{"id":1704,"date":"2022-06-01T15:24:22","date_gmt":"2022-06-01T18:24:22","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1704"},"modified":"2022-06-01T15:24:22","modified_gmt":"2022-06-01T18:24:22","slug":"psicopatologia-psicanalitica-e-clinica-contemporanea-aula-inaugural-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/psicopatologia-psicanalitica-e-clinica-contemporanea-aula-inaugural-2020\/","title":{"rendered":"Psicopatologia psicanal\u00edtica e cl\u00ednica contempor\u00e2nea: aula inaugural 2020"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Psicopatologia psicanal\u00edtica e cl\u00ednica contempor\u00e2nea: aula inaugural 2020<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Mario Pablo Fuks<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O nascimento deste curso teve a ver, antes que nada, com as demandas formativas que surgiram na cl\u00ednica. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a cl\u00ednica psicanal\u00edtica estendeu-se a tipos de sofrimento diferentes dos que haviam constitu\u00eddo sua clientela cl\u00e1ssica. Isto significou est\u00edmulos e desafios para o trabalho terap\u00eautico e um esfor\u00e7o para a conceitualiza\u00e7\u00e3o psicopatol\u00f3gica. Houve inven\u00e7\u00e3o de conceitos novos e reformula\u00e7\u00f5es metapsicol\u00f3gicas globais.<\/p>\n<p>Isto j\u00e1 aconteceu outras vezes no longo caminho da psican\u00e1lise. A teoria psicanal\u00edtica, denominada inicialmente <em>teoria geral das neuroses, <\/em>surge e se desenvolve a partir da presen\u00e7a marcante nos consult\u00f3rios dos m\u00e9dicos, principalmente dos neurologistas, de uma demanda cl\u00ednica constitu\u00edda pelas hist\u00e9ricas. Esta demanda produz um grande impacto por seu car\u00e1ter massivo. Mas impacta tamb\u00e9m, desde o ponto de vista psicopatol\u00f3gico, pelos efeitos diferenciados que produz nelas o fato de estarem inseridas num campo do <em>olhar<\/em> (que instaurava Charcot) ou num campo de <em>escuta<\/em> (que foi instaurado por Freud).<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o da histeria se obteve atrav\u00e9s de um modelo explicativo do sintoma em termos de experi\u00eancias n\u00e3o elaboradas (traum\u00e1ticas), de conflitos e defesas ps\u00edquicas, constitu\u00eddo a partir de um m\u00e9todo que permitia o deciframento do sentido e a reconstru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria que explicava sua emerg\u00eancia e sua significa\u00e7\u00e3o para o devir existencial da pessoa em an\u00e1lise. Difere radicalmente de como \u00e9 concebido na medicina, para a qual o sintoma \u00e9 signo de uma doen\u00e7a ou disfun\u00e7\u00e3o presente no organismo. Para Charcot, os sintomas hist\u00e9ricos estavam determinados por les\u00f5es funcionais do sistema nervoso central n\u00e3o comprov\u00e1veis anatomopatologicamente.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o do m\u00e9todo de pesquisa e a compreens\u00e3o resultante para fen\u00f4menos n\u00e3o patol\u00f3gicos da vida cotidiana, como os sonhos, os lapsos, os chistes, os devaneios, as cren\u00e7as supersticiosas, permitiu a constru\u00e7\u00e3o de uma teoria geral do funcionamento ps\u00edquico.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o de todos esses fen\u00f4menos, patol\u00f3gicos ou n\u00e3o, permitiu postular a exist\u00eancia de uma ampla vida ps\u00edquica inconsciente sobre a qual \u00e9 poss\u00edvel incidir atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o de suas produ\u00e7\u00f5es, levando \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o de sintomas quando \u00e9 usada para uma finalidade terap\u00eautica, ou seja, em um contexto que envolve uma rela\u00e7\u00e3o transferencial.<\/p>\n<p>O saber psicanal\u00edtico se constituiu, assim, como cr\u00edtica e ruptura com o saber m\u00e9dico a partir de uma demanda cl\u00ednica espec\u00edfica constitu\u00edda pelas neuroses.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica das neuroses, portanto, est\u00e1 no ponto de partida, na emerg\u00eancia deste projeto hist\u00f3rico que se chama psican\u00e1lise. Mas isto vai continuar, e a expans\u00e3o da cl\u00ednica ir\u00e1 desempenhar um papel central no desenvolvimento da psican\u00e1lise<strong>.<\/strong> O nome do curso j\u00e1 fala sobre isso.<\/p>\n<p>A primeira e a segunda d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX marcam a entrada das psicoses dissociativas (esquizofrenia) e delirantes (paranoia) e dos quadros melanc\u00f3licos, levando a novos enfoques sobre a estrutura do psiquismo centrados no conceito de <em>narcisismo.