{"id":1712,"date":"2022-06-01T15:42:25","date_gmt":"2022-06-01T18:42:25","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1712"},"modified":"2022-06-09T11:15:40","modified_gmt":"2022-06-09T14:15:40","slug":"algo-que-estava-oculto-veio-a-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/algo-que-estava-oculto-veio-a-luz\/","title":{"rendered":"Algo que estava oculto veio \u00e0 luz"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Algo que estava oculto veio \u00e0 luz: Sobre o <em>Unheimliche<\/em><\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Mario Pablo Fuks<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que provoca o sentimento do sinistro (<i>Unheimliche<\/i><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><em>)<\/em>? Os processos autom\u00e1ticos que se ocultam por tr\u00e1s da familiar figura do inerte, como os bonecos ou aut\u00f4matos de constru\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica. E tamb\u00e9m aqueles que parecem revelar-se na familiar figura do vivo, ou melhor, do humano, tal como as explos\u00f5es de epilepsia ou de loucura. Pessoa ou aut\u00f4mato? Essa \u00e9 a d\u00favida que dura enquanto se mant\u00e9m o suspense, e que tende a desaparecer se pudermos coloc\u00e1-la no foco da aten\u00e7\u00e3o, iniciar um processo indagat\u00f3rio, estabelecer julgamentos a serem efetuados e chegar a uma conclus\u00e3o que ponha fim \u00e0 incerteza.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m podemos formul\u00e1-lo assim: quando algo que estava oculto come\u00e7a a vir \u00e0 luz, d\u00e1-se in\u00edcio a um processo de elabora\u00e7\u00e3o que pode desenvolver-se produzindo diversos resultados ou bloquear-se produzindo efeitos de estagna\u00e7\u00e3o ou desequil\u00edbrios perversos ou psic\u00f3ticos. A viv\u00eancia de estranheza, pela sua pr\u00f3pria presen\u00e7a, funciona como um disparador do processo e como \u00edndice de seu movimento.<\/p>\n<p>A respeito do esquema cl\u00e1ssico, uma curiosa invers\u00e3o de pap\u00e9is perfila-se na configura\u00e7\u00e3o ed\u00edpica infantil do protagonista de <em>O homem de areia, <\/em>de E. T. A. Hoffmann (1817). O pai seduziu a crian\u00e7a, ati\u00e7ando-lhe a imagina\u00e7\u00e3o e o interesse pelas hist\u00f3rias maravilhosas, e a crian\u00e7a divertiu-se em manter acesa a brasa do cachimbo do pai, para que este n\u00e3o parasse&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 a m\u00e3e quem introduz o \u201chomem de areia\u201d como se quisesse parar a excita\u00e7\u00e3o, desligando o filho da vig\u00edlia e induzindo-o ao sono. A crian\u00e7a conecta o homem de areia ao pai e quer saber mais: &#8220;Quem \u00e9 esse estranho homem de areia que nos separa de meu pai?&#8221; Ali, a m\u00e3e o corta novamente: &#8220;O homem de areia n\u00e3o existe!&#8221; Ela n\u00e3o quer saber nem quer que a crian\u00e7a saiba. N\u00e3o quer, porque a misteriosa paix\u00e3o de seu marido, que tamb\u00e9m \u00e9 paix\u00e3o de saber (por algo se intui que seja um pacto faustiano), introduziu o estranho-amea\u00e7ador, vindo de fora, na intimidade do lar.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a transgride a &#8220;censura\u201d imposta pela m\u00e3e, como diria Penot (1992). Algo pesaroso, que a deixa desconjuntada, lhe \u00e9 revelado. Ela sai da experi\u00eancia apassivada (\u00e9 mais forte o ser descoberto que o descobrir), marcada pelo terr\u00edfico simulacro da castra\u00e7\u00e3o visual e, tamb\u00e9m, por um mandato-profecia agourento: &#8220;Que o moleque conserve seus olhos e choramingue seus pesares pelo mundo&#8221;. A crian\u00e7a \u00e9 mergulhada em um sono que parece de morte (Hoffmann, 1817).<\/p>\n<p>Freud situou o complexo de castra\u00e7\u00e3o como um dos fatores que, com maior for\u00e7a, vem ferir o narcisismo primitivo da crian\u00e7a. Postulou esse narcisismo como um sistema impulsionado, constru\u00eddo e sustentado pelo narcisismo dos pr\u00f3prios pais.