{"id":1889,"date":"2022-09-15T18:21:48","date_gmt":"2022-09-15T21:21:48","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1889"},"modified":"2023-03-23T20:09:58","modified_gmt":"2023-03-23T23:09:58","slug":"em-que-tempo-estamos-como-foi-pensado-o-curso-conflito-e-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/09\/15\/em-que-tempo-estamos-como-foi-pensado-o-curso-conflito-e-sintoma\/","title":{"rendered":"Em que tempo estamos: Como foi pensado o curso Conflito e Sintoma"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">\u00a0Em que tempo estamos: como foi pensado o Curso Conflito e Sintoma<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0por <strong>Ana Maria Sigal<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o podemos negar que, apesar do intenso desejo de retomar \u201cnossa vida como ela era&#8230;\u201d, de propiciar que os encontros e os corpos, os risos e as tristezas, tenham um espa\u00e7o mais pr\u00f3ximo no qual possam se processar os afetos e os conflitos, sabemos que sair do isolamento, caminhar pelas ruas, frequentar amigos, fam\u00edlia e lugares conhecidos ainda nos traz certo receio. Tamb\u00e9m temos que enfrentar a realidade de saber que a vida n\u00e3o mais ser\u00e1 como ela era. A pandemia deixou uma marca indel\u00e9vel nas nossas hist\u00f3rias, amea\u00e7as constantes, perdas irrepar\u00e1veis, rostos mascarados, inclus\u00e3o permanente numa tela que passou a tomar parte de nosso cotidiano e com a qual tivemos que nos familiarizar. Neste isolamento escancarou-se ainda mais dramaticamente o registro assustador da mis\u00e9ria que assola nosso pa\u00eds, que ressalta as diferen\u00e7as sociais e os grupos de exclu\u00eddos e de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, que sofreram, com mais viol\u00eancia e quase sem assist\u00eancia, os efeitos mortais do abandono da sa\u00fade p\u00fablica no qual este governo nos afundou. Para sair desta mis\u00e9ria social, deste retrocesso, para enfrentar a destrui\u00e7\u00e3o que sofreram a sa\u00fade e a seguran\u00e7a p\u00fablica, a ci\u00eancia, a educa\u00e7\u00e3o, a universidade, a cultura e as artes, \u00e9 que os convocamos \u00e0 luta necess\u00e1ria para reconstruir nosso pa\u00eds. Nada nos ser\u00e1 dado de gra\u00e7a, devemos fazer nossa parte para reencontrar um Brasil com futuro.<\/p>\n<p>Entendemos que o retorno n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e que todos teremos que enfrentar um processo de desconstru\u00e7\u00e3o de um cotidiano consolidado nos modos de atravessamento da pandemia. O Instituto se preparou para este retorno e se disp\u00f5e a cuidar da salubridade de nossas salas.<\/p>\n<p>A cada ano tentamos situar nossa apresenta\u00e7\u00e3o fazendo refer\u00eancia aos tempos que transitam \u2013 pois somos sujeitos da hist\u00f3ria e produto de nossa cultura.<\/p>\n<p>Nosso pensar, nossos sentidos e nossa vida pulsional est\u00e3o imbricados nesta produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabemos como ser\u00e1 o que vir\u00e1. No primeiro cap\u00edtulo de <em>O futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>, texto de 1927, Freud nos diz que \u201cn\u00e3o podemos nos antecipar acerca de um futuro poss\u00edvel. A incerteza \u00e9 inerente a qualquer predi\u00e7\u00e3o geral\u201d e, mais uma vez, nos encontramos atropelados pela hist\u00f3ria. A ang\u00fastia de uma pandemia, que n\u00e3o cessou \u2013 havendo pa\u00edses e popula\u00e7\u00f5es inteiras submersas nela \u2013, parece ter sido superada pela ang\u00fastia da guerra. Os movimentos, que muito nos preocupam, em nossos espa\u00e7os nacionais, a pol\u00edtica impiedosa que esse governo est\u00e1 aplicando \u00e0 nossa sociedade e ao nosso pa\u00eds, as leis que desestruturam nosso futuro e o descuido com as necess\u00e1rias pol\u00edticas reparat\u00f3rias se veem somados ao confronto da guerra.<\/p>\n<p>Estamos sobrepassados por situa\u00e7\u00f5es de crise n\u00e3o vividas anteriormente; imp\u00f5e-se a necessidade de nos situar \u2013 inseridos num sistema, numa sociedade coletiva na qual n\u00e3o existe a salva\u00e7\u00e3o individual. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos afetam e nos atravessam deixando-nos a merc\u00ea do desconhecimento do que ser\u00e1 nosso futuro pois, se n\u00e3o se fazem mudan\u00e7as engajadas e coletivas, todos seremos v\u00edtimas do que nos vai afetar como sujeitos e que nos afetar\u00e1 mundialmente. N\u00e3o existe o \u201csalve-se quem puder\u201d.<\/p>\n<p>Vemos, neste momento, em um retrato dram\u00e1tico, uma realidade dissociada: a hist\u00f3ria da luta pela democracia, pela fraternidade, pela justi\u00e7a social e, em oposi\u00e7\u00e3o, aqueles que s\u00e3o pela destrui\u00e7\u00e3o, pela separa\u00e7\u00e3o, pelo empoderamento do capitalismo que hoje se apresenta sob propostas neoliberais. As for\u00e7as de Eros contra Tanatos, uma dualidade que nos oferece um bom rascunho para analisar a realidade. Frente a esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio criar ilhas de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>No cora\u00e7\u00e3o desta crise multifacet\u00e1ria que vivemos, est\u00e1 tamb\u00e9m a crise do conhecimento e do pensamento. N\u00f3s nos aliamos como equipe, como institui\u00e7\u00e3o, assim como indiv\u00edduos, nesta luta pela vida. Revivemos e ativamos, desde os nossos espa\u00e7os micropol\u00edticos, o engajamento na luta pela vida contra os genocidas e negacionistas.