<\/em> Este trouxe uma compreens\u00e3o mais profunda do Eu, incluindo as inst\u00e2ncias ideais (Eu ideal &#8211; Ideal do Eu) que conduziram, em 1920, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do conceito de Supereu.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o a fen\u00f4menos n\u00e3o patol\u00f3gicos, como o dormir e o sonhar, o luto, os enamoramentos e apaixonamentos, os fen\u00f4menos coletivos, levam a uma complexifica\u00e7\u00e3o do aparelho ps\u00edquico, com novas explica\u00e7\u00f5es para o j\u00e1 conhecido, como o papel dos valores e ideais na metapsicologia do recalque nas neuroses.<\/p>\n<p>A metapsicologia se constr\u00f3i em psican\u00e1lise a partir da elabora\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0 psicopatol\u00f3gica, que \u00e9 essencialmente te\u00f3rica, dos sintomas reconhecidos como anormais pela inst\u00e2ncia m\u00e9dica, como tamb\u00e9m daqueles que n\u00e3o s\u00e3o considerados anormais, como os que Freud estuda na psicopatologia da vida cotidiana. A delimita\u00e7\u00e3o entre normal e anormal na psicopatologia psicanal\u00edtica ser\u00e1 relativa, porosa, e a quest\u00e3o dos limites, ao inv\u00e9s de encaminhar-se no sentido de uma normatiza\u00e7\u00e3o, se transformar\u00e1 em um elemento incitador da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este ponto de partida fundamental se mant\u00e9m como refer\u00eancia e como heran\u00e7a simb\u00f3lica para as sucessivas gera\u00e7\u00f5es de psicanalistas, e a psican\u00e1lise experimenta processos de mudan\u00e7a e renova\u00e7\u00e3o, resultantes das demandas externas e de sua evolu\u00e7\u00e3o interna.<\/p>\n<p>A partir de 1920, a investiga\u00e7\u00e3o das neuroses traum\u00e1ticas, em particular as neuroses de guerra, conduz a uma reformula\u00e7\u00e3o do funcionamento ps\u00edquico geral, uma mudan\u00e7a no modelo t\u00f3pico ou estrutural e da teoria das puls\u00f5es, as quais constituem para a psican\u00e1lise o motor da vida ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Em 1924 Freud j\u00e1 fala de neuroses e de psicoses desde novos pontos de vista, e diferencia duas outras linhagens psicopatol\u00f3gicas: as <em>neuroses narc\u00edsicas<\/em> \u2013 cujo paradigma \u00e9 a melancolia &#8211; e as <em>altera\u00e7\u00f5es do eu<\/em>, nas quais o eu, para n\u00e3o se romper diante das tens\u00f5es e conflitos que deve enfrentar, se deforma. S\u00e3o quadros nos quais se p\u00f5e em jogo o mecanismo de <em>recusa.<\/em> Esse texto se denomina, injustamente, \u201cNeurose e psicose\u201d. Deveria chamar-se \u201cNeuroses, psicoses, neuroses narc\u00edsicas e altera\u00e7\u00f5es do eu.\u201d<\/p>\n<p>Elas funcionar\u00e3o para n\u00f3s como refer\u00eancia te\u00f3rica freudiana da maior import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o dos diversos quadros cl\u00ednicos, que nos anos finais dos 90, uns 20 anos atr\u00e1s, come\u00e7amos a identificar como <em>patologias contempor\u00e2neas<\/em>: as personalidades narc\u00edsicas, as depress\u00f5es, as renomadas s\u00edndromes de p\u00e2nico, os transtornos do sono, as anorexias e bulimias, as patologias do ato, entre as quais e com grande destaque, por seu crescimento massivo e invasivo, as toxicomanias.<\/p>\n<p>Todos esses quadros correspondiam \u00e0s defini\u00e7\u00f5es classificat\u00f3rias que come\u00e7avam a ser vigentes na \u00e9poca, fortemente marcadas por uma corrente que ganhava hegemonia no mundo m\u00e9dico e na psiquiatria, cuja refer\u00eancia consagrada era o DSM em suas sucessivas vers\u00f5es e que se esfor\u00e7ou em induzir uma mudan\u00e7a no modo de pensar a psicopatologia, apoiada nos importantes avan\u00e7os em neuroci\u00eancia, mas tamb\u00e9m no poder extenso e agressivo da ind\u00fastria farmac\u00eautica e dos conv\u00eanios de sa\u00fade. Tal acontecimento, com forte impacto pol\u00edtico no campo da sa\u00fade mental e al\u00e9m dele, favoreceu a volta da psiquiatria biol\u00f3gica ao centro da cena cl\u00ednica de diagn\u00f3stico e tratamento de transtornos mentais.