<\/p>\n<p>O ponto mais espinhoso do sistema narcisista, a imortalidade do eu, conquista seu baluarte refugiando-se na crian\u00e7a. Na hist\u00f3ria familiar de Natanael, este sistema ser\u00e1 definitivamente abalado pela morte do pai em circunst\u00e2ncias misteriosas que deixar\u00e3o, apesar de seus muitos pontos obscuros, uma convic\u00e7\u00e3o compartilhada pela m\u00e3e e pelo filho com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 culpabilidade do intruso, um juramento de vingan\u00e7a de cunho hamletiano por parte do filho e um pacto impl\u00edcito de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o de dois novos membros \u00e0 fam\u00edlia que &#8220;n\u00e3o sabem&#8221; da hist\u00f3ria \u2013 Clara e seu irm\u00e3o Lot\u00e1rio \u2013 restabelece o sistema narc\u00edsico, congelando o processo de luto. Poder\u00edamos dizer que os olhos cristalinos e vivazes de Clara ser\u00e3o um consolo &#8211; um b\u00e1lsamo &#8211; para os olhos entristecidos e desvitalizados de Natanael e de sua m\u00e3e. Sob a condi\u00e7\u00e3o de que aquilo que permaneceu oculto n\u00e3o venha \u00e0 luz. A sa\u00edda de Natanael para o mundo leva-o a confrontar uma experi\u00eancia de repeti\u00e7\u00e3o percebida como tal, sob a forma do fat\u00eddico personagem que representa o que, para Freud (1919), \u00e9 um &#8220;duplo&#8221; do pai. Esse encontro reinstala o sinistro (<em>Unheimliche)<\/em>. Um processo de indaga\u00e7\u00e3o se inicia. Natanael envia uma carta a Lot\u00e1rio contando todos os fatos, mas, por um ato falho dele mesmo, o desejo de &#8220;fazer saber&#8221; faz chegar a carta \u00e0s m\u00e3os de Clara.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a metapsicologia desses processos de &#8220;ocultar\/vir \u00e0 luz&#8221;? O recalcamento (<em>Verdr\u00e4ngung<\/em>), pedra angular da arma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, e o seu fracasso com o subsequente retorno do recalcado. Esse ser\u00e1 o suporte da explica\u00e7\u00e3o ao longo do texto. Cabe perguntar, no entanto, como j\u00e1 o fizeram diversos autores, se o conceito de<em> recalque<\/em> \u00e9 o que mais se enquadra nessa problem\u00e1tica.<\/p>\n<p>No &#8220;Historial cl\u00ednico do homem dos lobos,&#8221; publicado na mesma \u00e9poca, Freud (1918) teoriza a respeito do complexo processo de elabora\u00e7\u00e3o e admiss\u00e3o do conceito inconsciente do &#8220;pequeno separ\u00e1vel do corpo&#8221;. Com rela\u00e7\u00e3o a este paciente, parecido em mais de um aspecto ao personagem do conto (incid\u00eancia do esc\u00f3pico, olhar fixo dos lobos do sonho, posi\u00e7\u00e3o passivo-feminina em rela\u00e7\u00e3o ao pai, pai depressivo que acaba suicidando-se etc.), ele conclui o seguinte:<\/p>\n<p>\u201c<em>\u00c9 not\u00f3ria a tomada de posi\u00e7\u00e3o inicial de nosso paciente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Ele a rejeitou (<\/em>verwirft<em>) e se ateve ao ponto de vista da rela\u00e7\u00e3o anal. Quando digo que a rejeitou, o sentido mais imediato da express\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o quis saber dela no sentido do recalque. Com isso, na verdade, n\u00e3o havia sido pronunciado julgamento nenhum, mas era como se ela n\u00e3o existisse<\/em>\u201d (p. 78)<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>E continua:<\/p>\n<p>\u201c<em>Essa atitude n\u00e3o pode ser definitiva. H\u00e1 provas do reconhecimento posterior da castra\u00e7\u00e3o, com uma persist\u00eancia paralela e subjacente da corrente antiga que a rejeitava. A esse respeito o paciente relata um epis\u00f3dio de car\u00e1ter alucinat\u00f3rio, acontecido aos cinco anos, no qual, brincando com um canivete, percebe com indiz\u00edvel terror que tinha cortado o dedo mindinho de sua m\u00e3o\u201d<\/em> (p. 79).<\/p>\n<p>Freud diz que isto d\u00e1 o direito de supor que havia um processo de reconhecimento em andamento e que a alucina\u00e7\u00e3o talvez fosse um ind\u00edcio do mesmo.<\/p>\n<p>Esse mecanismo de <em>rejei\u00e7\u00e3o<\/em> (<em>Verwerfung<\/em>), nitidamente diferenciado do recalcamento \u2013 que j\u00e1 tinha sido usado por Freud (1894), em &#8220;Neuropsicoses de defesa&#8221; \u2013 e que foi tomado por Lacan (1959) para construir o conceito de <em>forclus\u00e3o<\/em>, desaparece posteriormente nas formula\u00e7\u00f5es, afirmando-se o conceito de <em>recusa<\/em> (<em>Verleugnung<\/em>) como mecanismo decisivo na produ\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos de pervers\u00e3o e psicose.