{"id":1708,"date":"2022-06-01T15:34:04","date_gmt":"2022-06-01T18:34:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1708"},"modified":"2022-06-06T12:21:47","modified_gmt":"2022-06-06T15:21:47","slug":"reflexoes-psicanaliticas-sobre-politicas-de-tolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/reflexoes-psicanaliticas-sobre-politicas-de-tolerancia\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es psicanal\u00edticas sobre pol\u00edticas de toler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Reflex\u00f5es psicanal\u00edticas sobre pol\u00edticas de toler\u00e2ncia<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Grupo de professores do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2<\/strong><strong>n<\/strong><strong>ea<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Tem sido frequente emergirem atitudes de intoler\u00e2ncia e radicalismo em v\u00e1rios \u00e2mbitos da nossa vida cotidiana. Notamos que estas situa\u00e7\u00f5es se passam em grupos conservadores, com atitudes racistas, xen\u00f3fobas, mas tamb\u00e9m ocorrem em grupos que se constituem em torno de uma identidade que os une, como os das feministas, os dos negros, dos homossexuais etc. S\u00e3o grupos formados para reivindicar um lugar de reconhecimento num cen\u00e1rio de exclus\u00e3o social. Temos nos perguntado sobre o que se passa nestes agrupamentos que visam combater a intoler\u00e2ncia e que, muitas vezes, a reproduzem. Que leitura podemos fazer, a partir da perspectiva psicanal\u00edtica, destes acontecimentos de intoler\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Como exemplo, em julho deste ano, durante uma reuni\u00e3o composta por uma comiss\u00e3o de professores e alunos de uma universidade p\u00fablica de S\u00e3o Paulo, houve uma discord\u00e2ncia entre um professor e uma aluna integrante de um coletivo negro. Ao sair da reuni\u00e3o, este professor \u00e9 esperado por membros deste coletivo que o hostilizam, chamando-o de racista. Eles filmaram a situa\u00e7\u00e3o e divulgaram o v\u00eddeo na rede social, onde vemos o professor pedindo a palavra v\u00e1rias vezes e sendo impedido de falar. Ap\u00f3s esta divulga\u00e7\u00e3o a faculdade redige um manifesto de solidariedade ao professor, que tamb\u00e9m circulou nas redes sociais.<\/p>\n<p>Estes grupos visam obter conquistas que se relacionam \u00e0 incrementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que assegurem um espa\u00e7o cultural de n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o; tamb\u00e9m reivindicam maior seguran\u00e7a para situa\u00e7\u00f5es de fragilidade social. H\u00e1 uma busca leg\u00edtima e necess\u00e1ria de conquistas em defesa de direitos negados pela situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o. Vladimir Safatle<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> analisa o surgimento destes grupos como uma resposta compensat\u00f3ria \u00e0 inseguran\u00e7a social e civil que vivemos, ou seja, como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 falta de direitos igualit\u00e1rios a todos os sujeitos.<\/p>\n<p>Seguindo Freud, ele analisa que estes agrupamentos, que se ligam pela via das identifica\u00e7\u00f5es no estabelecimento de la\u00e7os amorosos, inevitavelmente giram em torno da quest\u00e3o da toler\u00e2ncia\/intoler\u00e2ncia, com seus efeitos de viol\u00eancia. \u00c9 este um dos motivos que o faz pensar que a no\u00e7\u00e3o de identidade deveria ser usada por eles somente de forma estrat\u00e9gica e provis\u00f3ria.