{"id":1702,"date":"2022-06-01T15:20:22","date_gmt":"2022-06-01T18:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1702"},"modified":"2023-03-23T20:28:28","modified_gmt":"2023-03-23T23:28:28","slug":"uma-passagem-de-bastao-em-tempos-de-atordoamento-memoria-e-futuros-possiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/uma-passagem-de-bastao-em-tempos-de-atordoamento-memoria-e-futuros-possiveis\/","title":{"rendered":"Uma passagem de bast\u00e3o em tempos de atordoamento: mem\u00f3ria e futuros poss\u00edveis"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Uma passagem de bast\u00e3o em tempos de atordoamento: mem\u00f3ria e futuros poss\u00edveis \u2013 aula inaugural 2022<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> M\u00e1rcia de Mello Franco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Boa noite a todas e todos! Meu nome \u00e9 M\u00e1rcia de Mello Franco e quero, em primeiro lugar, dar as boas-vindas aos alunos que iniciam hoje o primeiro ano do curso e \u00e0queles que retornam para cursar o segundo ano.<\/p>\n<p>Preciso dizer a voc\u00eas, alunas e alunos do primeiro e segundo anos do curso, que n\u00f3s, do grupo de professores, vivemos hoje um momento importante na hist\u00f3ria do curso, momento que \u00e9 particularmente especial para mim. Depois de 5 anos coordenando o curso <em>Psicoses, concep\u00e7\u00f5es <\/em><em>t<\/em><em>e\u00f3ricas e <\/em><em>e<\/em><em>strat\u00e9gias <\/em><em>i<\/em><em>nstitucionais<\/em> e 24 anos coordenando o curso <em>Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea<\/em>, Mario Fuks deixa a coordena\u00e7\u00e3o do curso.\u00a0 Ele sai da coordena\u00e7\u00e3o, mas continuar\u00e1, de diferentes formas, contribuindo com a equipe de professores. \u00c9 com satisfa\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, lisonjeada, que conto para voc\u00eas que Mario me passa neste ano o bast\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o. O modelo de passar bast\u00e3o, tal como numa corrida de revezamento, surgiu em uma reuni\u00e3o em que discut\u00edamos essa mudan\u00e7a e decidimos iniciar uma pr\u00e1tica de revezamento da fun\u00e7\u00e3o de coordena\u00e7\u00e3o ap\u00f3s alguns anos de trabalho (que n\u00e3o ser\u00e3o mais tantos!!!).<\/p>\n<p>Eu fazia parte do primeiro grupo de colegas que criou os cursos de Psicoses e de Psicopatologia. Meu aprendizado como professora foi muito favorecido pelo fato de termos criado um curso em que os professores t\u00eam, al\u00e9m do trabalho direto com os alunos, um trabalho bastante intenso de trocas numa reuni\u00e3o semanal da equipe. Nesta reuni\u00e3o, conversamos sobre os conte\u00fados te\u00f3ricos a serem desenvolvidos no curso; buscamos elaborar a experi\u00eancia vivida com os alunos; refletimos sobre as formas de transmiss\u00e3o e, ainda, sobre o contexto institucional (Sedes e Departamento de Psican\u00e1lise), social e pol\u00edtico em que ela ocorre. Al\u00e9m da reuni\u00e3o semanal, contamos tamb\u00e9m com o recurso de assistirmos \u00e0s aulas de outros professores para que possamos, de fato, desenvolver um projeto juntos. As caracter\u00edsticas, tanto da forma de coordena\u00e7\u00e3o exercida pelo Mario, que sempre compartilhou conosco as decis\u00f5es a respeito do curso, quanto dos dispositivos que criamos, trouxeram contribui\u00e7\u00f5es fundamentais para minha forma\u00e7\u00e3o como psicanalista e como professora e criaram as condi\u00e7\u00f5es para a transmiss\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o do coordenador dentro da equipe.\u00a0 Ent\u00e3o, em primeiro lugar, queria agradecer ao Mario e aos colegas do curso que participaram e ainda participam do meu processo de forma\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Todo ano iniciamos o curso com uma aula que chamamos de <em>inaugural<\/em> e que se destina aos alunos dos dois anos. Vou apresentar a voc\u00eas a atual equipe de professores para depois entrar no conte\u00fado espec\u00edfico da minha aula:<\/p>\n<p>Ana Lucia Panach\u00e3o<br \/>\nAna Maria Siqueira Leal<br \/>\nMarcelo Soares<br \/>\nMara Selaibe<br \/>\nMarcia de Mello Franco<br \/>\nMario Pablo Fuks<br \/>\nMania Deweik<br \/>\nRoberta Kehdy<br \/>\nTatiana Teixeira Inglez-Mazzarella<\/p>\n<p>Come\u00e7o relatando uma situa\u00e7\u00e3o vivida h\u00e1 quase 30 anos, ocorrida provavelmente em 1994. Eu havia conclu\u00eddo o <em>Curso de Psican\u00e1lise<\/em> do nosso Departamento havia\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 pouco mais de 2 anos. O pr\u00f3prio Departamento de Psican\u00e1lise era, na ocasi\u00e3o, relativamente novo. Na \u00e9poca, eu trabalhava como psic\u00f3loga na rede municipal de sa\u00fade e compartilhava a satisfa\u00e7\u00e3o de colegas do Sedes por estarmos vivendo, durante a gest\u00e3o de Luiza Erundina na cidade de S\u00e3o Paulo, a implanta\u00e7\u00e3o de uma rede de sa\u00fade mental substitutiva ao modelo manicomial. A luta antimanicomial, que havia ganhado corpo no pa\u00eds na segunda metade da d\u00e9cada de 80, produzia ent\u00e3o frutos muito importantes e era o pano de fundo para um momento bastante criativo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas de sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, um grupo de psicanalistas do <em>Setor de Sa\u00fade Mental e Institui\u00e7\u00f5es do Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes<\/em> participou de um importante movimento de forma\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da rede municipal de sa\u00fade mental. O grupo do Sedes integrava um conjunto de profissionais contratados pela prefeitura para dar supervis\u00e3o \u00e0s equipes dos novos servi\u00e7os que eram criados. Parte destes psicanalistas do Departamento de Psican\u00e1lise criou, no Sedes, um curso denominado<em> Psicoses, concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e estrat\u00e9gias institucionais, <\/em>cujo