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Vejamos agora com quais elementos te\u00f3ricos Freud (1919) elabora a experi\u00eancia de confronto com a morte, em torno da qual gira totalmente a segunda cena traum\u00e1tica infantil dessa hist\u00f3ria. A imortalidade constitui, desde o texto introdut\u00f3rio do narcisismo de 1914, o baluarte central do sistema narcisista. O ponto de partida, aqui, \u00e9 o conceito de <em>duplo<\/em> desenvolvido por Otto Rank em 1912, a partir de estudos exaustivos de materiais liter\u00e1rios, trabalhos etno-antropol\u00f3gicos e de mitologia antiga. Rank (1912) mostrou as liga\u00e7\u00f5es do <em>duplo<\/em> com a imagem especular, a sombra, os esp\u00edritos protetores e com a cren\u00e7a na <em>alma<\/em>. O <em>duplo<\/em>, diz Freud (1919), surge como o mais en\u00e9rgico desmentido (<em>Dementirung<\/em>) do poder da morte.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Essa <em>duplica\u00e7\u00e3o<\/em> do eu como defesa contra sua desapari\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante ao que, nos sonhos, se manifesta como representa\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o pela duplica\u00e7\u00e3o ou multiplica\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo genital (do qual o famoso sonho dos lobos \u00e9 um exemplo muito claro). Est\u00e1, entretanto, sujeita a uma evolu\u00e7\u00e3o. Tanto na hist\u00f3ria dos povos primitivos como na vida an\u00edmica de cada crian\u00e7a, o significado do <em>duplo<\/em> muda de signo: come\u00e7a sendo um seguro de sobreviv\u00eancia, passando depois a ser o sinistro mensageiro da morte.<\/p>\n<p>O conceito de <em>recusa<\/em> fica claramente estabelecido no texto de Freud (1927c) sobre o fetichismo. Nele, mostra-se de que maneira a constitui\u00e7\u00e3o de um fetiche permite conservar a cren\u00e7a inconsciente no falo materno. O texto traz tamb\u00e9m casos nos quais o recusado era a morte do pai. Nas duas situa\u00e7\u00f5es produz-se uma cis\u00e3o da vida ps\u00edquica em duas correntes: uma que aceita a realidade da castra\u00e7\u00e3o e da morte, ou seja, a diferen\u00e7a f\u00e1lico\/castrado e a diferen\u00e7a vivo\/morto, e outra corrente ou parte da vida ps\u00edquica em que essas diferen\u00e7as n\u00e3o existem. A aus\u00eancia da corrente que est\u00e1 de acordo com a realidade abre a possibilidade da psicose.<\/p>\n<p>Deixamos para o final desta enumera\u00e7\u00e3o a refer\u00eancia a um trabalho anterior de Freud (1913) que tem, por\u00e9m, muito a ver com o que estamos considerando. No texto &#8220;O tema dos tr\u00eas escr\u00ednios&#8221;, ele aborda a quest\u00e3o da aceita\u00e7\u00e3o da morte atrav\u00e9s de um desenvolvimento que mostra uma din\u00e2mica parecida \u00e0 do <em>duplo<\/em>. Na evolu\u00e7\u00e3o da mitologia grega, a cria\u00e7\u00e3o das Moiras, deusas do destino, do inelut\u00e1vel e da morte, significou um avan\u00e7o no reconhecimento de que, sendo parte da natureza, o homem tamb\u00e9m se achava submetido \u00e0 lei imut\u00e1vel da morte. Mas ele se rebela, atrav\u00e9s da fantasia, contra o conhecimento encarnado nesse mito e cria outro, no qual a Deusa da Morte \u00e9 substitu\u00edda pela Deusa do Amor ou por figuras humanas equipar\u00e1veis. A mais bela e a melhor das mulheres, a mais cobi\u00e7ada e mais digna de ser amada vir\u00e1 a ocupar esse lugar.<\/p>\n<p>A escolha da mulher (esse \u00e9 o tema no material mitol\u00f3gico ou liter\u00e1rio) vem, dessa maneira, substituir a fatalidade. A morte, admitida no pensamento, \u00e9 superada na fantasia. Trata-se de um triunfo da realiza\u00e7\u00e3o de desejos, o que n\u00e3o impede que &#8220;a mais bela e a melhor&#8221; conserve certos tra\u00e7os inquietantes.<\/p>\n<p>Munidos destas refer\u00eancias conceituais, voltemos agora \u00e0 hist\u00f3ria do conto. H\u00e1 uma cena que me parece fundamental para nosso prop\u00f3sito. A sequ\u00eancia escolhida n\u00e3o cont\u00e9m nada de sobrenatural; o sinistro apresenta-se, para n\u00f3s, pelo vi\u00e9s da loucura. Trata-se da volta para casa de Natanael, depois do incidente com o oculista italiano (Hoffmann, 1817, p. 31). \u00c9 o primeiro reencontro com sua namorada, que j\u00e1 sabe, atrav\u00e9s da carta, dos fatos da hist\u00f3ria familiar. \u00c9 um encontro terno e amoroso, mas n\u00e3o por isso menos tenso. Clara se reconhece chocada e comovida pelos acontecimentos referentes ao pai de Natanael, mas isso n\u00e3o a leva a perder a calma e a serenidade que a caracterizam. E ela lhe prop\u00f5e considerar uma vers\u00e3o mais sensata, l\u00facida e realista dessa morte. Seguramente o pai, ati\u00e7ado pelo desejo enganador de conquistar um saber, entregava-se a pr\u00e1ticas alqu\u00edmicas que o levaram progressivamente a negligenciar a fam\u00edlia. Provavelmente, teria sido ele mesmo o respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria morte, ocorrida em um momento de descuido. Coppelius n\u00e3o deve ser culpado de nada e, se lhe aparece e lhe infunde temor, isso se deve apenas ao fato de que &#8220;n\u00e3o \u00e9 mais do que um fantasma desdobrado de seu pr\u00f3prio eu&#8221; (Hoffmann, 1817, p. 29 e 36).