<\/p>\n<p>Retomando a leitura freudiana sobre a constitui\u00e7\u00e3o dos grupos pela via das identifica\u00e7\u00f5es, Safatle enfatiza que a consequ\u00eancia desta liga\u00e7\u00e3o pelo amor cria, necessariamente, um campo de igualdade e outro de diferen\u00e7a, estabelecendo-se a cria\u00e7\u00e3o de um <em>n\u00f3s<\/em> e um <em>eles<\/em>. Com isto, surge a constitui\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as intoler\u00e1veis que s\u00e3o localizadas fora do grupo, na cria\u00e7\u00e3o deste exterior a ser atacado: o inimigo. Ocorrem ent\u00e3o embates identit\u00e1rios numa \u201cdin\u00e2mica fr\u00e1gil de toler\u00e2ncia\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, por se tratar de forma\u00e7\u00f5es defensivas que se definem pela l\u00f3gica da oposi\u00e7\u00e3o, e, portanto, da exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Vemos ent\u00e3o que forma\u00e7\u00f5es grupais que se estabelecem em torno de v\u00ednculos amorosos seguem uma l\u00f3gica bin\u00e1ria: amor e \u00f3dio; iguais e diferentes; n\u00f3s e eles.<\/p>\n<p>Safatle tamb\u00e9m nos alerta para o risco de adotarmos uma pol\u00edtica baseada na toler\u00e2ncia, pois: \u201c\u00e9 uma pol\u00edtica que constr\u00f3i um campo de diferen\u00e7as toler\u00e1veis, o que alimenta o fantasma perp\u00e9tuo da \u2018diferen\u00e7a intoler\u00e1vel\u2019\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. A quest\u00e3o que aqui se coloca, ent\u00e3o, \u00e9 a da diferen\u00e7a que precisa ser suportada.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria identidade \u00e9 o que guia a vis\u00e3o do que \u00e9 o diferente no outro. Cria-se um estranho que se localiza fora, em oposi\u00e7\u00e3o a um mesmo, a um \u201cid\u00eantico\u201d. \u00c9 o que Freud nomeia como o <em>narcisismo das pequenas diferen\u00e7<\/em><em>a<\/em><em>s<\/em>.<\/p>\n<p>Freud utiliza a no\u00e7\u00e3o do narcisismo das pequenas diferen\u00e7as para pensar a toler\u00e2ncia\/intoler\u00e2ncia em suas formas individuais e coletivas. Concebe esta no\u00e7\u00e3o como sendo constitutiva da forma\u00e7\u00e3o do eu, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a de preservar o narcisismo da unidade em rela\u00e7\u00e3o ao estrangeiro. Portanto, \u00e9 da ordem do inerradic\u00e1vel. O narcisismo das pequenas diferen\u00e7as se manifesta como ang\u00fastia frente a uma pequena diferen\u00e7a no outro que \u00e9 vivenciada como o estrangeiro inesperado. Betty Fuks analisa que \u201cquando levado ao paroxismo, desemboca na segrega\u00e7\u00e3o e no racismo, express\u00f5es m\u00e1ximas da intoler\u00e2ncia ao outro e toler\u00e2ncia ao mesmo.\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Nesta medida, a toler\u00e2ncia \u00e9 o outro lado da moeda da intoler\u00e2ncia, motivo pelo qual Safatle entende que as pol\u00edticas baseadas na toler\u00e2ncia n\u00e3o t\u00eam a capacidade de ser uma for\u00e7a transformadora. Assim, pensamos que ela tem a fun\u00e7\u00e3o de encobrir o conflito.<\/p>\n<p>E como podemos ent\u00e3o encontrar uma sa\u00edda para a intoler\u00e2ncia e sua consequente viol\u00eancia? Freud nos situou muito bem em rela\u00e7\u00e3o ao funcionamento das massas, mas tamb\u00e9m sabemos que existem outros tipos de forma\u00e7\u00f5es grupais, cujas diversidades e singularidades podem ser contidas no interior do pr\u00f3prio grupo.<\/p>\n<p>Safatle sugere que o pr\u00f3prio Freud aponta uma possibilidade de sa\u00edda deste impasse atrav\u00e9s da no\u00e7\u00e3o de desamparo:<\/p>\n<p>\u201cFreud p\u00f4de nos mostrar como uma pol\u00edtica realmente emancipat\u00f3ria, de certa forma, funda-se na capacidade de fazer circular socialmente a experi\u00eancia de desamparo e sua viol\u00eancia espec\u00edfica, e n\u00e3o de construir fantasias que nos defendam dela. Pois a pol\u00edtica pode ser pensada enquanto pr\u00e1tica que permite ao desamparo aparecer como fundamento de produtividade de novas formas sociais, na medida em que impede sua convers\u00e3o em medo social e que nos abre para acontecimentos que n\u00e3o sabemos ainda como experimentar.\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Como sabemos, se Freud concebe o desamparo, no in\u00edcio da sua obra, como situa\u00e7\u00e3o objetiva de insufici\u00eancia psicomotora do rec\u00e9m-nascido que necessita da entrada do outro, a teoriza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a no sentido de pensar o desamparo como uma condi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio psiquismo em sua falta de garantias, que n\u00e3o pode ser superada.