p>\n<p>Umas das respostas poss\u00edveis para evitar cair no desalento diante dessa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o adversa \u00e9 poder dormir e sonhar, recolher-se num intervalo de tempo regenerador para o psiquismo.<\/p>\n<p>Outras sa\u00eddas importantes para restituir os caminhos de representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica na vida de vig\u00edlia s\u00e3o os diversos grupos de trabalho, que funcionam como importantes redes de sustenta\u00e7\u00e3o, que se constitu\u00edram em torno da enorme transforma\u00e7\u00e3o que atingiu a todos.<\/p>\n<p>Uma importante pesquisa sobre sonhos est\u00e1 sendo realizada em conjunto por universidades federais de todo o pa\u00eds: Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo. O projeto <em>Sonhos em tempos de pandemia<\/em> -sonhos confinados- interroga o que tem habitado os sonhos dos sujeitos nessa \u00e9poca e como a crise tem se refletido nos sonhos. Os pesquisadores j\u00e1 receberam cerca de mil relatos de sonhos que lan\u00e7am luz sobre a realidade da qual prov\u00eam. As cenas dos sonhos s\u00e3o singulares, mas permitem uma leitura do que est\u00e1 sendo vivido no coletivo. Os sonhos recolhidos formam um tecido discursivo que pode ser tomado como testemunho de seu tempo.<\/p>\n<p>Esse projeto foi inspirado no livro <em>Sonhos do terceiro Reich<\/em>, escrito por Charlotte Beradt, que entrevistou os alem\u00e3es no per\u00edodo de 1933 a 1939. O livro aponta para a fun\u00e7\u00e3o coletiva dos sonhos, nos quais aparecem com mais clareza os pensamentos, impress\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es que n\u00e3o est\u00e3o admitidos na vida de vig\u00edlia. O inconsciente capta o que a consci\u00eancia n\u00e3o consegue captar. No processo de sonhar, a censura est\u00e1 rebaixada, o sonho n\u00e3o pensa e n\u00e3o julga, o inconsciente funciona sob leis pr\u00f3prias de deslocamento e condensa\u00e7\u00e3o, elaborando coisas que n\u00e3o dar\u00edamos conta de admitir com as ferramentas da consci\u00eancia. Pelos relatos dos sonhos recolhidos, a autora inferiu que os alem\u00e3es come\u00e7aram a perceber o perigo muito antes de se darem conta dele conscientemente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O paradoxo da democracia<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Ana Maria Siqueira Leal<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nas pesquisas que elaborei para produzir esse texto, encontrei Mitsuo Tanaka, de 77 anos, ativista do maio de 68 no Jap\u00e3o \u2013 feminista, chamou seu movimento da \u201crevolu\u00e7\u00e3o sem suti\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>O <em>maio de 68<\/em>, marco da Revolu\u00e7\u00e3o Contempor\u00e2nea, surgiu na Fran\u00e7a e se espalhou por toda a Europa, \u00c1sia e Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Este movimento incendiou os pa\u00edses, com reivindica\u00e7\u00f5es de toda ordem, que iam da Greve Geral de trabalhadores \u00e0 libera\u00e7\u00e3o dos costumes \u2013 lutas de rua com a pol\u00edcia e assembleias por toda a parte.<\/p>\n<p>Nos EUA, o <em>flower power<\/em> e a luta contra a Guerra do Vietn\u00e3 trouxeram, em paralelo, os tanques e as bombas, despejadas contra a popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>Me surpreendi que Mitsuo Tanaka v\u00e1 at\u00e9 hoje ao metr\u00f4 de T\u00f3quio, onde todos passam, como se ela n\u00e3o estivesse ali, carregando um cartaz escrito PAZ, e afirmando, em entrevista, que jamais vai desistir da sua luta!<\/p>\n<p>As quest\u00f5es que me mobilizam neste pequeno texto s\u00e3o: Por que a democracia liberal e o liberalismo econ\u00f4mico n\u00e3o est\u00e3o dando conta de responder ao desenvolvimento do capitalismo na atualidade?<\/p>\n<p>Por que a direita vem tomando um espa\u00e7o maior no mundo?<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o os ideais de liberdade, paz e justi\u00e7a social?<\/p>\n<p>Que significado tem as elei\u00e7\u00f5es de Bolsonaro, Trump e outros por todo o planeta?