{"id":1912,"date":"2022-09-15T19:12:05","date_gmt":"2022-09-15T22:12:05","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1912"},"modified":"2023-03-23T20:05:05","modified_gmt":"2023-03-23T23:05:05","slug":"sobre-a-procura-de-um-a-psicanalista-negro-a-psicanalise-e-relacoes-etnico-raciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/09\/15\/sobre-a-procura-de-um-a-psicanalista-negro-a-psicanalise-e-relacoes-etnico-raciais\/","title":{"rendered":"Sobre a procura de um\/a psicanalista negro\/a: psican\u00e1lise e rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Sobre a procura de um\/a psicanalista negro\/a: psican\u00e1lise e rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Daniel P\u00e9ricles Arruda<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Palavras iniciais \u2013 Acolhimento <\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, venho refletindo sobre casos de sujeitos negros que buscam ser atendidos por psicanalistas tamb\u00e9m negros. Constantemente, recebo essa demanda, inclusive, em forma de perguntas: \u201cEstou com um caso aqui de uma pessoa que quer ser atendida por um psicanalista negro. Voc\u00ea pode atender?\u201d; \u201cVoc\u00ea conhece algum psicanalista negro para indicar?\u201d; ou, ent\u00e3o: \u201cEu s\u00f3 vou em psicanalista negro!\u201d.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o quest\u00f5es recorrentes, nas interlocu\u00e7\u00f5es de ideias e constru\u00e7\u00f5es reflexivas feitas com alguns pares, e, agora, sinto-me convocado a escrever este artigo com o prop\u00f3sito de apresentar alguns elementos para o debate, inclusive, considerando os abismos e as aproxima\u00e7\u00f5es entre psican\u00e1lise e rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais. Pensemos: Por que alguns negros querem ser atendidos por analistas negros? Ser\u00e1 que o sujeito negro considera que, assim, ser\u00e1 <em>compreendido<\/em>? O que o sujeito deseja quando procura esse profissional espec\u00edfico? E o que almeja, quando manifesta essa vontade? Quais s\u00e3o as diferencia\u00e7\u00f5es entre procura, demanda e desejo, na perspectiva \u00e9tnico-racial na cl\u00ednica?<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 responder diretamente essas quest\u00f5es, mas tom\u00e1-las como algo a ser decifrado, express\u00f5es que partem do sujeito cultural, que acaba por anunciar e <em>denunciar<\/em> o modo como imagina ser tratado; de que ponto gostaria de ser escutado e que, provavelmente, se sentiria bem. Trata-se de uma abordagem sem pretens\u00f5es de ser conclusiva, tampouco de dividir a psican\u00e1lise para negros e brancos. O compromisso aqui \u00e9 dar import\u00e2ncia a essa quest\u00e3o que, na minha vis\u00e3o, n\u00e3o deve ser reduzida, em termos te\u00f3ricos, e nem banalizada, pois, na atualidade, h\u00e1 v\u00e1rias vis\u00f5es a respeito do tema, assim, compartilho as minhas impress\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 importante considerar tamb\u00e9m que este artigo se insere na perspectiva do evento Racismo Estrutural: Enfrentamento Transdisciplinar Antirracista, realizado pelo Instituto Langage, em novembro de 2020. Pois entendemos que o racismo e suas tramas devem ser considerados, sim, no processo de forma\u00e7\u00e3o dos sujeitos, em seus sofrimentos ps\u00edquicos, nos modos como constroem suas redes de significa\u00e7\u00f5es e como lida com seus significantes.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea conhece algum\/a psicanalista negro\/a?