<\/p>\n<p>Na leitura de Mario Eduardo Costa Pereira<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, Freud desacidentaliza a no\u00e7\u00e3o do desamparo ao dissoci\u00e1-lo do evento traum\u00e1tico e situ\u00e1-lo como algo necess\u00e1rio, n\u00e3o acidental, intranspon\u00edvel \u2013 e, tamb\u00e9m, fundamental do funcionamento ps\u00edquico. Assim, o desamparo diz respeito a um inesperado, um desconhecido, na medida em que implica em algo que n\u00e3o est\u00e1 pr\u00e9-determinado, algo do n\u00e3o-representado.<\/p>\n<p>Safatle introduz a ideia de que o alargamento da esfera pol\u00edtica pode dar-se pela forma produtiva de lidar com o desamparo, neste enfrentamento da indetermina\u00e7\u00e3o. E \u00e9 por esta via do desamparo que o autor prop\u00f5e que a experi\u00eancia pol\u00edtica pode se dar como algo renovador. Diante dele o sujeito \u00e9 convocado a lidar com algo que n\u00e3o se liga ao seu repert\u00f3rio conhecido. Frente a ele pode-se ter v\u00e1rias respostas: por um lado, a paralisia e o p\u00e2nico, mas, por outro, uma resposta nova e criativa. Como Safatle diz:<\/p>\n<p>\u201cA compreens\u00e3o de tal produtividade do desamparo permite que, dele, apare\u00e7a um afeto de coragem vindo da aposta na possibilidade de convers\u00e3o da viol\u00eancia em processo de mudan\u00e7a de estado. Algo dessa coragem anima a experi\u00eancia psicanal\u00edtica.\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Esta forma produtiva de lidar com o desamparo implica na acolhida do estranho a uma identidade determinada, \u00e0 ordem do in\u00e9dito, aquilo que n\u00e3o depende de um predicado do ser, como por exemplo: \u201cser estudante\u201d. Em uma entrevista com um estudante secundarista, lhe perguntam quem ele \u00e9, e ele diz; \u201ceu n\u00e3o sou ningu\u00e9m\u201d, apontando que ele se guia por outra dire\u00e7\u00e3o. Assim, ao estar despossu\u00eddo do predicado, cria-se uma igualdade de outra ordem. \u00c9 uma aposta na pol\u00edtica que n\u00e3o se apoia nas diferen\u00e7as culturais, mas sim na aboli\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, na sua igualdade radical, numa pot\u00eancia de despersonaliza\u00e7\u00e3o. Safatle prop\u00f5e, assim, um outro tipo de reconhecimento, que seria o antipredicativo, como diz:<\/p>\n<p>\u201cFalar em \u2018reconhecimento antipredicativo\u2019 s\u00f3\u0301 faria sentido se pud\u00e9ssemos afirmar a necessidade de algo do sujeito n\u00e3o passar em seus predicados, mas continuar como pot\u00eancia indeterminada de for\u00e7a de indistin\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Nesta linha sugere que haja uma des-institucionaliza\u00e7\u00e3o que vise \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de campos de indiferen\u00e7as culturais. Como exemplo disto, pensa na des-institucionaliza\u00e7\u00e3o do casamento que se daria pela elimina\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o sobre os v\u00ednculos afetivos. Acredita que o tipo de la\u00e7o matrimonial n\u00e3o \u00e9 de ordem jur\u00eddica, somente o que diz respeito \u00e0s quest\u00f5es econ\u00f4micas seriam pertinentes a esta.<\/p>\n<p>Para ele ent\u00e3o, \u201c&#8230;a verdadeira pol\u00edtica est\u00e1 sempre al\u00e9m da afirma\u00e7\u00e3o das identidades, sejam individuais ou coletivas. Ela se inscreve em estruturas sociais amplas, modalidades antipredicativas de reconhecimento que encontram sua manifesta\u00e7\u00e3o em dimens\u00f5es sociais da linguagem e do desejo<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>. (&#8230;) \u201cTrata-se aqui de defender a hip\u00f3tese de que a pol\u00edtica des-identifica os sujeitos de suas diferen\u00e7as culturais, ela os des-localiza de suas nacionalidades e identidades geogr\u00e1ficas, da mesma forma que ela os des-individualiza de seus atributos psicol\u00f3gicos.