<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo responder a todas estas quest\u00f5es &#8211; o que me exigiria um tratado &#8211; mas sim trazer aportes para uma poss\u00edvel conversa entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Aproximando-nos mais do contempor\u00e2neo e chegando a 2008, nos EUA, a crise das bolsas e nos investimentos imobili\u00e1rios trouxe um baque para o pa\u00eds e para o mundo, ainda maior que a crise de 1929 &#8211; falta emprego e falta dinheiro.<\/p>\n<p>Movimentos de rua se intensificam, com pautas abertas e reivindica\u00e7\u00f5es al\u00e9m das econ\u00f4micas &#8211; pautas LGBTQ+, feministas e contra o racismo engrossam esses movimentos.<\/p>\n<p>Isso tudo trouxe a volta do povo e do p\u00fablico para as ruas.<\/p>\n<p>A partir de 2011, nova onda de protestos. Em 17 de setembro o movimento <em>Occupy<\/em> se mobilizou mundialmente. Dizia: \u201cSomos 99%\u201d e expressava oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 desigualdade social e econ\u00f4mica e \u00e0 falta de &#8220;democracia real&#8221;.<\/p>\n<p>Palavras chaves como: desobedi\u00eancia civil; <em>Occupy Wall Street<\/em>; luta pela preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, est\u00e3o presentes.<\/p>\n<p>Em 2013 no Brasil, o movimento <em>Passe Livre<\/em>, iniciado nas grandes capitais, toma todo o Brasil &#8211; e apresenta reinvindica\u00e7\u00f5es amplas &#8211; cada qual com seu cartaz na m\u00e3o!<\/p>\n<p>O que o movimento <em>Occupy<\/em> tem a ver com os protestos no Brasil?<\/p>\n<p>Suas reivindica\u00e7\u00f5es amplas.<\/p>\n<p>Em Saint Paul, catedral de Londres, foram montadas barracas, como uma feira e ofereciam palavras de ordem, as mais variadas, contra a ordem estabelecida &#8211; confirmando a ideia de que o privado \u00e9 pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Hoje, com a pandemia, vivemos o agravamento de todas essas quest\u00f5es!<\/p>\n<p>\u2013 Mais desigualdade social e desemprego.<\/p>\n<p>\u2013 Injusti\u00e7as e viol\u00eancias cada vez maiores.<\/p>\n<p>&#8211; Milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o abaixo da linha de pobreza.<\/p>\n<p>\u2013 Tudo isso aliado a um d\u00e9ficit de democracia.<\/p>\n<p>O ac\u00famulo do capital, a dificuldade de distribuir riquezas e uma sociedade de consumo, apenas de olho no mercado, nos deixa \u00f3rf\u00e3os e sem dire\u00e7\u00e3o, principalmente em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Encerro trazendo a declara\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Saramago, na inaugura\u00e7\u00e3o de sua exposi\u00e7\u00e3o: <em>A consist\u00eancia dos sonhos<\/em>, na Espanha:<\/p>\n<p><em>Se toda gente boa, pudesse se unir&#8230; poder\u00edamos fazer um novo projeto civilizat\u00f3rio, para enfrentar a barb\u00e1rie do MUNDO! <\/em><\/p>\n<p>No \u00faltimo momento, ao encerrar este texto, encontrei esta outra frase de Saramago, que acredito ter tudo a ver com o que vivemos neste momento:<\/p>\n<p><em>O que as vit\u00f3rias t\u00eam de mau, \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o definitivas. O que as derrotas t\u00eam de bom \u00e9 que tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o definitivas.<\/em><\/p>\n<p>Setembro de 2020<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Resili\u00eancia ou resist\u00eancia?<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Marcelo Soares da Cruz<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Fala baseada no texto de Ana Berezin e Gilou Garc\u00eda Reinoso, \u201cResili\u00eancia ou a sele\u00e7\u00e3o dos mais aptos\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Resili\u00eancia<\/em> &#8211; ferramenta de conquistas adaptativas e eficazes &#8211; chamada de &#8220;criatividade&#8221; no jarg\u00e3o do <em>marketing<\/em> &#8211; engloba uma linha que come\u00e7a na sele\u00e7\u00e3o de pessoal para empresas e termina no racismo, no classismo e nas exclus\u00f5es de todos os tipos.<\/p>\n<p>O termo vem da f\u00edsica e tamb\u00e9m \u00e9 usado pela engenharia e arquitetura. Refere-se \u00e0 qualidade de certos materiais em n\u00e3o alterar suas caracter\u00edsticas mesmo ap\u00f3s fortes impactos, sua capacidade de se reconstru\u00edrem sem que os impactos deixem rastros ou marcas.