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 comum o sujeito partir de uma <em>prefer\u00eancia<\/em> cl\u00ednica, ou seja, querer ser atendido por mulher, homem, pessoa trans, pessoa de determinada abordagem psicanal\u00edtica; que o consult\u00f3rio seja perto ou longe de casa ou do trabalho; que o profissional aceite determinado valor de pagamento; ou situa\u00e7\u00f5es mais espec\u00edficas, por exemplo: \u201cPrefiro ser atendido por mulher, branca, mais velha e com cabelos brancos!\u201d. Nesse caso, indaga-se o que h\u00e1 nessa constru\u00e7\u00e3o subjetiva que \u00e9 projetada na posi\u00e7\u00e3o da analista.<\/p>\n<p>Essas <em>escolhas<\/em> falam muito do <em>escolhedor<\/em>. Falam de suas fantasias, seus desejos, sintomas, sofrimentos, suas transfer\u00eancias e identifica\u00e7\u00f5es. Expressam parte de como o sujeito constitui os seus la\u00e7os. Quando expressa uma <em>prefer\u00eancia,<\/em> o sujeito assenta-se em uma justificativa, que, possivelmente, \u00e9, ou seria, mais confort\u00e1vel para ele. Trata-se, portanto, de uma quest\u00e3o que diz respeito ao sujeito, \u00e0s suas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>O que me chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 como se dar\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o transferencial, no encontro com o analista; o manejo do analista. O sujeito negro pode chegar \u00e0 cl\u00ednica e dizer: \u201cVoc\u00ea \u00e9 negro, sabe como \u00e9 o racismo, n\u00e9?\u201d. Assim, nesta situa\u00e7\u00e3o, o psicanalista permaneceria em sil\u00eancio ou poderia responder com uma indaga\u00e7\u00e3o: \u201cFale como \u00e9 o racismo para voc\u00ea\u201d. Lacan (1967-68) ir\u00e1 sustentar que o psicanalista \u00e9 aquele que n\u00e3o sabe, e mais ainda, que ele n\u00e3o pode saber, justamente para que o sujeito analisante possa, ele sim, vir a saber. Ao psicanalista resta o lugar do suposto saber. Saber atribu\u00eddo a ele pela transfer\u00eancia, que ele deve restituir a este outro. Isto \u00e9, \u201cA transfer\u00eancia, eu a restaurei em sua forma completa ao report\u00e1-la ao sujeito suposto saber. O final de an\u00e1lise consiste na queda do sujeito suposto saber\u201d\u00a0(LACAN, 1967-68, n.p. \/ <em>Semin\u00e1rio, livro 15: o ato psicanal\u00edtico<\/em>). O psicanalista \u00e9 aquele que produz o furo no imagin\u00e1rio do analisante que o tem como a possibilidade de o saber ser algo que se encontra fora dele: \u201cO essencial da an\u00e1lise dessa situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos, ser aquele (o analista) que se oferece como suporte para todas as demandas e que n\u00e3o responde a nenhuma\u201d (LACAN, 1958-59, n.p. \/ <em>Semin\u00e1rio, livro 06: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 outras situa\u00e7\u00f5es, como n\u00e3o ter <em>exig\u00eancia<\/em> de <em>perfil<\/em> (ou talvez nem ao sujeito lhe d\u00e3o condi\u00e7\u00f5es ou acesso de <em>escolha<\/em>). Aqueles que buscam atendimentos, ou que s\u00e3o atendidos por profissionais contr\u00e1rios \u00e0s suas concep\u00e7\u00f5es (lembrando que, da parte do analista, n\u00e3o cabe a ideia de ser contr\u00e1rio ao analisando, ou seja, atribuir ju\u00edzo de valor), como se v\u00ea no filme <em>Um<\/em> <em>skinhead no div\u00e3<\/em>, de 1993, dirigido por Suzanne Osten, que narra o encontro e a viv\u00eancia cl\u00ednica de S\u00f6ren, jovem <em>skinhead<\/em>, que \u00e9 atendido por Jacob, analista judeu. Aqueles que procuram analistas com a imagem semelhante \u00e0 de suas afeta\u00e7\u00f5es. Aqueles que preferem pessoas com suas mesmas caracter\u00edsticas culturais, pol\u00edticas, de g\u00eanero e \u00e9tnico-raciais, como se afirmassem: \u201cEle \u00e9 igual a mim, ent\u00e3o, vai me entender!