<\/p>\n<p>Natanael contrap\u00f5e a essa coloca\u00e7\u00e3o um ide\u00e1rio m\u00edstico e ocultista, defendido com veem\u00eancia e paix\u00e3o, sentindo a posi\u00e7\u00e3o de Clara como fria e insens\u00edvel a seus apaixonados argumentos. O confronto cresce entre eles, que come\u00e7am a entediar-se e a distanciar-se. A\u00ed, algo novo acontece.<\/p>\n<p>Natanael tinha capacidade de escrever narrativas interessantes e divertidas. Encurralado pelos press\u00e1gios, decide dar vaz\u00e3o a todos esses pensamentos sombrios num poema de estilo t\u00edpico rom\u00e2ntico, cheio de alegorias misturadas com a f\u00faria dos elementos da natureza.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> Nele, enfrenta todos os seus fantasmas. Nesse poema, Clara e ele, unidos pelo mais fiel dos amores, chegam at\u00e9 o altar, onde se interp\u00f5e a negra m\u00e3o de Coppelius, arrancando os olhos dela, que v\u00eam incrustar-se no peito de Natanael. Ele \u00e9 jogado na vertigem de um c\u00edrculo de fogo que n\u00e3o cessa de girar.<\/p>\n<p>\u201c<em>Mas, em meio a esse bramido selvagem, ele ouve a voz de Clara dizendo-lhe: \u2018N\u00e3o consegue me enxergar? Coppelius enganou voc\u00ea, n\u00e3o eram meus olhos que ardiam em seu peito, e sim gotas ardentes de seu pr\u00f3prio sangue. Olhe para mim. Olhe para mim, meus olhos est\u00e3o aqui!\u2019 \u2013 Natanael pensa: \u2018\u00c9 Clara, e serei dela eternamente\u2019. Ent\u00e3o esse pensamento penetra com tamanha for\u00e7a na roda de fogo que ela para, e no negro abismo o estrondo dissipa-se num som cavo. Natanael olha nos olhos de Clara, mas \u00e9 a morte que o fita gentilmente com os olhos dela<\/em>\u201d (p. 37).<\/p>\n<p>E a\u00ed acaba o poema.<\/p>\n<p>Quando ele o l\u00ea, assusta-se com essa voz, depois se acalma e o aprimora melhorando cada verso. Torna-o mais harm\u00f4nico. Sente que \u00e9 um bom poema. Pensa que o esp\u00edrito frio de Clara vai inflamar-se, mas reconhece tamb\u00e9m que n\u00e3o entende muito por que precisa inflamar Clara, e ainda mais com imagens t\u00e3o aterrorizantes. Ele o deixa de lado&#8230; Alguns dias passam sem problemas. Num certo momento, vendo-o t\u00e3o alegre e vivaz, Clara lhe diz: &#8220;S\u00f3 agora volto a ter voc\u00ea inteiro para mim, viu como expulsamos o horr\u00edvel Coppelius?&#8221;.\u00a0 Apenas nesse momento ele lembra que tem o poema no bolso &#8211; e o l\u00ea. \u00c0 medida que ele vai inflamando-se, ela come\u00e7a a fit\u00e1-Io com olhos cada vez mais fixos.<\/p>\n<p>\u201c<em>Finalmente, ao terminar, gemeu de profundo cansa\u00e7o. Tomou a m\u00e3o de Clara e suspirou, como se tivesse sucumbido a uma dor desconsolada: \u2018Ah, Clara, Clara!\u2019. Ela o apertou suavemente contra seus seios e disse baixinho, mas lenta e seriamente: \u2018Natanael, meu Natanael! Atire ao fogo essa hist\u00f3ria absurda-disparatada-demente\u2019. Natanael, indignado, levantou-se de um salto e gritou, empurrando Clara para longe de si: \u2018Seu maldito aut\u00f4mato sem vida!\u2019 E saiu correndo enquanto Clara, profundamente ferida, vertia amargas l\u00e1grimas: \u2018Ah, ele nunca me amou, pois n\u00e3o me entende!\u2019, solu\u00e7ou<\/em>.\u201d (p. 37-38).<\/p>\n<p>O drama se completa com a entrada em cena de Lot\u00e1rio que os leva a um enfrentamento furioso, um duelo com espadas que por muito pouco n\u00e3o acaba em morte.<\/p>\n<p>Pobre Clara! N\u00e3o deve ser nada f\u00e1cil encarnar a noiva e a terapeuta ao mesmo tempo. Ouvimos isso muitas vezes. Mas toma-se mais dif\u00edcil quando a transfer\u00eancia e o imprevis\u00edvel percurso do processo elaborativo levam-na a ocupar um lugar t\u00e3o marcado pelo sinistro. Pelo que nos consta, a \u00fanica que p\u00f4de suportar ser um espectro para seu amado at\u00e9 o final da cura foi Zoe Bertgang, a Gradiva, e isto provavelmente porque se tratava tamb\u00e9m de um conto (Freud, 1907). Clara demorou a compreender que ali algo novo estava se produzindo, um empuxo sublimat\u00f3rio e criativo que dava curso \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, tanto do desejo er\u00f3tico e da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o quanto da experi\u00eancia de confronto com a morte e a ang\u00fastia de morte, ressignificando, assim, as situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas da sua hist\u00f3ria.