<\/p>\n<p>Em analogia a essa terminologia da f\u00edsica, o termo \u00e9 importado para os campos da Educa\u00e7\u00e3o e da Sa\u00fade Mental, com a incurs\u00e3o de alguns psicanalistas que acreditam poder import\u00e1-lo sem consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O ideal de resili\u00eancia parece ser funcionalidade e efici\u00eancia, dos sujeitos e principalmente do sistema.<\/p>\n<p>Resili\u00eancia \u00e9 efetivamente a capacidade que alguns sujeitos t\u00eam, mais do que outros, de acreditar no que o Poder dita, de cumprir e transmitir seus mandatos.<\/p>\n<p><em>Resili\u00eancia relaciona-se \u00e0 obedi\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p>Os \u201cresilientes\u201d seriam capazes de suportar melhor &#8211; sem deixar marcas neles &#8211; o ataque de condi\u00e7\u00f5es adversas, em particular os traumas sofridos na inf\u00e2ncia ou contempor\u00e2neos \u00e0 vida adulta.<\/p>\n<p><em>Ingenuidade perversa<\/em> &#8211; o sujeito se reconstr\u00f3i, ap\u00f3s um intervalo, de uma cat\u00e1strofe ou viol\u00eancia destrutiva, tornando-se mais forte quem sofreu tal viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Que sujeito poderia se conceber imune a tudo o que lhe acontece? Que conceito de sujeito isso implicaria?<\/p>\n<p>Eugenia &#8211; concep\u00e7\u00e3o do \u201cmais forte\u201d.<\/p>\n<p>Corremos o risco de que a Sa\u00fade Mental, com a colabora\u00e7\u00e3o de psicanalistas desavisados, se torne c\u00famplice das novas formas de coer\u00e7\u00e3o (amea\u00e7a?) \u00e0 \u200b subjetividade.<\/p>\n<p>N\u00e3o visa \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida, de fato.<\/p>\n<p>Como metodologia de interven\u00e7\u00e3o no dom\u00ednio da Sa\u00fade Mental, sustenta-se, embora negada, a consolida\u00e7\u00e3o de modos adaptativos ao excesso de sofrimento.<\/p>\n<p>Declarar que se aprende depois do sofrimento \u00e9 negar a dimens\u00e3o destrutiva que o Poder imp\u00f5e \u00e0 subjetividade; a expropria\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da dor e a nega\u00e7\u00e3o do sofrimento desumanizador amea\u00e7am a subjetividade.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio analisar as condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas, quando n\u00e3o oferecem ou permitem a elabora\u00e7\u00e3o do sofrimento e promovem sua nega\u00e7\u00e3o &#8211; em um uso banalizado, acr\u00edtico e ent\u00e3o abusivo do conceito e pr\u00e1tica da resili\u00eancia.<\/p>\n<p>Diante desse ideal de adapta\u00e7\u00e3o, que ignora o sujeito e a autoriza\u00e7\u00e3o para deprimir, o papel da psican\u00e1lise \u00e9 o da <em>resist\u00eancia<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Pandemia: Desamparo, desalento e o trabalho do luto<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Roberta Kehdy<\/strong><a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\"><strong>[17]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud descortinou, em seus escritos, o conceito de <em>desamparo<\/em> ao qual a condi\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 sujeita. O beb\u00ea humano depende, ao nascimento, que um outro humano o apresente ao mundo e lhe apresente esse mundo, de prefer\u00eancia em pequenas doses, como bem salientou Winnicott<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a>. Neste in\u00edcio, o beb\u00ea \u00e9 um ser totalmente dependente e as dores ps\u00edquicas prov\u00eam dos encontros<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[19]<\/a> &#8211; poss\u00edveis ou n\u00e3o &#8211; entre este e o adulto respons\u00e1vel pelo seu cuidado.<\/p>\n<p>Em <em>Sobre a transitoriedade<\/em>, Freud apresenta o trabalho de luto diante das perdas, mas nos indica que muitas vezes este trabalho n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Neste texto, considera que a impossibilidade de frui\u00e7\u00e3o da beleza seria uma revolta contra o luto e postula que a transitoriedade de uma experi\u00eancia n\u00e3o implica em uma perda de valor da mesma. Escrito em plena vig\u00eancia da 1\u00aa Guerra, destaca que as muitas perdas que esta trouxe podem aumentar a liga\u00e7\u00e3o libidinal com o que restou.