\u201d. Claro que n\u00e3o \u00e9 somente isso, pois esse movimento pode se referir ao modo de identifica\u00e7\u00e3o do sujeito (FREUD, 1921\/2011), dentre outras quest\u00f5es particulares. Portanto, destaco o aspecto \u00e9tnico-racial sobre o qual pretendo refletir um pouco mais a seguir.<\/p>\n<p><strong>O que h\u00e1 por tr\u00e1s daquilo que n\u00e3o escutamos? <\/strong><\/p>\n<p>Tenho dialogado constantemente com discentes, colegas de trabalho e de forma\u00e7\u00e3o sobre o fato de pessoas negras procurarem atendimento com analistas negros\/as e coloco-me a pensar nos significantes que constituem essa procura. E essa busca caracteriza tamb\u00e9m outras modalidades de profissionais negros\/as, como advogados\/as, assistentes sociais, dentistas, m\u00e9dicos\/as, psic\u00f3logos\/as, professores\/as, terapeutas ocupacionais, dermatologistas e profissionais de est\u00e9tica. Por\u00e9m, manterei o foco na psican\u00e1lise, o que n\u00e3o impede de o\/a leitor\/a associar com outros horizontes.<\/p>\n<p>Sobre essa procura, entendo que n\u00e3o se trata de concordar, ou discordar, com o outro. A minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que esse n\u00e3o \u00e9 o lugar e nem o papel da psican\u00e1lise. Acredito que o processo anal\u00edtico deve, ou deveria, tomar essa busca como algo a ser analisado e n\u00e3o rejeitado. Lacan ([1973] 2003, p. 553-554), em seu texto <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos, <\/em>afirma:<\/p>\n<p><em>Freud o disse antes de mim: numa an\u00e1lise, tudo deve ser recolhido \u2013 onde se v\u00ea que o analista n\u00e3o pode lavar as m\u00e3os \u2013 recolhido como se nada se houvesse estabelecido fora dela. Isso n\u00e3o quer dizer outra coisa sen\u00e3o que o escape do tonel deve ser sempre reaberto. [&#8230;] Com o que indico que o que decorre da mesma estrutura n\u00e3o tem for\u00e7osamente o mesmo sentido. \u00c9 por isso que s\u00f3 existe an\u00e1lise do particular: n\u00e3o \u00e9 de um sentido \u00fanico, em absoluto, que prov\u00e9m uma mesma estrutura, sobretudo n\u00e3o quando ela atinge o discurso.<\/em><\/p>\n<p>Interessante pensar as simbologias da express\u00e3o \u201clavar as m\u00e3os\u201d. Resgatando um fato religioso, P\u00f4ncio Pilatos o fez no sentido de dizer que n\u00e3o seria o respons\u00e1vel pela puni\u00e7\u00e3o a Jesus Cristo. Profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade lavam as m\u00e3os antes e depois de realizarem seus procedimentos. Lavamos as m\u00e3os antes das refei\u00e7\u00f5es. Quer dizer, lavar as m\u00e3os \u00e9 limpar-se de algo ou de <em>algu\u00e9m<\/em>. Ent\u00e3o, para o analista, n\u00e3o lavar as m\u00e3os tem outro sentido, ou seja, deve atentar-se \u00e0s particularidades, ser respons\u00e1vel por sua posi\u00e7\u00e3o e o manejo daquilo que foi <em>recolhido<\/em>; n\u00e3o deve ignorar o que escutou. Nessa alus\u00e3o, a m\u00e3o que recolhe os <em>cacos de vidro<\/em> n\u00e3o \u00e9 a do analista, mas a do paciente em forma de narrativa. Por\u00e9m, de outro \u00e2ngulo, para o analista, \u201clavar as m\u00e3os\u201d envolve a forma\u00e7\u00e3o permanente, a supervis\u00e3o de seus casos cl\u00ednicos, o cuidado de si por meio de sua an\u00e1lise pessoal e o seu envolvimento e posicionamento nas rela\u00e7\u00f5es institucionais.<\/p>\n<p>A partir de relatos de casos conhecidos, verifica-se que a procura por um\/a psicanalista negro\/a parte de variadas leituras e de m\u00faltiplas situa\u00e7\u00f5es. Trata-se de uma particularidade que acredito ser mais prudente n\u00e3o tom\u00e1-la como defini\u00e7\u00e3o e, sim, pela via da interpreta\u00e7\u00e3o. Ou seja: De qual ordem fala essa quest\u00e3o para o sujeito? O que h\u00e1 por tr\u00e1s daquilo que n\u00e3o escutamos?