<\/p>\n<p>Esta corrente hegem\u00f4nica<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> concebe o homem como um ser \u201cnatural\u201d, a-social e a-hist\u00f3rico. A concep\u00e7\u00e3o subjacente dos fen\u00f4menos objeto da psiquiatria \u00e9 fundamentalmente biol\u00f3gica, assentada no sintoma nervoso central. O que se reconhece como <em>ps\u00edquico<\/em>, ou seja, a psicologia com que conta essa tend\u00eancia, \u00e9 uma psicologia dos processos conscientes, e as determina\u00e7\u00f5es que regulam este funcionamento ps\u00edquico s\u00e3o neurol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Em suas descri\u00e7\u00f5es, os autores estavam \u00e0 procura de uma linguagem comum e pouco sofisticada. Isto prometia possibilidades de interlocu\u00e7\u00e3o entre os psiquiatras e psic\u00f3logos de diferentes tend\u00eancias preocupados com a cl\u00ednica, mas acabou operando um efeito de <em>censura<\/em> sobre as diversas formula\u00e7\u00f5es psicopatol\u00f3gicas. Tinham como refer\u00eancia normativa o que podemos designar como prot\u00f3tipo sadio da \u00e9poca.<\/p>\n<p>O <em>prot\u00f3tipo sadio<\/em> corresponde ao ideal do homem contempor\u00e2neo, chamado tamb\u00e9m de p\u00f3s-moderno, caracterizado pelo extremo individualismo, por demandar paliativos imediatos em vez de mergulhar em profundidades subjetivas ou intersubjetivas, acreditar somente no tang\u00edvel, e n\u00e3o valorizar a ideia de processo. Valores coletivos, como a igualdade, a justi\u00e7a, a solidariedade, eram vistos como armadilhas do discurso, constru\u00eddas para os incautos e ing\u00eanuos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista epistemol\u00f3gico, no que se refere a crit\u00e9rios de cientificidade, os l\u00edderes dessa linha se regem por um <em>positivismo <\/em>e um <em>pragmatismo l\u00f3gico<\/em>, questionador de qualquer desenvolvimento especulativo, que conduz \u00e0 quase desapari\u00e7\u00e3o do conceito de patologia e da psicopatologia como disciplina te\u00f3rica, que sup\u00f5e a ideia de causalidades complexas, etiologia, processo, e que vem a ser substitu\u00edda pela descri\u00e7\u00e3o de sintomas ou s\u00edndromes, inscritos em sistemas de escalas.<\/p>\n<p>Para essa tend\u00eancia s\u00f3 \u00e9 v\u00e1lido o que \u00e9 \u201c<em>objetivo<\/em>\u201d, ou seja, o que pode ser descrito e avaliado da mesma maneira por qualquer observador, e o que \u00e9 <em>mensur\u00e1vel<\/em>, ou seja, o que se pode inserir em uma escala, na medida do poss\u00edvel utilizando um aparelho, um question\u00e1rio, um teste padronizado.<\/p>\n<p>Mensurar e quantificar deixam fora algumas coisinhas: amor, desejo, \u00f3dio, aspira\u00e7\u00f5es, projetos existenciais. Sabemos que elas t\u00eam sua for\u00e7a, suas intensidades, mas n\u00e3o podemos medi-las. Um conceito fundamental na psican\u00e1lise, o conceito de libido, se constr\u00f3i sobre a ideia de magnitudes, pens\u00e1veis como energia, como cargas pass\u00edveis de aumentar, diminuir, serem investidas, deslocadas, condensadas, distribu\u00eddas em redes associativas, direcionadas para o exterior ou o interior. Mas se trata de magnitudes n\u00e3o mensur\u00e1veis. N\u00e3o se pode dizer nada delas com n\u00fameros. Mas sim com palavras.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Como recurso terap\u00eautico central, o psicof\u00e1rmaco. Como recurso auxiliar, a psicologia das fun\u00e7\u00f5es conscientes. Como conceito de cura, a desapari\u00e7\u00e3o do sintoma. Est\u00e1 ausente o conceito de <em>processo <\/em>no campo da interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Como reabilita\u00e7\u00e3o, a reinser\u00e7\u00e3o social adaptada e a-conflitiva, mesmo que se continue afirmando, no discurso, o objetivo de conseguir o pleno bem-estar biopsicossocial do paciente.<\/p>\n<p>Nesta corrente, as quest\u00f5es do sujeito ficam eclipsadas e o sofrimento ps\u00edquico \u00e9 de certa forma naturalizado ao ser considerado como de origem org\u00e2nica.<\/p>\n<p>N\u00f3s, que fundamos o curso, n\u00e3o pod\u00edamos deixar de prestar aten\u00e7\u00e3o, de escutar o que acontecia neste modo de pensar as psicopatologias e de relacion\u00e1-las com o funcionamento das pessoas na vida cotidiana, que apontava para mudan\u00e7as no la\u00e7o social com efeitos fortemente dessubjetivantes. Esses interrogantes eram fundamentais para nos posicionarmos na contram\u00e3o do objetivismo pragmaticista, que esvaziava e ainda esvazia, de forma crescente, o pensamento psicopatol\u00f3gico t\u00e3o caro \u00e0 psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Busc\u00e1vamos formas de articular os modos como se apresentava o sofrimento ps\u00edquico e as r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es que ent\u00e3o atravessava a vida social, o que significava incluir em nossa reflex\u00e3o o impacto