{"id":1877,"date":"2022-09-15T18:02:08","date_gmt":"2022-09-15T21:02:08","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1877"},"modified":"2022-09-15T18:02:08","modified_gmt":"2022-09-15T21:02:08","slug":"isildinha-deivinho-e-a-nossa-extraordinaria-capacidade-de-sonhar-e-desejar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/09\/15\/isildinha-deivinho-e-a-nossa-extraordinaria-capacidade-de-sonhar-e-desejar\/","title":{"rendered":"Isildinha, Deivinho e a nossa extraordin\u00e1ria capacidade de sonhar e desejar"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Isildinha, Deivinho e a nossa extraordin\u00e1ria capacidade de sonhar e desejar<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Fernanda Almeida<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estamos\u00a0a tr\u00eas semanas das elei\u00e7\u00f5es mais sangrentas do pa\u00eds; tem sido uma luta di\u00e1ria controlar a ansiedade, a preocupa\u00e7\u00e3o e o medo. Um exerc\u00edcio di\u00e1rio que exige do corpo e do psiquismo. Associo \u00e0 corrida de uma maratona, uma experi\u00eancia\u00a0que deve exigir persist\u00eancia, perseveran\u00e7a e autocontrole. Diferente de uma prova de esfor\u00e7o\u00a0f\u00edsico, o preparo para o &#8220;<em>sprint&#8221;<\/em> final das elei\u00e7\u00f5es, no meu caso, \u00e9 feito atrav\u00e9s da busca de doses suplementares de delicadeza, carinho e bons afetos. S\u00e3o as defesas necess\u00e1rias para suportar a trucul\u00eancia e a crueza do tempo que nos foi reservado viver. Assim, n\u00e3o\u00a0tenho recusado convites para cinemas, espet\u00e1culos, teatros e encontros que assegurem a prescri\u00e7\u00e3o do mestre Guimar\u00e3es Rosa: <em>\u201cqualquer amor j\u00e1 \u00e9 um pouquinho de sa\u00fade, um descanso na loucura\u201d.<\/em>\u00a0 Malem\u00e1, tem funcionado.<\/p>\n<p>Foi abastecida deste prop\u00f3sito que assisti a dois filmes no mesmo dia. Um document\u00e1rio e um longa-metragem que me lembraram que a capacidade de sonhar e desejar expressam o que h\u00e1 de mais significativo em cada\u00a0um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Isildinha Baptista Nogueira \u00e9 a entrevistada do projeto <em>Psicanalistas que falam<\/em>, dirigido por Heidi Tabacof, assistida pelo meu querido amigo Jonas Waks. O document\u00e1rio traz o\u00a0incr\u00edvel\u00a0percurso da forma\u00e7\u00e3o desta mulher negra que ousou sonhar e conquistou (n\u00e3o sem esfor\u00e7o pessoal e resist\u00eancias por parte da branquitude) espa\u00e7o e respeito no meio psicanal\u00edtico brasileiro e tamb\u00e9m internacional, sobretudo na Fran\u00e7a. Isildinha nos mostra as contradi\u00e7\u00f5es existentes entre seu lugar como uma intelectual erudita, psicanalista respeitada e admirada e a destrutividade do racismo que lhe imp\u00f5e a condi\u00e7\u00e3o de &#8220;nada&#8221;, fora dos certames acad\u00eamicos e intelectuais. A contund\u00eancia de suas posi\u00e7\u00f5es, a ternura de suas mem\u00f3rias e a do\u00e7ura da voz encantam e encorajam aquelas e aqueles que teriam tudo para desistir, mas seguem, como ela, sonhando e resistindo. O sonho e a ousadia mudaram a trajet\u00f3ria desta mulher. O seu percurso transformou mais que a sua vida, hoje ele expressa mudan\u00e7as significativas na pr\u00f3pria psican\u00e1lise brasileira, ao atribuir cor ao inconsciente.<\/p>\n<p>No filme <em>Marte Um<\/em>, Deivinho \u00e9 o filho mais novo da fam\u00edlia Martins, trabalhadores negros que vivem na periferia da grande BH. Deivinho deseja estudar astrof\u00edsica e sonha em participar da miss\u00e3o que projeta a coloniza\u00e7\u00e3o de Marte. O filme \u00e9 de uma beleza e sutileza indescrit\u00edveis. Cada personagem \u00e9 um universo particular e pulsional de desejos. O filme foi indicado para representar\u00a0o Brasil na disputa de melhor filme estrangeiro no Oscar 2023, uma verdadeira fissura na estrat\u00e9gia bolsonarista de apropria\u00e7\u00e3o e apagamento