<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, as palavras n\u00e3o s\u00e3o as mesmas para todos, nem para o pr\u00f3prio sujeito. No campo \u00e9tnico-racial, apresenta ampla associa\u00e7\u00e3o de signos da linguagem, os quais devem ser decifrados.\u00a0 Achille Mbembe, em <em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra<\/em> <em>(Critique de la raison n\u00e8gre)<\/em>, ao analisar o nome \u201cnegro\u201d, considera que:<\/p>\n<p><em>Tal como a palavra, o nome s\u00f3 existe se for ouvido e assumido por quem o carrega. Ou melhor, s\u00f3 existe nome quando quem o carrega sente os efeitos do seu peso em sua consci\u00eancia. H\u00e1 nomes que carregamos como um insulto permanente e outros que carregamos por h\u00e1bito. O nome \u201cnegro\u201d deriva de ambos.<\/em> (MBEMBE, 2018, p. 264, grifos do original).<\/p>\n<p>A palavra e o nome, portanto, n\u00e3o v\u00eam sozinhos, s\u00e3o envolvidos de energias, sentimentos, intencionalidades, contextos, hist\u00f3rias. Os conte\u00fados das palavras mudam com o tempo, pois fazem parte de uma rede de rela\u00e7\u00f5es culturais e semiol\u00f3gicas. A palavra, ou a inten\u00e7\u00e3o de palavra, pode estar por tr\u00e1s daquilo que n\u00e3o escutamos. E o que est\u00e1 por tr\u00e1s pode ser um enigma, um tabu, ou, ainda, o reflexo de quem se p\u00f5e a escutar, ou a imagem reproduzida de quem n\u00e3o quer ouvir. A palavra \u00e9 convoca\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, por isso, de acordo com Gabriel Nascimento em seu livro <em>Racismo lingu\u00edstico: <\/em><em>os subterr\u00e2neos da linguagem e do racismo<\/em>: \u201cA l\u00edngua \u00e9 um lugar de muitas dores para muitos de n\u00f3s\u201d (NASCIMENTO, 2019, p. 21).<\/p>\n<p><strong>Alguns tra\u00e7os e fraturas hist\u00f3ricas <\/strong><\/p>\n<p>Antes de falar da quest\u00e3o do negro na cl\u00ednica, \u00e9 importante fazer algumas considera\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Vivemos numa sociedade racista. Esse fato n\u00e3o \u00e9 novidade, mas temos que ficar atentos em como o racismo se transfigura, em como desenvolve suas metamorfoses no tecido social e nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o e como inverte posi\u00e7\u00f5es, a ponto de definir como culpado o sujeito que sofre os atos de racismo. N\u00e3o se trata de uma generaliza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, por ser estrutural, na sociedade brasileira, o racismo atua direta e indiretamente; no Brasil, \u00e9 cruel e <em>criativo, <\/em>dentre outras express\u00f5es<em>.<\/em><\/p>\n<p>Em 1851, o m\u00e9dico Samuel Adolphus Cartwright (1793-1863) criou o diagn\u00f3stico Drapetomania, para classificar os escravizados que fugiam das condi\u00e7\u00f5es impostas pela escraviza\u00e7\u00e3o no sul dos Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA). Esse \u00e9 um dos v\u00e1rios casos em que a <em>ci\u00eancia<\/em> contribuiu para a objetifica\u00e7\u00e3o de sujeitos negros. Nessa concep\u00e7\u00e3o, a recusa dos processos de escraviza\u00e7\u00e3o era vista a partir de uma ordem patol\u00f3gica e que, certamente, atendiam outros interesses, como pol\u00edticos, econ\u00f4micos e cient\u00edficos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma ferida narc\u00edsica na constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do negro brasileiro. S\u00e3o traumas oriundos dos processos de escraviza\u00e7\u00e3o, que produziram e ainda produzem outros traumas na contemporaneidade, os quais afetam os campos simb\u00f3lico, real e imagin\u00e1rio do sujeito, formando um n\u00f3, que cria representa\u00e7\u00f5es naturalizadas