do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, do capitalismo avan\u00e7ado e os novos la\u00e7os sociais presentes na sociedade de consumo e do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Trabalhando de forma complexa as problem\u00e1ticas humanas e inter-humanas a que se referem essas patologias, concebemos um curso que implicasse na formula\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses a respeito do funcionamento ps\u00edquico subjacente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es estudadas, recolocando a import\u00e2ncia do pensamento psicopatol\u00f3gico psicanal\u00edtico e sua metapsicologia. Isto requer um trabalho de releitura dos conceitos j\u00e1 existentes e a cria\u00e7\u00e3o de novas articula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas a que estes novos tempos nos remetem. A leitura atenta de psicanalistas contempor\u00e2neos<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> est\u00e1 por isso no dia a dia de nossas ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O come\u00e7o do curso coincidiu com a conquista do Oscar, para filme estrangeiro, de <em>Central do Brasil,<\/em> de Walter Salles. Fizemos um evento aberto de lan\u00e7amento do mesmo, convidando Miriam Chnaiderman e Olg\u00e1ria Mattos para um debate muito interessante. O t\u00edtulo era <em>Central do Brasil, vicissitudes da subjetiva\u00e7\u00e3o<\/em> e coloquei, na abertura, a seguinte pergunta:<\/p>\n<p>\u201cQue tipo de subjetividade \u00e9 poss\u00edvel conceber quando se parte de cen\u00e1rios como a esta\u00e7\u00e3o de trem que d\u00e1 nome ao filme, mas que poderiam ser aeroportos, centros comercias, pra\u00e7as p\u00fablicas ou at\u00e9 uma rua qualquer,\u00a0 lugares que j\u00e1\u00a0 foram espa\u00e7os de sociabilidade, e onde as pessoas ficam reduzidas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de transeuntes que mal se olham, se falam ou se escutam e onde \u2018se come\u00e7a com uma dilui\u00e7\u00e3o dos sistemas de reconhecimento do outro e se acaba com uma perda de reconhecimento de nosso pr\u00f3prio eu\u2019<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>?\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Kristeva dizia, como vimos no ano passado, no seu livro sobre as <em>Novas doen\u00e7as da alma <\/em>que a experi\u00eancia cotidiana demonstra uma redu\u00e7\u00e3o impressionante da vida interior, perguntando-se se temos hoje o tempo e o espa\u00e7o necess\u00e1rios para arrumarmo-nos uma <em>alma<\/em>, ou se pressionados pelo <em>stress<\/em>, impacientes por ganhar e gastar, por gozar e morrer, os homens e mulheres de hoje prescindem dessa representa\u00e7\u00e3o de sua experi\u00eancia que chamamos de <em>vida ps\u00edquica<\/em>.<\/p>\n<p>Proponho-me a trabalhar alguns conceitos que permitem desenvolver uma reflex\u00e3o no sentido apontado, seguindo um psicanalista brasileiro muito importante que \u00e9 Jurandir Freire Costa.<\/p>\n<p>Existem dois pressupostos, duas invariantes &#8211; para pensar o psiquismo do ser humano &#8211; que podem ter uma validade universal. O conceito de <em>Eu<\/em>, tendo o narcisismo um papel fundamental em sua constru\u00e7\u00e3o, e o conceito de <em>desamparo <\/em>que \u00e9 considerado essencial para a caracteriza\u00e7\u00e3o do humano.<\/p>\n<p>O narcisismo funda a possibilidade de representar-se como uma unidade, constitu\u00edda como um <em>eu.<\/em> Mesmo que um indiv\u00edduo possa vir a reconhecer que n\u00e3o conhece nem domina tudo sobre si mesmo, que est\u00e1 longe de ter essa unidade com a qual se ilude, essa fic\u00e7\u00e3o de si mesmo que \u00e9 seu <em>eu<\/em> lhe \u00e9 necess\u00e1ria para a a\u00e7\u00e3o e a adapta\u00e7\u00e3o ao mundo. Para ocupar um lugar no mundo e poder agir nele.<\/p>\n<p>Para ter e sustentar essa representa\u00e7\u00e3o de si que a psican\u00e1lise definiu como <em>eu<\/em>, o ser humano depende dos outros. Tanto para sua constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a narcisiza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a por parte dos pais, quanto para a sua sustenta\u00e7\u00e3o, seu respaldo, precisa-se do reconhecimento dos outros com os quais o indiv\u00edduo interatua. Os outros fazem parte dos sistemas de reconhecimento.<\/p>\n<p>Giorgio Agamben, em seu trabalho \u201cIdentidade sem persona\u201d (2011)<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, diz que o desejo de ser reconhecido pelos outros \u00e9 insepar\u00e1vel do ser humano. N\u00e3o se trata de satisfa\u00e7\u00e3o ou de amor-pr\u00f3prio; se trata do fato de que somente atrav\u00e9s do reconhecimento dos outros \u00e9 poss\u00edvel constituir-se como <em>persona.