<\/p>\n<p>Em <em>Luto e melancolia<\/em>, Freud reafirma a import\u00e2ncia do trabalho do luto, apontando como a constitui\u00e7\u00e3o do psiquismo humano implica em elabora\u00e7\u00e3o constante das perdas sofridas pelo Eu. Ele vai se deter em explorar este processo de luto e seus percal\u00e7os, pois o desligamento da libido de seus objetos \u00e9 penoso. Como fica a rela\u00e7\u00e3o com o que se perdeu? Para alguns, implica uma ren\u00fancia permanente, como na melancolia; para outros, h\u00e1 a possibilidade de estabelecer novas liga\u00e7\u00f5es libidinais. Ele enfatiza a dimens\u00e3o da passagem do tempo como fundamental neste processo. F\u00e9dida<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[20]<\/a> retomar\u00e1 essa dimens\u00e3o da temporalidade para pensar os quadros depressivos, salientando que o depressivo pede tempo. Alguns elementos presentes na contemporaneidade: acelera\u00e7\u00e3o do tempo proposta pela tecnologia, falta de lugar para a tristeza e para a morte fazem-nos situar a <em>depress\u00e3o<\/em> como sintoma social de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p>A partir destas considera\u00e7\u00f5es, gostaria de levantar algumas quest\u00f5es sobre a pandemia, seu impacto na rela\u00e7\u00e3o dos sujeitos com a temporalidade e com o trabalho do luto e pensar a posi\u00e7\u00e3o do psicanalista neste contexto.<\/p>\n<p>A pandemia parece ter trazido \u00e0 tona como a cultura contempor\u00e2nea estava imersa numa ilus\u00e3o, ao acreditar que a ci\u00eancia pode dominar a natureza e dissipar a morte. O v\u00edrus \u00e9 um inimigo invis\u00edvel, sem vacina e como n\u00e3o conhecemos bem a doen\u00e7a e ainda n\u00e3o h\u00e1 protocolos seguros, somos remetidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de desamparo do in\u00edcio da vida. A falta de horizonte temporal para o fim do isolamento parece trazer novas possibilidades de lidar com a passagem do tempo: para alguns, isto se transforma em enorme fonte de ang\u00fastia e impossibilidade de a\u00e7\u00e3o. Para outros, redimensiona a perspectiva de constru\u00e7\u00e3o de futuro, situando-a num intervalo pequeno, \u201cviver um dia de cada vez\u201d.<\/p>\n<p>Joel Birman<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[21]<\/a> faz uma distin\u00e7\u00e3o interessante entre <em>desamparo<\/em> e <em>desalento,<\/em> que considero importante para pensarmos a possibilidade do trabalho de luto diante do que estamos vivendo. No registro do desamparo, o sujeito acredita numa inst\u00e2ncia de apelo: o choro do beb\u00ea encontra um outro que o acolhe, cuida e significa. A partir deste encontro, \u00e9 poss\u00edvel desenvolver o trabalho de luto. Na experi\u00eancia de desalento, forma de subjetiva\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia do melanc\u00f3lico, houve uma condi\u00e7\u00e3o real de n\u00e3o cuidado e de aus\u00eancia de reconhecimento que impede que o psiquismo realize o trabalho de luto e que podemos considerar da ordem do traum\u00e1tico. Este autor traz uma contribui\u00e7\u00e3o importante ao estender esta experi\u00eancia para os indiv\u00edduos sem possibilidade de um reconhecimento social: judeus no holocausto, refugiados na atualidade, moradores de favelas no Brasil. Ele aponta que nestas situa\u00e7\u00f5es h\u00e1 uma impossibilidade de valoriza\u00e7\u00e3o das marcas de origem, o que compromete a cria\u00e7\u00e3o de uma perspectiva de futuro: o sujeito vive aprisionado num tempo presente que paralisa<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[22]<\/a>. Aqui, no Brasil, a pandemia mostrou ao n\u00edvel da caricatura nossa condi\u00e7\u00e3o social de segrega\u00e7\u00e3o e privil\u00e9gios. O v\u00edrus n\u00e3o escolhe classe social, mas a prote\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9 totalmente desigual. Constatamos que o n\u00famero de doentes e mortos \u00e9 predominantemente das camadas mais pobres e negros, que n\u00e3o t\u00eam como fazer o isolamento necess\u00e1rio, seja pelas condi\u00e7\u00f5es de moradia ou devido \u00e0 impossibilidade de sobreviver sem trabalhar e n\u00e3o ter acesso ao trabalho remoto.