\u00a0 A terra n\u00e3o \u00e9 plana; a ci\u00eancia e a cultura trabalham a favor da cria\u00e7\u00e3o e da defesa por um futuro melhor. Ainda que pare\u00e7a absurdo, temos que defender hoje em dia as hist\u00f3ricas posi\u00e7\u00f5es de Cop\u00e9rnico e Darwin, incluindo Freud, que s\u00e3o os tr\u00eas grandes autores que nos falam de descentramentos \u2013 da Terra, do homem e da consci\u00eancia. S\u00e3o ren\u00fancias narc\u00edsicas que pudemos alcan\u00e7ar e que hoje se veem amea\u00e7adas. A psican\u00e1lise, junto \u00e0 cultura, ao conhecimento e \u00e0 ci\u00eancia, se transforma em um saber amea\u00e7ador. N\u00e3o pensamos a crise de uma maneira unilateral, reducionista, de uma maneira truncada e enganosa. A psican\u00e1lise \u00e9 um campo de desconstru\u00e7\u00e3o e desaliena\u00e7\u00e3o que precisa ser atualizado constantemente, em fun\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es de cada \u00e9poca. A teoria psicanal\u00edtica e a cl\u00ednica s\u00e3o cr\u00edticas e pol\u00edticas e t\u00eam sua cena na transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em pleno s\u00e9culo 21 nos confrontamos com uma guerra, o mundo est\u00e1 em perigo, sabemos que nem toda a informa\u00e7\u00e3o que nos chega pode ser aceita sem um sentido cr\u00edtico, temos que analisar cada informa\u00e7\u00e3o para considerar os desdobramentos que est\u00e3o velados atr\u00e1s das apar\u00eancias. Eduardo Galeano, escritor latino americano, que escreveu <em>As veias abertas da Am\u00e9rica Latina<\/em>, muito l\u00facido e engajado, nos diz: \u201cNenhuma guerra tem a honestidade de confessar, eu mato para roubar, as guerras sempre invocam nobres motivos, matam em nome de paz, em nome de Deus, em nome da civiliza\u00e7\u00e3o, em nome do progresso, em nome da Democracia mas, se nenhuma dessas mentiras fossem suficiente, a\u00ed est\u00e3o os meios de comunica\u00e7\u00e3o dispostos a inventar novos inimigos imagin\u00e1rios para justificar a convers\u00e3o do mundo num grande manic\u00f4mio, em um imenso matadouro&#8230;\u201d. Estas s\u00e3o grandes desculpas que temos que analisar a cada momento. Esta guerra n\u00e3o \u00e9 nova e milenar, mas este evento em particular vem se preparando desde 2014 e \u00e9 produto de lutas e confrontos pelo poder e pelo dom\u00ednio das armas e tem o intuito de reorganizar uma nova geopol\u00edtica, com um novo panorama mundial. Entre as duas pot\u00eancias at\u00f4micas mundiais entra agora a China para se inserir neste panorama.<\/p>\n<p>Em 1933 Einstein interroga Freud numa famosa carta que foi publicada com o nome <em>Por que a guerra?<\/em> Einstein pergunta-lhe se h\u00e1 algum caminho para evitar \u00e0 humanidade o estrago da guerra. Impressiona acompanhar como Freud, com grande lucidez, responde que \u201cos conflitos de interesses entre os homens se resolvem, em princ\u00edpio, mediante a viol\u00eancia\u201d, e vai fazendo uma an\u00e1lise que come\u00e7a com a concep\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica e hist\u00f3rica para chegar ao mundo pulsional. Ele explicita que j\u00e1 h\u00e1 anos a psican\u00e1lise se debru\u00e7a sobre esta quest\u00e3o e, sem d\u00favida, est\u00e1 fazendo refer\u00eancia a seu trabalho de 1920, <em>Mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, no qual desenvolve a segunda teoria pulsional; ali, o mundo ps\u00edquico est\u00e1 comandado por duas classes de puls\u00f5es, aquelas que querem conservar e reunir, as puls\u00f5es er\u00f3ticas, e as que querem destruir e matar, puls\u00f5es de agress\u00e3o ou de destrui\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida que hoje temos novos e muitos elementos para agregar \u00e0s suas considera\u00e7\u00f5es, mas h\u00e1 mais de um s\u00e9culo Freud vai mostrando a psican\u00e1lise sendo tamb\u00e9m determinada pelo la\u00e7o social. \u00c9 certo que n\u00e3o poder\u00edamos atribuir s\u00f3 a esse mundo pulsional o conflito da guerra, pois sem d\u00favida o que tamb\u00e9m movimenta estas puls\u00f5es s\u00e3o as determina\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas, hist\u00f3ricas e sociais.<\/p>\n<p>Voc\u00eas ter\u00e3o oportunidade de ler Freud, respeitando e aproveitando o que a hist\u00f3ria do conhecimento e do saber da psican\u00e1lise nos oferece. \u00c9 necess\u00e1ria a leitura daquele conhecimento produzido e contextualizado na sua \u00e9poca; mas tamb\u00e9m nos comprometemos com o \u00e1rduo trabalho de fazer trabalhar a psican\u00e1lise, enriquec\u00ea-lo e modific\u00e1-lo segundo as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas, \u00e0 luz das novas conting\u00eancias sociais. Assim entendemos este curso: queremos oferecer um saber engajado, acompanhar Freud em seu dizer de <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>: \u201c\u00e9 preciso transladar as metas pulsionais de modo tal que possam ser alcan\u00e7adas sem denega\u00e7\u00e3o do mundo exterior\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Entendemos que estudar psican\u00e1lise e se psicanalisar \u00e9 um modo de desaliena\u00e7\u00e3o, assim pensamos este curso para voc\u00eas, assim \u00e9 que, neste projeto, pensamos percorrer com voc\u00eas este ano que nos fala de lutos e tristezas &#8211; mas desejando atravess\u00e1-lo sem melancolia. Tamb\u00e9m o doloroso pode ser verdadeiro, como nos diz Freud no texto sobre a <em>Transitoriedade<\/em>, \u00e9 necess\u00e1rio investir no que nos sobrou. Queremos oferecer-lhes aqui um bom espa\u00e7o para novos investimentos.