\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>Mas ser\u00e1\u0301 que \u00e9 vi\u00e1vel, em termos pr\u00e1ticos da vida, a elimina\u00e7\u00e3o do predicativo? Este reconhecimento de ordem antipredicativa?<\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa pol\u00edtica Chantal Mouffe<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a> nos aponta um caminho nesta dire\u00e7\u00e3o. Ela critica a forma como a democracia se estabelece na busca do consenso racional. Afirma que a sociedade democr\u00e1tica vive em dissenso e a atual teoria pol\u00edtica dominante n\u00e3o capta as diferentes formas de antagonismos. Considera que a ideia do estabelecimento de uma democracia plena \u00e9 imposs\u00edvel, indicando que a consequ\u00eancia de uma democracia estabelecida pela busca de um consenso \u00e9 necessariamente a exclus\u00e3o e silenciamento das vozes dissidentes.<\/p>\n<p>Para ela, \u00e9 inevit\u00e1vel que se crie, em termos pol\u00edticos, um <em>n\u00f3s<\/em> e um <em>eles<\/em>. A quest\u00e3o central \u00e9 a forma de lidar com esta dualidade, sem tomar o <em>eles<\/em> como inimigos, mas sim como advers\u00e1rios. A distin\u00e7\u00e3o entre <em>inimigo<\/em> e <em>advers\u00e1rio<\/em> se d\u00e1 pelo fato de que o inimigo precisa ser destru\u00eddo e o advers\u00e1rio \u00e9 aquele com quem luto, mas a luta \u00e9 de ideias e reconhe\u00e7o a legitimidade de o advers\u00e1rio defender suas ideias. Assim, para ela, h\u00e1 uma outra forma de lidar com estas diferen\u00e7as que n\u00e3o somente pela l\u00f3gica da oposi\u00e7\u00e3o. Pensamos que ela introduz uma outra l\u00f3gica que n\u00e3o s\u00f3\u0301 admite a contradi\u00e7\u00e3o, mas parte dela como uma condi\u00e7\u00e3o. Como ela nos diz:<\/p>\n<p>\u201cAceitar que apenas o hibridismo nos cria como identidades separadas pode contribuir para dissolver o potencial da viol\u00eancia que existe em cada constru\u00e7\u00e3o de identidades coletivas e criar as condi\u00e7\u00f5es para um verdadeiro \u2018pluralismo agon\u00edstico\u2019. Tal pluralismo est\u00e1 ancorado no reconhecimento da multiplicidade de cada um e das posi\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias a que esta multiplicidade subjaz. Sua aceita\u00e7\u00e3o do outro n\u00e3o consiste meramente em tolerar as diferen\u00e7as, mas em celebr\u00e1-las positivamente porque admite que, sem alteridade e o outro, nenhuma identidade poderia se afirmar\u201d.<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p>Se pensarmos no movimento dos estudantes secundaristas iniciado em S\u00e3o Paulo, podemos observar que eles n\u00e3o s\u00e3o guiados pelo predicado de \u201cserem estudantes\u201d e sim est\u00e3o norteados por um projeto mais amplo de ocupar um lugar de cidad\u00e3os. Lembramos que este movimento se iniciou como protesto ao an\u00fancio de reorganiza\u00e7\u00e3o escolar estabelecido pelo Governo do Estado de S\u00e3o Paulo, sem pr\u00e9via consulta dos envolvidos, dentre eles os principais interessados, os alunos. Agora este movimento est\u00e1 em outras localidades do Brasil.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o recente epis\u00f3dio da morte de um aluno em uma das escolas ocupadas no Paran\u00e1\u0301, a Assembleia Legislativa recebeu representantes de um movimento estudantil contr\u00e1rio \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es e no dia seguinte recebeu a estudante paranaense Ana J\u00falia Ribeiro, de 16 anos que defende a ocupa\u00e7\u00e3o. Ela come\u00e7a sua fala dizendo que est\u00e1 l\u00e1\u0301 para conversar com os deputados sobre o movimento de ocupa\u00e7\u00e3o nas escolas e inicia seu discurso perguntando <em>de quem \u00e9 a escola<\/em>. Parte da\u00ed para afirmar a legitimidade do movimento dos estudantes que lutam por um ideal, que \u00e9 o da educa\u00e7\u00e3o e do conhecimento. Relata as dificuldades deste processo e d\u00e1 o seu testemunho de que deixaram de \u201cser meros adolescentes, para se tornarem cidad\u00e3os\u2019. Faz men\u00e7\u00e3o ao vel\u00f3rio do colega morto na escola e diz que a sociedade, o Estado e a fam\u00edlia t\u00eam responsabilidade sobre os jovens. Convida a todos os deputados a visitarem a escola, para conhecerem de perto as suas propostas.