{"id":1885,"date":"2022-09-15T18:16:55","date_gmt":"2022-09-15T21:16:55","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1885"},"modified":"2023-03-23T20:10:49","modified_gmt":"2023-03-23T23:10:49","slug":"conflito-e-sintoma-um-relato-pessoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/09\/15\/conflito-e-sintoma-um-relato-pessoal\/","title":{"rendered":"Conflito e sintoma: um relato pessoal"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Conflito e sintoma: um relato pessoal<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por<strong> Lena Hamu Mattar<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Ningu\u00e9m ignora tudo. Ningu\u00e9m sabe tudo. Todos n\u00f3s sabemos alguma coisa. Todos n\u00f3s<br \/>\nignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.<br \/>\n<\/em>Paulo Freire<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na minha casa, a psican\u00e1lise nunca foi um tema. Sou filha de um m\u00e9dico que \u00e9 um grande admirador de Charles Darwin<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> e acredita exclusivamente na ci\u00eancia; que preza pelas coisas que s\u00e3o pass\u00edveis de serem comprovadas com n\u00fameros, equa\u00e7\u00f5es, dados e pesquisas. J\u00e1 minha m\u00e3e, jornalista que sempre esteve muito mais ligada ao universo din\u00e2mico da produ\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o televisiva, nunca esteve muito conectada a este universo um tanto te\u00f3rico e de desenrolar \u201clento\u201d.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, eu e minha irm\u00e3 sempre fomos muito incentivadas a fazer qualquer tipo de atividade f\u00edsica, cultural, manual, art\u00edstica e autoral. Esse era o &#8220;espa\u00e7o&#8221; para externalizar e expressar o que havia de mais interior. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, se algu\u00e9m me perguntasse, eu diria que o livro dos sonhos deveria se resumir a um agrupamento de s\u00edmbolos e imagens recorrentes que traduziriam os nossos sonhos, como uma esp\u00e9cie de dicion\u00e1rio de consulta e resposta. Achava que a psican\u00e1lise tinha um qu\u00ea de misticismo ou de esoterismo; era algo que me causava as mesmas impress\u00f5es que a astrologia. Foi assim, totalmente ignorante sobre o que era e como funcionava a psican\u00e1lise, que cheguei ao consult\u00f3rio da minha atual terapeuta. Na verdade, acho que cheguei tarde e num ato de desespero, pois aquele era meu \u00faltimo recurso depois de anos j\u00e1 transbordantes de ang\u00fastias por conta de um evento traum\u00e1tico que me mantinha numa duradoura ocupa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica com o passado.<\/p>\n<p>Cinco anos depois, me dei conta do quanto aquele processo havia sido n\u00e3o s\u00f3 essencial para atravessar o trauma, como seguia me ajudando com elabora\u00e7\u00f5es de outros aspectos de minha vida. Mas, apesar de ir tomando consci\u00eancia sobre o evento traum\u00e1tico e seus efeitos sobre mim, o processo psicanal\u00edtico em si me escapava \u00e0 compreens\u00e3o. E foi essa constata\u00e7\u00e3o que me gerou curiosidade e interesse suficientes para saber mais sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o dos conflitos e sintomas humanos e sua cura. Essa pequena introdu\u00e7\u00e3o pessoal tem como fim contextualizar o leitor sobre a minha origem e o meu repert\u00f3rio, uma vez que esta monografia \u00e9 um relato pessoal sobre a minha rela\u00e7\u00e3o com o curso <em>Conflito e Sintoma<\/em>, sendo uma pequena an\u00e1lise sobre os impactos dele em minha vida e em meu processo de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar esta reflex\u00e3o, voltei \u00e0queles que foram minha primeira introdu\u00e7\u00e3o ao tema: os dois textos inaugurais escritos por Luc\u00eda Barbero Fuks e Ana Maria Sigal. Lembrei-me do inc\u00f4modo inicial que senti ao entrar em contato com tantos termos e afirma\u00e7\u00f5es que naquela \u00e9poca n\u00e3o