<\/p>\n<p>Mas temos tamb\u00e9m boas novas. Tamb\u00e9m atravessada pelo nosso momento atual e nossa hist\u00f3ria, no final de 2020 foi fundada a pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es afirmativas em nosso Departamento e come\u00e7a neste 2022 a implanta\u00e7\u00e3o de cotas raciais em todo o Instituto Sedes.<\/p>\n<p>Como expressa um comunicado do Departamento de Psican\u00e1lise, \u201cPara o conjunto do Departamento de Psican\u00e1lise, as cotas raciais s\u00e3o parte de uma pol\u00edtica de a\u00e7\u00f5es afirmativas, que visa \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o do racismo estrutural\u201d.<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o das cotas definidas pela Diretoria do Instituto confere a cada curso de especializa\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento possibilidades de receber de um a dois cotistas pretos e pardos isentos do pagamento de suas mensalidades ao longo da dura\u00e7\u00e3o do curso. Na divulga\u00e7\u00e3o dos resultados de nosso processo seletivo, informamos o modo de aceder ao edital. Que este passo fundamental nos sirva para reiterar nosso compromisso com a luta antirracista e pela repara\u00e7\u00e3o das desigualdades que colonialmente tocam negros e ind\u00edgenas em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Voc\u00eas v\u00eam estudar psican\u00e1lise num Instituto que tem hist\u00f3ria, que sempre se compromissou com a justi\u00e7a social, que lutou contra a ditadura e que hoje em seu <em>aggiornamento<\/em> enfrenta a repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a que foram submetidos os povos escravizados. Este processo \u00e9 complexo e est\u00e1 em desenvolvimento. O Departamento de Psican\u00e1lise, em sua assembleia do final de 2021, criou um fundo de reserva para poder apoiar outras a\u00e7\u00f5es afirmativas, tais como construir dispositivos que viabilizem an\u00e1lise pessoal e supervis\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o dos analistas cotistas. Foi criada uma Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas para elaborar e viabilizar estas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No tocante ao sofrimento ps\u00edquico da popula\u00e7\u00e3o negra provocado pelo racismo, temos que implementar pol\u00edticas efetivas de repara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m desde nosso saber. Temos que estar atentos, repensar nosso fazer, o que era tratado anteriormente como falta de autoestima em pacientes negros ou pardos, em uma compreens\u00e3o leviana, hoje tem que ser entendido como o sofrimento ps\u00edquico que tem sido causado em negros e negras devido ao preconceito e \u00e0s discrimina\u00e7\u00f5es raciais: \u00e9 necess\u00e1rio legitimar seu sofrimento. Se n\u00e3o houv\u00e9ssemos deslegitimado as falas, nossa escuta poderia ter sido outra. Sabemos que este \u00e9 um come\u00e7o, que muito temos a aprender e que toda esta luta afeta tamb\u00e9m a psican\u00e1lise e a n\u00f3s como psicanalistas.<\/p>\n<p>Muito tem se estudado hoje em dia sobre estas quest\u00f5es e numerosos autores desenvolvem pesquisas nesta dire\u00e7\u00e3o. Os psicanalistas negros t\u00eam impulsionado para que este caminho seja feito. Diz Neusa Santos Souza em seu excelente livro <em>Tornar-se negro<\/em> (p. 16): \u201cO racismo ronda sua exist\u00eancia na condi\u00e7\u00e3o de um fantasma desde o seu nascimento, ningu\u00e9m o v\u00ea, mas ele existe, embora presente na mem\u00f3ria social e atualizado atrav\u00e9s do preconceito e da discrimina\u00e7\u00e3o racial ele \u00e9 sistematicamente negado, se constituindo num problema social com efeitos dr\u00e1sticos sobre o indiv\u00edduo\u201d. Desmascarar o racismo e lutar contra o preconceito em rela\u00e7\u00e3o a todas as diferen\u00e7as de g\u00eanero e de ra\u00e7a faz parte de nosso trabalho para ressignificar a teoria. N\u00e3o se trata de desqualificar o que a teoria nos oferece, se trata de conhec\u00ea-la com profundidade e retrabalh\u00e1-la \u00e0 luz de novos aprendizados. Esta \u00e9 nossa tarefa.