<\/p>\n<p>Vemos como se produz a\u00ed um ato pol\u00edtico no qual a luta tem seu lugar num dizer que se apropria de suas ideias e ideais. Aqui vemos que ocorre na pr\u00e1tica o que Chantal nomeia de uma <em>luta entre advers\u00e1rios<\/em>.<\/p>\n<p>Para Peter Pelbart, os secundaristas est\u00e3o vivendo uma experimenta\u00e7\u00e3o que vai muito al\u00e9m das reivindica\u00e7\u00f5es de melhoria de ensino, analisando como \u201cseus protestos tangenciaram uma recusa da representa\u00e7\u00e3o (ningu\u00e9m nos representa, ningu\u00e9m pode falar em nosso nome, nem sequer algu\u00e9m de n\u00f3s que pretendesse ser nosso representante)\u201d<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a> mas, segundo sua leitura, eles buscam tamb\u00e9m novas formas de vida que n\u00e3o as dominantes e determinadas. Portanto, podemos apontar que \u00e9 uma experi\u00eancia criativa e nova que surge no cen\u00e1rio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Pelbart tamb\u00e9m analisa como para al\u00e9m das reivindica\u00e7\u00f5es, que podem ou n\u00e3o ser satisfeitas, surge um desejo coletivo de ter bens comuns. Como diz:<\/p>\n<p>\u201cFalamos de um desejo coletivo, onde se tem imenso prazer em ocupar coletivamente um espa\u00e7o antes policiado, em ir \u00e0 rua juntos, em sentir a pulsa\u00e7\u00e3o multitudin\u00e1ria, em cruzar a diversidade de vozes e corpos, sexos e tipos, e apreender um \u2018comum\u2019 que tem a ver com as redes, com as redes sociais, com a conex\u00e3o produtiva entre os circuitos v\u00e1rios, com a intelig\u00eancia coletiva, com uma sensorialidade ampliada, com a certeza de que a escola deveria ser o cora\u00e7\u00e3o de uma sociedade, e n\u00e3o seu ap\u00eandice agonizante. Assim como em 2013 alguns sustentaram que o transporte em S\u00e3o Paulo deveria ser um bem comum, assim como na Turquia os jovens consideraram que o verde da Pra\u00e7a Taksim em Istambul era comum, assim como o deveria ser a \u00e1gua, a terra, a internet, as informa\u00e7\u00f5es, os c\u00f3digos, os saberes, a cidade, de modo que toda esp\u00e9cie de privatiza\u00e7\u00e3o e <em>enclosure <\/em>na sua vers\u00e3o atual constitui um atentado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, que requer cada vez mais o livre compartilhamento do comum.\u201d<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>Abre-se espa\u00e7o para o desejo de que a pol\u00edtica possa se afirmar como conquista do bem comum, na sua igualdade radical, igualdade pol\u00edtica de todos terem acesso ao bem comum independentemente de quem s\u00e3o. Assim esta igualdade que \u00e9 para todos comporta as singularidades.<\/p>\n<p>Se concebermos que o desejo coletivo se afirma a partir do desamparo, como podemos sustentar esta perspectiva desejante convivendo com as identidades culturais, considerando que as identidades mais estabelecidas nos separam?<\/p>\n<p>A identidade cultural pode manifestar-se ao mesmo tempo em que exista uma abertura do campo pol\u00edtico para uma igualdade comum, mas como algo que se mant\u00e9m num conflito permanente. Como exemplo disto, Mouffe<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a> sustenta que o feminismo precisa estar articulado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um projeto mais amplo, articulado a outros grupos que visam \u00e0 igualdade de direitos. Vemos que esta articula\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 realizada em alguns movimentos de mulheres que v\u00e3o al\u00e9m dos grupos feministas, para se manifestarem como a \u201cpopula\u00e7\u00e3o de mulheres\u201d. Por exemplo, como aconteceu recentemente com as mulheres na Isl\u00e2ndia, que paralisaram seu trabalho no dia 24 deste m\u00eas para protestarem contra a desigualdade salarial em rela\u00e7\u00e3o aos homens. Ou como na passeata das mulheres na Pol\u00f4nia que protestaram contra a lei total do aborto e conseguiram um recuo na legisla\u00e7\u00e3o ou tamb\u00e9m na marcha conjunta de mulheres palestinas e israelenses pela paz e mais tantos outros movimentos que tamb\u00e9m ocorrem no Brasil.