<\/p>\n<p>A partir das considera\u00e7\u00f5es de alguns autores da psican\u00e1lise contempor\u00e2nea como Bleichmar<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[23]<\/a> e Gondar<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[24]<\/a>, penso que quando nos deparamos com uma situa\u00e7\u00e3o de desalento, que pode se intensificar num per\u00edodo de instabilidade como o que estamos vivendo com a pandemia e o pandem\u00f4nio, a posi\u00e7\u00e3o do psicanalista se aproxima da testemunha. Isto \u00e9, aquele que reconhece a dor do sujeito, mas tamb\u00e9m sua potencialidade e singularidade, apostando nos seus recursos. Assim, a fun\u00e7\u00e3o de testemunha do analista vai de par, em Ferenczi,<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[25]<\/a> com sua concep\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00e3o que, como vimos, n\u00e3o implica a reprodu\u00e7\u00e3o do mesmo, mas faz advir o que nunca houve, o que jamais teve lugar. Como a m\u00e3e que antecipa o sujeito onde ainda n\u00e3o h\u00e1. O psicanalista busca com o analisante, ent\u00e3o, cocriar um espa\u00e7o potencial, onde pode funcionar como suporte de uma figurabilidade que conferir\u00e1 mobilidade \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es, possibilitando a capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o \u2013 abertura de horizontes temporais e espaciais para as iniciativas de a\u00e7\u00e3o, linguagem e pensamento &#8211; que favorece a instala\u00e7\u00e3o ou resgate da dimens\u00e3o da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Gostaria de encerrar salientando como a \u00e9tica da psican\u00e1lise nos remete a um compromisso pol\u00edtico de pensar as condi\u00e7\u00f5es de subjetiva\u00e7\u00e3o em meio a nossa desigualdade social e lembrando que:<\/p>\n<p>\u201cSonho que se sonha s\u00f3, \u00e9 s\u00f3 um sonho<br \/>\nSonho que se sonha junto \u00e9 realidade\u201d.<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[26]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><em>Conatus <\/em>e Covid-19: li\u00e7\u00f5es de um curso no Sedes Sapientiae<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\"><strong>[27]<\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Helena Fontes<\/strong> <strong><a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\">[28]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira aula aconteceu em 10\/03\/2020, como esperado, no audit\u00f3rio do <em>Sedes Sapientiae<\/em> e reuniu duas turmas do curso <em>Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea<\/em>, uma estava come\u00e7ando o 2\u00ba ano, outra, come\u00e7ava o 1\u00ba ano. At\u00e9 aqui, as coisas seguiam o rumo projetado.<\/p>\n<p>Uma semana depois, algo tamb\u00e9m esperado, por\u00e9m muito indesejado, aconteceu: a contagem crescente de pacientes e mortos pela COVID-19 paralisou o andamento do curso. As inquieta\u00e7\u00f5es rapidamente ocuparam o lugar das expectativas e o cronograma de aulas foi substitu\u00eddo por um grande ponto de interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro, n\u00e3o apenas o curso, mas os planos e a rotina de cada uma das pessoas que se reencontraram ou se conheceram no audit\u00f3rio do <em>Sedes<\/em> dias antes, foram bem afetados.<\/p>\n<p>Dias depois, chegou a not\u00edcia de que seguir\u00edamos o curso por meio de uma plataforma digital e a interroga\u00e7\u00e3o: <em>ser\u00e1 que continuamos?<\/em> foi trocada por outra: <em>ser\u00e1 que isto vai dar certo?