<\/p>\n<p>Quando nos propusemos a pensar em um percurso para estudar a teoria psicanal\u00edtica, t\u00ednhamos bem estabelecida uma quest\u00e3o: o curso n\u00e3o pretendia ser uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise, e sim abordar os conceitos psicanal\u00edticos a partir dos n\u00facleos que comp\u00f5em os alicerces para a constru\u00e7\u00e3o da teoria. N\u00e3o seria um voo panor\u00e2mico pin\u00e7ando na superf\u00edcie todos os temas poss\u00edveis. Tampouco o curso pretendia ser uma forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Nosso curso n\u00e3o \u00e9 um curso de forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o prometemos isto. Cada curso de forma\u00e7\u00e3o de analistas estabelece seu percurso e trabalha baseado na travessia subjetiva da experi\u00eancia anal\u00edtica, a qual se torna um instrumento fundamental para a posi\u00e7\u00e3o de escuta, junto da pr\u00e1tica cl\u00ednica supervisionada e do arcabou\u00e7o te\u00f3rico. Estes tr\u00eas pilares t\u00eam que se manter aut\u00f4nomos pois, quando regulamentados, podem vir a se transformar em leis vazias. Os trabalhos de acompanhamento de uma forma\u00e7\u00e3o devem ser realizados em institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas que se prop\u00f5em, segundo seu referencial te\u00f3rico, realizar este trabalho, tendo em conta ademais que as institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o outorgam uma titularidade. As normas da forma\u00e7\u00e3o est\u00e3o formuladas segundo a \u00e9tica deste saber.<\/p>\n<p>A universidade tampouco poderia empreender uma carreira de forma\u00e7\u00e3o de analistas. A experi\u00eancia de tornar-se analista est\u00e1 marcada pela singularidade, o caminho a percorrer ser\u00e1 particular e original, num dif\u00edcil e longo percurso guiado pelo nosso desejo de ser analistas. A partir do Movimento Articula\u00e7\u00e3o das Entidades Psicanal\u00edticas Brasileiras, temos empreendido uma intensa luta para brecar a implanta\u00e7\u00e3o de um Bacharelado em Psican\u00e1lise que, na contram\u00e3o da hist\u00f3ria, prop\u00f5e-se a formar analistas, outorgando aos estudantes um t\u00edtulo que os habilitaria a serem psicanalistas. O elemento do trip\u00e9 que exige an\u00e1lise pessoal seria preenchido no \u00faltimo quadrimestre do curso universit\u00e1rio, atrav\u00e9s de uma breve an\u00e1lise grupal! Est\u00e3o batalhando seu reconhecimento pelo MEC \u2013 o qual n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil, j\u00e1 que este \u00f3rg\u00e3o oficial est\u00e1 desestruturado neste momento e tem uma pol\u00edtica de beneficiar as institui\u00e7\u00f5es privadas que lucram com o ensino. Mais de 100 institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica do Brasil e do mundo inteiro assinam o apoio ao Movimento Articula\u00e7\u00e3o na luta contra esse contrassenso.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise \u00e9 a experi\u00eancia do sujeito com seu inconsciente. Nosso curso oferece o in\u00edcio de uma apropria\u00e7\u00e3o dos conceitos que pode vir a consolidar uma das 3 condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a forma\u00e7\u00e3o: o estudo dos conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Pensamos que estudar psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma tarefa neutra, pois tamb\u00e9m nos exige entrar em contato com nosso inconsciente, ainda que de maneira diferente da que se passa em uma terapia. Para quem desejar fazer um curso de forma\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ter an\u00e1lise pessoal, assim como ter percorrido um bom tempo de contato com a cl\u00ednica psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>Para introduzir a ideia fundante de Inconsciente: Partimos da ideia de que cada momento hist\u00f3rico determina a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e cada autor tamb\u00e9m determina a forma em que mergulhar\u00e1 na sua produ\u00e7\u00e3o; por esta raz\u00e3o, come\u00e7amos o curso lendo um texto de 1925, <em>Um estudo autobiogr\u00e1fico<\/em>, no qual Freud nos diz que se v\u00ea \u201cobrigado a procurar abordar a combina\u00e7\u00e3o diversa entre a posi\u00e7\u00e3o subjetiva e objetiva, entre o interesse biogr\u00e1fico e o hist\u00f3rico\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, o conhecimento foi se transformando, a moral foi tomando novos rumos, a medicina e outras ci\u00eancias ganharam abordagens diferentes. Mudou a tecnologia e a forma de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, que ofereceu novos par\u00e2metros para reler a psican\u00e1lise. Desenvolver a ideia de uma psican\u00e1lise engajada na sua \u00e9poca nos leva a come\u00e7ar o curso estudando a Viena na qual Freud estava inserido, assim como tamb\u00e9m avan\u00e7amos no tempo e incorporamos as novas condi\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade que nos oferecem os diversos momentos hist\u00f3ricos, culturais, sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos e nos permitem estudar os fen\u00f4menos contextualizados.