{"id":1706,"date":"2022-06-01T15:30:25","date_gmt":"2022-06-01T18:30:25","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1706"},"modified":"2023-03-23T20:27:40","modified_gmt":"2023-03-23T23:27:40","slug":"a-sociedade-do-desempenho-e-as-patologias-do-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/a-sociedade-do-desempenho-e-as-patologias-do-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"A sociedade do desempenho e as patologias do neoliberalismo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A <em>sociedade do desempenho<\/em> e as patologias do neoliberalismo<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Aula inaugural de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea 2019: Origens do curso<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Mario Pablo Fuks<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Faz parte do caminho seguido pela psican\u00e1lise \u2013 como afirmamos em trabalho publicado no <em>boletim online<\/em> em 2017<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> &#8211; n\u00e3o s\u00f3 a expans\u00e3o das fronteiras cl\u00ednicas, mas o perguntar-se reiteradamente sobre a <em>rela\u00e7\u00e3o entre<\/em> <em>o ps\u00edquico e o social<\/em><strong>,<\/strong> o papel do determinismo sociocultural na produ\u00e7\u00e3o dos sofrimentos ps\u00edquicos, a forma que tomam esses sofrimentos conforme cada \u00e9poca e o modo como s\u00e3o tratados em dita \u00e9poca os portadores destes sofrimentos.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de que caminho chegamos at\u00e9 as chamadas <em>patologias contempor\u00e2neas<\/em> para torn\u00e1-las objeto desse curso? \u00c9 preciso falar da <em>hist\u00f3ria do grupo. <\/em><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, est\u00e1 o fato de sermos psicanalistas e termos participado todos da cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de um projeto formativo de proje\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O Curso de Psican\u00e1lise, fundado em 1976, foi o primeiro projeto paulistano independente de forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas. Consolidado dito curso, criou-se o Departamento de Psican\u00e1lise em 1985.<\/p>\n<p>Foi nessa \u00e9poca que nos engajamos nas pr\u00e1ticas institucionais da Sa\u00fade Mental p\u00fablica, apoiando a Reforma Psiqui\u00e1trica e encontrando aliados nos movimentos antimanicomiais que floresceram nos anos 80 e 90, acompanhando o processo de democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>O curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea, assim como o grupo que o sustenta, surge em 1998, a partir de outro que iniciamos em 1993 sobre <em>Psicoses: Concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e estrat\u00e9gias institucionais<\/em> que teve muito boa acolhida, em um momento de muita mobiliza\u00e7\u00e3o e trabalho com novos equipamentos de Sa\u00fade Mental, principalmente os hospitais-dia. Dita experi\u00eancia teria repercuss\u00f5es importantes no devir do grupo.<\/p>\n<p>Um dois eixos te\u00f3ricos que desenvolvemos centrou-se no conceito de <em>recusa<\/em>, processo defensivo que se p\u00f5e em a\u00e7\u00e3o quando alguma percep\u00e7\u00e3o angustiante amea\u00e7a socavar as cren\u00e7as e ilus\u00f5es que d\u00e3o suporte ao narcisismo de indiv\u00edduos, grupos ou coletivos maiores e que produz efeitos dissociativos favor\u00e1veis \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sintomas diferentes do sintoma neur\u00f3tico, como se v\u00ea no campo das pervers\u00f5es e da psicose.<\/p>\n<p>Enfocamos a recusa desde o ponto de vista do bloqueio do processo de subjetiva\u00e7\u00e3o, estudando quais epis\u00f3dios e processos intrafamiliares o produziam \u2013 e o reproduziam, no presente, no contexto institucional \u2013, investigando tamb\u00e9m que dispositivos poderiam ser montados para superar a recusa e iniciar um processo de re-subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estudamos as <em>rela\u00e7\u00f5es dessubjetivantes<\/em> presentes na institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, a evapora\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias singulares e a aus\u00eancia de interlocu\u00e7\u00e3o, e defendemos enfaticamente a possibilidade de uma recupera\u00e7\u00e3o da elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica atrav\u00e9s do trabalho das equipes nos hospitais-dia. A compreens\u00e3o mais ampla das pol\u00edticas de Sa\u00fade Mental vigentes nos permitiu situar a problem\u00e1tica da psicose em um contexto cient\u00edfico, \u00e9tico, social e pol\u00edtico. Nesse contexto afirmamos, e podemos afirmar hoje, o valor da cl\u00ednica psicanal\u00edtica como dispositivo promotor do processo de subjetiva\u00e7\u00e3o e sua import\u00e2ncia como interlocu\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o de narrativas e possibilidade de elabora\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Valorizamos tamb\u00e9m a supervis\u00e3o, que permite identificar os pontos cegos presentes na pr\u00e1tica psicoter\u00e1pica, os quais, no contexto institucional, viram pontos cegos, surdos e mudos. Coerentemente com essa posi\u00e7\u00e3o, acolhemos rapidamente a demanda aguda surgida no espa\u00e7o daquele curso frente \u00e0 paralisia, reorganiza\u00e7\u00e3o e desmantelamento dos lugares de trabalho, causados pela implanta\u00e7\u00e3o do PAS pelo governo Maluf<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Reformulamos imediatamente nosso funcionamento, criando grupos de elabora\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas que afetaram tanto os profissionais como os pacientes a partir da imposi\u00e7\u00e3o acelerada e autorit\u00e1ria daquela pol\u00edtica nos equipamentos de sa\u00fade p\u00fablica da cidade.<\/p>\n<p>Cabe avaliar a import\u00e2ncia da historiza\u00e7\u00e3o para pensar a crise pol\u00edtica que estamos atravessando, que inclui &#8211; desde 2017 &#8211; graves retrocessos nas pol\u00edticas de Sa\u00fade Mental, como s\u00e3o: a violenta interven\u00e7\u00e3o da Prefeitura nos programas ligados a drogadic\u00e7\u00f5es ao restaurar o modelo, questionado j\u00e1 em toda parte, de \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d; a promo\u00e7\u00e3o das \u201ccomunidades terap\u00eauticas\u201d que t\u00eam um sentido diferente, sen\u00e3o oposto, ao que tinham para Maxwell Jones, criador das mesmas na Inglaterra a fim de impulsionar a abertura institucional; o recente aumento de financiamento para novos leitos psiqui\u00e1tricos, que amea\u00e7a ser um primeiro passo para o restabelecimento do modelo manicomial. Hoje, mar\u00e7o de 2019, frente ao prop\u00f3sito recentemente declarado &#8211; atrav\u00e9s da Nota T\u00e9cnica 11\/2019, divulgada pelo Minist\u00e9rio de Sa\u00fade P\u00fablica &#8211; de desmontar os espa\u00e7os conquistados e os recursos constru\u00eddos por mais de 30 anos de avan\u00e7os na Reforma Psiqui\u00e1trica, recusando a validez e o sentido da exist\u00eancia de equipamentos e m\u00e9todos substitutivos da interna\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, nos perguntamos qual ser\u00e1 a forma de resistir. Em um primeiro movimento cabe nos unirmos aos <em>Psicanalistas pela democracia<\/em>, a diversos grupos de analistas que est\u00e3o se mobilizando dentro do <em>movimento Articula\u00e7\u00e3o<\/em>, aos trabalhadores de Sa\u00fade Mental, aos ex-psiquiatrizados e suas fam\u00edlias e a todos aqueles que fazem parte da luta antimanicomial, no rep\u00fadio a estas tentativas. A Diretoria do Instituto Sedes j\u00e1 publicou uma declara\u00e7\u00e3o nesse sentido, em 26\/02\/2019.