<\/em><\/p>\n<p>Depois destes dois acontecimentos externos, veio a vez de um acontecimento interno: aula a aula fui sendo contagiada \u2013 n\u00e3o pelo coronav\u00edrus \u2013 mas pela receptividade do grupo \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o. Era um grupo formado por pessoas que eu desconhecia, mas que apoiaram a iniciativa do <em>Sedes <\/em>com entusiasmo e demostraram fortemente o desejo de seguirem juntas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, v\u00e1rias outras formas de conv\u00edvio social estavam substituindo espa\u00e7os reais e tridimensionais ocupados por corpos pelos espa\u00e7os virtuais e planos ocupados por imagens. Por que n\u00e3o aproveitar o momento para experimentar esta outra maneira de estudar em grupo? De aprender novos conhecimentos e, simultaneamente, aprender novas din\u00e2micas de aprendizagem?<\/p>\n<p>Aula a aula, a d\u00favida e a inquieta\u00e7\u00e3o foram cedendo territ\u00f3rio para a confian\u00e7a. Semana a semana, os rostos e\/ou os nomes escritos em um quadrado preto, entravam em minha casa e, na tela do computador, formavam uma esp\u00e9cie de gibi eletr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Mas as <em>personagens<\/em> foram saindo do gibi e \u2013 n\u00e3o sei precisar quando \u2013 elas ganharam veracidade; seus nomes e rostos deixaram de ser fic\u00e7\u00f5es. Elas se materializaram como <em>pessoas<\/em> e, vejam s\u00f3: cada uma delas tinha muitas hist\u00f3rias para trocar com as outras! Tudo se passou como se um sonho de crian\u00e7a virasse realidade.<\/p>\n<p>Bem, algumas coisas fazem falta, por exemplo, os cochichos ou bilhetinhos trocados com colegas, para mim, perdem sabor quando trocados no <em>chat <\/em>privado ou p\u00fablico. As conversas na chegada e no intervalo&#8230;<\/p>\n<p>Muitas vezes, nos sentimos pr\u00f3ximos da exaust\u00e3o por estarmos obrigados a horas seguidas numa cadeira diante de uma tela, dia ap\u00f3s dia. \u00c9 a nova rotina com suas exig\u00eancias e dificuldades.<\/p>\n<p>Outras coisas irritam: as recorrentes quedas ou falhas de conex\u00e3o roubam a for\u00e7a de minha paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Nas horas de des\u00e2nimo \u2013 que certamente tamb\u00e9m existem nas atividades presenciais \u2013 busco no <em>deus tempo<\/em> ajuda para resolver a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso tempo para dominar os recursos tecnol\u00f3gicos, para acostumar-se a ver o pr\u00f3prio rosto na tela (\u00e0s vezes n\u00e3o d\u00e1 para ocult\u00e1-lo), para aquietar ansiedades, para descobrir como criar e manter novas amizades etc.<\/p>\n<p>\u00c9 aconselh\u00e1vel dar ao tempo, tempo para que as frustra\u00e7\u00f5es e as incompreens\u00f5es que mudan\u00e7as abruptas sempre trazem \u00e0 tona sejam metamorfoseadas em esperan\u00e7as e obras dignas da exist\u00eancia e dos esfor\u00e7os humanos.<\/p>\n<p>Ao longo destes meses, as pessoas do grupo \u2013 agora uma verdadeira turma \u2013 foram se apresentando, revelando seus gostos musicais, cinema, artigos de opini\u00f5es, indica\u00e7\u00f5es de literatura&#8230;<\/p>\n<p>E as <em>lives<\/em>! Sim as <em>lives<\/em>! Elas viraram um ponto de encontro e de socializa\u00e7\u00e3o. Ah encontrei [&#8230;] na<em> live<\/em> do Daniel Kupermann, [&#8230;] na de Fernando Urribarri, [&#8230;] na do Arnaldo Chuster e&#8230;<\/p>\n<p>E houve, entre outras, uma noite especial trazida por professoras\/es; nela refletimos sobre os efeitos da COVID-19, o momento sociopol\u00edtico e coisas assim. Aos poucos, os sentimentos de cada uma\/um, ocuparam o espa\u00e7o \u2013 n\u00e3o da tela \u2013 mas aquele que efetivamente reunia as duas turmas (1\u00ba e 2\u00ba anos) novamente.<\/p>\n<p>Assim ajuntados, pudemos nos conhecer um pouco melhor. As turmas, os professores e o coordenador que se encontraram no audit\u00f3rio do <em>Sedes <\/em>em 10\/03\/2020 estavam novamente reunidos. O Zoom nos possibilitou um zum-zum-zum memor\u00e1vel, bem agrad\u00e1vel e acolhedor.<\/p>\n<p>Estou na turma do 1\u00ba ano e aproveitei para conhecer um pouco mais a turma do 2\u00ba ano. Me lembrei dos tempos em que, menina, sentia curiosidade de conhecer as\/os alunas\/os dos cursos mais adiantados \u2013 o que ser\u00e1 que eles est\u00e3o estudando etc. Senti que, de fato, form\u00e1vamos turmas universit\u00e1rias, preocupadas com o que est\u00e1 acontecendo, desenhando solu\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e algumas ut\u00f3picas.