objetivo era oferecer um espa\u00e7o de reflex\u00e3o te\u00f3rica e cl\u00ednica voltado para profissionais destas equipes. Como j\u00e1 disse, Mario Fuks era o coordenador do curso e, tamb\u00e9m, quem reuniu o grupo de professores. Ingressei neste grupo com a inten\u00e7\u00e3o de trazer como contribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica minha experi\u00eancia em sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>A cena que quero compartilhar com voc\u00eas ocorreu quando presenciei Mario discutindo com os alunos uma situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica ocorrida dentro de um Hospital Dia (HD), dispositivo que veio a se transformar no que hoje chamamos de CAPS. Uma aluna, que trabalhava no HD, relatava um epis\u00f3dio muito dif\u00edcil vivido com um paciente. Infelizmente n\u00e3o me lembro do que se tratava, mas era uma situa\u00e7\u00e3o em que ela fizera uma interven\u00e7\u00e3o junto ao paciente e relatava isso de forma muito constrangida, pois temia que sua interven\u00e7\u00e3o fosse considerada uma \u201cheresia\u201d pelos psicanalistas.<\/p>\n<p>Mario perguntou a ela o que acontecera depois desta interven\u00e7\u00e3o e, ent\u00e3o, vieram novos dados que configuraram um relato muito rico e surpreendente da situa\u00e7\u00e3o. Depois Mario esclareceu que era assim que funcionava o racioc\u00ednio cl\u00ednico: havia uma hip\u00f3tese, algo era introduzido a partir desta hip\u00f3tese e s\u00f3 poder\u00edamos saber <em>a posteriori<\/em>, ao observar o que acontecia no campo a partir daquela interven\u00e7\u00e3o, se isso fizera sentido ou n\u00e3o e se havia sido uma boa interven\u00e7\u00e3o. Mario esclarecia ainda que uma boa interven\u00e7\u00e3o era aquela que punha algo em movimento e que poder\u00edamos acompanhar esse movimento formulando novas hip\u00f3teses, que poderiam se transformar em novas interven\u00e7\u00f5es e dar lugar a outras observa\u00e7\u00f5es. Em s\u00edntese, Mario ressaltava para os alunos a import\u00e2ncia da ideia de <em>processo<\/em> no trabalho cl\u00ednico.<\/p>\n<p>O que estou contando pode n\u00e3o conter em si grande novidade, mas o efeito desta interven\u00e7\u00e3o na aluna e em mim, que me formava ali como professora, foi algo bastante significativo. Atualmente, eu ofere\u00e7o um conjunto de aulas para o segundo ano em que discuto a quest\u00e3o dos dispositivos cl\u00ednicos. A ideia de <em>processo<\/em> dentro da cl\u00ednica me \u00e9 fundamental, bem como um pensamento sobre o que favorece transforma\u00e7\u00f5es e passagens de uma forma de funcionamento a outra.<\/p>\n<p>Roussillon (2019), autor com que trabalho no segundo ano do curso, define a pr\u00e1tica cl\u00ednica psicanal\u00edtica justamente como a que \u201csitua o v\u00e9rtice da realidade ps\u00edquica e dos processos da sua transforma\u00e7\u00e3o simbolizante no seu centro, a partir de um m\u00e9todo centrado na aten\u00e7\u00e3o dirigida \u00e0 associatividade dos processos ps\u00edquicos e seus diversos modos de express\u00e3o\u201d (p. 23). Para esse autor, simbolizar est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 problem\u00e1tica da apropria\u00e7\u00e3o subjetiva da realidade.<\/p>\n<p>No segundo ano do curso, temos trabalhado muito com a quest\u00e3o da passagem do irrepresent\u00e1vel para a possibilidade da simboliza\u00e7\u00e3o em suas m\u00faltiplas formas. Em psican\u00e1lise, pensar nisso implica em refletir sobre passagens de muitos n\u00edveis. Mencionarei 3 destes n\u00edveis com o objetivo de mostrar a import\u00e2ncia das ideias de passagem e de transforma\u00e7\u00e3o na teoria e na cl\u00ednica psicanal\u00edticas:<\/p>\n<p><em>1. \u00a0 A passagem do som\u00e1tico ao ps\u00edquico<\/em>: o conceito de <em>puls\u00e3o<\/em> \u00e9 um conceito central na teoria freudiana e est\u00e1 relacionado a esse n\u00edvel de passagem. Em 1915, no texto A puls\u00e3o e seus destinos, Freud define puls\u00e3o como um \u201c<em>conceito limite entre o som\u00e1tico e o ps\u00edquico<\/em>, como representante ps\u00edquico das excita\u00e7\u00f5es oriundas do interior do corpo que chegam ao psiquismo, como uma exig\u00eancia de trabalho que \u00e9 imposta ao ps\u00edquico em consequ\u00eancia de sua liga\u00e7\u00e3o ao corporal\u201d (p. 142). Esse ser\u00e1 um conceito que abordaremos ao longo de todo o curso, quando ter\u00e3o mais oportunidade de pensar nas vicissitudes desta passagem.<\/p>\n<p><em>2. \u00a0 <\/em>Um segundo n\u00edvel de passagens que recorto refere-se ao <em>processo de simboliza\u00e7\u00e3o<\/em> e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com o funcionamento do <em>aparelho ps\u00edquico<\/em>, concebido por Freud como um aparelho que opera transforma\u00e7\u00f5es. A passagem da percep\u00e7\u00e3o para a simboliza\u00e7\u00e3o, no interior do aparelho ps\u00edquico, envolve um processo em que as marcas deixadas no psiquismo pela percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o investidas e articuladas constituindo complexas representa\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que, por sua vez, necessitam ser articuladas a palavras para que algo possa ser simbolizado. Segundo a metapsicologia freudiana, a passagem de uma parte a outra do aparelho ps\u00edquico, como a passagem de um conte\u00fado inconsciente para a consci\u00eancia, envolve transforma\u00e7\u00f5es que resultam em algo novo ap\u00f3s essa passagem. Um exemplo do que estou falando \u00e9 o conceito freudiano de sintoma neur\u00f3tico. Freud concebe o sintoma neur\u00f3tico como uma forma\u00e7\u00e3o substitutiva que, ao mesmo tempo, revela e oculta o conte\u00fado recalcado. Vias associativas levam do conte\u00fado recalcado \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do sintoma e vice-versa, mas ele \u00e9 algo novo que se produz de forma que aquele conte\u00fado possa ser admitido na consci\u00eancia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do aparelho ps\u00edquico est\u00e1 presente em todo o curso, mas \u00e9 abordada particularmente no <em>m\u00f3dulo do narcisismo, <\/em>que ocorre no primeiro ano<em>,<\/em> e nas aulas sobre <em>sono e sonho<\/em> que s\u00e3o dadas no segundo ano.