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o com o <em>inflamado<\/em> de seu pai ficava &#8220;limitada&#8221; pelo apoio a um dos modelos identificat\u00f3rios da \u00e9poca, constitu\u00eddo pela figura do poeta, rom\u00e2ntico, l\u00e2nguido, suspirante<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas Clara n\u00e3o o suporta. Ao fechar-se para a inten\u00e7\u00e3o e significa\u00e7\u00e3o do poema, ela repete a atitude da m\u00e3e frente \u00e0 fantasia da crian\u00e7a. Trata-se de uma atitude de &#8220;censura&#8221; como diz Penot (1992), e, ao incit\u00e1-Io a &#8220;jogar tudo isso no fogo&#8221;, lembra-nos o lugar cultural do fogo como instrumento de supress\u00e3o, presente desde a Inquisi\u00e7\u00e3o at\u00e9 <em>Fahrenheit 451<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><strong>[9]<\/strong><\/a><\/em>. Mas n\u00e3o se trata s\u00f3 disso.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ela n\u00e3o v\u00ea tudo o que pode ser o fogo para ele, o da brasa que ele mantinha acesa no cachimbo do pai, o da fornalha onde os olhos da crian\u00e7a seriam queimados, o da roda de fogo da qual a pr\u00f3pria voz dela tinha conseguido arranc\u00e1-Io no poema&#8230; para vir agora a &#8220;jog\u00e1-Io de volta ao fogo&#8221;? Porque, ao toc\u00e1-lo como se fosse em um ponto &#8220;nevr\u00e1lgico&#8221;, <em>o novo equil\u00edbrio narc\u00edsico alcan\u00e7ado se desmorona, o processamento simb\u00f3lico se interrompe, e a recusa se reinstala<\/em>.<\/p>\n<p>Os <em>olhos da morte<\/em>, que no universo do conto estavam no plano da fic\u00e7\u00e3o, passam a situar-se no plano que, nesse mesmo universo, corresponde \u00e0 realidade. Como? Atrav\u00e9s do ato de rejei\u00e7\u00e3o do <em>maldito aut\u00f4mato sem vida<\/em> que acaba de encostar em seu peito. Este \u00e9 o efeito do sinistro que dispara o incerto das situa\u00e7\u00f5es da loucura: quanto h\u00e1 de inconsci\u00eancia e de inten\u00e7\u00e3o cruel no dito por ela? Quanto h\u00e1 de met\u00e1fora injuriante ou de alucina\u00e7\u00e3o no que ele transmite? Algo, no entanto, \u00e9 certo. Trata-se dessa faceta da experi\u00eancia do sinistro em que <em>fica abolida a distin\u00e7\u00e3o entre fantasia e realidade e entre s\u00edmbolo e simbolizado<\/em>.<\/p>\n<p>Essa perda da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, afetando o processamento de um enunciado metaf\u00f3rico, fica bem ilustrada, a meu ver, tamb\u00e9m no trabalho de Freud (1915) sobre &#8220;O inconsciente&#8221;, quando traz exemplos sobre transtornos da linguagem em estados iniciais da psicose. Ele toma como exemplo uma paciente de Tausk que conseguia proporcionar, ela mesma, a explica\u00e7\u00e3o de suas palavras. A paciente chega \u00e0 consulta depois de ter brigado com seu noivo e exclama: &#8220;Os olhos n\u00e3o est\u00e3o bem!&#8221; (interessante, de novo os olhos!) &#8220;Meus olhos n\u00e3o est\u00e3o bem, est\u00e3o tortos!&#8221; E acrescenta, depois de uma s\u00e9rie de reprova\u00e7\u00f5es contra o noivo: &#8220;Nunca me compreende. Cada vez se mostra diferente. \u00c9 um hip\u00f3crita que me entortou os olhos, fazendo com que eu veja de forma torta todas as coisas&#8221;. A palavra usada pela paciente \u00e9 <em>Augenverdrehe<\/em>r, literalmente &#8220;entortador ou virador de olhos&#8221;, com o sentido figurado de enganador ou simulador. Freud (1915) explica isso como efeito da retra\u00e7\u00e3o narc\u00edsica da libido, que carrega as representa\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os do corpo com a totalidade da significa\u00e7\u00e3o de um determinado conte\u00fado, dando \u00e0 frase um car\u00e1ter hipocondr\u00edaco.<\/p>\n<p>No caso de Natanael, n\u00e3o \u00e9 o corpo dele, mas o dela que vira um &#8220;maldito aut\u00f4mato sem vida&#8221;. Aboli\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o, como vimos, da Morte, a deusa no sentido m\u00edtico recuperado no poema que constitu\u00eda uma &#8220;admiss\u00e3o&#8221;, uma elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do trauma da morte do pai. Ou, talvez, uma manuten\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o com aboli\u00e7\u00e3o do sentido, s\u00f3 que sempre ligada \u00e0 imagem dela. Uma imagem que, no entanto, pode reverter-se em imagem dele mesmo, que foi desventurado e manipulado como um boneco sem vida na primeira das cenas traum\u00e1ticas do conto. Corresponderia, enfim, a um fantasma organizado a partir da imagem especular.