<\/em> <em>\u00a0Persona<\/em>, no uso coloquial, \u00e9 um papel social ou personagem vivido por um ator. \u00c9 uma palavra italiana derivada do latim para denominar um tipo de m\u00e1scara feita para <em>ressoar <\/em>com a voz do ator (<em>per sonare<\/em> significa &#8220;soar atrav\u00e9s de&#8221;), permitindo que fosse bem ouvida pelos espectadores, bem como dar ao ator a apar\u00eancia que o papel exigia.<\/p>\n<p>O significado original \u00e9 de m\u00e1scara. E \u00e9 atrav\u00e9s da \u201cm\u00e1scara\u201d do teatro greco-latino, da <em>persona<\/em>, que o indiv\u00edduo adquire um papel e uma identidade social.<\/p>\n<p>Um aparte: <em>Persona<\/em> e <em>personare<\/em> s\u00e3o instrumentos poss\u00edveis para pensar algumas situa\u00e7\u00f5es que aparecem na cl\u00ednica. Eu os associo com a chamada fala desafetada, em boa medida monoc\u00f3rdica, autom\u00e1tica, que caracteriza certos pacientes com problemas alimentares nas sess\u00f5es. Falta resson\u00e2ncia, falta <em>persona<\/em>. A ang\u00fastia se expressa nelas, como todos sabemos, no campo do olhar, da imagem, na frente do espelho.<\/p>\n<p>Em Roma cada indiv\u00edduo era representado por um nome que expressava sua perten\u00e7a a uma <em>gens<\/em>, uma estirpe. Mas esta estirpe estava definida pela m\u00e1scara de cera mortu\u00e1ria do antepassado que a fam\u00edlia patr\u00edcia custodiava no \u00e1trio da casa familiar. O significado passou rapidamente para a palavra \u201cpersonalidade\u201d que define o lugar do indiv\u00edduo nos dramas e nos ritos da vida social. Um pouco mais adiante <em>persona <\/em>acabou significando a capacidade jur\u00eddica e a dignidade pol\u00edtica do homem livre.<\/p>\n<p>Do homem livre, sim, porque o escravo n\u00e3o tem antepassados, nem m\u00e1scara, nem nome que expresse uma pertin\u00eancia, portanto n\u00e3o pode ter capacidade jur\u00eddica, n\u00e3o pode ter <em>persona<\/em>. A luta pelo reconhecimento \u00e9, assim, a luta pela m\u00e1scara, mas essa m\u00e1scara coincide com a \u201cpersonalidade\u201d que a sociedade reconhece a todo indiv\u00edduo &#8211; ou com a \u201cpersonagem\u201d que faz dele -, \u201ccom sua cumplicidade mais ou menos reticente\u201d, diz Agamben. Este reconhecimento se d\u00e1 em espa\u00e7os de sociabilidade, que podem ser a pra\u00e7a p\u00fablica ou a rua, conforme a c\u00f3digos, a sistemas de reconhecimento. Na cultura ocidental a m\u00e1scara, a <em>persona<\/em>, n\u00e3o tem s\u00f3 um significado jur\u00eddico. Ela tem contribu\u00eddo para a forma\u00e7\u00e3o da <em>persona<\/em> moral.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 importante ver o que \u00e9 a identidade para as sociedades atuais, para os estados nacionais e seus sistemas de controle. A palavra <em>identidade<\/em>, t\u00e3o usada nos discursos <em>psi<\/em>, aparece na cultura ocidental ligada \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o em identificar os indiv\u00edduos, necess\u00e1ria para a identifica\u00e7\u00e3o dos criminosos. S\u00e3o dispositivos policiais que contribuem para desenvolver o que se conhece como <em>sociedade de controle<\/em>. Usam recursos denominados bioantropom\u00e9tricos. Isso conduz \u00e0 cria\u00e7\u00e3o das \u201cc\u00e9dulas de identidade\u201d. V\u00e3o desde a forma da cabe\u00e7a e das m\u00e3os at\u00e9 as impress\u00f5es digitais.<\/p>\n<p><em>Mas ter uma c\u00e9dula de identidade \u00e9 ter uma persona?<\/em> Nada disso. Poder\u00edamos dizer que ter um crach\u00e1 pendurado no peito, sim. Mas ningu\u00e9m usa a c\u00e9dula de identidade como um crach\u00e1. No entanto, com base nelas se pode fazer todo tipo de controle e manipula\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es<strong>. <\/strong>Os indiv\u00edduos somados constituem popula\u00e7\u00f5es, n\u00e3o constituem comunidades de reconhecimento rec\u00edproco. Difundem-se por todos os pa\u00edses do mundo l\u00e1 pela d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n<p>Agamben conclui: \u201cPor primeira vez na hist\u00f3ria, a identidade j\u00e1 n\u00e3o estava em fun\u00e7\u00e3o da <em>\u2018persona\u2019<\/em> social e de seu reconhecimento, mas de dados biol\u00f3gicos que n\u00e3o podiam ter com ela rela\u00e7\u00e3o nenhuma. O homem substituiu a m\u00e1scara, que lhe possibilitava o reconhecimento pelos outros homens, por dados