<\/p>\n<p>Em meados de 1995 nosso grupo tinha come\u00e7ado a se interessar por uma problem\u00e1tica mais ampla, que associa as an\u00e1lises sobre subjetividade contempor\u00e2nea, cultura p\u00f3s-moderna, neoliberalismo, etc. com a ocorr\u00eancia de certos tipos de patologias, de car\u00e1ter por momentos epid\u00eamico, e que passam a ser objeto de uma abordagem frequentemente reducionista e dessubjetivante por parte das correntes vigentes no campo psiqui\u00e1trico. O assunto estava no ar, tanto no espa\u00e7o sociocultural geral como no meio especificamente psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Em 1993 aparece o livro <em>As novas doen\u00e7as da alma<\/em> da psicanalista b\u00falgara Julia Kristeva e, em 1995, em espanhol, o livro <em>Entre dos mundos<\/em>, das psicanalistas argentinas Maria Cristina Rojas e Susana Sternbach, no qual se visualizava como, atrav\u00e9s do debate <em>modernidade &#8211; p\u00f3smodernidade<\/em>, o sujeito como tema volta a se revestir do social-hist\u00f3rico, desafiando as cosmovis\u00f5es assentadas. Esse livro nos introduziu na an\u00e1lise da crise que, iniciando-se nos anos 70, avan\u00e7aria ao longo do que faltava do s\u00e9culo e do mil\u00eanio. Vista como crise dos ideais e valores da modernidade face \u00e0s mudan\u00e7as nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o derivadas da queda das grandes utopias coletivas &#8211; o chamado fim da hist\u00f3ria de Fukuyama -, da ruptura de la\u00e7os sociais e da produ\u00e7\u00e3o de um novo tipo de subjetividade, narcisista e adictiva, decorrente das l\u00f3gicas induzidas pelas novas modalidades de produ\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas de consumo.<\/p>\n<p>Em <em>As novas doen\u00e7as da alma<\/em> Julia Kristeva (1993)<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> sustenta que a experi\u00eancia cotidiana demonstra uma redu\u00e7\u00e3o impressionante da vida interior, perguntando-se se temos hoje o tempo e o espa\u00e7o necess\u00e1rios para arranjarmo-nos uma alma, ou se &#8220;pressionados pelo estresse, impacientes por ganhar e gastar, por desfrutar e morrer, os homens e mulheres de hoje economizam essa representa\u00e7\u00e3o de sua experi\u00eancia a que chamamos vida ps\u00edquica.&#8221;(2002, p. 14). Habitante de um espa\u00e7o e um tempo fragmentado e acelerado, com dificuldade para reconhecer-se uma fisionomia, essa esp\u00e9cie de anf\u00edbio \u00e9 um ser fronteiri\u00e7o, um <em>borderline<\/em> ou um <em>falso-self<\/em>.<\/p>\n<p>Estes novos pacientes \u2013 diz ela &#8211; mostram todos uma particular dificuldade de representa\u00e7\u00e3o. \u201cO <em>espa\u00e7o ps\u00edquico<\/em>, essa c\u00e2mera escura de nosso ser onde se refletem tanto a ang\u00fastia de viver como a alegria e a liberdade do homem ocidental, est\u00e1 talvez a ponto de desaparecer?\u201d. Que significa o retorno das religi\u00f5es? O aumento de interesse pelas mesmas procede de uma busca, ou todo o contr\u00e1rio, elas se constituem numa solu\u00e7\u00e3o-pr\u00f3tese para sua pobreza ps\u00edquica?<\/p>\n<p>Como diz mais adiante, \u201co ps\u00edquico pode ser o lugar onde se <em>elaboram<\/em> e portanto se liquidam, tanto o sintoma som\u00e1tico quanto a proje\u00e7\u00e3o delirante: o ps\u00edquico \u00e9 nossa prote\u00e7\u00e3o, desde que a pessoa n\u00e3o se feche nele, mas sim o <em>transfira <\/em>pelo <em>ato da linguagem <\/em>para uma sublima\u00e7\u00e3o, um ato de pensamento, de interpreta\u00e7\u00e3o, de transforma\u00e7\u00e3o relacional&#8230;\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> (Idem, pp. 38-39), o que sup\u00f5e a abertura para um outro.<\/p>\n<p>Kristeva sustenta que h\u00e1 um agravamento da doen\u00e7a psicol\u00f3gica que caracteriza o mundo atual, que \u00e9 a outra face da <em>sociedade do rendimento<\/em> <em>e do stress.<\/em> O desassossego que se instala renova um chamado \u00e0 psican\u00e1lise para dar um sentido a esse desastre interior. Eu penso que \u00e9 uma verdade percept\u00edvel nos pacientes que nos procuram.<\/p>\n<p>Mas a psican\u00e1lise tem dois grandes obst\u00e1culos a enfrentar: 1) a competi\u00e7\u00e3o com as neuroci\u00eancias: a <em>p\u00edlula<\/em> ou a palavra e 2) aliado do anterior, o desejo de <em>n\u00e3o saber<\/em> em suas diversas formas&#8230; principalmente, entendemos, o <em>tirar da cabe\u00e7a<\/em> que caracterizava o <em>recalque<\/em> como modo pat\u00f3geno de fugir do conflito, atrav\u00e9s das diferentes defesas, e a <em>recusa,<\/em> forma teorizada posteriormente e que se apoia em diversos fetiches, discursos e rela\u00e7\u00f5es perversas.<\/p>\n<p>A autora afirma que \u201co homem moderno est\u00e1 perdendo sua alma. Mas n\u00e3o o sabe disso, pois \u00e9 precisamente o aparelho ps\u00edquico que registra as representa\u00e7\u00f5es e seus valores significantes para o sujeito. Ora, a c\u00e2mara escura est\u00e1 avariada.\u201d (p. 14).<\/p>\n<p>Como desenvolvemos em um texto anterior<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, a partir da grande virada neoliberal dos anos 80 e 90, iniciada e protagonizada por Thatcher e Reagan, come\u00e7a a ser fabricado um novo sujeito que pode ser chamado de\u00a0<em>sujeito empresarial, empres\u00e1rio de si mesmo, sujeito neoliberal<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>neo sujeito<\/em>. Trata-se de produzir e governar um ser cuja subjetividade deve estar inteiramente envolvida na atividade que ele cumpra. A motiva\u00e7\u00e3o, a vontade de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, o projeto que o sujeito se prop\u00f5e desenvolver, \u201cenfim o\u00a0<em>desejo<\/em>, com todos os nomes que se queira dar a ele, \u00e9 o alvo do novo poder.\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>A ideia de construir uma subjetividade neoliberal era clara e expl\u00edcita. H\u00e1 uma frase famosa de Margareth Thatcher em um discurso pr\u00e9-eleitoral: \u201cA economia \u00e9 o m\u00e9todo, mas o objetivo \u00e9 a alma\u201d. A qual, de uma maneira insolitamente precisa, d\u00e1 fundamento ao toque de alarme de Kristeva.<\/p>\n<p>Byung-Chul Han, um fil\u00f3sofo nascido na Coreia mas radicado na Alemanha, um estudioso do tema do qual publicou-se recentemente <em>Sociedade do cansa\u00e7o<\/em> (Vozes, 2017)<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, afirma que a sociedade do s\u00e9culo XXI n\u00e3o \u00e9 mais a <em>sociedade disciplinar<\/em>, assim denominada e teorizada por Michel Foucault, dominada pela negatividade, mas uma <em>sociedade de desempenho<\/em>. Os muros das institui\u00e7\u00f5es disciplinares, que delimitavam os espa\u00e7os entre o normal e o anormal, se tornaram arcaicos. Os habitantes desta sociedade n\u00e3o se chamam mais \u201csujeitos da obedi\u00eancia\u201d, mas sujeitos de desempenho e de produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o empres\u00e1rios de si mesmos. Continuaremos na exposi\u00e7\u00e3o esquem\u00e1tica e comentada, com os limites e riscos que isso sup\u00f5e, das ideias vertidas pelo autor.<\/p>\n<p>Na sociedade disciplinar est\u00e1 presente a negatividade sob a forma da proibi\u00e7\u00e3o, do \u201cN\u00e3o, n\u00e3o pode\u201d. Na imposi\u00e7\u00e3o do dever tamb\u00e9m est\u00e1 presente a negatividade, que \u00e9 a negatividade da coer\u00e7\u00e3o. A sociedade do desempenho vai se desvinculando dessas negatividades, primeiro habilitando a transgress\u00e3o das regras e regulamentos, depois desregulamentando. O que a rege \u00e9 o \u201cPode, pode tudo\u201d, ilimitadamente. \u201cO plural coletivo da afirma\u00e7\u00e3o <em>Yes, we can<\/em> expressa precisamente o car\u00e1ter de positividade da sociedade de desempenho\u201d (p. 24).