<\/p>\n<p>Esse conceito de <em>imagem especular<\/em> aparece bem desenvolvido no trabalho de Rank (1912) sobre &#8220;O duplo&#8221;; est\u00e1 presente no conto de Hoffmann, explicitamente como &#8220;imagem do eu&#8221;; \u00e9 retomado por Freud no texto <em>Das Unheimliche<\/em>, e \u00e9 sabido que atingir\u00e1 seu m\u00e1ximo valor metapsicol\u00f3gico e cl\u00ednico quando Lacan (1949) o articula com todas as investiga\u00e7\u00f5es sobre o desenvolvimento da percep\u00e7\u00e3o de si mesmo e do outro, por parte da crian\u00e7a, que estavam em curso na Fran\u00e7a. Ele mostrar\u00e1, justamente, que o fantasma de castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais do que uma variante, que se imp\u00f5e posteriormente, do fantasma de &#8220;corpo cortado em peda\u00e7os&#8221;. Fantasma este que pode reaparecer toda vez que falha a sustenta\u00e7\u00e3o narc\u00edsica do eu.<\/p>\n<p>Os fen\u00f4menos de transitivismo, transloca\u00e7\u00e3o de ideias, sentimentos etc., de uma pessoa a outra, permuta\u00e7\u00e3o de pessoas e outros fen\u00f4menos do mesmo tipo, que Freud enumera neste trabalho, ser\u00e3o aprofundados por Lacan (1949) em rela\u00e7\u00e3o ao outro especular a partir de estudos importantes de Wallon nesse sentido (Merleau-Ponty, 1990; Rosolato, 1983).<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o sei se Melanie Klein (1952) e seus seguidores conheceram esses trabalhos, mas todas as teoriza\u00e7\u00f5es que giram em torno do conceito de <em>identifica\u00e7\u00e3o projetiva<\/em> conseguem dar uma explica\u00e7\u00e3o bem coerente a esses fen\u00f4menos e t\u00eam grande efic\u00e1cia cl\u00ednica. A identifica\u00e7\u00e3o projetiva est\u00e1 presente, por exemplo, no centro da interpreta\u00e7\u00e3o que a autora realiza do romance de Julien Green, <em>Se eu fosse voc\u00ea<\/em>, que gira em torno, tamb\u00e9m, de um pacto com o dem\u00f4nio (Klein, 1955).<\/p>\n<p>Prossigamos com nosso conto. A partir dessa briga entre Natanael e Clara segue-se, como vimos, uma explos\u00e3o de agressividade entre ele e Lot\u00e1rio que por pouco n\u00e3o acaba em morte real. Enfim, uma repeti\u00e7\u00e3o quase completa da cena familiar infantil com um ato final parecido. Todos se acalmam, mas concordam que a m\u00e3e n\u00e3o deve saber nada sobre o acontecido. No sistema de recusa familiar, Clara e a m\u00e3e intercambiaram seus pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Gostaria de retomar esse momento final do encontro com Clara no qual, como dissemos, aparece o sinistro da eclos\u00e3o da loucura. Esse desenlace da trama no final da cena que escolhemos nos remete a pensar no papel do outro real na eclos\u00e3o da psicose. Consideremos, para isso, o caso Schreber (Freud, 1911), seguindo a an\u00e1lise que prop\u00f5e Octave Mannoni (1978) para entender o papel de Flechsig.<\/p>\n<p>Numa interna\u00e7\u00e3o anterior, Schreber o tinha conhecido e admirado, estabelecendo, como diz Freud, uma transfer\u00eancia. Quando o consulta pela segunda vez, com uma queixa de ins\u00f4nia, a esperan\u00e7a \u00edntima \u00e9 de ser reconhecido em suas conquistas profissionais (Presidente do Senado etc.). Flechsig recebe-o, ouve sua queixa e inicia &#8220;um longo discurso de not\u00e1vel eloqu\u00eancia sobre os progressos da neurologia, prometendo-lhe a cura mediante son\u00edferos novos e muito eficazes&#8221;. Nisto, diz Mannoni (1978), o discurso neurol\u00f3gico de Flechsig repete o discurso pedag\u00f3gico de Gottlob Schreber, o pai do paciente. Ambos suprimem o outro como sujeito, sujeito de desejo. E esse \u00e9 o \u00e2mago da repeti\u00e7\u00e3o mort\u00edfera na psicose, como se o destino tivesse tramado o pior dos encontros.<\/p>\n<p>Tampouco esteve a\u00ed ausente a frase infeliz. Parece que Flechsig diz a Schreber que com o aux\u00edlio desses rem\u00e9dios novos ele iria conseguir um sono tranquilo e &#8220;fecundo em sonhos&#8221;. Isto dito a um homem que ansiava por ter descend\u00eancia, e cuja mulher abortava ano ap\u00f3s ano. Ele tocou assim, tal como Clara no conto, no n\u00facleo da estrutura narc\u00edsica do paciente. Schreber n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o conseguiu liberar-se da ins\u00f4nia, como entrou, tempos depois, naquele del\u00edrio t\u00e3o fecundo em que uma alma-Flechsig o perseguia para destruir a sua.