<\/p>\n<p><em>3. \u00a0 <\/em>Cabe ainda destacar um terceiro n\u00edvel de passagens e transforma\u00e7\u00f5es, o dos complexo<em>s mecanismos de interioriza\u00e7\u00e3o<\/em> que possibilitam que algu\u00e9m torne seu algo vivido na experi\u00eancia com o outro. Sem a media\u00e7\u00e3o de um outro, o sujeito n\u00e3o se constitui. Trata-se de pensar na passagem entre fora e dentro, duas categorias tamb\u00e9m a se construir junto com a constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o ps\u00edquico interno e de um Eu que possa situar o sujeito em rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p>Em alguns dos quadros cl\u00ednicos que estudamos ao longo do curso, o que podemos observar \u00e9 justamente o efeito do fracasso ou da dificuldade de que alguma passagem ocorra. A melancolia, por exemplo, conforme o modelo freudiano estudado no primeiro ano do curso, diz respeito ao fracasso na simboliza\u00e7\u00e3o do objeto perdido. De acordo com esse modelo, por n\u00e3o poder se separar do objeto, o sujeito vive um tipo de identifica\u00e7\u00e3o com o objeto perdido em que esse \u00e9 incorporado ao Eu, resultando numa divis\u00e3o dentro do sujeito em que uma parte do Eu dirige ataques a outra parte identificada ao objeto perdido.<\/p>\n<p>Considero ainda as <em>toxicomanias<\/em>, que estudamos no segundo ano do curso, uma figura cl\u00ednica paradigm\u00e1tica neste sentido. Por n\u00e3o poder realizar uma verdadeira experi\u00eancia com o objeto, em que esse possa transform\u00e1-lo a partir das marcas deixadas pela rela\u00e7\u00e3o com o objeto, o toxic\u00f4mano \u00e9 condenado a repetir o ato de se drogar, ficando preso a uma subst\u00e2ncia que precisa ser re-apresentada, concretamente, a cada vez.<\/p>\n<p>(Se o que estou dizendo n\u00e3o puder ser compreendido por voc\u00eas, n\u00e3o se importem, pois s\u00e3o apenas um an\u00fancio de quest\u00f5es que estudaremos ao longo do curso).<\/p>\n<p>Ao ressaltar a import\u00e2ncia que t\u00eam as passagens e transforma\u00e7\u00f5es na teoria psicanal\u00edtica, busco tra\u00e7ar para voc\u00eas algo que diz respeito \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um curso que visa resgatar a especificidade da psicopatologia psicanal\u00edtica. A psicopatologia psicanal\u00edtica, tal como a entendemos, busca pensar as problem\u00e1ticas que se apresentam na cl\u00ednica numa perspectiva de complexidade. O pensamento psicopatol\u00f3gico implica em formula\u00e7\u00f5es de hip\u00f3teses a respeito do funcionamento ps\u00edquico subjacente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es estudadas e para isso a metapsicologia psicanal\u00edtica \u00e9 convocada. Ao propormos esse curso, acredit\u00e1vamos ainda que era preciso articular os modos como se apresentava o sofrimento ps\u00edquico \u00e0s r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es que atravessavam a vida social, o que significava incluir em nossa reflex\u00e3o o impacto do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, do capitalismo avan\u00e7ado e os la\u00e7os sociais presentes na sociedade de consumo e do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, hav\u00edamos acompanhado no curso <em>Psicoses, concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e estrat\u00e9gias institucionais<\/em> o esvaziamento dos espa\u00e7os coletivos de elabora\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica desenvolvida nos servi\u00e7os criados em substitui\u00e7\u00e3o ao modelo manicomial. Paulo Maluf e Celso Pitta haviam feito um desmonte sem precedentes das equipes de trabalho, implantando um Plano, ironicamente chamado PAS, baseado numa primeira tentativa de terceiriza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade dentro do SUS. Paralelamente, observ\u00e1vamos a insist\u00eancia com que compareciam na cl\u00ednica e ganhavam destaque na m\u00eddia sintomatologias agrupadas e nomeadas pela psiquiatria como <em>S\u00edndrome do P\u00e2nico, Depress\u00f5es, Transtornos Alimentares, Dist\u00farbios do Sono e Toxicomanias<\/em>. Entend\u00edamos que o destaque que adquiriam estas patologias relacionava-se com o avan\u00e7o de pr\u00e1ticas psiqui\u00e1tricas medicalizantes apoiadas na l\u00f3gica do DSM. Nesta corrente, ainda hoje hegem\u00f4nica na psiquiatria, as quest\u00f5es do sujeito ficam eclipsadas e o sofrimento ps\u00edquico \u00e9 de certa forma naturalizado ao ser considerado como de origem org\u00e2nica. Conforme aponta Birman (1999), ao se voltar para as neuroci\u00eancias a psiquiatria buscava alcan\u00e7ar o estatuto de ci\u00eancia que lhe era, por vezes, negado dentro das ci\u00eancias m\u00e9dicas. Desta forma, a psiquiatria se afastava de um pensamento din\u00e2mico, que se nutria dos conhecimentos da psican\u00e1lise, e focava sua terap\u00eautica no uso da medica\u00e7\u00e3o. Ao nos propormos a estudar esses quadros recortados pela m\u00eddia e pelo discurso psiqui\u00e1trico, a ideia era tom\u00e1-los, no entanto, n\u00e3o como entidades nosol\u00f3gicas naturais, mas como <em>representantes do mal-estar<\/em> da \u00e9poca, para recuperarmos o <em>pathos<\/em>, entendido como o sofrimento que, ao ser escutado, pode ser transformado em experi\u00eancia. Aquilo que um sujeito diz \u2013 ou mesmo mostra a um analista a respeito de seu sofrimento \u2013 cont\u00e9m em si uma esperan\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o. Se puder ser escutado pelo psicanalista, o sofrimento do sujeito porta algo singular e remete tamb\u00e9m ao mal-estar daquela \u00e9poca, solicitando um esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o metapsicol\u00f3gica. Deste esfor\u00e7o podem surgir novas ferramentas te\u00f3ricas que contribuem para a escuta na cl\u00ednica deste e de outros sujeitos e por a\u00ed segue o desenvolvimento do campo da psican\u00e1lise&#8230;<\/p>\n<p>Assim como as hist\u00e9ricas apontaram, para Freud, o caminho para a compreens\u00e3o da etiologia sexual das neuroses num contexto social de forte repress\u00e3o da sexualidade, o que poderiam nos ensinar os deprimidos, panicados, toxic\u00f4manos, anor\u00e9xicas e outros sobre o sujeito na contemporaneidade? Os instrumentos de que disp\u00f5e a psican\u00e1lise seriam suficientes para pensar essas problem\u00e1ticas? A que outras ferramentas precisar\u00edamos recorrer? A pr\u00f3pria metapsicologia psicanal\u00edtica precisaria ser revista? Em que aspecto?