do mundo e de si mesmo, produzindo um enrosco, um conflito subjetivo, expresso de v\u00e1rias maneiras, nos sujeitos negros. Este n\u00f3, no entanto, n\u00e3o \u00e9 a garantia de uma sobredetermina\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 o que o sujeito p\u00f4de fazer com o que herdou, com as marcas estruturantes de uma hist\u00f3ria que n\u00e3o pode ser nunca entendida como passado, pois est\u00e1 presente nas rela\u00e7\u00f5es e estruturas que subsistem ao tempo, que se recusam a ficar no passado. As amarra\u00e7\u00f5es deste n\u00f3, impostas por um discurso violento e destrutivo da escraviza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi, no entanto, suficiente para impedir que, nas suas brechas e franjas, o sujeito negro pudesse construir uma cr\u00edtica que o revelava como a forma mais cruel de domina\u00e7\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o de um humano sobre o outro, aquele que buscava transformar o sujeito negro em um objeto de seus gozos mais esp\u00farios.<\/p>\n<p>Comumente, pessoas falam que s\u00e3o descendentes de italianos, franceses, espanh\u00f3is. Muitos sabem a origem de seus nomes e sobrenomes. J\u00e1 a maioria dos sujeitos negros n\u00e3o tem essa marca exata de origem. Al\u00e9m de saber apenas que descende de africanos escravizados, n\u00e3o tem ideia de qual grupo \u00e9tnico-racial pertence, quais s\u00e3o seus ritos, costumes, valores e tradi\u00e7\u00f5es. A aus\u00eancia dessa hist\u00f3ria, ou a dissemina\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria equivocada\/adulterada, pode ampliar as lacunas da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito negro. Como diz Neusa Santos Souza, em seu livro <em>Tornar-se Negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/em>:<\/p>\n<p><em>Saber-se negra \u00e9 viver a experi\u00eancia de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exig\u00eancias, compelida a expectativas alienadas. Mas \u00e9 tamb\u00e9m, e sobretudo, a experi\u00eancia de comprometer-se a resgatar sua hist\u00f3ria e recriar-se em suas potencialidades<\/em>. (SOUZA, 1983, p. 17-18).<\/p>\n<p>O negro brasileiro tem as marcas dos processos de coloniza\u00e7\u00e3o em sua estrutura geracional e, na atualidade, ainda vivencia essas sequelas<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Sim, h\u00e1 negros que ainda dizem que racismo n\u00e3o existe; que Zumbi dos Palmares foi um fuj\u00e3o; que tudo isso \u00e9 mimimi. S\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0s cotas, pois pensam que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre negros e brancos, que a quest\u00e3o \u00e9 somente socioecon\u00f4mica. Talvez, esses sejam os <em>mais<\/em> afetados, pois hoje declaram amor aos seus algozes e negam na palavra, o que, a hist\u00f3ria e a cotidianidade provam o contr\u00e1rio. Negam, ao mesmo tempo em que sofrem, mas n\u00e3o assumem, ou n\u00e3o percebem.<\/p>\n<p>Entre o universal e o particular, \u00e9 importante considerar que h\u00e1 v\u00e1rios modos e viv\u00eancias de sujeitos negros a respeito desse assunto. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o de ra\u00e7a\/cor em si, mas a sua rela\u00e7\u00e3o com processos conscientes e com a manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente (KON <em>et al<\/em>., 2017). \u00c9 necess\u00e1rio analisar as diferen\u00e7as raciais e seus impactos na sociedade, historicamente. Para isso, a importante contribui\u00e7\u00e3o de Virg\u00ednia Leone Bicudo, em sua disserta\u00e7\u00e3o defendida em 1945 e publicada com o nome de <em>Atitudes raciais de pretos e mulatos em S\u00e3o Paulo<\/em> (edi\u00e7\u00e3o de MAIO, 2010), que apresenta uma pesquisa realizada na capital paulista sobre o modo como os sujeitos se concebem na perspectiva \u00e9tnico-racial, numa leitura social e subjetiva das atitudes desses sujeitos.