<\/p>\n<p>Penso que \u00e9 fundamental compreender que nesses v\u00ednculos a sombra do sinistro se apresenta pelo lado do outro, daquele que d\u00e1 um ponto de apoio para o ego ideal do paciente, \u00e0 sua imagem especular (Bleger, 1967; Cesarotto, 1987; Penot, 1992). Uma esp\u00e9cie de alegoria disso torna-se patente na explos\u00e3o final da hist\u00f3ria de Natanael. Ele e Clara estavam na torre da Prefeitura, olhando para a paisagem, e nos \u00e9 dito depois que entre as pessoas na frente do pr\u00e9dio se podia ver o advogado Coppelius que reapareceu surpreendentemente no relato. Freud d\u00e1 a seguinte interpreta\u00e7\u00e3o: &#8220;Temos direito a supor que a loucura estourou quando Natanael viu pelo bin\u00f3culo que ele se aproximava.&#8221; N\u00e3o obstante, o texto do conto diz o seguinte:<\/p>\n<p>\u201cVeja s\u00f3 aquele estranho pequeno arbusto cinzento, que at\u00e9 parece estar andando em nossa dire\u00e7\u00e3o \u2013 observou Clara. Automaticamente, Natanael p\u00f4s a m\u00e3o no bolso, encontrando o bin\u00f3culo de Coppola e olhou para o lado: Clara estava na frente das lentes! A\u00ed seus pulsos e suas veias palpitaram convulsivamente \u2013 l\u00edvido fitou Clara&#8230;\u201d (p. 51).<\/p>\n<p>Dissemos que nessas situa\u00e7\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o mort\u00edfera o destino parece tramar os piores encontros. Dito assim, dessa maneira, formula-se um enunciado com forma de <em>sinistro<\/em>, ao estilo de Natanael, o discurso do demon\u00edaco. Penso, justamente, que a teoria da puls\u00e3o de morte que Freud (1920) est\u00e1 produzindo simultaneamente ao texto de <em>Das Unheimliche<\/em>, que ser\u00e1 publicada no ano seguinte, combina, em seu tecido discursivo, enunciados ao estilo de Natanael com enunciados ao estilo de Clara, sendo isso, tamb\u00e9m, o que o faz t\u00e3o impressionante.<\/p>\n<p>Surge aqui uma pergunta poss\u00edvel. Seria imprescind\u00edvel a hip\u00f3tese da puls\u00e3o de morte para explicar a emerg\u00eancia da <em>rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa<\/em>, quando poderia considerar-se como algo que surge <em>entre<\/em> os membros da <em>dupla anal\u00edtica<\/em>, em fun\u00e7\u00e3o da estrutura do sistema narc\u00edsico que a\u00ed se constitui e que passa por fraturas, reformula\u00e7\u00f5es e estagna\u00e7\u00f5es? Porque ao analista tamb\u00e9m escapam coisas, inclusive, \u00e0s vezes, frases infelizes que nos d\u00e3o vontade de &#8220;morder a pr\u00f3pria l\u00edngua&#8221;. Mas ele \u201cse toca&#8221;, podendo, inclusive, ao aceitar-se falhando, inserir uma abertura no processo.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o para situar-se frente ao que faz sentido, aos sentidos inesperados, aos contrassentidos, ao que n\u00e3o faz sentido e talvez nunca fa\u00e7a, mas, principalmente, frente \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o de sentido. N\u00e3o se trata de <em>familiaridade<\/em> com o sinistro \u2013 modo de recusa que lembra os fen\u00f4menos de <em>toler\u00e2ncia<\/em> social ou cultural identific\u00e1veis como &#8220;banaliza\u00e7\u00f5es&#8221;. Trata-se de uma estranheza que p\u00f5e em marcha um movimento de indaga\u00e7\u00e3o a ser compartilhado com outros. E que, quanto mais o fa\u00e7amos, melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bleger, J. <em>Simbiosis y ambiguedad<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1967.<\/p>\n<p>Cesarotto, O. No olho do Outro. In: <em>Contos sinistros<\/em>. S\u00e3o Paulo: Max Limonad, 1987<\/p>\n<p>Freud, S. (1894) Las neuropsicosis de defensa. <em>Obras Completas<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v. III.<\/p>\n<p>________. (1907) EI delirio y Ios sue\u00f1os en Ia \u201cGradiva\u201d de W. Jensen. <em>Op. cit<\/em>., v. IX.<\/p>\n<p>________. (1913) EI motivo de Ia elecci\u00f3n deI cofre. <em>Op. cit<\/em>., v. XII.<\/p>\n<p>________. (1915) Lo inconciente. <em>Op. cit<\/em>., v. XIV.<\/p>\n<p>________. (1918) De la hist\u00f3ria de una neurosis infantil. <em>Op. cit.<\/em>, v. XVII.<\/p>\n<p>________. (1919) Lo ominoso (<em>Das Unheimlich<\/em>). <em>Op. cit<\/em>., v. XVII.<\/p>\n<p>________. (1920) M\u00e1s all\u00e1 del principio del placer. <em>Op. cit<\/em>., v. XVIII.