<\/p>\n<p>Juntas\/os lembramos que <em>humanos, demasiadamente humanos<\/em>, somos vulner\u00e1veis \u00e0s vicissitudes e que, n\u00e3o raro, o controle de si e das circunst\u00e2ncias escapa de nossas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Durante as reflex\u00f5es desta noite sobre a COVID-19 e cia., recordamos que o medo da morte est\u00e1 sempre conosco e nos perguntamos: o que fazemos para enfrent\u00e1-lo? O que podemos fazer para atenuar a dor que vemos neste cen\u00e1rio ca\u00f3tico de pandemia e de quase horror na pol\u00edtica?<\/p>\n<p>O que podemos fazer para seguir em frente, apesar das nossas pr\u00f3prias insufici\u00eancias e limita\u00e7\u00f5es? Para n\u00e3o chorar antes de apagar as luzes para dormir?<\/p>\n<p>Um dos artif\u00edcios mais usados por toda gente \u00e9 <em>viver um dia de cada vez<\/em>: anestesiando a percep\u00e7\u00e3o da dor ou do fracasso; encobrindo a ang\u00fastia com uma ingenuidade for\u00e7ada ou em um processo de vitimiza\u00e7\u00e3o; criando sensa\u00e7\u00f5es de vit\u00f3ria diante do simb\u00f3lico \u201cpequeno medo de morrer\u201d que mascara o medo real da morte concreta.<\/p>\n<p>De repente, Lenine \u201caparece\u201d cantando <em>Paci\u00eancia<\/em> e o sentimento de comunh\u00e3o veio com a m\u00fasica; alguns \u201cdan\u00e7aram\u201d em suas cadeiras. Foi bonito de ver e gostoso de participar.<\/p>\n<p>Sai com a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos aproveitando bem a oportunidade criada pelo curso de nos conhecermos e estudarmos junta\/os certas coisas que s\u00e3o importantes para aplicarmos na cl\u00ednica e onde mais pudermos.<\/p>\n<p>Como em outras vezes em minha vida, sinto-me aconchegada na vis\u00e3o que Spinoza tem da realidade:<em> todas as coisas lutam para persistir em sua pr\u00f3pria exist\u00eancia<\/em>.<\/p>\n<p>Este modo de compreender a exist\u00eancia sugerida pelo fil\u00f3sofo nos ajuda a enfrentar com criatividade, coragem e humanidade as consequ\u00eancias da pandemia que, ao que tudo indica \u2013 ainda est\u00e3o longe de acabar.<\/p>\n<p>O conceito espinosano de <em>conatus<\/em> &#8211; expresso acima &#8211; nos faz enxergar uma pot\u00eancia que atua no \u00e2mago de cada pessoa e que a capacita a lidar com infort\u00fanios, entre eles, a inevitabilidade da morte \u2013 que a COVID-19 trouxe \u00e0 tona.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, oito meses foram dados ao tempo; diversas transforma\u00e7\u00f5es ocorreram dentro e fora de mim e, creio, de toda gente.<\/p>\n<p>Afortunadamente, outros meses ainda vir\u00e3o e \u2013 sem abandonarmos o gibi acima \u2013quero tamb\u00e9m reencontrar a todas\/os nas salas de aula, na cantina, nos corredores e na biblioteca do <em>Sedes<\/em>.<\/p>\n<p>Por obra do <em>conatus<\/em>, novas turmas sempre existir\u00e3o e, nelas, as pessoas se abra\u00e7ar\u00e3o e abra\u00e7ar\u00e3o causas benfazejas \u2013 afinal, \u00e9 para isso que as escolas servem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Originalmente publicado no boletim online 56, outubro de 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Fuks, M. P. \u201cReich e a rela\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica\u201d. <em>Percurso <\/em>63, 2019.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Freud, S. \u201cEl porvenir de uma ilusi\u00f3n\u201d in: <em>Obras Completas. <\/em>Buenos Aires: Amorrortu, 1996.