<\/p>\n<p>Em sua vitalidade, a psican\u00e1lise nos permite identificar novos elementos que possibilitam pensar os novos problemas. Discutimos quest\u00f5es que se referem ao tempo no qual vivemos, quest\u00f5es relativas aos problemas com que nos enfrentamos no dia de hoje, mergulhamos nas novas formas de entender o sexual e os preconceitos, produtos do momento hist\u00f3rico que marcaram a psican\u00e1lise, ao negar a legitimidade dos grupos exclu\u00eddos socialmente como os grupos LGBTQI+, ou os conflitos relacionados \u00e0 diferen\u00e7a de g\u00eanero reivindicados pelo feminismo. Pensamos as condi\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia atual e uma nova moral, que difere das ideias propostas pela \u00e9poca vitoriana. Tamb\u00e9m abordamos quest\u00f5es de ra\u00e7a que imp\u00f5em a necessidade de incluir e repensar a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade, rompendo com uma tradi\u00e7\u00e3o escravista que mant\u00e9m ainda hoje uma sociedade desigual; entendemos o racismo como uma marca estrutural de desigualdade de nossa sociedade, contra a qual lutaremos para que a psican\u00e1lise mantenha o lugar de um saber que liberta e marca a forma\u00e7\u00e3o do sujeito em condi\u00e7\u00f5es de igualdade. Abordar os problemas que as diferen\u00e7as entre ra\u00e7as prop\u00f5em n\u00e3o ser\u00e1 entendido como manifesta\u00e7\u00e3o de sintomas individuais e sim como uma patologia da sociedade. N\u00f3s nos aproximamos tamb\u00e9m da possibilidade de repensar as patologias que se originam da exclus\u00e3o das classes sociais institu\u00edda pelo neoliberalismo \u2013 problemas estes que, na \u00e9poca em que Freud elabora a teoria, n\u00e3o s\u00e3o para ele significativos ou n\u00e3o s\u00e3o apreendidos do momento hist\u00f3rico de Viena final do s\u00e9culo 19. O mal-estar na cultura de hoje \u00e9 radicalmente diferente daquele diagnosticado por Freud. O que fornece fundamentos para o car\u00e1ter patol\u00f3gico de certas condutas est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com os fundamentos \u00e9ticos e morais nas quais elas se evidenciam.<\/p>\n<p>Pensamos que a \u00fanica maneira de manter a psican\u00e1lise viva \u00e9 nos apropriarmos das novas formas de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento que possam incorporar o novo e reorganizar o j\u00e1 conhecido dentro dos paradigmas que nos caracterizam como especificidade cient\u00edfica. Para dar conta da ideologiza\u00e7\u00e3o que se infiltra no campo psicanal\u00edtico e das novas quest\u00f5es que se nos apresentam \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o tomar a teoria como um corpo morto, coagulado ou estagnado. \u00c9 trabalhando-a e aprofundando-a que conseguiremos avan\u00e7ar. Faz-se necess\u00e1rio retrabalhar a obra freudiana \u00e0 luz dos progressos da ci\u00eancia, da filosofia, da antropologia, da sociologia, da economia, das artes e da cultura em geral.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que Freud elaborou o arcabou\u00e7o cient\u00edfico sobre o qual desenvolveria seu modelo metapsicol\u00f3gico, as ci\u00eancias estavam impregnadas pelos modelos da termodin\u00e2mica e pelos modelos deterministas de causa-efeito. Hoje os novos paradigmas cient\u00edficos nos permitem pensar de um modo diferente, oferecem-nos postulados que abrem novos modos de entender os fen\u00f4menos dos quais teremos que dar conta. A partir do s\u00e9culo XVI foram surgindo grandes transforma\u00e7\u00f5es nos processos de legitima\u00e7\u00e3o do conhecimento. As cis\u00f5es da igreja e o advento do protestantismo ocorreram pela negativa de alguns grupos em aceitar que existisse uma \u00fanica leitura poss\u00edvel das escrituras. De uma subvers\u00e3o religiosa decorreu, naturalmente, uma subvers\u00e3o no campo social e da ci\u00eancia, a partir da qual n\u00e3o mais se pode falar de verdades \u00fanicas. A epistemologia cl\u00e1ssica adaptou seu ideal de teoria cient\u00edfica \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da geometria euclidiana, na qual a teoria ideal \u00e9 um sistema dedutivo com uma defini\u00e7\u00e3o de verdade incontest\u00e1vel baseada em uma conjun\u00e7\u00e3o de axiomas, de modo que a verdade se desloque por caminhos definidos de infer\u00eancia v\u00e1lida, que se propagam por todo o sistema. Se o crit\u00e9rio de univocidade das ci\u00eancias emp\u00edricas foi, para fil\u00f3sofos como Comte, requisito de toda ci\u00eancia, um grande avan\u00e7o se promoveu na hist\u00f3ria do pensamento a partir das coloca\u00e7\u00f5es de Dilthey, que diferencia ci\u00eancias do esp\u00edrito e da natureza, com diversas metodologias e formas de pesquisa. Estas quest\u00f5es nos levam permanentemente a avaliar se interessa \u00e0 psican\u00e1lise se denominar como uma ci\u00eancia, ou se preferimos nos referir a ela como um saber que se formula atrav\u00e9s dos pr\u00f3prios enunciados que correspondem a uma \u00e9tica. O pr\u00f3prio Freud se questionou permanentemente sobre como se formula e se transmite a psican\u00e1lise. Hoje n\u00e3o interessa promover o conceito de univocidade como se procurava nos sistemas galileanos e newtonianos. At\u00e9 mesmo no campo das ci\u00eancias exatas, a pluralidade de hip\u00f3teses \u00e9 admitida. Dizia Poincar\u00e9 (1902) que a cren\u00e7a de que as verdades das ci\u00eancias duras s\u00e3o certezas s\u00f3 pode ser admitida numa mente ing\u00eanua. O m\u00e9todo cl\u00ednico, que \u00e9 o m\u00e9todo cient\u00edfico por excel\u00eancia no campo da psican\u00e1lise, guarda pouca conex\u00e3o com a ci\u00eancia \u201cfisicista\u201d do s\u00e9culo XIX. A verdade do paciente \u00e9 sempre conjectural. Inclusive no campo da medicina, podemos dizer que