{"id":1730,"date":"2022-06-01T16:20:38","date_gmt":"2022-06-01T19:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1730"},"modified":"2022-06-01T16:20:38","modified_gmt":"2022-06-01T19:20:38","slug":"o-samba-da-transmissao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/o-samba-da-transmissao\/","title":{"rendered":"O samba da transmiss\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O samba da transmiss\u00e3o<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>D\u00e9borah de Paula Souza<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Diz o velho sambista:<br \/>\n<\/strong><strong>entregar\u00e1 o seu anel de bamba<br \/>\n<\/strong><strong>a quem mere\u00e7a usar.<br \/>\n<\/strong><strong>Eu quero esse anel.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Praticamente tudo o que tenho me foi ofertado. O que n\u00e3o foi, eu roubei. Ou ent\u00e3o inventei minhas riquezas e faltas, com retalhos dos presentes e dos ferimentos. Eis um modo de possuir e aprender: receber a d\u00e1diva, devor\u00e1-la ou roub\u00e1-la. (Vale tamb\u00e9m para desditas e desastres que reverberam em toda gente, por gera\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o \u2013 com seu prefixo trans, sua missa e sua miss\u00e3o \u2013 consiste numa esp\u00e9cie de circula\u00e7\u00e3o. Tem a ver com tr\u00e2nsito, transe, transa\u00e7\u00e3o e c\u00f3digo. Nem toda transmiss\u00e3o se decifra de imediato. Uma parte \u00e9 DNA e ele foi decodificado. A ci\u00eancia tem seus assombros. Mas agora algu\u00e9m me explique: os olhos pretos, a av\u00f3 portuguesa com olheiras, os mouros, a embarca\u00e7\u00e3o, a coruja com far\u00f3is amarelos vigiando a noite. Que sequ\u00eancia \u00e9 essa?<\/p>\n<p>Uma breve hist\u00f3ria familiar: enquanto meu av\u00f4 trabalhava como oper\u00e1rio na estrada de ferro sorocabana no interior de S\u00e3o Paulo, minha av\u00f3 enxergou pequenos n\u00fameros lavrados a ferro na lateral da m\u00e1quina de costura e jogou no bicho. Rezou e ganhou o jogo. Deste modo, conseguiu alimentar os filhos durante uma temporada. Depois, a av\u00f3 tornou-se abstrata: enxergava bichos nas nuvens do c\u00e9u, ganhou diversas quantias no jogo ao longo da vida. Nada muito exagerado. \u201cEu s\u00f3 ganho o necess\u00e1rio\u201d, ela dizia, pois passou necessidades. Sou sua neta e tamb\u00e9m vejo bichos nas nuvens e at\u00e9 um santo, montado num drag\u00e3o, na lua cheia. Por\u00e9m n\u00e3o ganho apenas o necess\u00e1rio. Ganho mais. Afortunadamente, acumulo hist\u00f3rias, as minhas e outras que me contam, as do cinema, consult\u00f3rio, vizinhan\u00e7a, podcasts, viagens e por a\u00ed afora. (A\u00ed afora s\u00e3o as minhas mil e uma noites, um modo de n\u00e3o morrer).<\/p>\n<p>Para os m\u00edsticos, a transmiss\u00e3o \u00e9 de ordem inici\u00e1tica. Na cabala, grande \u00eanfase \u00e9 dada \u00e0 possibilidade de receber o que foi transmitido. Em muitas tradi\u00e7\u00f5es, os or\u00e1culos t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de traduzir as mensagens dos deuses e dos s\u00e1bios, para que elas cheguem aos destinat\u00e1rios. \u00a0\u00c9 com o dom das palavras que se constr\u00f3i essa ponte herm\u00e9tica \u2013 ligada a Hermes, deus grego, ou Merc\u00fario, na vers\u00e3o romana. S\u00e3o eles os deuses mensageiros, que transitam entre mundos, padroeiros da comunica\u00e7\u00e3o, dos viajantes, ladr\u00f5es e comerciantes. Mas a possibilidade de receber e absorver tamb\u00e9m aparece na perspectiva cient\u00edfica e profana, como assisti na <em>live <\/em>da nutricionista: n\u00e3o basta selecionar o bom alimento e comer, \u00e9 preciso estar pronta para a absor\u00e7\u00e3o. Ah, como eu quero estar pronta para a absor\u00e7\u00e3o! N\u00e3o falo s\u00f3 do c\u00e1lcio do iogurte, fortalecedor do esqueleto, mas de conhecimentos que pudessem acolher meus ossos: conhecimentos da vida, do amor e da morte.