fizeram muito sentido para mim. N\u00e3o \u00e0 toa, os textos est\u00e3o grifados, com interroga\u00e7\u00f5es ao lado de diversos par\u00e1grafos, bem como ganharam um <em>post-it<\/em> com uma lista de termos que me pareceram ser essenciais na psican\u00e1lise e que, para mim, ainda n\u00e3o diziam nada: processo prim\u00e1rio, condensa\u00e7\u00e3o, deslocamento, puls\u00e3o e chistes, entre outros. Recordo-me de ler esses textos e duas coisas virem \u00e0 minha mente: as minhas aulas de l\u00f3gica, durante a faculdade de comunica\u00e7\u00e3o social, e as pegadinhas que meu pai nos fazia quando \u00e9ramos crian\u00e7as: \u201cquem n\u00e3o quer chocolate n\u00e3o pode n\u00e3o levantar a m\u00e3o\u201d, ao que fic\u00e1vamos repetindo aquela frase um tanto curta, mas um tanto capciosa, na tentativa de decifr\u00e1-la para ganhar um chocolate. A sensa\u00e7\u00e3o tem sido a mesma com os textos de Freud que me obrigaram, ao longo do semestre, a ler e reler alguns par\u00e1grafos diversas vezes at\u00e9 que seu sentido fosse revelado &#8211; e, muitas vezes, apenas parcialmente.<\/p>\n<p>Hoje vejo como a psican\u00e1lise tem n\u00e3o s\u00f3 um vocabul\u00e1rio pr\u00f3prio, mas uma sintaxe e uma sem\u00e2ntica pr\u00f3prias. E, apesar de conseguir navegar por tais textos com muito mais facilidade e algum entendimento, n\u00e3o posso deixar de lembrar e de concordar com o que me disse a professora Tide Set\u00fabal durante a minha entrevista de admiss\u00e3o no curso: &#8220;na psican\u00e1lise, a gente apreende os conceitos e depois os perde, os apreende e depois os perde. Voltamos o tempo todo \u00e0s suas defini\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 exatamente o que sinto hoje em dia, pois apesar de j\u00e1 conhecer boa parte dos termos e conceitos e conseguir navegar pelo conte\u00fado, sigo sentindo necessidade de voltar ao <em>Vocabul\u00e1rio<\/em> com muita frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, sinto que a psican\u00e1lise n\u00e3o possui apenas um conjunto gramatical pr\u00f3prio; ela \u00e9, em si, uma outra linguagem; uma que estuda e decifra os conflitos e sintomas da psique humana e que nos permite, com uma investiga\u00e7\u00e3o feita por meio da fala em transfer\u00eancia, elaborar e entender suas causas e assim diminuir sua intensidade e, quem sabe, at\u00e9 cur\u00e1-los. Chegando ao fim desse curso, e tendo passado por alguns dos conceitos b\u00e1sicos da obra freudiana, sinto que come\u00e7o a aprender essa nova l\u00edngua, e que ela me permite ver tudo com outros olhos e ter um outro entendimento do mundo. Situa\u00e7\u00f5es cotidianas ganham novas camadas de significado, as minhas sess\u00f5es de an\u00e1lise mudaram para melhor e express\u00f5es populares como \u201cfulana \u00e9 muito recalcada\u201d ou a famosa \u201cFreud explica\u201d ganharam outro sentido &#8211; e, muitas vezes, um qu\u00ea de humor.<\/p>\n<p>Se antes acreditava que as hist\u00e9ricas eram loucas, hoje sei que eram apenas v\u00edtimas de acontecimentos da inf\u00e2ncia que por algum motivo n\u00e3o haviam sido assimilados e elaborados, tendo assim sido recalcados e, posteriormente, encontrado formas de retornar como sintomas &#8211; muitas vezes som\u00e1ticos. Mudei, inclusive, minha vis\u00e3o sobre \u201cnormalidade\u201d e gosto muito do par\u00e2metro utilizado por Freud para definir essa tal condi\u00e7\u00e3o: sermos seres capazes de amar e de trabalhar.