n\u00e3o h\u00e1 enfermidades, mas, sim, enfermos, partindo-se da impossibilidade de assumir qualquer tipo de certeza. Conservar a singularidade se faz fundamental na pesquisa psicanal\u00edtica. Como j\u00e1 t\u00ednhamos dito, a revolu\u00e7\u00e3o copernicana, que desloca a Terra do lugar de privil\u00e9gio, une-se \u00e0 ferida narc\u00edsica que promove a psican\u00e1lise, ao reconhecer que a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o elemento central que se deve analisar para entender as determina\u00e7\u00f5es que impulsionam os caminhos ps\u00edquicos do homem. Hoje em dia se faz necess\u00e1rio repensar o modo como operavam na psican\u00e1lise os postulados cient\u00edficos da \u00e9poca, na forma como aparecem, por exemplo, na constru\u00e7\u00e3o do <em>Projeto para uma psicologia cient\u00edfica<\/em><a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> (1895) que acompanha um modelo mais hipot\u00e9tico-dedutivo. Hoje se faz necess\u00e1rio incorporar novos modelos cient\u00edficos para pensar a psican\u00e1lise. A teoria do Caos, as teorias da complexidade, a teoria das estruturas dissipativas que t\u00eam como ponto de partida o n\u00e3o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>H\u00e1 certos conceitos que prevalecem, s\u00e3o aqueles que tem a ver com os fundamentos da teoria, os que consideramos pilares e que ser\u00e3o transmitidos no decorrer do curso; s\u00e3o conceitos que, independentemente da escola te\u00f3rica desde a qual se fala, tomam parte da estrutura que marca a constru\u00e7\u00e3o deste saber. Sejam quais forem a teoria e as diferen\u00e7as na enuncia\u00e7\u00e3o dos conceitos, estes figuram em todas as constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que pretendem se manter no campo da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Consideramos importante por o acento em alguns inegoci\u00e1veis que caracterizam o campo da psican\u00e1lise. Esta conceitualiza\u00e7\u00e3o foi por mim elaborada e inclui dois aspectos, os metapsicol\u00f3gicos e os cl\u00ednicos. Na metapsicologia considera-se que estamos no campo da psican\u00e1lise quando trabalhamos com: 1. Conceito de Inconsciente 2. Conceito de Sexualidade infantil 3. Conceito de Puls\u00e3o. Na cl\u00ednica, a psican\u00e1lise est\u00e1 presente ao trabalharmos com: 1. Conceito de Transfer\u00eancia 2. Abstin\u00eancia 3. M\u00e9todo Psicanal\u00edtico: Aten\u00e7\u00e3o flutuante e Associa\u00e7\u00e3o livre (esses t\u00eam que ser revisados nas situa\u00e7\u00f5es em que muda o enquadre).<\/p>\n<p>Um primeiro inegoci\u00e1vel que nos permite manter nossa especificidade te\u00f3rica \u00e9, portanto, considerar a constru\u00e7\u00e3o do conceito de Inconsciente como espa\u00e7o estrangeiro, que deixa o sujeito \u00e0 merc\u00ea de um desconhecido de si. \u00c9 necess\u00e1rio considerar o deslocamento que faz a psican\u00e1lise, de uma concep\u00e7\u00e3o ptolomaica de um Eu possuidor da verdade ao recentramento do lugar do Inconsciente. Freud nos diz que \u00e9 a partir deste conceito que ele estrutura uma nova forma de conhecer e entender os fen\u00f4menos da alma. Para permitir que se apropriem deste conceito, fazemos um percurso que vai desde os trabalhos chamados pr\u00e9-psicanal\u00edticos, oferecendo a leitura de dois casos cl\u00ednicos para acompanhar o processo atrav\u00e9s do qual Freud se aproxima do conceito de inconsciente. Vamos assim, a partir de seu trabalho com as hist\u00e9ricas, abordando os primeiros estudos de sintomas que n\u00e3o tinham compreens\u00e3o exitosa no campo da medicina. Incluindo seus conhecimentos como neurologista, Freud descobre que alguns sintomas n\u00e3o correspondiam \u00e0s vias neurol\u00f3gicas que lhes dariam sentido na medicina. Assim, a partir dos casos cl\u00ednicos, ele estuda como \u00e9 poss\u00edvel ter um comprometimento motor ou neurol\u00f3gico que inexplicavelmente produzia dorm\u00eancia ou dor nas m\u00e3os, sem que se registrassem os mesmos sintomas na parte anterior do bra\u00e7o. Assim come\u00e7a a pensar que estes sintomas teriam outra origem que n\u00e3o relativa a uma doen\u00e7a org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Ao acompanhar o caso de Elizabeth von R., que se encontra na passagem ao m\u00e9todo psicanal\u00edtico, fazemos uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 forma pela qual Freud vai fazendo suas descobertas. As no\u00e7\u00f5es de recalque, deslocamento, trauma, conflito e resist\u00eancia fazem suas primeiras apari\u00e7\u00f5es. Esbo\u00e7a-se a ideia de que existe uma temporalidade diferente na express\u00e3o de sintomas, enuncia-se os dois tempos do trauma e a ideia de ressignifica\u00e7\u00e3o ou <em>posterioridade<\/em>, que desenvolvera no caso Emma, no qual relata a instaura\u00e7\u00e3o dos dois tempos do trauma. Introduzir o conceito de ressignifica\u00e7\u00e3o nos permite entender como alguns fatos ganham sentido a partir de uma concep\u00e7\u00e3o de temporalidade que \u00e9 pr\u00f3pria \u00e0 psican\u00e1lise. O conceito de <em>apr\u00e8s-coup<\/em>, retomado e desenvolvido a partir do caso Emma, publicado no <em>Projeto de uma psicologia para neur\u00f3logos<\/em>, nos