biol\u00f3gicos que lhe pertencem como algo \u00edntimo e exclusivo mas com os quais n\u00e3o pode identificar-se de maneira alguma\u201d, e a respeito dos quais n\u00e3o consegue produzir uma dist\u00e2ncia que possibilite alguma experi\u00eancia \u00e9tica com seu ter e com seu ser. Os que reconhecem e identificam esses dados s\u00e3o aparelhos, m\u00e1quinas. H\u00e1 previstos, para o futuro, arquivos com o DNA de todos os cidad\u00e3os para fins de seguran\u00e7a, repress\u00e3o do crime e gest\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica. O homem fica assim reduzido a sua <em>vida nua<\/em>, conceito que Agamben construiu para falar dos habitantes dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m, todo mundo o sabe, eram identificados por um n\u00famero tatuado no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Byung-Chul Han, autor de <em>Sociedade do cansa\u00e7o<\/em> e <em>Sociedade da transpar\u00eancia<\/em>, em um novo livro <em>Psicopol\u00edtica \u2013 O neoliberalismo e as novas t\u00e9cnicas de poder \u2013<\/em> fala do <em>quantified self<\/em>, do <em>self<\/em> quantificado. E diz o seguinte:<\/p>\n<p>\u201cA cren\u00e7a na mensurabilidade e na quantificabilidade da vida domina a era digital. O <em>quantified self<\/em> (o <em>self<\/em> quantificado) tamb\u00e9m reverencia esta cren\u00e7a.\u201d (p. 83). O corpo \u00e9 equipado com sensores que registram dados fisiol\u00f3gicos automaticamente at\u00e9 durante a medita\u00e7\u00e3o e o repouso. At\u00e9 mesmo nesses momentos o desempenho e a efici\u00eancia t\u00eam import\u00e2ncia. \u201cEstados de \u00e2nimo, sensa\u00e7\u00f5es e atividades cotidianas s\u00e3o registrados. O desempenho corporal e mental deve ser melhorado atrav\u00e9s da autoaferi\u00e7\u00e3o e o autocontrole.\u201d (p 83-84)<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>No entanto, o puro ac\u00famulo de dados n\u00e3o responde \u00e0 pergunta <em>quem sou eu? &#8211; <\/em>afirma, a seu turno, Byung-Chul Han.<em> \u201c<\/em>O <em>self<\/em> quantificado \u00e9 uma t\u00e9cnica data\u00edsta de si que o esvazia completamente de sentido. O si mesmo \u00e9 desmanchado em dados at\u00e9 que se torna insignificante. Por mais abrangentes que sejam, dados e n\u00fameros n\u00e3o produzem autoconhecimento. Os n\u00fameros n\u00e3o nos <em>contam<\/em> nada sobre o eu. N\u00e3o h\u00e1 narrativa. Mas o eu se deve a uma narrativa. N\u00e3o a contagem mas a narrativa \u00e9 o que conduz ao encontro de si e ao autoconhecimento.\u201d (p. 84)<\/p>\n<p>O valor da narrativa, e do que aporta a psican\u00e1lise nesse sentido, n\u00f3s o descobrimos trabalhando ou dando supervis\u00e3o nos Hospitais-Dia. Comprovamos que as hist\u00f3rias dos pacientes estavam eclipsadas, como parte dos processos institucionais dessubjetivantes. A abordagem psicanal\u00edtica permitia recuper\u00e1-las. Anos depois, trabalhando na cl\u00ednica dos transtornos alimentares, descobrimos tamb\u00e9m que os di\u00e1rios que as nutricionistas aconselhavam aos pacientes elaborar podiam constituir-se em instrumento muito importante para introduzir o narrativo no di\u00e1logo com eles. Interessava n\u00e3o tanto quantas vezes vomitou, mas o que estava acontecendo consigo no momento em que foi vomitar.<\/p>\n<p>O escrever, diz Byung, era importante na cultura do cuidado de si analisada por Foucault; escrever notas sobre si mesmo que precisavam ser relidas. Serviam a uma \u00e9tica do eu.<\/p>\n<p>O data\u00edsmo (o fetichismo dos dados) esvazia o automonitoramento de qualquer \u00e9tica e verdade e o tornam autocontrole.<\/p>\n<p>O sujeito contempor\u00e2neo, o sujeito neoliberal, \u00e9 um empreendedor de si mesmo que se autoexplora e se autofiscaliza. Carrega consigo um campo de trabalhos for\u00e7ados e um pan\u00f3ptico (Bentham), com o qual se automonitora individualmente. (p. 86)<\/p>\n<p>Existe na teoria psicanal\u00edtica outro pressuposto, outra invariante do psiquismo que pode ter uma validade universal, que decorre do estado inicial da experi\u00eancia humana que Freud chamou de<em> impot\u00eancia\/desamparo.<\/em> Essa impot\u00eancia jaz no cora\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, da experi\u00eancia religiosa e de outros processos culturais. E volta a aparecer em diversos momentos, no seio da vida social e civilizada, imposta pela <em>anank\u00e9<\/em> ou destino ligado ao inevit\u00e1vel, e que em Roma era chamado de \u201c<em>necessitas<\/em>\u201d. \u00c9 quando o indiv\u00edduo, desvalido e impotente, se defronta, como diz Freud em <em>O mal-estar na cultura<\/em> (1930), com tr\u00eas coisas, que ferem seu narcisismo:<\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong>A fragilidade e caducidade do corpo; a pot\u00eancia esmagadora da natureza; as amea\u00e7as provenientes das rela\u00e7\u00f5es entre os seres humanos\u201d.