<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o algumas das indaga\u00e7\u00f5es que nos guiam dentro de uma perspectiva que visa desenvolver um pensamento cr\u00edtico a partir da psican\u00e1lise, levando em considera\u00e7\u00e3o a dimens\u00e3o hist\u00f3rica, portanto social e pol\u00edtica, do sofrimento ps\u00edquico. Nossa reflex\u00e3o pretende abarcar, ainda, o questionamento das condi\u00e7\u00f5es que podem ser mais ou menos favor\u00e1veis \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o daquilo que produz dor e sofrimento na atualidade. Mario Fuks (1998\/99) aborda essas quest\u00f5es em um artigo intitulado \u201cMal-estar na contemporaneidade e patologias decorrentes\u201d. Segundo Fuks (1998\/99), \u201cas pol\u00edticas neoliberais resultam em fragmenta\u00e7\u00e3o social e rupturas dos la\u00e7os de sociabilidade e intersubjetividade, comprometendo os recursos elaborativos dispon\u00edveis para enfrentar as amea\u00e7as e car\u00eancias que estas mesmas pol\u00edticas imp\u00f5em\u201d (p. 63). Desta forma, Mario Fuks ressalta ainda que vivemos hoje num mundo em que os espa\u00e7os coletivos s\u00e3o esvaziados, os espa\u00e7os de encontro reduzidos, os v\u00ednculos s\u00e3o prec\u00e1rios e prevalece um modo de vida solit\u00e1rio, isolado, com aus\u00eancia de ideais e projetos compartilhados.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que conduziram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do nosso curso em 1998 permanecem presentes e algumas at\u00e9 se intensificaram como o avan\u00e7o das pol\u00edticas neoliberais e o desmonte das pol\u00edticas do Estado de bem-estar social. As condi\u00e7\u00f5es que davam alguma sustenta\u00e7\u00e3o para os cidad\u00e3os se fragilizaram muito nos \u00faltimos anos junto com a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e o avan\u00e7o da tecnologia. Voltando a Roussillon (2019), este autor postula que os dispositivos institucionais ou sociais t\u00eam sua fun\u00e7\u00e3o na regula\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e na gest\u00e3o das ang\u00fastias. A esses dispositivos Roussillon atribui um papel de conter, sustentar ou atrapalhar outros dispositivos em que transforma\u00e7\u00f5es simbolizantes podem ocorrer<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Uma pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9, no meu entender, um desses elementos que favorecem ou obstaculizam o funcionamento de dispositivos com potencial de promover processos simbolizantes. Um exemplo \u00e9 o que aconteceu com os servi\u00e7os de sa\u00fade mental nos diferentes tipos de gest\u00e3o, em que puderam ser mais ou menos potentes conforme fossem mais ou menos sustentados por uma pol\u00edtica p\u00fablica coerente.<\/p>\n<p>\u201cSe o mar j\u00e1 n\u00e3o estava para peixe\u201d, isto \u00e9, se as condi\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o estavam favor\u00e1veis no fim do s\u00e9culo passado, o que dizer do atual momento em que, a essas condi\u00e7\u00f5es, se somam uma crise clim\u00e1tica que coloca o planeta em risco, uma grave crise sanit\u00e1ria acompanhada de crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica e, ainda, uma guerra (da Ucr\u00e2nia) eclodindo no continente europeu? Para n\u00f3s, brasileiros, o cen\u00e1rio torna-se ainda mais amea\u00e7ador por termos um governo que se pauta numa pol\u00edtica de \u00f3dio de car\u00e1ter claramente fascista. Neste contexto, a pandemia escancara, ainda mais, a profunda desigualdade social existente no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos dois anos temos vivido, no Brasil, a atordoante experi\u00eancia de conviver com uma constante amea\u00e7a de morte representada pelo avan\u00e7o da pandemia de Covid, ao mesmo tempo em que vivemos imersos, como aponta Birman (2021) em um contexto produtor de confus\u00e3o mental. Essas ideias s\u00e3o desenvolvidas por Tatiana Inglez-Mazzarella e Ana Lucia Panach\u00e3o, professoras do curso, em um texto apresentado por elas numa mesa da FLAPPSIP no XXXIII Symposium AEAPG realizado em 2021. Apoiando-se nas formula\u00e7\u00f5es de Birman, as autoras demonstram que, se o pr\u00f3prio desenvolvimento da pandemia seria, pela natureza do problema, algo incerto e gerador de ang\u00fastia, o contexto comunicativo em que se deu alimentou as incertezas, produzindo o efeito de cis\u00e3o ps\u00edquica resultante de um sistema de comunica\u00e7\u00e3o caracterizado pela dupla mensagem das autoridades. Diante do discurso negacionista do Estado e das mensagens que, se processadas, seriam contradit\u00f3rias, n\u00e3o sabemos ao certo no que acreditar. Somado a isso, as autoridades, de quem o sujeito cidad\u00e3o espera amparo e seguran\u00e7a, s\u00e3o aquelas cujas escolhas constituem express\u00e3o do que Achille Mbembe (2018) denomina <em>necropol\u00edtica<\/em>, isto \u00e9, uma pol\u00edtica que distingue aqueles que podem viver\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 daqueles que devem morrer. Neste contexto, como ressaltam nossas colegas Tatiana Inglez-Mazzarella e Ana Lucia Panach\u00e3o, \u201co sujeito fica exposto \u00e0 invas\u00e3o traum\u00e1tica e sofre graves consequ\u00eancias ps\u00edquicas que podem levar ao desamparo e ao desalento\u201d. (Ter\u00e3o oportunidade de estudar essas quest\u00f5es com a Tatiana no m\u00f3dulo do primeiro ano sobre <em>o campo do angustiante e as quest\u00f5es do traum\u00e1tico).