<\/p>\n<p>________. (1927c) El fetichismo. <em>Op. cit<\/em>., v. XXI.<\/p>\n<p>Hoffmann, E. T. A. (1817) O homem de areia. In: <em>Contos sinistros<\/em>. S\u00e3o Paulo: Max Limonad, 1987.<\/p>\n<p>Klein, M. (1952) <em>Desarrollos en psicoan\u00e1lisis<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1962.<\/p>\n<p>________. (1955) Sobre Ia identificaci\u00f3n. In: <em>Nuevas direcciones en psicoan\u00e1lisis<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1965.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1949). EI estadio del espejo como formador de Ia funci\u00f3n del yo tal como se nos revela en Ia experiencia psicoanal\u00edtica. In: <em>Escritos<\/em>. M\u00e9xico: Siglo XXI, 1977.<\/p>\n<p>________. (1959) De una cuesti\u00f3n preliminar a todo tratamiento possible de Ia psicosis. In: <em>Escritos 2<\/em>. M\u00e9xico: Siglo XXI, 1978.<\/p>\n<p>Mannoni, O. Presidente Schreber, Profesor Flechsig. In: <em>Psicoan\u00e1lisis de la psicosis. Carpeta de psicoan\u00e1lisis 1<\/em>. Buenos Aires: Letra Viva, 1978.<\/p>\n<p>Merleau-Ponty, M. A experi\u00eancia do outro. In: <em>Merleau-Ponty na Sorbonne. <\/em><em>1949-1952<\/em>. Campinas: Papirus, 1990.<\/p>\n<p>Penot, B. <em>Figuras da recusa<\/em>: aqu\u00e9m do negativo<em>. <\/em>Porto Alegre: Artes M\u00e9dicas, 1992.<\/p>\n<p>Pichon-Rivi\u00e8re, E. <em>Del psicoan\u00e1lisis a la psicolog\u00eda social<\/em>; v. 2. Buenos Aires: Galerna, 1971.<\/p>\n<p>Rank, O. (1912) <em>El doble<\/em>. Buenos Aires: Ori\u00f3n, 1976.<\/p>\n<p>Rosolato, G. EI narcisismo. In: <em>Narcisismo<\/em>. Buenos Aires: Ediciones del 80, 1983.<\/p>\n<p>Zito-Lema, V. <em>Conversaciones con Enrique Pichon-Rivi\u00e8re<\/em>: sobre el arte y la locura. Buenos Aires: Timerman, 1976<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Publicado originalmente no livro <em>Freud: um ciclo de leituras<\/em>, organizado por Silvia Leonor Alonso &amp; Ana Maria Siqueira Leal (S\u00e3o Paulo: Escuta \/ Fapesp, 1997, pp. 205-217). Grande parte do elaborado em sua apresenta\u00e7\u00e3o no 1\u00ba ciclo de debates do Curso de Psican\u00e1lise em 1995, intitulado <em>Leituras de Freud<\/em>, teve como origem o trabalho realizado com os alunos do 4\u00ba ano do Curso de Psican\u00e1lise e com a equipe do Curso Psicoses: concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e estrat\u00e9gias institucionais.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Mantenho, para traduzir <em>Unheimliche, <\/em>o termo \u201csinistro\u201d, correspondente \u00e0 palavra <em>siniestro<\/em> utilizada na tradu\u00e7\u00e3o ao espanhol pela edi\u00e7\u00e3o Amorrortu (Buenos Aires).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> A tradu\u00e7\u00e3o deste trecho de Freud, bem como as demais que se seguem neste livro, foi feita livremente pelo autor a partir da edi\u00e7\u00e3o em espanhol da Amorrortu.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Este percurso te\u00f3rico \u00e9 desenvolvido de forma clara e detalhada em <em>Figuras da recusa<\/em>, de B. Penot (1992)<em>.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> A palavra aqui usada, <em>Dementirung<\/em>, foi traduzida para o espanhol como <em>desmentida<\/em>, e para o portugu\u00eas, na <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira<\/em>, como <em>nega\u00e7\u00e3o<\/em>. Seu significado coincide teoricamente com o de <em>Verleugnung<\/em>, ao qual, pelo uso comum admitido hoje, corresponde o termo <em>recusa<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Semelhante, nesse aspecto, ao estilo dos poemas de Lautr\u00e9amont (Pichon-Rivi\u00e8re, 1971).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Ver as rela\u00e7\u00f5es entre o \u201csinistro\u201d e o processo criativo em Pichon-Rivi\u00e8re (1971) e em Zito-Lema (1976).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Hoje e aqui, talvez ele chegasse a ela com uma can\u00e7\u00e3o com letra de Gabriel, o pensador, m\u00fasica dos <em>Mamonas Assassinas<\/em> e interpreta\u00e7\u00e3o da banda <em>Sepultura<\/em> \u2013 nomes sombrios \u00e9 que n\u00e3o faltam.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Romance dist\u00f3pico publicado em 1953 por Ray Bradbury e filmado por Fran\u00e7ois Truffaut em 1966.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O estranho como movimento de indaga\u00e7\u00e3o a ser compartilhado com outros. 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