<\/p>\n<p>Eu diria que, nestes dias que estamos passando, temos todos os quadradinhos deste esquema ticados: o corona v\u00edrus, de evolu\u00e7\u00e3o incerta, pelo lado do corpo; as chuvas, enchentes e desabamentos que produzem cada ano mais v\u00edtimas, pelo da natureza; e\u00a0 o terceiro quadradinho, pelo lado das rela\u00e7\u00f5es com os outros: as amea\u00e7as provenientes da gest\u00e3o desse governo, principalmente de seu chefe, que ataca a educa\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia e a cultura atrav\u00e9s de reminisc\u00eancias hitleristas, que atenta contra o funcionamento democr\u00e1tico convocando a atos como o do pr\u00f3ximo domingo, e que promove e autoriza a multiplica\u00e7\u00e3o de express\u00f5es de \u00f3dio e agressividade, utilizando a grosseria e as piadas obscenas contra toda jornalista mulher que o questione.<\/p>\n<p>Jurandir Freire Costa dizia que, na cultura narcisista<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>, o recrudescimento da ang\u00fastia de impot\u00eancia produz uma reativa\u00e7\u00e3o dos mecanismos narcisistas de preserva\u00e7\u00e3o: o isolamento, a retra\u00e7\u00e3o e afastamento dos outros, a agressividade, as compensa\u00e7\u00f5es fetich\u00edsticas de diversos tipos, a ativa\u00e7\u00e3o de ideais arcaicos, os fanatismos fundamentalistas.<\/p>\n<p>Em dita cultura, a viv\u00eancia de desamparo \u00e9 levada a um ponto tal que torna conflitante e extremamente dif\u00edcil a pr\u00e1tica da<em> solidariedade social<\/em>. N\u00f3s j\u00e1 dissemos, e escrevemos sobre este tema, que os traumas coletivos naturais aumentam a solidariedade social e coesionam a comunidade. Em contraposi\u00e7\u00e3o, os traumas coletivos chamados hist\u00f3ricos, como as ditaduras e as guerras, desorganizam e fragmentam a comunidade pela fal\u00eancia institucional das inst\u00e2ncias de media\u00e7\u00e3o e das responsabilidades individuais e coletivas. Hoje, penso eu, estamos diante da coexist\u00eancia e combina\u00e7\u00e3o desses dois efeitos.<\/p>\n<p>Para concluir, n\u00e3o se trata neste curso de sustentar uma aspira\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica de resolver todos os problemas com que a realidade nos confronta, mas sim de poder expandir o conhecimento das ang\u00fastias que nos atravessam e que atravessam nossos pacientes, de n\u00e3o deixar que elas nos dominem e, fundamentalmente, de poder manter o pensamento aceso.<\/p>\n<p>Quando, em 1998, perguntaram a Emilio Rodrigu\u00e9, um analista argentino muito prestigiado, como ele enxergava, ap\u00f3s sessenta anos exercendo o of\u00edcio de psicanalista, o alcance e os limites da psican\u00e1lise diante dos diferentes tipos de demanda cl\u00ednica atual, ele respondeu o seguinte: \u201cA psican\u00e1lise n\u00e3o envelheceu tanto assim. Ela ainda \u00e9 bonita e graciosa. Ela n\u00e3o precisou de pl\u00e1stica alguma e ainda fizemos alguns avan\u00e7os<strong>. <\/strong>O importante \u00e9 que a leva atual de analistas \u00e9 menos prepotente e mais sens\u00edvel ao sofrimento humano.\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>Agamben, G. \u00a0\u201cIdentidade sem persona\u201d em <em>Desnudez.<\/em> Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2011.<\/p>\n<p>Han, Byung-Chul. <em>Psicopol\u00edtica: O neoliberalismo e as novas t\u00e9cnicas de poder<\/em>. Belo Horizonte, \u00c2yin\u00e9, 2018. <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Costa, J. F. \u201cNarcisismo em tempos sombrios\u201d in: Birman, Joel (org.) <em>Percursos na hist\u00f3ria da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Livraria Taurus Editora, 1988. pp. 151-174.<\/p>\n<p>Freud, S. (1930) \u201cEl malestar en la cultura\u201d, <em>Obras Completas<\/em>, Vol. XXI. Buenos Aires: Amorrortu, 1996.<\/p>\n<p>Fuks, M. P. \u201cTrauma e dessubjetiva\u00e7\u00e3o\u201d in <em>Percurso<\/em> (ano XXVI, n. 52, pp. 95-102, 2014).<\/p>\n<p>Kristeva, J. <em>Las nuevas enfermedades del alma. <\/em>Madrid: Ediciones C\u00e1tedra, 1995.<\/p>\n<p>Matrajt, M. \u201cLa corriente hegem\u00f3nica en salud mental\u201d, <em>Subjetividad y Cultura <\/em>No. 4, M\u00e9xico, abril 1995.