<\/em><\/p>\n<p>A capacidade de pensar diz respeito \u00e0 possibilidade de efetuar novas liga\u00e7\u00f5es entre aquilo podemos representar e transformar. Pensar requer sustentar contradi\u00e7\u00f5es e enfrentar conflitos. O contexto que descrevi, em que prevalece a cis\u00e3o e a recusa mant\u00e9m afastadas as representa\u00e7\u00f5es que seriam contradit\u00f3rias, \u00e9 muito pouco favorecedor do pensamento. Neste per\u00edodo, Birman (2021) aponta a exacerba\u00e7\u00e3o de quadros de p\u00e2nico, de quadros depressivos e melanc\u00f3licos, compuls\u00f5es alimentares, transtornos de sono, abuso de medica\u00e7\u00f5es, \u00e1lcool e outras drogas.<\/p>\n<p>Ana Lucia Panach\u00e3o, professora do curso, apresentou-nos um artigo de jornal<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> em que Vieira (2021) abordava o <em>languishing<\/em>, termo cunhado pelo soci\u00f3logo Corey Keyes para descrever um quadro \u201cnovo\u201d surgido em fun\u00e7\u00e3o da pandemia. <em>Languishing<\/em> pode ser traduzido por definhamento ou abatimento e trata-se de um quadro caracterizado pela ansiedade, pela incerteza em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, depress\u00e3o pela perda de amigos e familiares queridos, preocupa\u00e7\u00e3o pelos planos adiados, esgotamento diante das not\u00edcias sobre o avan\u00e7o de uma doen\u00e7a pouco conhecida. Uma outra caracter\u00edstica deste quadro seria o fato de que haveria uma aus\u00eancia de emo\u00e7\u00f5es claras para qualific\u00e1-lo sendo mais definido pelo estado emocional do vazio e pela apatia. Esse artigo traz ainda a opini\u00e3o de Marina Pinheiro, psic\u00f3loga que aponta que a pandemia nos colocou em uma dimens\u00e3o de sobreviv\u00eancia e que \u00e9 importante sairmos da clausura de estar entre a vida e a morte e recuperar, com a arte ou outras pr\u00e1ticas, algum encantamento.<\/p>\n<p>O \u00faltimo filme a que assisti no cinema antes da pandemia foi <em>Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui<\/em>, filme de 2018, dirigido por Ken Loach. Neste filme, um trabalhador ao perder o emprego submete-se a condi\u00e7\u00f5es muito ruins para trabalhar como \u201cempres\u00e1rio de si mesmo\u201d fazendo entregas com uma van. Assistimos no filme \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais e de sa\u00fade do personagem, bem como \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos agravada pela falta de tempo para as rela\u00e7\u00f5es familiares. Um dos poucos momentos de distens\u00e3o no filme se d\u00e1 quando, ao in\u00edcio de uma refei\u00e7\u00e3o compartilhada, toca o telefone da m\u00e3e e ela precisa sair para socorrer uma velhinha de quem era cuidadora. A solu\u00e7\u00e3o surge do filho, adolescente desajustado, que sugere que fossem todos juntos levar a m\u00e3e para o trabalho na <em>van<\/em> do pai, quando poderiam, ent\u00e3o, cantar no caminho. N\u00e3o se tratava de uma sa\u00edda man\u00edaca, mas de uma sa\u00edda poss\u00edvel de resgate dos v\u00ednculos e da alegria quando tudo parecia ruir. O desenrolar do filme n\u00e3o \u00e9 otimista e n\u00e3o chega a se esbo\u00e7ar nele um projeto de futuro. A cena a que me referi, entretanto, \u00e9 daquelas cenas de cinema que eu n\u00e3o esquecerei. Ela nos apresenta uma brecha para o encontro e o compartilhamento. Isso curiosamente se d\u00e1 no mesmo \u201cespa\u00e7o <em>van<\/em>\u201d que \u00e9 tamb\u00e9m o espa\u00e7o onde se d\u00e1 a explora\u00e7\u00e3o do trabalho do pai. N\u00e3o sei quais ser\u00e3o as sa\u00eddas que encontraremos, mas acredito que, se algo novo puder surgir, isso ocorrer\u00e1 com a possibilidade de resgate de espa\u00e7os compartilhados. No filme, isso vem do jovem desajustado que tem tamb\u00e9m uma liga\u00e7\u00e3o com a arte urbana do grafite&#8230;<\/p>\n<p>Outro dia eu me lembrei tamb\u00e9m de uma frase que d\u00e1 t\u00edtulo a um livro publicado originalmente em 1982, <em>Tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar<\/em>. O autor estadunidense, Marshall Berman, retira essa express\u00e3o de uma frase contida no <em>Manifesto Comunista <\/em>de Marx e Engels (1848). A obra de Berman apresenta uma hist\u00f3ria cr\u00edtica da modernidade a partir da an\u00e1lise de trabalhos de diversos autores que marcam o pensamento desse per\u00edodo. Ele se det\u00e9m, por exemplo, em Goethe, Marx, Baudelaire, Dostoievski, Nietzsche e artistas de vanguarda do s\u00e9culo XX. A frase de Marx e Engels (1848) que d\u00e1 nome \u00e0 obra de Berman \u00e9 a seguinte: \u201cTudo o que era s\u00f3lido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado \u00e9 profanado, e as pessoas s\u00e3o finalmente for\u00e7adas a encarar com serenidade sua posi\u00e7\u00e3o social e suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas\u201d.<\/p>\n<p>Se Marx e Engels pretendiam apontar, numa perspectiva dial\u00e9tica, que o modo de produ\u00e7\u00e3o do capitalismo ruiria por si mesmo, a frase por eles escrita pode ser ressignificada num contexto em que a viv\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o que caracteriza a modernidade conduz a uma viv\u00eancia de mundo desconstru\u00eddo e sem rumo. Atualmente, quando o que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar, surge muitas vezes a vertigem diante das enormes incertezas em rela\u00e7\u00e3o ao futuro.