<\/p>\n<p>O sujeito do desempenho da modernidade tardia n\u00e3o se submete a nenhuma ordem compuls\u00f3ria. Suas m\u00e1ximas s\u00e3o a liberdade e a boa vontade. Contrariamente \u00e0 proscri\u00e7\u00e3o de gozo &#8211; presente na \u00e9tica protestante do trabalho, da acumula\u00e7\u00e3o de capital e da ren\u00fancia aos prazeres, sem a qual n\u00e3o se teria desenvolvido o capitalismo (Max Weber), e que tem muito a ver com o superego freudiano repressor das puls\u00f5es<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a> &#8211; o sujeito do desempenho espera do trabalho, acima de tudo, o prazer. O paradoxo \u00e9 que surgem coa\u00e7\u00f5es internas e se apresenta uma crise provocada pela falta de gratifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sociedade disciplinar, h\u00e1 um Deus, os correligion\u00e1rios, um outro exterior ou interior que gratificava, que premia finalmente a meta realizada com a bem-aventuran\u00e7a. Podia estar no al\u00e9m, mas estava. \u201cO sujeito moral que aceita tamb\u00e9m a dor e o sofrimento por causa da moralidade est\u00e1 seguro de receber a gratifica\u00e7\u00e3o. Ele mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com o outro como inst\u00e2ncia de gratifica\u00e7\u00e3o. Aqui n\u00e3o h\u00e1 crise de gratifica\u00e7\u00e3o porque Deus n\u00e3o engana, nele se pode confiar\u201d (p. 83).<\/p>\n<p>O <em>sujeito empresarial<\/em> apresenta uma crise no campo da satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem a gratifica\u00e7\u00e3o de chegar a uma meta. Vive constantemente num sentimento de car\u00eancia, de insufici\u00eancia e de culpa. Tentando sempre superar a si mesmo, acaba esgotando-se, entra em colapso ps\u00edquico, o<em> burnout<\/em>. A <em>s\u00edndrome de burnout<\/em> (SB) \u00e9 uma das figuras psicopatol\u00f3gicas paradigm\u00e1ticas da sociedade de desempenho. Para Byung-Chul Han, junto da depress\u00e3o, do transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperatividade (TDAH) e do transtorno de personalidade lim\u00edtrofe (TPL), determina parte da paisagem patol\u00f3gica de come\u00e7o de s\u00e9culo XXI (p. 7).<\/p>\n<p>Seguindo Richard Sennet, ele afirma que essa crise \u00e9 o resultado do narcisismo e da falta de rela\u00e7\u00e3o com o outro. Mergulhar em si mesmo n\u00e3o traz gratifica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 dor e sofrimento.<\/p>\n<p>O narcisista n\u00e3o \u00e9 afeito \u00e0 experi\u00eancia, ele quer vivenciar. No encontro com o outro se vivencia a si mesmo, bebe-se no si mesmo. Na experi\u00eancia, ao contr\u00e1rio, encontramos o outro. Esses encontros s\u00e3o transformadores, nos modificam. De nossa parte, temos afirmado que a psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica que est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica do consumo, na medida em que promove uma experi\u00eancia em que os protagonistas entram dispostos a modificar-se reciprocamente. \u00c9 claro que poder\u00e3o existir percursos anal\u00edticos p\u00edfios marcados por modos consumistas de encar\u00e1-los.<\/p>\n<p>Quando compara a depress\u00e3o com a histeria, B.-C. Han diz que esta \u00faltima \u00e9 uma doen\u00e7a t\u00edpica da sociedade disciplinar. Pressup\u00f5e a negatividade da repress\u00e3o, que leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do inconsciente. As representa\u00e7\u00f5es recalcadas se manifestam atrav\u00e9s da convers\u00e3o do afeto em sintomas corporais, mas numa conforma\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica que os diferencia das somatiza\u00e7\u00f5es. A histeria mostra uma morfologia caracter\u00edstica. A pessoa depressiva, em contraposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem forma, \u00e9 amorfa&#8230; Essa falta de forma, essa excessiva flexibilidade favorece uma efici\u00eancia econ\u00f4mica elevada.<\/p>\n<p>Nas doen\u00e7as ps\u00edquicas de hoje n\u00e3o se veria a marca da repress\u00e3o, da negatividade. Elas remetem a um excesso de positividade. Tampouco se detecta nas depress\u00f5es a rela\u00e7\u00e3o ambivalente com um outro que se perdeu \u2013negatividade da perda- e foi incorporado, causando a rela\u00e7\u00e3o agressiva e destrutiva consigo mesmo, tal como reconhecido por Freud na melancolia. A causa da depress\u00e3o \u00e9 a autorrela\u00e7\u00e3o sobre-exaltada narcisista, que acaba adotando tra\u00e7os depressivos. O <em>eu<\/em> se desgasta, correndo numa roda de <em>hamster<\/em> que gira cada vez mais r\u00e1pida ao redor de si mesma.<\/p>\n<p>O sujeito do desempenho p\u00f3s-moderno, que disp\u00f5e de uma quantidade exagerada de op\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 capaz de estabelecer rela\u00e7\u00f5es intensas. O luto distingue-se da depress\u00e3o sobretudo por sua forte liga\u00e7\u00e3o libidinosa com um objeto. \u201cO ego p\u00f3s-moderno emprega grande parte de sua energia de libido para si mesmo. O restante da libido \u00e9 distribu\u00eddo em contatos sempre crescentes, em n\u00famero, e rela\u00e7\u00f5es superficiais e passageiras. Em virtude de um fraco elo de liga\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito f\u00e1cil retirar a libido de um objeto, e com isso, direcion\u00e1-la rumo \u00e0 posse de novos objetos. O \u2018trabalho de enlutamento\u2019, demorado e dolorido, acabou-se tornando desnecess\u00e1rio. A \u2018alegria\u2019 que se encontra nas redes sociais de relacionamento tem sobretudo a fun\u00e7\u00e3o de elevar o sentimento pr\u00f3prio narc\u00edsico. Ela forma uma massa de aplausos que d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o ao ego exposto ao modo de uma mercadoria\u201d (p. 93).<\/p>\n<p>H\u00e1 uma viol\u00eancia sistem\u00e1tica que habita no seio da sociedade de desempenho, pr\u00f3pria das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o neoliberal, se radica no elemento psicol\u00f3gico e transformou o sujeito ilusoriamente livre e soberano, empreendedor de si mesmo, em escravo de si mesmo, escravid\u00e3o manifesta, como j\u00e1 vimos, nas enfermidades ps\u00edquicas do sujeito do desempenho.<\/p>\n<p>O homem soberano, anunciado por Nietzsche, e que \u00e9 uma refer\u00eancia para pensar o sujeito p\u00f3s-moderno, aparece no depressivo como uma pessoa esgotada por sua soberania. J\u00e1 n\u00e3o tem mais for\u00e7a de ser \u201csenhor de si mesmo\u201d. Da\u00ed o t\u00edtulo do livro, <em>Sociedade do cansa\u00e7o<\/em>. N\u00e3o \u00e9 o super-homem, senhor de um tempo livre, que conserva o repouso e se movimenta lentamente; ao homem da \u00e9poca falta gravidade, n\u00e3o h\u00e1 o bastante dentro de si, isso o torna doente. Mas as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas requerem esse homem leve e flex\u00edvel&#8230; A sociedade disciplinar industrial dependia de uma identidade firme e imut\u00e1vel, a sociedade de desempenho n\u00e3o industrial precisa de uma pessoa flex\u00edvel para poder aumentar a produ\u00e7\u00e3o. O<em> burnout<\/em> \u00e9 a consequ\u00eancia patol\u00f3gica de uma autoexplora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNa transi\u00e7\u00e3o da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho, o superego acaba se positivando no eu-ideal\u201d (p. 100). O supereu \u00e9 repressivo, pronuncia proibi\u00e7\u00f5es; contrariamente, o eu-ideal \u00e9 sedutor. O sujeito de desempenho projeta a si mesmo na linha do eu-ideal, o sujeito da disciplina se submete ao supereu. No lugar da viol\u00eancia gerada por um fator externo, entra a viol\u00eancia autogerada, que \u00e9 mais fatal, porque a v\u00edtima imagina ser algu\u00e9m livre.