<\/p>\n<p>Rodrigu\u00e9, E. \u201cFurac\u00e3o freudiano\u201d, entrevista,\u00a0 <em>Percurso <\/em>34.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Ministrada em 10 de mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, onde \u00e9 professor do Curso de Psican\u00e1lise, coordenador do curso Psicopatologia psicanal\u00edtica e cl\u00ednica contempor\u00e2nea e membro da equipe editorial deste <em>boletim<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Ver Matrajt, M. \u201cLa corriente hegem\u00f3nica en salud mental\u201d em <em>Subjetividad y Cultura, <\/em>M\u00e9xico, 1995.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Os pediatras reclamam quando que n\u00e3o ficam sabendo sobre os trabalhos psicanal\u00edticos sobre autismo porque os psicanalistas n\u00e3o publicam em revistas cient\u00edficas. Os trabalhos cient\u00edficos que n\u00e3o contenham n\u00famero de pacientes, tabelas, estat\u00edsticas n\u00e3o s\u00e3o publicados nas revistas m\u00e9dicas indexadas, que respondem obedientemente aos crit\u00e9rios desta tend\u00eancia hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Eles produzem teoriza\u00e7\u00f5es e criam conceitos psicopatol\u00f3gicos: <em>personalidades como si <\/em>(Helen Deutch),\u00a0 <em>falso-self <\/em>(Winnicott), <em>personalidades narc\u00edsicas<\/em> (Kohut), <em>borderline<\/em> (Kernberg), <em>loucuras privadas<\/em> (Green), <em>personalidades f\u00e1cticas <\/em>(Blejer), <em>ato-sintoma<\/em> (Joyce Mac Dougall).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Galende, E.<em> De um horizonte incierto, <\/em>Paid\u00f3s, Buenos Aires, 1997.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Central do Brasil: as vicissitudes da subjetiva\u00e7\u00e3o. <em>Percurso<\/em> ano XI, n<sup>o <\/sup>21, 1998; pp. 67-69, 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Agamben, G. <em>Desnudez. <\/em>Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2011.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Agamben analisa como o teatro foi um espa\u00e7o privilegiado para a elabora\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios que regem a rela\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, ou seja, de cada ator,\u00a0 com sua m\u00e1scara. Nas representa\u00e7\u00f5es pict\u00f3ricas se destaca a dist\u00e2ncia que separa cada ator da m\u00e1scara que representa e que d\u00e1 sonoridade a sua personagem. Os fil\u00f3sofos da \u00e9poca enunciaram um princ\u00edpio, tomando como refer\u00eancia o teatro, pelo qual todo indiv\u00edduo, todo ator, tem a obriga\u00e7\u00e3o de assumir sua m\u00e1scara, seu papel, mas com limites, com dist\u00e2ncia, sem se confundir, sem identificar-se totalmente com ele, sem se confundir com ele. Eis aqui, de meu ponto de vista, uma distin\u00e7\u00e3o entre eu ideal e ideal de eu &#8211; como inst\u00e2ncias ou como institui\u00e7\u00f5es do eu, assim as chama Freud &#8211; diferenci\u00e1veis como inst\u00e2ncias ideais. E, associadas aos ideais, a princ\u00edpios morais internos. Isto sup\u00f5e a possibilidade de um espa\u00e7o interior que poderia ser chamado de transicional (Winnicott), de uma experi\u00eancia em que se elabora um si mesmo, fruto da experi\u00eancia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Valem como exemplo interessante as frequentes opera\u00e7\u00f5es de autoaferi\u00e7\u00e3o do astronauta que protagoniza o filme <em>Ad Astra \u2013 Rumo \u00e0s estrelas<\/em> com dire\u00e7\u00e3o de James Gray (2019).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Em \u201cNarcisismo em tempos sombrios\u201d (1988).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Rodrigu\u00e9, E. \u201cFurac\u00e3o freudiano\u201d, entrevista,\u00a0 <em>Percurso <\/em>34.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amplia\u00e7\u00e3o do campo psicanal\u00edtico nas origens criadoras de um curso. Por Mario Pablo Fuks.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[52],"edicao":[114],"autor":[115],"class_list":["post-1704","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-psicopatologia-psicanalitica","edicao-boletim-63","autor-mario-pablo-fuks","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1704"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1705,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1704\/revisions\/1705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1704"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1704"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}