<\/p>\n<p>Busco enfatizar, nesta aula, a import\u00e2ncia da no\u00e7\u00e3o de <em>processo<\/em> tanto na vida dos sujeitos quanto na teoria psicanal\u00edtica. Processo e temporalidade s\u00e3o duas no\u00e7\u00f5es que caminham juntas. Cabe lembrar ainda que a psican\u00e1lise disp\u00f5e de uma no\u00e7\u00e3o de temporalidade bastante peculiar. A pot\u00eancia da cl\u00ednica psicanal\u00edtica est\u00e1 ancorada, no meu entender, no pressuposto de que as marcas do passado podem ser rearticuladas ou mesmo inscritas a partir da experi\u00eancia vivida com o analista no presente. A cl\u00ednica psicanal\u00edtica propicia, portanto, condi\u00e7\u00f5es para que o passado possa ser historicizado e ressignificado e para que surjam novas possibilidades de futuro para aquele sujeito.<\/p>\n<p>Retomando o artigo de Mario Fuks (1998\/99) que j\u00e1 mencionei, ele descreve o sujeito hoje como aquele que busca habitar um aqui e agora instant\u00e2neo, ao mesmo tempo que eterno. Eu poderia acrescentar que \u00e9 um sujeito que tem muita dificuldade de se haver com a no\u00e7\u00e3o de processo. Para Fuks, vivemos num mundo acelerado em que \u201chist\u00f3ria e projeto como media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e regula\u00e7\u00e3o narc\u00edsica v\u00e3o desaparecendo.\u201d (p. 70).<\/p>\n<p>Seguindo ainda com Mario Fuks (1998\/99), os ideais possibilitariam \u201cabrir uma dimens\u00e3o temporal em que a satisfa\u00e7\u00e3o narc\u00edsica atualmente frustrada se visualizaria como realiz\u00e1vel no futuro\u201d (p. 65). O futuro se mostraria capaz de reparar as injusti\u00e7as do presente. Quando nos \u00e9 impossibilitado sonhar um futuro melhor, quer seja no \u00e2mbito dos indiv\u00edduos, quer seja no \u00e2mbito da coletividade, que efeitos isso teria?<\/p>\n<p>De uma outra forma, Alain Badiou, fil\u00f3sofo franc\u00eas, tamb\u00e9m toma a quest\u00e3o da temporalidade para abordar revoltas populares que surgiram nos \u00faltimos anos na Ucr\u00e2nia e no Egito. Quando ele ofereceu, em 2014, o semin\u00e1rio a que tive acesso atrav\u00e9s de um artigo (Badiou, 2022), a R\u00fassia ainda n\u00e3o havia declarado guerra \u00e0 Ucr\u00e2nia opondo-se \u00e0 entrada deste pa\u00eds na OTAN. Ele trata do contexto hist\u00f3rico anterior \u00e0 guerra. Para este autor, propaga-se que a revolta ucraniana \u00e9 est\u00e1tica, na medida em que surgiu do nada e pretendia caminhar para algo que j\u00e1 existia, uma Europa livre e democr\u00e1tica. Segundo ele, poder\u00edamos falar num presente genu\u00edno quando ele tem passado, hist\u00f3ria e algo novo pode ser declarado para o futuro. Em suas palavras:<\/p>\n<p>\u201cPara que aconte\u00e7a uma inven\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, uma cria\u00e7\u00e3o \u2013 isto \u00e9, algo dotado de uma verdadeira infinitude \u2013 \u00e9 preciso que haja uma nova forma de declara\u00e7\u00e3o, estabelecendo uma alian\u00e7a entre os intelectuais e grande parte das massas. Essa nova alian\u00e7a n\u00e3o estava presente nas pra\u00e7as p\u00fablicas<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Todo o problema \u00e9 inventar uma modernidade diferente do capitalismo globalizado, e faz\u00ea-lo por meio de uma nova pol\u00edtica\u201d. Por infinitude, Badiou (2022) entende o infinito do \u201cposs\u00edvel conjunto de horizontes da humanidade\u201d. Por isso, para ele, a <em>figura fundamental da opress\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 a finitude<\/em>, o que eu penso que esteja relacionado \u00e0 restri\u00e7\u00e3o do porvir conforme j\u00e1 apontado aqui atrav\u00e9s do trabalho de Mario Fuks.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise n\u00e3o pode permanecer isenta do efeito de atordoamento que toma o campo social. Se, na passagem do s\u00e9culo passado para o atual, emergiram as indaga\u00e7\u00f5es que deram origem ao nosso curso e que se mant\u00e9m vivas at\u00e9 os dias atuais, que reflexos as mudan\u00e7as vividas no campo social trazem hoje para o campo da psican\u00e1lise? Indo al\u00e9m, qual seria a contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise para que possa ocorrer uma verdadeira cria\u00e7\u00e3o que amplie o conjunto poss\u00edvel de horizontes, num contexto em que o vivido possa ser narrado e historicizado?<\/p>\n<p>O Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes edita uma revista chamada <em>Percurso<\/em>. Convido voc\u00eas a visitarem a vers\u00e3o digital do n\u00famero 66, publicado em junho de 2021. Creio que esse n\u00famero da revista \u00e9 bastante significativo a respeito do que ocorre no campo psicanal\u00edtico hoje. Entre os artigos da revista est\u00e3o:<\/p>\n<p>Identifica\u00e7\u00e3o e transidentidade: no\u00e7\u00f5es para uma psican\u00e1lise interg\u00eanero e inter-racial, de Mara Caff\u00e9;<\/p>\n<p>A linguagem do racismo e a psican\u00e1lise: falar com e falar sobre, de T\u00e2nia Ver\u00edssimo;<\/p>\n<p>\u00c9dipo e Feminismo: tens\u00f5es para serem sustentadas pela psican\u00e1lise, de Maria Carolina Accioly.<\/p>\n<p>Neste n\u00famero da revista h\u00e1 ainda uma entrevista com Patr\u00edcia Porchat que aborda os desafios que trazem \u00e0 psican\u00e1lise as identidades <em>trans<\/em>.<\/p>\n<p>Esse pequeno levantamento d\u00e1 alguma ideia de como est\u00e3o sendo inclu\u00eddos no campo de interven\u00e7\u00e3o e estudo da psican\u00e1lise temas que at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo n\u00e3o eram seu objeto de reflex\u00e3o. Se em 1998, ao criarmos o curso <em>Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea<\/em>, este marcava, a partir da psican\u00e1lise, um posicionamento pol\u00edtico e \u00e9tico para fazer frente ao movimento dessubjetivante representado pelo avan\u00e7o da psiquiatria medicalizante, hoje n\u00e3o podemos ignorar as den\u00fancias a respeito da viol\u00eancia historicamente sofrida pelos negros, mulheres, povos origin\u00e1rios e por aqueles que buscam novas formas de ser e de viver e n\u00e3o se encaixam nos padr\u00f5es da heterossexualidade normativa. A psican\u00e1lise \u00e9 convocada atualmente a pensar sobre os efeitos dessas formas de viol\u00eancia tanto na subjetividade daqueles que as sofrem como daqueles que as perpetuam.