interessa fundamentalmente para mostrar como na psican\u00e1lise h\u00e1 um descentramento do sujeito e um tempo que n\u00e3o \u00e9 linear. A partir daqui retornamos \u00e0 leitura das <em>Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise<\/em> que nos abrem o caminho para trabalhar o sentido simb\u00f3lico das produ\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, parte das quais est\u00e3o ocultas ao pr\u00f3prio sujeito. Abordamos assim a constru\u00e7\u00e3o do conceito de inconsciente, para depois mostrar, a partir da <em>Carta 69<\/em>, o fundante de realidade ps\u00edquica, na qual fantasia e realidade adquirem um relevo particular e produzem um giro importante na teoria. Mergulhamos na ideia de \u201cporque Freud n\u00e3o acredita mais na sua neur\u00f3tica\u201d.<\/p>\n<p>Outro elemento central e inegoci\u00e1vel para pensar a psican\u00e1lise \u00e9 o deslocamento que Freud produz nos <em>Tr\u00eas Ensaios <\/em><a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> (1905) ao demolir o preconceito de uma sexualidade pr\u00e9-orientada instintualmente no homem, em benef\u00edcio de uma puls\u00e3o que s\u00f3 encontraria seu objeto de maneira totalmente aleat\u00f3ria na sua hist\u00f3ria individual, objeto esse essencialmente vicariante e contingente<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Essa substitui\u00e7\u00e3o tira o sujeito do campo da pura biologia e o constitui na sua pr\u00f3pria diferen\u00e7a, fora do determinismo biol\u00f3gico, a partir da valoriza\u00e7\u00e3o da fantasia e da linguagem. Abordamos aqui a diferen\u00e7a entre instinto e puls\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro inegoci\u00e1vel \u00e9 o que ressitua a sexualidade infantil como trilha pela qual transita a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade. Estes dois \u00faltimos enfoques j\u00e1 come\u00e7am a ser vislumbrados nos casos cl\u00ednicos que Freud nos apresenta, mas s\u00e3o temas aprofundados no segundo ano de nosso curso, ao estudarmos a puls\u00e3o e a sexualidade infantil de forma central na forma\u00e7\u00e3o de sintomas.<\/p>\n<p>Neste primeiro ano trabalhamos ainda com o esquema da primeira t\u00f3pica, uma primeira formula\u00e7\u00e3o de Freud para abordar o sistema ps\u00edquico. O conceito de inconsciente que transmitimos se refere a esta conceitualiza\u00e7\u00e3o, com a qual apreendemos uma nova perspectiva de exist\u00eancia de um inconsciente que difere da forma pela qual o inconsciente era percebido pela filosofia e a psicologia da \u00e9poca. Este conceito sofre grandes modifica\u00e7\u00f5es na obra freudiana. A primeira t\u00f3pica \u00e9 formulada de uma forma mais completa no cap. VII da <em>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em> e vai se modificando visivelmente na obra at\u00e9 que Freud formula a segunda t\u00f3pica.<\/p>\n<p>Estes esquemas pertencem ao que chamamos de metapsicologia. A metapsicologia elabora um conjunto de elementos conceituais, mais ou menos distantes da experi\u00eancia, e descreve processos ps\u00edquicos nas suas rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas, t\u00f3picas e econ\u00f4micas. Trabalhando as cartas 69 e 71 de Freud a Fliess, nos detemos nos conceitos de trauma e fantasia. O texto do <em>Bloco m\u00e1gico<\/em> nos serve como uma preciosa descri\u00e7\u00e3o das inscri\u00e7\u00f5es inconscientes. Atrav\u00e9s das <em>Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise<\/em> abordamos tamb\u00e9m as quest\u00f5es que diferenciam a forma pela qual um sintoma \u00e9 lido pela medicina e pela psican\u00e1lise. Elas s\u00e3o complementadas com trechos escolhidos de <em>Psicopatologia da vida cotidiana<\/em> (1901) e de <em>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a><\/em> (1900). Neste curso trabalharemos fundamentalmente o conceito de sintoma a partir da primeira t\u00f3pica. Considerando a coloca\u00e7\u00e3o freudiana de que \u201cnossos enfermos sofrem de reminisc\u00eancias\u201d e que os sintomas s\u00e3o restos e s\u00edmbolos mn\u00eamicos de certas viv\u00eancias traum\u00e1ticas, viv\u00eancias dolorosas \u00e0s quais os neur\u00f3ticos permanecem fixados; desenharemos o conceito de neurose, que nos mostra que \u00e0s vezes os sujeitos se descuidam da realidade por conta destas viv\u00eancias recalcadas.<\/p>\n<p>O percurso te\u00f3rico vai sendo acompanhado por relatos de situa\u00e7\u00f5es que v\u00eam de outros campos de atua\u00e7\u00e3o profissional, assim como casos cl\u00ednicos tanto de Freud como dos pr\u00f3prios alunos ou introduzidos pelos professores para encarnar a teoria. Recorrendo \u00e0s diversas elabora\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao sintoma, destaca-se que em todas estas viv\u00eancias estava em jogo o surgimento de uma mo\u00e7\u00e3o de desejo que se encontrava em aguda oposi\u00e7\u00e3o com os demais interesses do indiv\u00edduo, e que parecia ser inconcili\u00e1vel com as exig\u00eancias \u00e9ticas e est\u00e9ticas da personalidade deste sujeito. A partir do conflito sobrevive uma representa\u00e7\u00e3o que devia ser recalcada e esquecida. Ao adentrarmos toda a complexidade dos conceitos de conflito e de sintoma, desenvolvemos a teoria do recalque, destacando componentes como dissocia\u00e7\u00e3o, fixa\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o substitutiva, sobredetermina\u00e7\u00e3o e sexualidade infantil \u2013 conceito que, junto a puls\u00e3o, sexua\u00e7\u00e3o e sexualidade, ser\u00e1 a base do programa do segundo ano.