<\/p>\n<p>Se por um lado passei a me empenhar mais em minhas sess\u00f5es de an\u00e1lise, fazendo mais esfor\u00e7os para me lembrar de meus sonhos ou para me lembrar de situa\u00e7\u00f5es esquecidas de minha inf\u00e2ncia e traz\u00ea-los \u00e0s consultas, e isso provocar todo um desenrolar de reflex\u00f5es, dificuldades e sentimentos, por outro lado sinto que a psican\u00e1lise me muniu de resili\u00eancia e empatia para aceitar minha humanidade &#8211; humanidade essa que traz consigo todo este complexo aparato da psique. Achamos que somos \u00fanicos em nossos conflitos e sofrimentos quando, na verdade, Freud nos mostra que temos mais em comum do que podemos imaginar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>James Baldwin<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> disse que \u201cnada \u00e9 mais desej\u00e1vel do que se livrar de uma afli\u00e7\u00e3o, mas nada \u00e9 mais assustador do que ser privado de uma muleta\u201d e, para mim, ela \u00e9 um belo resumo da mec\u00e2nica de nossa psique e sobre como nela atua a psican\u00e1lise. A batalha que se d\u00e1 entre inconsciente e consciente, entre analista e analisando, traz essa din\u00e2mica contradit\u00f3ria de querermos resolver nossas afli\u00e7\u00f5es ao passo que os recalques, e at\u00e9 mesmo os sonhos, nos servem de muletas ao nos satisfazerem momentaneamente. Esses, juntamente com a resist\u00eancia, nos distanciam das reais causas de tais afli\u00e7\u00f5es &#8211; e que hoje, gra\u00e7as \u00e0 Freud, sabemos que residem em desejos n\u00e3o realizados, que quase sempre surgem \u00e0 \u00e9poca da inf\u00e2ncia. Apesar de nos submetermos ao processo da psican\u00e1lise na esperan\u00e7a de nos livrarmos de tais ang\u00fastias, travamos uma batalha com o profissional em quest\u00e3o. Este, por mais que se d\u00ea conta das caracter\u00edsticas e problemas de seu paciente, n\u00e3o pode simplesmente \u201cjogar&#8221; as cartas na mesa; ele dialoga atrav\u00e9s dos sil\u00eancios e indaga\u00e7\u00f5es na esperan\u00e7a de que seu paciente, atrav\u00e9s da fala, chegue \u00e0s conclus\u00f5es ao passar pelo processo de elabora\u00e7\u00e3o e\/ou resolu\u00e7\u00e3o de seus problemas.<\/p>\n<p>E esse processo n\u00e3o acontece sem um tanto de resist\u00eancia e transfer\u00eancia: resistimos ao acesso dos conte\u00fados do inconsciente uma vez que eles nos colocam cara a cara com nossos desejos que, por sua vez, nos infligem \u201cvexames psicol\u00f3gicos\u201d. Ou seja, ser\u00edamos obrigados a lidar com desejos incompat\u00edveis com a moral que habita nosso consciente. Quanto \u00e0 transfer\u00eancia, ela seria o deslocamento dos conte\u00fados desses tais desejos inconscientes de seus objetos originais para a figura do analista.<\/p>\n<p>O conhecimento de tais conceitos me mostrou a import\u00e2ncia central da palavra na obra freudiana. Assim, compreendo como o meu processo psicanal\u00edtico depende n\u00e3o s\u00f3 de vencer as resist\u00eancias e os recalques, mas da escolha de palavras que dar\u00e3o significado ao conte\u00fado compartilhado. Por\u00e9m, n\u00e3o estaria o pr\u00f3prio processo de escolha das palavras sob influ\u00eancia de tais for\u00e7as? A cura atrav\u00e9s da fala passa pela sele\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o dessas que v\u00eam carregadas de afetos e sentidos. No in\u00edcio do curso, olhava para esse conceito de cura atrav\u00e9s da fala e, muitas vezes, pensava na reflex\u00e3o de Vit\u00e2ngelo Moscarda, personagem principal do livro <em>Um, nenhum, cem mil<\/em> do escritor italiano Luigi Pirandello<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> que, durante um processo de crise e investiga\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, diz:<\/p>\n<p>&#8220;Mas o problema \u00e9 que voc\u00ea, meu caro, nunca saber\u00e1 nem eu lhe poderei nunca dizer como se traduz, em mim, aquilo que voc\u00ea me disse. N\u00e3o falou turco, n\u00e3o. Eu e voc\u00ea usamos a mesma l\u00edngua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos n\u00f3s de que as palavras, em si, sejam vazias? Vazias, meu caro. (\u2026) Ao diz\u00ea-las a mim, voc\u00ea preenche-as com o seu sentido; e eu, ao receb\u00ea-las, inevitavelmente preencho-as com o meu sentido. Pens\u00e1vamos que nos entend\u00edamos; de fato, n\u00e3o nos entendemos\u201d.<\/p>\n<p>Como poderiam analista e analisando se entenderem, dado os diferentes repert\u00f3rios, sentidos e afetos conferidos \u00e0s palavras?