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria da psican\u00e1lise, no per\u00edodo entre guerras, uma agenda de justi\u00e7a social j\u00e1 esteve bastante presente e ocupou um lugar importante dentro das institui\u00e7\u00f5es formadoras. Havia uma preocupa\u00e7\u00e3o de ampliar o acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e ao tratamento psicanal\u00edtico, bem como um interesse de criar outras formas de contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise no campo social. Essas iniciativas foram silenciadas e permaneceram ignoradas por muito tempo na hist\u00f3ria da psican\u00e1lise. Para quem tiver interesse na quest\u00e3o, sugiro a leitura do livro <em>As cl\u00ednicas p\u00fablicas de Freud<\/em> escrito por Elizabeth Ann Danto em 2005 e publicado aqui em 2019. Essa historiadora revela que, principalmente no per\u00edodo entre guerras (de 1918 a 1938), surgiram em diferentes Sociedades de Psican\u00e1lise, como nas de Viena, Budapeste e Berlim, uma s\u00e9rie de iniciativas muito inventivas para possibilitar a forma\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o pudesse custe\u00e1-la e para criar o que se denominam Cl\u00ednicas P\u00fablicas. S\u00f3 para terem uma ideia, chegou a ser inventada uma moeda interna, um <em>voucher<\/em>, que um candidato a analista recebia para atender pacientes n\u00e3o pagantes na Cl\u00ednica P\u00fablica. Com essa moeda, de circula\u00e7\u00e3o interna, o analista em forma\u00e7\u00e3o pagava sua an\u00e1lise e supervis\u00e3o. Alguns analistas que n\u00e3o poderiam contribuir com seu tempo, poderiam contribuir doando dinheiro para a cl\u00ednica p\u00fablica. Quer dizer, inventavam ali um princ\u00edpio novo de circula\u00e7\u00e3o de valores.<\/p>\n<p>Voltando aos tempos atuais&#8230;<\/p>\n<p>Miriam Debieux Rosa (2021), psicanalista de S\u00e3o Paulo, em carta lind\u00edssima que passarei a voc\u00eas, dirige-se \u00e0s\/aos jovens psicanalistas hoje dizendo caber a elas\/eles estarem atentas\/os aos impasses subjetivos, sociais e pol\u00edticos de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Para Debieux, a cl\u00ednica \u00e9 cr\u00edtica, pol\u00edtica e tem em seu cerne a transforma\u00e7\u00e3o. Em conson\u00e2ncia com o que estamos aqui dizendo, a cl\u00ednica remete, para ela, a um \u201cmodo de operar no presente ressignificando o passado e mirando uma abertura para o futuro de cada sujeito e de cada sociedade\u201d. Para ela, cabe ao psicanalista atual estar atento aos efeitos traum\u00e1ticos causados pela distribui\u00e7\u00e3o desigual de lugares na estrutura social, bem como de bens materiais e culturais. Ao incluir esses elementos em sua escuta, o seu trabalho ser\u00e1 de barrar a repeti\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona, autom\u00e1tica e sem hist\u00f3ria desses traumatismos. S\u00f3 a experi\u00eancia temporalizada na rela\u00e7\u00e3o com o analista, testemunha de seu sofrimento, possibilita que algo se transforme em uma marca pass\u00edvel de articula\u00e7\u00f5es &#8211; inscri\u00e7\u00e3o que permite reinventar a vida. Para isso, segundo Debieux, \u00e9 necess\u00e1rio enfrentar os silenciamentos, os impasses \u00e0 fala e \u00e0 escuta <em>para fazer dos marca-dores sociais marcas ps\u00edquicas que possam ganhar novos destinos diferentes daqueles escritos pelos mecanismos de poder, de submiss\u00e3o e de morte&#8230;<\/em><\/p>\n<p>A proposta de \u201cfazer dos marca-dores sociais marcas ps\u00edquicas\u201d \u00e9 ousada e requer sair de qualquer zona de conforto poss\u00edvel. Para n\u00f3s, psicanalistas que trabalhamos com forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas, mesmo que tenhamos sido formados dentro de uma vis\u00e3o progressista na psican\u00e1lise, implicada com as quest\u00f5es de seu tempo, isso representa um enorme desafio. Assim, a partir de uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica dentro da psican\u00e1lise, acreditamos que faz parte do projeto de transmiss\u00e3o que desenvolvemos convidar nossos alunos a pensar conosco nestas quest\u00f5es. A viv\u00eancia de que tudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar \u00e9 constante e \u00e9 preciso apostar na possibilidade de cria\u00e7\u00e3o, mesmo que nos sintamos perdidos em meio a isso. Acho que os jovens poder\u00e3o ter um papel muito importante nesta constru\u00e7\u00e3o. A interlocu\u00e7\u00e3o com voc\u00eas, alunos, pode trazer-nos algum arejamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de encontrarmos formas de cantar em nossas pr\u00f3prias <em>vans<\/em>, podemos ter que ficar juntos em sil\u00eancio em alguma pra\u00e7a at\u00e9 que algo novo surja, ou podemos ir abrindo novos caminhos. Mas, para inventar futuros poss\u00edveis, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o o passado. Para dar um passo \u00e0 frente, contamos com o p\u00e9 que nos apoia atr\u00e1s e, melhor ainda, se pudermos avan\u00e7ar de m\u00e3os dadas. Por isso resolvi incluir na aula de hoje refer\u00eancias \u00e0 hist\u00f3ria do curso, assim como a contribui\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios colegas e, em particular, aquelas do trabalho que Mario Fuks desenvolveu nos anos em que coordenou o curso.