<\/p>\n<p>Terminaremos o programa de primeiro ano com as <em>Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise<\/em>, de 1916-17, da confer\u00eancia 17 a 23, nas quais Freud nos introduz no sentido dos sintomas, desenvolvimento libidinal e organiza\u00e7\u00f5es sexuais e aprofunda os conceitos esbo\u00e7ados nas <em>Cinco li\u00e7\u00f5es<\/em>. No decorrer dos anos temos substitu\u00eddo ou adicionado alguns escritos, porque as diferentes turmas nos v\u00e3o conduzindo a aprofundar ou discutir certos temas. O programa tem uma espinha dorsal, mas cada professor vai complementando com elementos que decorrem da sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com a teoria e do grupo com o qual trabalha.<\/p>\n<p>Nossa escolha program\u00e1tica tem se mostrado muito afortunada, incita aos alunos que j\u00e1 vinham com algum conhecimento a descobrir e fundamentalmente aprofundar conceitos cruciais para entender o complexo edif\u00edcio da teoria psicanal\u00edtica e suas liga\u00e7\u00f5es com a cl\u00ednica e, para os que n\u00e3o tinham um trajeto anterior, se apresenta como uma descoberta e um desafio que os incita \u00e0 leitura e lhes permite fazer v\u00ednculos com as tem\u00e1ticas que s\u00e3o de interesse na \u00e1rea espec\u00edfica de exerc\u00edcio profissional a que pertencem.<\/p>\n<p>Queridos alunos, desejamos a todos um trabalho produtivo, festejamos que a vacina\u00e7\u00e3o ganhou o caminho do povo, o que nos permitir\u00e1 os encontros presenciais.<\/p>\n<p>Bibliografia b\u00e1sica para o 1\u00ba ano do curso:<\/p>\n<ul>\n<li>Um estudo autobiogr\u00e1fico (1925), v. XX. Cap\u00edtulos I e II.<\/li>\n<li>Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise (1910), v. XI. Li\u00e7\u00f5es I a IV.<\/li>\n<li>Estudos sobre a histeria (1893-1895), v. II: Caso cl\u00ednico 5: Srta. Elisabeth von R.<\/li>\n<li>Projeto para uma psicologia cient\u00edfica (1950 [1895]), v. I: A <em>pr\u00f3ton pseudos<\/em> (primeira mentira) hist\u00e9rica &#8211; apenas o \u201cCaso Emma\u201d.<\/li>\n<li>Extratos dos documentos dirigidos a Fliess (1950 [1892-1899]), v. I: Cartas 69 (21 de setembro de 1897) e 71 (15 de outubro de 1897).<\/li>\n<li>Uma nota sobre o \u201cbloco m\u00e1gico\u201d (1925), v. XIX.<\/li>\n<li>Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901), v. VI: O esquecimento de nomes pr\u00f3prios (cap\u00edtulo 1) e O esquecimento de palavras estrangeiras (cap\u00edtulo 2).<\/li>\n<li>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900), v. IV: A distor\u00e7\u00e3o nos sonhos (cap\u00edtulo IV), pre\u00e2mbulo \u2013 apenas o sonho \u2018Tio Joseph, tio da barba amarela\u2019.<\/li>\n<li>Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise (1916-1917), v. XVI: confer\u00eancia 17 a 23.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Este texto corresponde \u00e0 Apresenta\u00e7\u00e3o da Aula inaugural 2022 do curso Cl\u00ednica psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista. Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psican\u00e1lise e co-coordenadora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> cap. 2 de <em>O mal-estar<\/em> na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Freud S. Presenta\u00e7\u00e3o autobiogr\u00e1fica (1925<em>). Obras completas<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu, 1975, vol. 20. Caps. 1 e 2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Freud, S. (1985) Projeto de psicologia. <em>Obras Completas<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu, 1988, v. 1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Freud, S. (1905) Tres ensayos de teor\u00eda sexual, <em>Obras Completas<\/em>, Buenos Aires, Amorrortu, 1988, v. 7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Laplanche, J. (1987). <em>O inconsciente e o ello<\/em>. <em>Problematicas 1<\/em>. Buenos Aires, Amorrortu, p. 117.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Freud, S. (1900) <em>Obras completas<\/em>, v. 4 \u2013 A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (Primeira parte).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a a Apresenta\u00e7\u00e3o da Aula inaugural 2022, por Ana Maria Sigal.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[53],"edicao":[143],"autor":[148],"class_list":["post-1889","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-conflito-e-sintoma","edicao-boletim-64","autor-ana-maria-sigal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1889"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1889\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2329,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1889\/revisions\/2329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1889"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1889"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}