<\/p>\n<p>Recentemente, lendo um texto de Paulina S. Rocha intitulado \u201cO sil\u00eancio para a constru\u00e7\u00e3o de narrativas\u201d, no boletim online n\u00ba 60 do Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes Sapientiae,<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> me deparei com uma frase do psicanalista Julian Ajuriaguerra que parece explicar muito bem o que h\u00e1 por tr\u00e1s dessa din\u00e2mica aparentemente invi\u00e1vel e incompreens\u00edvel entre analista e analisando, mas da qual depende o tratamento psicanal\u00edtico: &#8220;endere\u00e7ando-se ao outro, o sujeito se reconhece e se descobre pelo eco de sua pr\u00f3pria voz e encontra, na sua linguagem explicitada, tanto o que est\u00e1 impl\u00edcito no que diz, quanto o que poderia ser respondido\u201d. Ou seja, apesar do psicanalista estar ali para intermediar uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es e elabora\u00e7\u00f5es, a conversa do analisando se d\u00e1 consigo mesmo. S\u00e3o complexidades como essas que me fascinam na psican\u00e1lise e na habilidade do analista de ler nas entrelinhas e contornar desvios feitos por seus pacientes.<\/p>\n<p>A tudo isso \u00e9 essencial, ent\u00e3o, somar a import\u00e2ncia do conceito de associa\u00e7\u00e3o livre, a t\u00e9cnica psicanal\u00edtica por excel\u00eancia, criada por Freud para acessar com mais facilidade os conte\u00fados do inconsciente e que prev\u00ea que o paciente apenas diga tudo que lhe vier \u00e0 mente, sem filtros. \u00c9 essa fala que o analista busca em seu analisando.<\/p>\n<p>Estudar e entender tudo isso me fez consciente sobre o meu pr\u00f3prio processo de an\u00e1lise. Quantos daqueles meus momentos de sil\u00eancio n\u00e3o eram, na verdade, o recalque em a\u00e7\u00e3o? Por que minha analista insistia em retomar e falar sobre palavras que eu havia usado, a meu ver, de maneira t\u00e3o aleat\u00f3ria? Ser\u00e1 que minha mem\u00f3ria era realmente ruim e eu n\u00e3o me lembrava de recorda\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia, como minha analista algumas vezes me indagou?<\/p>\n<p>Por que eu nunca trazia meus sonhos para as sess\u00f5es e por que achava t\u00e3o estranho que, ao relatar um sonho, aquele era o \u00fanico momento que minha analista anotava algo? Lembro de me perguntar se seriam os sonhos t\u00e3o importantes assim. Sim, eles s\u00e3o e hoje eu tenho essa certeza. Como resumiu Freud, eles \u201cs\u00e3o a estrada real para o inconsciente\u201d. E foi a partir dos estudos sobre os sonhos que passei a prestar mais aten\u00e7\u00e3o pela manh\u00e3 e a me esfor\u00e7ar para me recordar e levar aquele material que, mesmo tratando de meros cacos de um sonho aparentemente incompleto, era (e \u00e9) muito rico para minhas sess\u00f5es. Hoje, percebo na pr\u00e1tica da an\u00e1lise de tais sonhos que eles, assim como sintomas e atos falhos, n\u00e3o s\u00e3o meras casualidades. Eles possuem um sentido e guardam uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com a nossa viv\u00eancia. A despeito dos sintomas, um dos focos do curso (e dos estudos freudianos), entendo n\u00e3o s\u00f3 que possuem um sentido, mas sei que sua forma\u00e7\u00e3o se d\u00e1 como um modo substitutivo de certos processos ps\u00edquicos que deveriam ter acontecido, a ponto de a consci\u00eancia ter not\u00edcia dele, mas que n\u00e3o aconteceram &#8211; ou que foram tremendamente perturbados. Esses acabam permanecendo sob dom\u00ednio do inconsciente. Assim, o processo de an\u00e1lise, criado por Freud, consiste em transformar o inconsciente em consciente ou, olhando por outra perspectiva, em preencher as lacunas da mem\u00f3ria e eliminar as amn\u00e9sias.