<\/p>\n<p>Seguindo ent\u00e3o a proposta de Safatle de que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se d\u00e1 a partir do desamparo e de uma \u2018a\u00e7\u00e3o de desabamento\u2019, entendemos que a sa\u00edda para o bin\u00f4mio toler\u00e2ncia\/intoler\u00e2ncia se d\u00e1 pela cria\u00e7\u00e3o destas experi\u00eancias coletivas in\u00e9ditas que geram novos poss\u00edveis no campo da reflex\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Outubro 2016.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Trabalho originalmente apresentado por Adriana Morettin no evento <em>entretantos<\/em> de 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Curso do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, cujos integrantes s\u00e3o:\u00a0Adriana Victorio Morettin, Aline Eugenia Camargo, Ana L\u00facia Panach\u00e3o, Helena Albuquerque, M\u00e1rcia de Mello Franco, Mario Pablo Fuks (coordenador), Mania Deweik, Marli Vianna, Nayra Ganhito, Tatiana Inglez-Mazzarella. Psicanalistas, membros do Departamento de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Safatle, V.\u00a0<em>O circuito dos afetos,<\/em>\u00a0S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Idem, p. 349.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Idem, p. 350.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Fuks, B. B. <em>O pensamento freudiano sobre a intoler\u00e2ncia<\/em>, Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol.19, n.1, p.59-73, 2007, p. 61.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Safatle, V., <em>op. cit<\/em>., p. 67.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Pereira, M. E. C. <em>P\u00e2nico e desamparo: um estudo psicanal\u00edtico.<\/em>\u00a0Editora Escuta, 2008.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Safatle, V., <em>op. cit<\/em>., p. 74.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Idem, p. 358.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Idem, p. 364.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Idem, p. 354.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> Mouffe,\u00a0C. <em>Democracia, cidadania e a quest\u00e3o do pluralismo<\/em>. Revista Pol\u00edtica &amp; Sociedade, n. 3, pp.11-26 \u2013 outubro de 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Idem, p. 19.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Pelbart, P. <em>Tudo o que muda com os secundaristas<\/em>.\u00a0http:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/pelbart-tudo-o-que-muda-com-os-secundaristas, 13\/05\/2016, p. 3\/4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Idem, p. 4\/4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Josadac Bezerra dos Santos,\u00a0<em>Chantal Mouffe e a filosofia pol\u00edtica.\u00a0<\/em>Revista Cult, edi\u00e7\u00e3o 133.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela equipe do curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica em Entretantos, 2016.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[112],"tags":[126,52],"edicao":[114],"autor":[127],"class_list":["post-1708","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entretantos","tag-psicanalise-e-politica","tag-psicopatologia-psicanalitica","edicao-boletim-63","autor-equipe-do-curso-psicopatologia-psicanalitica-e-clinica-contemporanea","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1708","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1708"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1800,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1708\/revisions\/1800"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1708"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1708"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}