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise que pensamos e praticamos tem um compromisso \u00e9tico e pol\u00edtico com seu tempo, mas a luta pol\u00edtica requer outras a\u00e7\u00f5es fora do estrito \u00e2mbito da cl\u00ednica. Indo nesta dire\u00e7\u00e3o, neste ano o Sedes apresenta uma importante iniciativa no campo da pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es afirmativas e inaugura uma proposta de cotas raciais. A proposta ainda \u00e9 t\u00edmida, mas representa uma abertura de caminhos e est\u00e1 dispon\u00edvel para os alunos que ingressam neste ano. Cada curso conta com uma cota, podendo chegar a duas caso alcance o n\u00famero m\u00e1ximo de alunos previsto. Tal proposta \u00e9 fruto da busca de pr\u00e1ticas pol\u00edticas concretas que favore\u00e7am a inclus\u00e3o, a perman\u00eancia e o desenvolvimento da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente em lugares de saber e poder reservados quase exclusivamente a brancos. Constitui-se, portanto, como uma tentativa de quebrar o ciclo que faz perpetuar a distribui\u00e7\u00e3o desigual de poder, saber, oportunidades e renda.<\/p>\n<p>Assim eu encerro por hora a minha fala ressaltando a import\u00e2ncia de participarem do evento <em>Pol\u00edticas de cotas e letramento racial: uma quest\u00e3o para as institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtic<\/em><em>a<\/em>, organizado pelo Grupo de Trabalho <em>A Cor do Mal-Estar<\/em> (GTACME), grupo que vem estudando os efeitos do racismo nas rela\u00e7\u00f5es intra e intersubjetivas e propondo a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o no Sedes e no Departamento. O evento ser\u00e1 realizado <em>online<\/em>, nos dias 18 e 19 de mar\u00e7o de 2022.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">15 de mar\u00e7o de 2022<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>Badiou, A. Falta um presente \u2013 a menos que a multid\u00e3o declare (2014) in <em>Lavraplavra<\/em>, 3 de mar\u00e7o de 2022. https:\/\/lavrapalavra.com\/2022\/03\/03\/falta-um-presente-a-menos-que-a-multidao-se-declare-alain-badiou-sobre-ucrania-egito-e-finitude\/<\/p>\n<p>Berman, M<strong>.<\/strong><em> Tudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no ar. <\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1986.<\/p>\n<p>Birman, J. &#8220;A psicopatologia na p\u00f3s-modernidade: as alquimias do mal-estar na atualidade&#8221;. <em>Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental<\/em>, Vol II no.1 III\/1999.<\/p>\n<p>Birman, J. <em>O trauma na pandemia do coronav\u00edrus:<\/em> suas dimens\u00f5es pol\u00edticas, sociais, econ\u00f4micas, ecol\u00f3gicas, culturais, \u00e9ticas e cient\u00edficas. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2021.<\/p>\n<p>Danto, E. A. <em>As Cl\u00ednicas P\u00fablicas de Freud: psican\u00e1lise e justi\u00e7a social<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Perspectiva, 2019.<\/p>\n<p>Debieux Rosa, M. <em>\u00a0<\/em>Carta aos\/\u00e0s jovens psicanalistas hoje. <em>Revista Lacuna<\/em>. 12 de dezembro de 2021. <a href=\"https:\/\/revistalacuna.com\/2021\/12\/14\/n-12-06\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/revistalacuna.com\/2021\/12\/14\/n-12-06\/<\/a>&gt;<\/p>\n<p>Freud, S. (1915) O instinto e suas vicissitudes. <em>S.E.B. <\/em>Rio de Janeiro, Imago, 1976. vol. XIV<\/p>\n<p>Fuks, M. P. &#8220;Mal-estar na contemporaneidade e patologias decorrentes&#8221; in <em>Revista Psican\u00e1lise e Universidade. <\/em>S\u00e3o Paulo, n. 9 e 10, 1998\/99<\/p>\n<p>Ka\u00ebs, R. (2007) <em>Um singular plural<\/em>: a psican\u00e1lise \u00e0 prova do grupo. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2011<\/p>\n<p>Marx, K. e Engels, F. (1848). <em>O manifesto comunista<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2021<\/p>\n<p>Mbembe, A. <em>Necropol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: N-1 edi\u00e7\u00f5es,2018.<\/p>\n<p>Panach\u00e3o, A. L. e Inglez-Mazzarella, T. Figuras do sofrimento ps\u00edquico contempor\u00e2neo no Brasil: entre a pandemia e o pandem\u00f4nio<em>. <\/em>Trabalho apresentado em 25\/09\/2021 na mesa FLAPPSIP no XIII Congreso, XXXIII Symposium AEAPG (Associacion Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados).<\/p>\n<p>Roussillon, R.<em> Manual da pr\u00e1tica cl\u00ednica em psicologia e psicopatologia.<\/em> S\u00e3o Paulo:\u00a0Blucher, 2019<\/p>\n<p>Vieira, A. L. <em>Languishing<\/em>: o que \u00e9 essa sensa\u00e7\u00e3o de apatia que cresceu durante a pandemia? <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/vivabem\/noticias\/redacao\/2021\/06\/10\/languishing-o-que-e-essa-sensacao-de-apatia-que-surgiu-durante-a-pandemia.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.uol.com.br\/vivabem\/noticias\/redacao\/2021\/06\/10\/languishing-o-que-e-essa-sensacao-de-apatia-que-surgiu-durante-a-pandemia.htm<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Sou grata, tamb\u00e9m, pelo que aprendi sobre psican\u00e1lise, psicossom\u00e1tica, transmiss\u00e3o e trabalho em equipe, aos colegas do <em>Curso de Psicossom\u00e1tica Psicanal\u00edtica<\/em> do Sedes, com quem trabalhei entre 1996 e 2003, sendo sempre bem acolhida por um grupo muito generoso.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Talvez seja poss\u00edvel aproximar essas ideias de Roussillon ao conceito de meta enquadre de Ren\u00e9 Ka\u00ebs (2007).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> <em>Languishing: o que \u00e9 essa sensa\u00e7\u00e3o de apatia que cresceu durante a pandemia? <\/em>(2021).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> O autor referia-se \u00e0s revoltas populares que ocorreram no Egito em 2011 e na Ucr\u00e2nia em 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aula inaugural 2022, por Marcia de Mello Franco.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[52],"edicao":[114],"autor":[121],"class_list":["post-1702","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-psicopatologia-psicanalitica","edicao-boletim-63","autor-marcia-de-mello-franco","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1702"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1702\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2345,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1702\/revisions\/2345"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1702"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1702"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}