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Fuks, M.P. \u201cA sociedade do desempenho e as patologias do neoliberalismo\u201d, <em>Boletim Online<\/em> 49, abril de 2019: <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=49&amp;ordem=6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=49&amp;ordem=6<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Fuks, M. P. Abertura do 2\u00ba Encontro Internacional dos Estados Gerais da Psican\u00e1lise, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Fuks, M. P. \u201cPsicopatologia, constru\u00e7\u00e3o de subjetividade e neoliberalismo\u201d<em> Boletim Online<\/em> 41, abril de 2017: <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=41&amp;ordem=3&amp;origem=ppag\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=41&amp;ordem=3&amp;origem=ppag<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Ver tamb\u00e9m Losicer, E. \u201cConfinamentos, confinamentos, confinamentos\u201d no n\u00famero 56 do\u00a0<i>b<\/i><em>oletim online:<br \/>\n<\/em><a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=56&amp;ordem=4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=56&amp;ordem=4<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Ramonet, I. \u201cLa pandemia y el sistema-mundo\u201d. <em>Le monde diplomatique, <\/em>abril 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Panach\u00e3o, A.; Francisquetti, P. e Inglez-Mazzarella, T. \u201cA Onda de \u00d3dio nas Elei\u00e7\u00f5es de 2018 no Brasil\u201d. Texto apresentado na FLAPPSIP.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> Idem<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> Winnicott. D.W. O mundo em pequenas doses. In: <em>A crian\u00e7a e o seu mundo<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[19]<\/a> Roussillon, R. O materno. In: <em>Boletim Online do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientae. <\/em>Edi\u00e7\u00e3o 53, abril de 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[20]<\/a> F\u00e9dida, P. <em>Dos benef\u00edcios da depress\u00e3o: elogio da psicoterapia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[21]<\/a> Birman, J.\u00a0 Mesa redonda do C\u00edrculo Psicanal\u00edtico do Rio de Janeiro: \u201cExclus\u00e3o, solid\u00e3o, desesperan\u00e7a: excessos e vazios\u201d transmitida <em>on line<\/em> em 22\/8\/2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[22]<\/a> Knobloch,F. <em>O tempo do traum\u00e1tico. <\/em>Rio de Janeiro: Educ, 1988.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[23]<\/a> Bleichmar, S. <em>Psicoan\u00e1lisis extramuros<\/em>. Buenos Aires: Entreideas, 2010.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[24]<\/a> Gondar, J.; Frichs Antonello, D. O analista como testemunha. <em>Revista Psicologia USP<\/em>, vol. 27, n. 1. S\u00e3o Paulo, jan\/abr 2016:<a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/0103-6564D20150010\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/0103-6564D20150010<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[25]<\/a> Ferenczi, S. (1934). Reflex\u00f5es sobre o trauma. <em>Obras completas de S\u00e1ndor Ferenczi, Psican\u00e1lise 4.<\/em> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1992.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[26]<\/a> Seixas, Raul. \u201cPrel\u00fadio\u201d, 1974.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[27]<\/a> Originalmente publicado no boletim online 57, novembro de 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref28\" name=\"_edn28\">[28]<\/a> Psic\u00f3loga e psicanalista, aluna do 1\u00ba ano do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em pandemia: uma aula coletiva e suas reverbera\u00e7\u00f5es. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[84,52,43],"edicao":[114],"autor":[117,122,125,123,121,115,124,118],"class_list":["post-1700","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-pandemia","tag-psicopatologia-psicanalitica","tag-saude-mental","edicao-boletim-63","autor-ana-lucia-panachao","autor-ana-maria-siqueira-leal","autor-helena-fontes","autor-marcelo-soares-da-cruz","autor-marcia-de-mello-franco","autor-mario-pablo-fuks","autor-roberta-kehdy","autor-tatiana-inglez-mazzarella","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1700"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1700\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2347,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1700\/revisions\/2347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1700"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1700"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}