<\/p>\n<p>Tento n\u00e3o hiperanalisar minha pr\u00f3pria an\u00e1lise ou teorizar tudo, mas sinto que minhas sess\u00f5es s\u00e3o mais aprofundadas. Ao passo que vou vencendo certas resist\u00eancias, levando meus sonhos e n\u00e3o medindo minhas palavras, minhas sess\u00f5es ganham em profundidade e complexidade. Hoje, j\u00e1 sou capaz de identificar reminisc\u00eancias do dia anterior ou at\u00e9 mesmo distor\u00e7\u00f5es em meus pr\u00f3prios sonhos; percebo como minha analista traz um mesmo sonho diversas vezes, mesmo meses depois de ocorrido, tamanha a sua import\u00e2ncia; reparo em meus pr\u00f3prios atos falhos e me pergunto seus porqu\u00eas. N\u00e3o que eu tenha autonomia, pois a finalidade n\u00e3o \u00e9 me auto-analisar, mas sinto que estudar psican\u00e1lise proporcionou ainda mais curiosidade &#8211; e uma boa dose de coragem &#8211; para investigar e lidar com meus conflitos e seus sintomas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Outro impacto deste curso em minha vida se deve ao fato de ele coincidir com uma fase de grande import\u00e2ncia e significado para mim: minha primeira gravidez. Hoje, aos quase oito meses de gesta\u00e7\u00e3o, tive o privil\u00e9gio de estudar um pouco sobre as teses de sexualidade infantil de Freud. Assim, enquanto participo de grupos de gestantes e aprendo mais sobre como amamentar e as poss\u00edveis dificuldades que posso vir a enfrentar, sei que o ato significar\u00e1 mais do que um momento de conex\u00e3o entre mim e minha filha e sua alimenta\u00e7\u00e3o. Compreendo que meu seio ser\u00e1 o primeiro objeto do componente oral de seu instinto sexual. Qu\u00e3o estranho seria ouvir isso um ano atr\u00e1s? Talvez at\u00e9 sentisse aquele mesmo inc\u00f4modo que muitos que estavam na plateia das confer\u00eancias introdut\u00f3rias<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> sentiram ao se deparar pela primeira vez com tal ideia. Hoje, consigo me isentar de qualquer tipo de moralidade para olhar para essa tese com outros olhos. Sendo Freud o inventor da psican\u00e1lise, uma introdu\u00e7\u00e3o aos principais conceitos desenvolvidos por ele bem como um entendimento geral de como funciona a din\u00e2mica da nossa psique me possibilitou transitar pelas obras de outros profissionais e por outros cursos de psican\u00e1lise. Apesar de ainda n\u00e3o termos estudado diversos conceitos, que s\u00f3 ser\u00e3o ensinados no segundo ano do curso, absorvo os textos da psicanalista Vera Iaconelli de maneira mais clara e prazerosa. Inclusive, ap\u00f3s participar do curso <em>Sobre m\u00e3es e pais: uma vis\u00e3o psicanal\u00edtica<\/em>, vejo que, por mais que o conte\u00fado tenha sido pensado para leigos, me relacionei com ele de maneira mais desenvolta que meu marido, por exemplo. O desejo de ter filhos, as necessidades ps\u00edquicas da m\u00e3e e do beb\u00ea bem como o que significa exercer a parentalidade hoje em dia foram alguns dos temas abordados.<\/p>\n<p>Compreendi que meu desejo em ter um filho n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 relacionado a uma quest\u00e3o biol\u00f3gica e sociocultural, mas que envolve quest\u00f5es inconscientes, ego\u00edstas e narc\u00edsicas tamb\u00e9m. E que entre esses desejos e a realiza\u00e7\u00e3o da maternidade, existe um abismo.<\/p>\n<p>Assim como existe outro abismo entre aquela que imagino que ser\u00e1 a minha filha e a beb\u00ea que de fato ir\u00e1 nascer. Entre as fantasias de n\u00edvel manifesto e as de n\u00edvel latente, vejo como todo o meu relacionamento e conex\u00e3o com minha beb\u00ea nessa fase gestacional \u00e9, na verdade, uma conex\u00e3o comigo mesma e com a minha inf\u00e2ncia, assim como com os meus desejos e os meus ideais. Afinal de contas, aquela que ir\u00e1 nascer ainda \u00e9 totalmente estranha para mim.