<\/p>\n<p>Observamos um paradoxo no percurso da reflex\u00e3o te\u00f3rico-filos\u00f3fica de Byung-Chul Han. Ele afirma, enfaticamente, que a concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica do psiquismo e seus conceitos maiores &#8211; o recalque e o inconsciente -, determinando um espa\u00e7o ps\u00edquico dividido por fronteiras, censuras, etc., segue a l\u00f3gica pr\u00f3pria da sociedade repressiva, do que Foucault definiu como sociedade disciplinar, sujeita ao imperativo da proibi\u00e7\u00e3o, dos <em>n\u00e3o pode<\/em>. Responderiam, portanto, a uma dial\u00e9tica da negatividade. A metapsicologia freudiana serviria para explicar a histeria e a neurose obsessiva, doen\u00e7as pr\u00f3prias da sociedade disciplinar, mas n\u00e3o as doen\u00e7as que se produzem na sociedade do desempenho e que s\u00e3o paradigm\u00e1ticas da mesma. Estas s\u00e3o efeito da positividade, ou melhor, do <em>excesso de positividade<\/em>, o que parece requerer, do autor, o recurso a refer\u00eancias ou met\u00e1foras outras: por se tratarem de \u201cpatologias\u201d do DSM, as que utiliza mais frequentemente s\u00e3o tomadas das concep\u00e7\u00f5es e vocabul\u00e1rio m\u00e9dico ou biol\u00f3gico: enfermidade neural <em>versus<\/em> enfermidade de imunidade, superaquecimento neural, infarto ps\u00edquico ou gordura dos sistemas (remetendo-se a Baudrillard).<\/p>\n<p>Mas, para descrever e aprofundar-se nas depress\u00f5es contempor\u00e2neas, o autor se serve amplamente das compara\u00e7\u00f5es com a melancolia, tal como compreendida por Freud, e com o luto. Tamb\u00e9m lan\u00e7a m\u00e3o, de forma teoricamente eficaz, dos conceitos de narcisismo, investimento objetal, supereu, eu ideal, etc. Penso que a reflex\u00e3o sobre a negatividade e a positividade \u00e9 muito interessante e frut\u00edfera. E me leva a conect\u00e1-lo com um dos trabalhos mais importantes de um dos autores p\u00f3s freudianos que nos servem de base para a abordagem das patologias contempor\u00e2neas, Andr\u00e9 Green, que se intitula, precisamente, <em>O trabalho do negativo<\/em>. Mas mesmo em rela\u00e7\u00e3o a Freud, a bagagem metapsicol\u00f3gica freudiana a que recorre, ao menos em <em>Sociedade do cansa\u00e7o<\/em>, n\u00e3o parece passar de <em>O Ego e o Id<\/em>, de 1923. Nada de <em>A (de)nega\u00e7\u00e3o<\/em> [(<em>Die Verneinung<\/em>), 1925] nem dos conceitos psicopatol\u00f3gicos desenvolvidos em 1926 em <em>Neurose e psicose<\/em>, onde entram em cena as neuroses narc\u00edsicas, as altera\u00e7\u00f5es do eu, a cis\u00e3o e a recusa. \u00c9 por a\u00ed, justamente, que, no curso, tentamos avan\u00e7ar, incluindo os trabalhos de Green, de Winnicott, de Lacan.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel debater, por exemplo, as quest\u00f5es colocadas por Byung-Chul Han a respeito do supereu, eu ideal, etc. partindo das contribui\u00e7\u00f5es de Lacan, consideradas por Vladimir Safatle em \u201cPor uma cr\u00edtica da economia libidinal\u201d (2008). Postula-se &#8211; tamb\u00e9m nesse trabalho &#8211; que existiram consequ\u00eancias ps\u00edquicas da passagem da sociedade de produ\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade de consumo. \u201cJacques Lacan identificou talvez a maior delas ao insistir que a figura social dominante do supereu na contemporaneidade n\u00e3o estava mais vinculada \u00e0 repress\u00e3o das mo\u00e7\u00f5es pulsionais, mas \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o da assun\u00e7\u00e3o dos fantasmas. N\u00e3o mais a repress\u00e3o ao gozo, mas <em>o gozo como imperativo<\/em>. Da\u00ed porque ele nos lembra que o verdadeiro imperativo do supereu na contemporaneidade \u00e9: \u201cGoza!\u201d, ou seja, o gozo transformado em uma obriga\u00e7\u00e3o\u201d (nota V, p. 21). O decl\u00ednio da imago paterna, postulado por Lacan paralelamente aos trabalhos da escola de Frankfurt sobre a absor\u00e7\u00e3o, por parte de corpora\u00e7\u00f5es sociais burocr\u00e1ticas, de fun\u00e7\u00f5es que anteriormente haviam sido do pai na fam\u00edlia, enfraquecendo sua autoridade, \u201cdeu espa\u00e7o para o advento de figuras fantasm\u00e1ticas de autoridade que se assemelhavam ao pai primevo do mito freudiano de <em>Totem e tabu; <\/em>ou seja, ao <em>pai-senhor do gozo <\/em>que pauta suas a\u00e7\u00f5es pela procura incessante da satisfa\u00e7\u00e3o imediata. Figura perversa, feroz e obscena, como dizia Lacan, que pouco tem a ver com a figura tradicional de um pai que converge imperativos de repress\u00e3o e de sublima\u00e7\u00e3o\u201d (p. 22).<\/p>\n<p>As reflex\u00f5es desses autores servem para validar o percurso escolhido em nosso programa, n\u00e3o s\u00f3 como programa\u00e7\u00e3o do curso, mas no sentido de projeto te\u00f3rico-cr\u00edtico. Este parte do reconhecimento da complexidade do aparelho ps\u00edquico concebido por Freud, sujeito a diferentes regimes de funcionamento, capaz de produzir diversos \u201ctrabalhos\u201d: trabalhos do sonho, do luto, da perlabora\u00e7\u00e3o, trabalho do negativo, trabalho de cultura.<\/p>\n<p>Transportando-nos agora para um contexto pol\u00edtico mais amplo, nos aparecem algumas quest\u00f5es: Trump n\u00e3o est\u00e1 levando, acaso, uma luta ferrenha no Congresso dos EUA para poder construir um muro que separe a Am\u00e9rica, a grande Am\u00e9rica, do resto do continente? E o governo Bolsonaro n\u00e3o parece seguir a mesma linha, na mesma tessitura, na sociedade brasileira, facilitando, entre outras coisas, a pretens\u00e3o de retorno ao modelo manicomial? Sem descartar o elemento de rea\u00e7\u00e3o frente a fracassos do neoliberalismo que apontamos no trabalho anterior sobre o tema (ver Fuks, 2017), penso que os processos de direitiza\u00e7\u00e3o que atravessam o mundo trazem consigo n\u00e3o somente a modalidade autorit\u00e1ria centrada na figura do <em>homem forte<\/em><a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>, que pretendem compat\u00edvel com a democracia, mas tamb\u00e9m marcas emblem\u00e1ticas totalit\u00e1rias, visivelmente fascistizantes, que s\u00e3o res\u00edduo de outros tempos, mas res\u00edduo ativo. Buscam instaurar uma topologia de muros, fronteiras e terrores, materiais e imagin\u00e1rias. O <em>homem forte<\/em> faz parte do la\u00e7o institu\u00eddo nas sociedades totalit\u00e1rias. Foi estudado por Freud em <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu<\/em> (1921) e por W. Reich em <em>Psicologia de massas do fascismo<\/em> (1933).<\/p>\n<p>A cultura narc\u00edsica da viol\u00eancia &#8211; tematizada por Jurandir Freire Costa em \u201cNarcisismo em tempos sombrios\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a> &#8211; nutrida pela deteriora\u00e7\u00e3o social e pelo descr\u00e9dito na justi\u00e7a e a lei, apresenta como sa\u00edda \u201c&#8230; a frui\u00e7\u00e3o imediata do presente, a submiss\u00e3o ao <em>status quo<\/em> e a oposi\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e met\u00f3dica a qualquer projeto de mudan\u00e7a que implique em coopera\u00e7\u00e3o social e a negocia\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta de interesses particulares.\u201d (p. 167). Ou seja, oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vig\u00eancia de um la\u00e7o solid\u00e1rio e de um funcionamento pol\u00edtico democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Pensemos em Marielle Franco: como vereadora e l\u00edder social ela significava uma mudan\u00e7a crucial na forma de fazer pol\u00edtica de defesa dos direitos humanos, aprofundando a democracia, tornando a pol\u00edtica representativa, inovadora, fortemente inclusiva e de mobiliza\u00e7\u00e3o e reconhecimento dos movimentos sociais. Por isso precisava ser eliminada, de modo a semear-se o terror nos indiv\u00edduos, coletivos e comunidades representados e identificados com ela<strong>.