<\/p>\n<p>O gato no sol absorve o calor, a semente absorve a luz. A fotoss\u00edntese \u00e9 natural. Tudo o que parece natural \u00e9 na verdade um esc\u00e2ndalo. Sei l\u00e1 de onde absorvi essa ambi\u00e7\u00e3o de pegar o anel do poeta que fez do amor de transmiss\u00e3o um samba popular: (&#8230;) \u201cAntes de me despedir\/deixo ao sambista mais novo\/ o meu pedido final\/ n\u00e3o deixe o samba morrer\/ n\u00e3o deixe o samba acabar. (&#8230;) O meu anel de bamba\/ entrego a quem mere\u00e7a usar (&#8230;)\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Uma pergunta: se eu me apoderar das palavras, ou desse modo de respirar de um poeta, encadeando e suspirando de outro jeito, aquilo tudo ser\u00e1 meu ou dele? N\u00e3o se herdam palavras como se herdam olhos castanhos e, mesmo quando isso acontece, elas n\u00e3o se revelam de imediato. (A letra viva \u00e9 mais complexa do que o jogo de bicho, a etimologia das nuvens, o tor\u00f3, a torah e o samba de breque). Imagine ent\u00e3o a transmiss\u00e3o de uma l\u00edngua. No c\u00e9u da boca. Uma l\u00edngua crua ou queimada. Da boca para fora e para dentro. Uma l\u00edngua de beijo, de falantes, de mudos e de mudas. A l\u00edngua-chama, chamada materna ou estrangeira. Mas n\u00e3o evocarei a m\u00e3e morta e sim a l\u00edngua morta. As not\u00edcias do \u00faltimo falante dessa l\u00edngua \u00e0 m\u00edngua. Quase sempre um ind\u00edgena. Agora algu\u00e9m me explique o elo de transmiss\u00e3o que reverberou nos meus endere\u00e7os na zona oeste de S\u00e3o Paulo: rua Tucambira, Cotox\u00f3, Icoarana e Acopiara. \u00a0N\u00f3s moramos nessa aldeia. No entanto, o que \u00e9 preciso saber, qual c\u00e2ntico entoar para absorver esta palavra: genoc\u00eddio. N\u00e3o se absorve isso sem morrer. E essa parte que morre em n\u00f3s, n\u00e3o sabemos o que fazer com ela.<\/p>\n<p><strong>Professores, poetas e garrafas no mar<\/strong><\/p>\n<p>Uma torrente de pensamentos traz meus professores e minhas professoras \u00e0 beira desta cr\u00f4nica. Todos eles, desde os que me orientaram quando eu era crian\u00e7a at\u00e9 os recentes, os dos semin\u00e1rios <em>online <\/em>da pandemia, incluindo minhas professoras de corpo \u2013 elas que, h\u00e1 tantos anos, me preparam para a absor\u00e7\u00e3o do prana, do passo, do ritmo e do al\u00edvio da dor. Gente que sabe coisas de omoplatas e \u00edsquios. Mas tamb\u00e9m outros mestres e a vertigem necess\u00e1ria para eu receber o impacto disto: o corpo docente. Sim, o <em>corpo docente<\/em>: que express\u00e3o \u00e9 essa?\u00a0 Que idioma, que arrebatamento de amor. Sigamos assim. Na trans-miss\u00e3o do amor. A transmiss\u00e3o \u00e9 um sim, \u00e9 o OM dos hindus, com sua fuma\u00e7a cheirosa fazendo media\u00e7\u00e3o com os deuses de nomes sibilantes como Shiva, o bailarino, que fabrica, destr\u00f3i e regenera o mundo enquanto dan\u00e7a. Eu queria saber ler e dan\u00e7ar o baile inteiro, eu queria saber absorver, eu queria agradecer a d\u00e1diva. O sagrado sempre me deixou quieta.<\/p>\n<p>Quanto ao Freud, me deixa inquieta. Sinceramente, n\u00e3o sei como me transmitiram essas portas abertas para o mar. A terapia pela palavra, s\u00f3 posso assimilar em sonhos. Ent\u00e3o \u00e9 Isso. Vou sonhar que Freud tem um encontro marcado, n\u00e3o comigo, com nosso ancestral de barbas brancas, Walt Whitman, que nos disse: \u201cNenhuma palavra mais que n\u00e3o seja uma palavra de amor.