<\/p>\n<p>Lendo <em>Beb\u00eas e suas m\u00e3es<\/em>, do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, passei a olhar os beb\u00eas como \u201chumanos de primeira viagem\u201d, pois como disse a psicanalista Maria Rita Kehl em sua introdu\u00e7\u00e3o ao livro, \u201cao contr\u00e1rio do que acontece em todo o reino animal, os beb\u00eas, destinados a se tornarem seres de linguagem como todos n\u00f3s, n\u00e3o v\u00eam ao mundo equipados com um conjunto de instintos que lhes indique como ingressar na vida\u201d. Tendo sido devidamente introduzida \u00e0 psican\u00e1lise, consigo n\u00e3o s\u00f3 compreender, mas ficar maravilhada com as observa\u00e7\u00f5es sobre o in\u00edcio da vida do nen\u00ea que envolve tanto sua fus\u00e3o quanto sua separa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Como assim um beb\u00ea n\u00e3o sabe que nasceu? Como assim ele n\u00e3o sabe que aquele bra\u00e7o que bateu no rosto \u00e9 seu? Ele tamb\u00e9m n\u00e3o sabe que aquele peito, no qual mama, \u00e9 da sua m\u00e3e e n\u00e3o dele? O fato de o beb\u00ea perceber a separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da m\u00e3e instaura, antes de mais nada, um grande desconforto; um desamparo. Isso porque ela inaugura em sua vida a insatisfa\u00e7\u00e3o. Fome, frio e gravidade s\u00e3o alguns dos exemplos de tudo de que ele era privado quando se encontrava fundido com a m\u00e3e, protegido no \u00fatero dela. \u00c9 partir dessa separa\u00e7\u00e3o que come\u00e7a o processo de forma\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p>E essas s\u00e3o algumas das muitas constata\u00e7\u00f5es que eu n\u00e3o teria bagagem para absorver h\u00e1 um ano. Se temos nove ou at\u00e9 dez meses para nos prepararmos e irmos elaborando a ideia de ter um filho, assim como de todas as mudan\u00e7as que isso provocar\u00e1, o parto \u00e9 um acontecimento intenso e de dif\u00edcil elabora\u00e7\u00e3o. Como me disse Dulce Amabis, psicoterapeuta que h\u00e1 trinta anos trabalha com gestantes e pu\u00e9rperas, \u201ctudo que acontece de um dia para o outro \u00e9 um processo de elabora\u00e7\u00e3o dif\u00edcil para a psique humana\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto o parto n\u00e3o chega, foco nesse processo de elabora\u00e7\u00e3o mais \u201clento\u201d e vejo que ele n\u00e3o impacta apenas a mim, mas meu marido tamb\u00e9m. Para dar um exemplo, certo dia relatou um sonho que, segundo ele, era \u201cengra\u00e7ado\u201d. Contextualizo o leitor antes de mais nada: meu marido \u00e9 formado em arquitetura, mas trabalha como ilustrador e designer. Meu sogro, por sua vez, foi m\u00e9dico ginecologista-obstetra e faleceu quando meu marido tinha apenas dezoito anos.<\/p>\n<p>O peda\u00e7o do sonho de que ele se lembrava consistia em uma ultrassonografia feita pelo seu pai em mim. Por\u00e9m, ela n\u00e3o era uma ultrassonografia por v\u00eddeo e imagem como fazemos hoje, mas um desenho que ele fazia numa esp\u00e9cie de decalque.<\/p>\n<p>Eu, que ao longo dos \u00faltimos meses sempre me perguntei como seria o processo de se tornar pai tendo perdido o seu t\u00e3o cedo, me maravilhei com aquilo que interpretei como uma condensa\u00e7\u00e3o das paternidades &#8211; a dele e a do pai. A cena consistia no meu sogro exercendo seu of\u00edcio &#8211; me examinar enquanto m\u00e9dico -, ao passo que cuidava de mim e de nossa beb\u00ea &#8211; por\u00e9m, atrav\u00e9s do of\u00edcio do meu marido: o desenho. Penso que o sonho tamb\u00e9m poderia ser uma manifesta\u00e7\u00e3o do desejo de que o pai estivesse vivo para v\u00ea-lo tornar-se pai, bem como o de que ele fosse o m\u00e9dico a nos acompanhar na gesta\u00e7\u00e3o. Enquanto meu marido achou o sonho engra\u00e7ado, eu achei lindo e fiquei grata por ter ferramentas para interpret\u00e1-lo e apreci\u00e1-lo ao passo que me dou conta de seu processo de elabora\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da chegada de nossa beb\u00ea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Paulo Freire disse lindamente que \u201cNingu\u00e9m ignora tudo. Ningu\u00e9m sabe tudo. Todos n\u00f3s sabemos algumas coisas. Todos n\u00f3s ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre\u201d. Por um lado, vejo que ele, como educador, fala de maneira direta sobre nossa capacidade de aprendizado constante sobre as mais diversas formas de conte\u00fado que