<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Antes ainda de ser eleito, o candidato a <em>homem forte<\/em> brasileiro j\u00e1 dirigia express\u00f5es de \u00f3dio e de n\u00e3o reconhecimento social a diversos grupos da popula\u00e7\u00e3o, express\u00f5es configuradas como verdadeiros an\u00e1temas, enunciados condenat\u00f3rios que operam como as excomunh\u00f5es e maldi\u00e7\u00f5es, privando de reconhecimento social e expondo as agress\u00f5es, ao modo do que se dirige aos <em>homini sacer<\/em>. Foi eleito e continua a se manifestar, desde a posi\u00e7\u00e3o de figura maior de poder Executivo, contrariando as exig\u00eancias m\u00ednimas de decoro que seriam pertinentes ao cargo de que est\u00e1 investido.<\/p>\n<p>Superando o medo e o des\u00e2nimo, as express\u00f5es de rep\u00fadio massivas por ocasi\u00e3o do carnaval &#8211; que mostraram toda a potencialidade pol\u00edtica cr\u00edtica da festa popular estudada por M. Bakhtin \u2013 dirigidas contra esse poder desp\u00f3tico que n\u00e3o s\u00f3 desqualifica grupos sociais inteiros, como pretende anular realiza\u00e7\u00f5es e conquistas democr\u00e1ticas, constituem, no momento, a resposta mais contundente e efetiva, a interposi\u00e7\u00e3o de um N\u00c3O coletivo, destinado a p\u00f4r um limite ao retrocesso civilizat\u00f3rio que amea\u00e7a esfacelar a cidadania e destruir a cultura.<\/p>\n<p>A tarefa comum, a solidariedade, o poder contar uns com os outros, \u00e9 a \u00fanica possibilidade que temos para enfrentar n\u00e3o s\u00f3 o desamparo frente a essas for\u00e7as regressivas, mas tamb\u00e9m frente ao poder destrutivo do supereu, que aumenta quando ficamos isolados.<\/p>\n<p>Cito um colega argentino que se ocupou muito das quest\u00f5es da contemporaneidade, ao comentar <em>O mal-estar na cultura<\/em>: \u201cO homem tem, assim, duas alternativas frente ao outro: ou se liga libidinalmente identificando-se com ele para constituir alguma forma de la\u00e7o social, abolindo o dom\u00ednio do amo (pai primevo), ou desgarrado dos membros da fratria, fica entregue ao poder absoluto desse outro interior que \u00e9 o supereu\u201d<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>A qualidade da uni\u00e3o amorosa entre os &#8220;irm\u00e3os&#8221;, o fluir dos reconhecimentos, o tipo de identifica\u00e7\u00f5es que estabele\u00e7am, o modo de processar as tens\u00f5es intra grupo e as formas de agir sobre a realidade exterior ser\u00e3o determinantes para seu destino ou sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Psicopatologia psicanal\u00edtica, constru\u00e7\u00e3o de subjetividade e neoliberalismo<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Mario Pablo Fuks<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>A produ\u00e7\u00e3o de novas enfermidades da alma no Estado de mal-estar social.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Faz parte do caminho seguido pela psican\u00e1lise n\u00e3o s\u00f3 a expans\u00e3o das fronteiras cl\u00ednicas, mas o perguntar-se reiteradamente sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o ps\u00edquico e o social ou, mais precisamente, o sociocultural. Freud nunca deixou de considerar os determinismos sociais, as marcas que deixam no psiquismo as diversas \u00e9pocas hist\u00f3ricas. Freud n\u00e3o esteve nisto sozinho. Teve apoios e teve aliados. Apoiou-se nos cientistas de sua \u00e9poca, nos poetas e nos escritores. Juntou-se a fil\u00f3sofos e humoristas, figurando-os como um grupo de \u201ccompanheiros de descren\u00e7a\u201d no qual se inclu\u00eda, dando assim sustenta\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e simb\u00f3lica aos seus ensaios referidos \u00e0s origens, \u00e0 hist\u00f3ria da cultura e ao papel da religi\u00e3o<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>Falar de muitos dos quadros que se fazem presentes hoje na cl\u00ednica como <em>patologias da contemporaneidade<\/em> implica valorizar, em um recorte particular, suas conex\u00f5es com o esp\u00edrito e a configura\u00e7\u00e3o social da \u00e9poca. Conex\u00f5es que explicam uma historicidade das forma\u00e7\u00f5es psicopatol\u00f3gicas, o que n\u00e3o invalida o reconhecimento de aspectos invariantes, se bem que sujeitos a discuss\u00e3o, balan\u00e7o e reavalia\u00e7\u00e3o por parte dos psicanalistas. \u201cNos lapsos, nos sonhos, nos sintomas de nossos pacientes revela-se a efic\u00e1cia do inconsciente fazendo parte de uma divis\u00e3o, de uma <em>spaltung<\/em> subjetiva, que subsiste al\u00e9m do c\u00e2mbio hist\u00f3rico. Por\u00e9m os modos em que se manifestam os sofrimentos ps\u00edquicos n\u00e3o s\u00e3o alheios aos c\u00f3digos culturais. O sintoma \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o de compromisso, mas tamb\u00e9m \u00e9 um apelo ao outro e este apelo se formula dentro dos c\u00f3digos compartilhados.\u201d<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p>Mas retomo nossa pergunta: certo tipo de quadros que vemos hoje na cl\u00ednica expressam <em>novos modos de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade<\/em> ou apenas vicissitudes de formas conhecidas de subjetiva\u00e7\u00e3o, novas roupagens para problem\u00e1ticas j\u00e1 estudadas pela psican\u00e1lise? E antes disso, como apropriarmo-nos do conceito de subjetividade e de modo de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade? Na exposi\u00e7\u00e3o &#8211; em boa medida esquem\u00e1tica &#8211; que me proponho a fazer, tomo ideias de um livro chamado <em>O desmantelamento da subjetividade<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\"><strong>[18]<\/strong><\/a>, <\/em>escrito por uma psicanalista argentina, Silvia Bleichmar, e de outro, escrito por um fil\u00f3sofo e um soci\u00f3logo franceses, Pierre Dardot e Fran\u00e7ois Laval, chamado <em>Uma nova raz\u00e3o do mundo \u2013 Ensaio sobre a sociedade neoliberal<\/em>, publicado pela Boitempo em 2016.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Subjetividade e produ\u00e7\u00e3o de subjetividade<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Subjetividade e produ\u00e7\u00e3o de subjetividade s\u00e3o conceitos inicialmente sociol\u00f3gicos. Produ\u00e7\u00e3o de subjetividade diz do modo em que as sociedades constituem sujeitos plaus\u00edveis de integrar-se em sistemas que lhes outorgam lugar. Segundo Silvia Bleichmar, trata-se da produ\u00e7\u00e3o instituinte, no sentido de Castoriadis, de um sujeito hist\u00f3rico, socialmente pertinente e necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ela esclarece que, quando se fala de subjetividade, em geral h\u00e1 diversos eixos que devemos considerar. Em primeiro lugar, aqueles que abarcam aspectos que podemos chamar de universais, pr\u00f3prios do sujeito ps\u00edquico: os enigmas das origens, a ang\u00fastia de perda de amor e da perda de reconhecimento, o impulso \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, a ang\u00fastia de desamparo ou de <em>Hilflosigkeit<\/em>, de falta de aux\u00edlio por parte do outro.