\u201d Os velhos e as velhas que eu amei, eu os amarei para sempre. Assim aprendi. N\u00e3o me lembro com quem. Tem muita coisa de amor sem autoria. S\u00e3o conchas e algas e correntes mar\u00edtimas. Aprende-se.<\/p>\n<p>No arquivo mundano, sigo anal\u00f3gica e obtusa, mas n\u00e3o completamente. Testei o ponto do escriba. Recebi a transmiss\u00e3o e repasso a mensagem: a corrente, a not\u00edcia, a passagem, a garrafa no mar, o bilhete enovelado, a profecia dos mortos, a sequ\u00eancia do genoma, nosso parentesco com chipanz\u00e9s e bonobos, sem contar aquele livro da antrop\u00f3loga que, por sua vez, recebeu o beijo do urso. Ele arrancou um peda\u00e7o de sua mand\u00edbula e, em troca, lhe deu parte de sua intui\u00e7\u00e3o farejadora de bicho<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. A miss\u00e3o de transmitir\/receber ocorre quando menos se espera. O acaso, seria ele tamb\u00e9m um professor?<\/p>\n<p>Isso tudo, livros e mestres, ursos e s\u00edmios, re\u00fanem-se em volta da fogueira acesa das minhas lembran\u00e7as, onde bailam como ciganos os professores que sempre souberam da sua miss\u00e3o e aqueles outros, que ensinam sem saber. Como \u00e9 largo o rio do saber, a puls\u00e3o, o circuito da escurid\u00e3o e do esclarecimento, a rever\u00eancia \u00e0 biblioteca e seus guardi\u00f5es, como o escritor argentino que morreu cego vendo tudo, ou a brev\u00edssima ilumina\u00e7\u00e3o de um hai-kai:\u00a0 o m\u00e1ximo da condensa\u00e7\u00e3o na grama do ideograma. Meu devaneio de aprendiz persegue um sonhador da \u00c1ustria com disc\u00edpulos em Budapeste, um s\u00e1bio da China, uma bruxa, um xam\u00e3, um animal de poder, um dialeto esquecido, os encantados da floresta. Meu devaneio de aprendiz persegue a nuvem da minha av\u00f3 que leva \u00e0 sorte da fortuna e sua roda que, aqui e agora, me ensinam: tudo absorver e tudo soltar, permanecer vazia como um pote na recep\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, mimetizando insetos na opera\u00e7\u00e3o de coleta e espalhamento de p\u00f3len, em suas conjecturas com o vento.<\/p>\n<p>Recebo esta ventania. Transmite-se para que as coisas sigam nascendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste boletim online.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> <em>N\u00e3o deixe o samba morrer<\/em>\/ can\u00e7\u00e3o de Edson Gomes Concei\u00e7\u00e3o e Alo\u00edsio Silva.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> <em>R<\/em>efer\u00eancia ao livro <em>Escute as Feras, <\/em>de Nastassja Martin, Editora 34.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nenhuma palavra mais que n\u00e3o seja uma palavra de amor. D\u00e9borah de Paula Souza transmite o encontro entre Sigmund Freud e Walt Whitman. Para que as coisas sigam nascendo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[104],"edicao":[114],"autor":[139],"class_list":["post-1730","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos","tag-cronicas","edicao-boletim-63","autor-deborah-de-paula-souza","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1730","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1730"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1730\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1731,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1730\/revisions\/1731"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1730"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1730"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}