est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra freudiana proposta pelo curso <em>Conflito e Sintoma<\/em>, que eu ignorava por completo at\u00e9 ent\u00e3o, \u00e9 exemplo de um grande aprendizado meu. Por outro lado, vejo um paralelo com a psican\u00e1lise, pois todos temos um inconsciente que guarda diversos conte\u00fados que ignoramos. E nunca saberemos tudo que nosso inconsciente guarda. Por\u00e9m, por conta da din\u00e2mica que acontece entre as for\u00e7as dessas inst\u00e2ncias, os conte\u00fados recalcados est\u00e3o o tempo todo fazendo for\u00e7a para se fazerem conhecidos. S\u00e3o sonhos, atos-falho e sintomas, sobretudo quando analisados em sess\u00f5es com um profissional, que v\u00e3o trazendo tais conte\u00fados para o consciente. Na psican\u00e1lise, estamos em um processo constante de aprendizado sobre n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Ex-aluna do 1\u00ba ano do curso <em>Conflito e Sintoma<\/em>, publicit\u00e1ria e consultora gastron\u00f4mica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Charles Robert Darwin foi um importante naturalista ingl\u00eas. Ficou conhecido por sua <em>obra A origem das esp\u00e9cies<\/em>, que contribuiu para o entendimento da evolu\u00e7\u00e3o e, atualmente, \u00e9 considerada um dos livros acad\u00eamicos de maior influ\u00eancia na hist\u00f3ria. Fonte: Brasil Escola. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/biologia\/charles-darwin.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/biologia\/charles-darwin.htm<\/a>&gt;. Acesso em 18 jul. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> James Baldwin nasceu em Nova York, em 1924, e foi um dos nomes mais destacados da literatura americana do s\u00e9culo XX. \u00c9 autor de uma vasta obra de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Entre seus principais temas, sobressaem a luta racial e as quest\u00f5es de sexualidade e identidade. Morreu em 1987. Fonte: Editora Companhia das Letras. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/bityli.com\/zejBqz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/bityli.com\/zejBqz<\/a>. Acesso em 18 jul. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Luigi Pirandello (1867-1936) foi um dramaturgo, poeta e romancista italiano. \u00c9 considerado o principal renovador do teatro italiano moderno e recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura em 1934. Estimulou de forma decisiva o desenvolvimento do teatro do absurdo e o drama de car\u00e1ter existencialista tamb\u00e9m tem suas origens na obra de Pirandello. Fonte: Uol Educa\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/luigi-pirandello.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&lt;https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/luigi-pirandello.htm&gt;<\/a>. Acesso em 18 jul. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Cf. Em &lt;<a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=60&amp;ordem=2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=60&amp;ordem=2<\/a>&gt;. Acesso em 18 jul. 2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Sigmund Freud, <em>Obras completas, v. 13. Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise (1916-1917)<\/em>. Trad. de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tessituras em torno da transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise. Por Helena Hamu Mattar.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[53],"edicao":[143],"autor":[147],"class_list":["post-1885","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-conflito-e-sintoma","edicao-boletim-64","autor-helena-hamu-mattar","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1885"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2330,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1885\/revisions\/2330"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1885"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1885"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}