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o que pode ser chamado de subjetividade em sentido estrito:\u00a0 o posicionamento do sujeito de cogita\u00e7\u00e3o (do sujeito pensante do <em>cogito ergo sum<\/em>), que implica em um pensamento reflexivo, em como o sujeito se posiciona diante de si mesmo e diante dos outros. Desde a psican\u00e1lise \u2013 diz Bleichmar \u2013 sabemos que este sujeito \u00e9 atravessado pelo inconsciente, mas est\u00e1 articulado por uma l\u00f3gica que permite a consci\u00eancia de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Ela enfatiza que, em cada per\u00edodo hist\u00f3rico, esta rela\u00e7\u00e3o entre o inconsciente e o <em>eu<\/em> est\u00e1 sujeita a mudan\u00e7as. O <em>eu<\/em> se constitui a partir de uma matriz imagin\u00e1ria, mas tem uma dimens\u00e3o institu\u00edda pela cultura pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental, neste recorte, a \u00eanfase colocada no sentido de que o conceito de <em>subjetividade<\/em> n\u00e3o recobre totalmente o conceito de psiquismo, de aparelho ps\u00edquico.\u00a0 Este tem a ver com o conceito de inconsciente, com o para-subjetivo, o n\u00e3o reflexivo, o que \u00e9 materialidade ps\u00edquica <em>stricto sensu<\/em>. A subjetividade implica categorias ordenadoras de tempo e espa\u00e7o, que n\u00e3o se encontram no inconsciente. A produ\u00e7\u00e3o de subjetividade \u00e9 o lugar onde se articulam os enunciados sociais relativos ao <em>eu<\/em>. O aparelho ps\u00edquico implica certas regras que excedem a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade, por exemplo, o recalque.<\/p>\n<p>Sabemos que o reconhecimento da exist\u00eancia de regi\u00f5es inconscientes do psiquismo envolve resist\u00eancias narc\u00edsicas contra algo que Freud definiu, em \u201cUma dificuldade no caminho da psican\u00e1lise\u201d de 1915, como uma <em>afronta psicol\u00f3gica<\/em> ao narcisismo do homem, significada pelo descobrimento do inconsciente. A consci\u00eancia, t\u00e3o valorizada pelo homem moderno, n\u00e3o recobre a totalidade de sua vida an\u00edmica \u2013 nem se encontra no centro da mesma, nem domina seu funcionamento. O homem n\u00e3o \u00e9 <em>senhor<\/em> em sua pr\u00f3pria casa, ignora muito do que acontece dentro dela.<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se trata somente de narcisismo, e sim de rela\u00e7\u00f5es de poder que tendem a produzir certo tipo de subjetividade e a naturaliz\u00e1-la.<\/p>\n<p>O que se chama de <em>produ\u00e7\u00e3o de subjetividade<\/em> \u00e9 de ordem pol\u00edtica e hist\u00f3rica. Tem a ver com o modo em que cada sociedade define aqueles crit\u00e9rios que possibilitam construir sujeitos capazes de se integrarem \u00e0 sua cultura de pertin\u00eancia. H\u00e1 um projeto de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade em cada sociedade.<\/p>\n<p>Passo agora para as ideias de Laval e Dardot, no <em>Ensaio sobre a sociedade neoliberal<\/em><em>,<\/em> centrando no cap\u00edtulo 9, \u201cA f\u00e1brica do sujeito neoliberal\u201d, mais precisamente no ponto em que se refere ao <em>sujeito plural<\/em> e a <em>separa\u00e7\u00e3o das esferas<\/em>.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da modernidade e durante muito tempo, o sujeito ocidental moderno era um sujeito plural, dado que pertencia a regimes normativos e pol\u00edticos heterog\u00eaneos: a <em>esfera dos costumes e da religi\u00e3o<\/em>, a <em>esfera da soberania pol\u00edtica<\/em> e a <em>esfera mercantil das trocas<\/em>. Esta foi sempre uma divis\u00e3o movedi\u00e7a e implicava em um desafio para as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e as estrat\u00e9gias pol\u00edticas quanto a como estabelecer as fronteiras. Contudo, dentro de certos limites, respeitava o funcionamento heterog\u00eaneo do sujeito, assegurando a separa\u00e7\u00e3o e a articula\u00e7\u00e3o das diferentes esferas da vida. Eu acho que isto pode ter aspectos que se ligam, tamb\u00e9m, com a divis\u00e3o do trabalho e com a separa\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e privado.<\/p>\n<p>Estas sociedades que nasciam na modernidade foram atravessadas e tensionadas por dois movimentos paralelos e de alguma maneira disjuntivos: a <em>democracia pol\u00edtica<\/em> e o <em>capitalismo.<\/em> O homem moderno precisou dividir-se em dois: <em>o cidad\u00e3o<\/em>, dotado de direitos inalien\u00e1veis e <em>o homem econ\u00f4mico<\/em><em>,<\/em> guiado por seus interesses; ou seja, como dizem Laval e Dardot, o homem como \u201cfim\u201d e o homem como \u201cinstrumento\u201d. E eles dizem, com raz\u00e3o, que a hist\u00f3ria dessa modernidade consagrou um desequil\u00edbrio a favor do segundo p\u00f3lo: o desenvolvimento de uma l\u00f3gica de rela\u00e7\u00f5es humanas submetida \u00e0 regra do lucro m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Desde o ponto de vista da cria\u00e7\u00e3o instituinte de subjetividade, a grande obra da sociedade industrial foi a <em>fabrica\u00e7\u00e3o do sujeito produtivo<\/em>, capaz de inserir-se no grande circuito da produ\u00e7\u00e3o e do consumo; esta foi levada a cabo atrav\u00e9s de um conjunto de pr\u00e1ticas de treinamento e vigil\u00e2ncia de corpos e mentes que come\u00e7ou pela inven\u00e7\u00e3o dos <em>contratos.<\/em> Foucault o denominou de <em>dispositivo de efic\u00e1cia<\/em>. Este dispositivo permitia, entretanto, a exist\u00eancia do sujeito plural<em>, sujeito assujeitado a diversos discursos: religioso, pol\u00edtico, econ\u00f4mico, moral.<\/em><\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX surgem certas misturas, certas hibrida\u00e7\u00f5es muito importantes. Nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas come\u00e7am a ser inclu\u00eddas <em>considera\u00e7\u00f5es<\/em> \u201csociais\u201d, <em>direitos<\/em> sociais e <em>pol\u00edticas <\/em>sociais que passam a limitar &#8211; e a contrariar seriamente &#8211; a concep\u00e7\u00e3o estritamente contratualista das trocas sociais. Ou seja, a norma da <em>efic\u00e1cia econ\u00f4mica<\/em> passa a ser limitada e contida por <em>discursos sociais<\/em> heterog\u00eaneos a ela. O momento de auge desta configura\u00e7\u00e3o ser\u00e1 o <em>Estado de Bem-Estar Social<\/em> instaurado pela pol\u00edtica <em>keynesiana<\/em> do Presidente Roosevelt, ap\u00f3s a Grande Depress\u00e3o dos anos 30. Podemos acrescentar que, segundo alguns historiadores, desde fins do s\u00e9culo XIX surgiram, no continente europeu, posi\u00e7\u00f5es de economistas conservadores e liberais com a finalidade de funcionar como uma alternativa contraposta aos <em>ideais socialistas<\/em> que cresciam entre os trabalhadores promovendo sua uni\u00e3o e fortalecimento, e que acabaram aportando fundamentos para o Estado de Bem-Estar Social.<\/p>\n<p>J\u00e1 avan\u00e7ado o s\u00e9culo XX, e como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 crise dos anos 70, uma nova orienta\u00e7\u00e3o tomou corpo em dispositivos e mecanismos econ\u00f4micos que mudaram as \u201cregras do jogo\u201d entre os diferentes capitalismos nacionais, as diferentes classes sociais e o interior de cada uma delas. Os programas de M. Thatcher, na Inglaterra, e de R. Reagan, nos Estados Unidos, protagonistas centrais da <em>grande virada<\/em>, foram apresentados como resposta a uma situa\u00e7\u00e3o \u201cimposs\u00edvel de gerir\u201d desde o ponto vista econ\u00f4mico, dada a diminui\u00e7\u00e3o da margem de lucro, o desemprego, a estagfla\u00e7\u00e3o. Este resultado foi atribu\u00eddo ao mau governo da economia &#8211; o chamado <em>pacto social-democrata<\/em><strong>,<\/strong> que procurava estabelecer um manejo equilibrado entre os ganhos de produtividade, pre\u00e7os e sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>As mais ressonantes medidas adotadas foram a privatiza\u00e7\u00e3o das empresas p\u00fablicas e a desregulamenta\u00e7\u00e3o da economia que deu liberdade de a\u00e7\u00e3o para os atores privados. Instaurou-se a <em>concorr\u00eancia geral<\/em> como norma suprema universal de governo. Criou-se um sistema disciplinar mundial, expresso no Consenso de Washington, que estabelece regras de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o que os estados que querem conseguir empr\u00e9stimos e aux\u00edlios das financeiras internacionais\u00a0 \u2013 vejam s\u00f3 quais: comprimir sal\u00e1rios, reduzir gastos p\u00fablicos, tirar direitos adquiridos de prote\u00e7\u00e3o social, enfraquecer mecanismos de solidariedade que escapam \u00e0 l\u00f3gica assistencial privada, condi\u00e7\u00f5es fiscais e sociais mais favor\u00e1veis para atrair investimentos e valorizar o capital.