da representa\u00e7\u00e3o cultural da fam\u00edlia brasileira. Representa\u00a0um Brasil que insiste, que persiste e que resiste, pois a esperan\u00e7a e a delicadeza s\u00e3o ant\u00eddotos necess\u00e1rios\u00a0frente \u00e0 monstruosidade cotidiana imposta pelo fascismo do falastr\u00e3o que preside o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A noite estava gelada e \u00famida quando sa\u00ed do cinema, voltei para casa pedalando e construindo na minha cabe\u00e7a como seria um poss\u00edvel encontro entre Deivinho e Isildinha. Os dois conversariam baixinho, imagino a do\u00e7ura desta cena. Fico tecendo os fios que ligam as duas hist\u00f3rias. Penso no diminutivo de seus nomes e no sentido afetivo que isso carrega. Penso no Brasil da jovem Isildinha que partiu para a Fran\u00e7a levando uma carta na mala, e no pa\u00eds mal-acabado e j\u00e1 destru\u00eddo que tenta roubar o futuro do Deivinho. Reflito sobre a paix\u00e3o que ambos nutrem pelo conhecimento, pela ci\u00eancia\u00a0e pela pesquisa. Penso no fasc\u00ednio que o desconhecido mobiliza nestas duas personagens \u2013 ela quer escutar a cor do inconsciente, ele quer colonizar Marte. As coincid\u00eancias n\u00e3o param por a\u00ed. Fico por um tempo fantasiando (a boa brincadeira dos adultos) e imaginando os fios associativos que ligam uma hist\u00f3ria \u00e0 outra. No entanto, \u00e9 a cor de suas peles e as marcas do racismo que me mobilizam a refletir sobre a import\u00e2ncia e a liga\u00e7\u00e3o entre os sonhos e desejos deles. S\u00e3o corpos negros; penso no encontro diasp\u00f3rico destes dois sujeitos. Viajo com eles &#8211; primeiro\u00a0para Fran\u00e7a &#8211; e, distraidamente, percebo que estou a um pulinho de Marte.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 madrugada, estou alegre\u00a0ao me perceber otimista. Ainda que o inescrupuloso projeto fascista vencesse as elei\u00e7\u00f5es, as fissuras est\u00e3o postas. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel ignorar os recalques hist\u00f3ricos que escamotearam a estrutura profundamente racista, classista e sexista deste pa\u00eds. O mal-estar deve nos impulsionar a enfrentar o conflito, da forma como sabemos fazer, no campo da arena democr\u00e1tica. Enquanto escrevo tenho certeza que existem outras Isildinhas e Deivinhos sonhando, desejando e olhando para as estrelas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Assistente social, coordenadora do curso de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social e Sa\u00fade da FAPSS-SP. Atua na Rede P\u00fablica de Sa\u00fade (SUS) em um Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial \u00c1lcool e Drogas (CAPS-AD). Psicanalista em forma\u00e7\u00e3o no Curso Psican\u00e1lise do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. Integra o Projeto Territ\u00f3rios Cl\u00ednicos da Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas vezes cinema: Fernanda Almeida olha para as estrelas e responde entusiasmada aos convites de Quelany Vicente e de Ded\u00e9 Ribeiro.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[142],"tags":[104],"edicao":[143],"autor":[71],"class_list":["post-1877","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema","tag-cronicas","edicao-boletim-64","autor-fernanda-almeida","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1877","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1877"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1877\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1878,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1877\/revisions\/1878"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1877"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1877"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1877"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1877"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1877"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}