<\/p>\n<p>Retomando a an\u00e1lise iniciada em torno do sujeito plural e da separa\u00e7\u00e3o das esferas nos come\u00e7os da modernidade e da industrializa\u00e7\u00e3o, o momento neoliberal aponta para uma <em>homogeneiza\u00e7\u00e3o do discurso do homem tendo como eixo exclusivo a economia<\/em>, girando em torno da figura da <em>empresa<\/em>. \u201cIsto foi obra, em grande parte, de t\u00e9cnicas e dispositivos de disciplina, ou seja, de sistemas de coa\u00e7\u00e3o, tanto econ\u00f4micos, sociais e administrativos, cuja fun\u00e7\u00e3o era obrigar aos indiv\u00edduos a governarem a si mesmos sob a press\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o, segundo os princ\u00edpios do c\u00e1lculo maximizador e uma l\u00f3gica de valoriza\u00e7\u00e3o do capital\u201d<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[20]<\/a>.<\/p>\n<p>A ideia de construir uma subjetividade neoliberal era clara e expl\u00edcita. H\u00e1 uma frase famosa de Margareth Thatcher em um discurso pr\u00e9-eleitoral: \u201cA economia \u00e9 o m\u00e9todo, mas o objetivo \u00e9 a alma\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a ser fabricado um novo sujeito, n\u00e3o mais plural, mas unit\u00e1rio, que pode ser chamado de <em>sujeito empresarial, empres\u00e1rio de si mesmo, sujeito neoliberal<\/em> ou <em>neo sujeito<\/em>. Trata-se de produzir e governar um ser cuja subjetividade deve estar inteiramente envolvida na atividade que ele cumpra. A motiva\u00e7\u00e3o, a vontade de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, o projeto que o sujeito se prop\u00f5e desenvolver, \u201cenfim o <em>desejo<\/em>, com todos os nomes que se queira dar a ele, \u00e9 o alvo do novo poder.\u201d (<em>idem<\/em>, p. 327). \u00c9 poss\u00edvel delimitar a exist\u00eancia de um novo dispositivo, o chamado <em>dispositivo de desempenho-gozo<\/em>, cujo objetivo \u00e9 produzir <em>o m\u00e1ximo rendimento unido ao m\u00e1ximo gozo<\/em>.<\/p>\n<p>Tanto desejo como gozo s\u00e3o conceitos que os autores do ensaio tomam da psican\u00e1lise. O conceito de gozo tem seu ponto de partida em Freud, mas \u00e9 amplamente reelaborado por Lacan, sendo reconhecido como uma contribui\u00e7\u00e3o importante pela maior parte dos psicanalistas.<\/p>\n<p>Este neo sujeito deve funcionar em regime de gozo de si, a partir de um mandato internalizado de <em>ser ele mesmo<\/em>. Trata-se de uma aspira\u00e7\u00e3o m\u00edtica a uma plenitude imposs\u00edvel, que a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o empresarial &#8211; como todas as institui\u00e7\u00f5es &#8211; se ocupa de limitar, mas mantendo nesse caso uma denega\u00e7\u00e3o (<em>sic<\/em>)<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[21]<\/a> que facilita a constitui\u00e7\u00e3o de uma cren\u00e7a onipotente. As conquistas alcan\u00e7adas por este empres\u00e1rio de si mesmo s\u00e3o apresentadas como uma decis\u00e3o individual que n\u00e3o deve nada a ningu\u00e9m. Ao sujeito lhe \u00e9 exigido que as leve em frente, mas enquanto empresa de si mesmo, arcando com os riscos e as responsabilidades (pergunto-me quanto deste protagonismo heroico e desafiador n\u00e3o camufla e recusa o medo e a culpa causados pela inseguran\u00e7a no emprego e a amea\u00e7a de exclus\u00e3o social a que o sistema submete todos os trabalhadores, como um dos fatores mais violentos e eficazes de sujei\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Tendo-se convertido em um ser pleno e total, o <em>eu<\/em> se funde com o desejo e se funde com seu <em>l\u00f3cus<\/em> de pertin\u00eancia que \u00e9 a empresa. Assume total responsabilidade pelo que faz e pelo que promete, se define como <em>accountable<\/em><em>,<\/em> com algu\u00e9m que se obriga a prestar contas e autoavaliar-se. Sua vida pessoal consiste em aquisi\u00e7\u00f5es que permanentemente o tornam melhor, enriquecem seu potencial, seu capital humano.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria empresa, em si mesma, \u00e9 capturada por l\u00f3gicas de expans\u00e3o infinita, por exemplo atrav\u00e9s de uma valoriza\u00e7\u00e3o infinita na Bolsa. O gozo de si ilimitado fica aliado ao ilimitado da acumula\u00e7\u00e3o mercantil.<\/p>\n<p>O sentimento de si \u00e9 dado no excesso, na rapidez, no ir sempre para al\u00e9m do limite, na sensa\u00e7\u00e3o bruta de agita\u00e7\u00e3o que atropela o funcionamento ps\u00edquico elaborativo.<\/p>\n<p>A patologia que disso resulta, em sua vertente frequentemente man\u00edaca, adictiva e perversa, n\u00e3o \u00e9 disfuncional. Integra-se ao sistema, eu acho, como se integravam as neuroses e as caracteropatias obsessivas ao contexto do sujeito produtivo da era industrial. At\u00e9 que, por esgotamento depressivo, adictivo ou por colapso narc\u00edsico, aparecem os sintomas e transtornos que chamamos, desde que Julia Kristeva assim os batizou, de <em>novas enfermidades da alma<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neoliberalismo e democracia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um trabalho de 1973, \u201cA crise de democracia\u201d, produzido pela Comiss\u00e3o Tricontinental convocada por David Rockfeller, falava-se de uma ingovernabilidade das democracias ocidentais devida a um excessivo envolvimento dos governados na vida pol\u00edtica e social. Queixavam-se de um excesso de democracia surgida nos anos 60, de um aumento de reivindica\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias e de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ativa dos mais pobres e marginalizados. Conclu\u00eda: \u201cH\u00e1 um limite desej\u00e1vel para a amplia\u00e7\u00e3o indefinida da democracia pol\u00edtica.<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[22]<\/a>Precisava-se de bons governos, n\u00e3o necessariamente democr\u00e1ticos; o ditador chileno Pinochet foi ungido por Margareth Thatcher como o pioneiro latino-americano da transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica neoliberal.<\/p>\n<p>O Estado, visto como instrumento encarregado de reformar e administrar a sociedade para coloc\u00e1-la \u00e0 servi\u00e7o das empresas, deve ele mesmo curvar-se \u00e0s regras de efic\u00e1cia das empresas privadas. Essa muta\u00e7\u00e3o empresarial n\u00e3o visa apenas a aumentar a efic\u00e1cia e a reduzir os custos da a\u00e7\u00e3o p\u00fablica; ela subverte radicalmente os fundamentos modernos da democracia, isto \u00e9, o reconhecimento dos direitos sociais ligados ao <em>status<\/em> de cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje em dia, concluem os autores, com a universaliza\u00e7\u00e3o da norma de concorr\u00eancia para os agentes econ\u00f4micos, o mercado, o Estado, as empresas e o indiv\u00edduos convertidos em sujeitos empres\u00e1rios de si mesmos, realiza-se uma extens\u00e3o da racionalidade mercantil a todas as esferas da exist\u00eancia humana, fazendo da raz\u00e3o neoliberal uma raz\u00e3o-mundo. Esta extens\u00e3o, que faz desaparecer a separa\u00e7\u00e3o entre esfera privada e esfera p\u00fablica, corr\u00f3i os fundamentos da democracia liberal, levando-a ao esgotamento como norma pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Toda reflex\u00e3o sobre administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica tende a passar pelo discurso t\u00e9cnico \u2013 o que a m\u00eddia incrementa entre n\u00f3s <em>ad nauseam<\/em> &#8211; seja nos argumentos para sustentar o <em>impeachment<\/em>, a PEC do gasto p\u00fablico, a reforma da previd\u00eancia social, a reforma trabalhista, em detrimento de toda considera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social. As categorias da gest\u00e3o substituem os princ\u00edpios simb\u00f3licos comuns que foram os fundamentos da cidadania, e que ficaram expressos no Brasil na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, denominada <em>Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Piccolo finale<\/em><\/strong><strong><em> incerto<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os acontecimentos internacionais dos \u00faltimos tempos, o Brexit e a elei\u00e7\u00e3o de Trump \u2013 na Inglaterra e nos Estados Unidos, os mesmos pa\u00edses da grande virada de Thatcher e Reagan &#8211; mostram que algo neste mundo neoliberal globalizado est\u00e1 falhando. Espalha-se um sentimento de crise. N\u00e3o h\u00e1 no momento crescimento econ\u00f4mico, distribui\u00e7\u00e3o de riqueza, integra\u00e7\u00e3o social. O modelo de neg\u00f3cios das grandes empresas, o modelo de acumula\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o do capital se mostra nocivo para o pr\u00f3prio sistema. O arrocho salarial afeta o consumo e estrangula o mercado. Isto explica o Brexit e a elei\u00e7\u00e3o de Trump por um eleitorado que se viu estagnado ou empobrecido pelo processo de globaliza\u00e7\u00e3o e que aposta agora no nacionalismo. Enfim, como diz Vladimir Safatle numa condensa\u00e7\u00e3o criativa, o neoliberalismo tem se transformado em um <em>Estado de Mal-Estar Social<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Aula inaugural de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea, 2017. Originalmente publicado no boletim online 41, abril de 2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista. Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, onde \u00e9 professor do Curso de Psican\u00e1lise, coordenador do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea e integrante da equipe editorial do <em>boletim online<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Leia a seguir: Fuks, M. P. \u201cPsicopatologia psicanal\u00edtica, constru\u00e7\u00e3o de subjetividade e neoliberalismo\u201d, originalmente publicado no <em>boletim online n\u00ba 41<\/em>, abril 2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Fuks, M. P. \u201cPsican\u00e1lise, Sa\u00fade Mental e institui\u00e7\u00f5es: hist\u00f3ria de um projeto\u201d, in <em>A subjetividade nos grupos e institui\u00e7\u00f5es: constitui\u00e7\u00e3o, media\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a, <\/em>Cristiane Curi Abud (org). Lisboa: Chiado, 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Ver Elias, P. E. \u201cPAS: um perfil neoliberal de gest\u00e3o de sistema p\u00fablico de sa\u00fade\u201d, <em>Estud. av.<\/em>\u00a0vol.13\u00a0no.35\u00a0S\u00e3o Paulo\u00a0Jan.\/Apr.\u00a01999.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40141999000100013\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40141999000100013<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Kristeva, J. \u201cA alma e a imagem\u201d in <em>As novas doen\u00e7as da alma.<\/em> Rio de Janeiro: Rocco, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Kristeva, J. \u201cPara que servem os psicanalistas em tempo de desgra\u00e7a que se ignora?\u201d in <em>As novas doen\u00e7as da alma.<\/em> Rio de Janeiro: Rocco, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Fuks, M. P. \u201cPsicopatologia psicanal\u00edtica, constru\u00e7\u00e3o de subjetividade e neoliberalismo\u201d, <em>Boletim Online n\u00ba 41<\/em>, abril 2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Dardot, P. e Laval, F.\u00a0<em>Uma nova raz\u00e3o do mundo &#8211; Ensaio sobre a sociedade neoliberal<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016, p. 237.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Han. B.-C., <em>Sociedade do Cansa\u00e7o. <\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 2017. Ver tamb\u00e9m, do mesmo autor <em>Sociedade de Transpar\u00eancia<\/em>, Petr\u00f3polis: Vozes, 2017 e <em>Psicopol\u00edtica &#8211; O neoliberalismo e as novas t\u00e9cnicas de poder. <\/em>Belo Horizonte: Ayin\u00e9, 2018.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Ver Safatle, V. \u201cPor uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d,<em> IDE<\/em>, psican\u00e1lise e cultura, S\u00e3o Paulo, 2008, 31(46), 16-26.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Ver Baumann, Z.\u00a0 <em>Estranhos \u00e0 nossa porta<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2017, Cap\u00edtulo 3: \u201cUm espectro ronda a terra da democracia: o homem (e a mulher) forte\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Costa, J. F. \u201cNarcisismo em tempos sombrios\u201d in <em>Percursos na Hist\u00f3ria da Psican\u00e1lise, <\/em>v\u00e1rios autores,\u00a0 Rio de Janeiro: Taurus, 1988, pp. 151-174.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> Temas desenvolvidos na aula inaugural do curso em 2018.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Galende, E: \u201cViol\u00eancia, psicosis y alienaci\u00f3n \u2013 Nuestro malestar actual.\u201d In <em>Teoria y l\u00ednica de las configuraciones vinculares. <\/em>Buenos Aires: Paz Producciones, 1991.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Psicanalista. Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. Professor do Curso de Psican\u00e1lise, coordenador do curso Psicopatologia psicanal\u00edtica e cl\u00ednica contempor\u00e2nea, supervisor do Projeto A\/B e integrante da equipe editorial deste boletim online. Este artigo foi elaborado a partir da aula inaugural de 21\/03\/2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Freud, S<em>. O futuro de uma ilus\u00e3o<\/em> (1927).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Rojas, M. C. e Sternbach, S. <em>Entre dos siglos<\/em>. Buenos Aires: Lugar Editorial, 1994, p.128 (Tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> Bleichmar, S. <em>El desmantelamento de la subjetividade: estalido del Yo.<\/em> Buenos Aires: Topia, 2009.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[19]<\/a> Freud, S. (1917 [1916] \u201cUna dificultad del psicoan\u00e1lisis\u201d. <em>Obras completas<\/em>, vol. 17, Amorrortu, 1996.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[20]<\/a> Dardot e Laval<em>, op. cit<\/em>., p. 358.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[21]<\/a> Seria interessante conhecer a palavra usada no original em franc\u00eas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[22]<\/a> Dardot e Laval, op. cit.<em>, <\/em>pp. 194-195.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Destino ou hist\u00f3ria? Sobre os atos que determinam nossa escolha. Por Mario Pablo Fuks.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[126,52],"edicao":[114],"autor":[115],"class_list":["post-1706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-psicanalise-e-politica","tag-psicopatologia-psicanalitica","edicao-boletim-63","autor-mario-pablo-fuks","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1706"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1706\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2344,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1706\/revisions\/2344"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1706"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1706"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}