<\/p>\n<p>S\u00e3o alguns aspectos para pensar que as marcas dos processos de escraviza\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-escraviza\u00e7\u00e3o s\u00e3o atemporais. H\u00e1 discursos que tentam negar essa hist\u00f3ria, dizendo: \u201c<em>Isso \u00e9 passado!<\/em>\u201d. N\u00e3o existe passado para o inconsciente. Por ser atemporal, h\u00e1 recalque, conflitos, sintomas e o retorno daquilo que foi recalcado. Bicudo (1945, in: MAIO, 2010) e Souza (1983) apresentam contribui\u00e7\u00f5es significativas para esse debate.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio \u00e9 ilustrativo. Ap\u00f3s fazer uma explana\u00e7\u00e3o, em uma aula espec\u00edfica, sobre as riquezas da \u00c1frica \u2013 n\u00e3o citadas por muitos, ao tratarem do tema \u2013, apresentei para a turma um trecho de <em>Amistad<\/em>, filme de 1997, dirigido por Steven Spielberg, que retrata os processos truculentos do sequestro e da comercializa\u00e7\u00e3o de africanos; a travessia do Atl\u00e2ntico por navio \u2013 bem como as pr\u00e1ticas desumanas que ali ocorriam \u2013 e a chegada em outros pa\u00edses, para serem impostos \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A finalidade era discutir com a turma determinada cena que ilustrava exatamente esse contexto. Ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do trecho, levantei-me para desligar o computador, e, ao virar-me para a turma, percebi que as alunas estavam extremamente emocionadas, com os olhos arregalados. V\u00ea-las assim, me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Identifiquei que o filme foi um golpe forte. Ficou aquele sil\u00eancio&#8230; Sabe?! Aquele sil\u00eancio assim&#8230; E todas sustentando o olhar para mim e entre elas. At\u00e9 que uma me perguntou: \u201cProfessor, isso aconteceu de verdade?\u201d. Ent\u00e3o, disse-lhe: \u201cSim, aconteceu! Vamos conversar a respeito?\u201d. O encontro com o real, hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Percebe-se como a hist\u00f3ria \u00e9 importante para a forma\u00e7\u00e3o do sujeito. Mas n\u00e3o qualquer hist\u00f3ria, se considerada a exist\u00eancia de v\u00e1rias. A hist\u00f3ria apresentada em sala de aula foi posta como uma contra-hist\u00f3ria. \u00c9 importante olhar para o modo como as hist\u00f3rias s\u00e3o constru\u00eddas e transmitidas, pois se ensinarmos o valor da \u00c1frica a partir da coloniza\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o, anulamos toda a hist\u00f3ria de prest\u00edgio, t\u00e3o citado quando diz respeito a outros continentes, como a Europa. Isto \u00e9, ensinando sobre a \u00c1frica pelo negativo, o que o\/a discente aprender\u00e1 sobre aquele continente? Qual ser\u00e1 a sua compreens\u00e3o e seu aprendizado hist\u00f3rico? Como ele\/ela poder\u00e1 se ver como negro\/a? Conhecer a \u00c1frica real \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o importante e necess\u00e1ria para sabermos de n\u00f3s. (MUNANGA, 2013).<\/p>\n<p>Vejam, h\u00e1 casos de negros que assumem a sua negritude desde a inf\u00e2ncia, devido ao reconhecimento e valor demonstrados pelos familiares, pela comunidade e pela escola. Ainda h\u00e1 muitos que assumem a sua negritude na adolesc\u00eancia, na juventude ou na fase adulta. E aqueles que passam a vida inteira sem se encontrar racialmente. Cada um tem o seu processo. Muitos n\u00e3o conseguem se ver como s\u00e3o ou n\u00e3o conseguem se reconhecer como pertencentes a determinado grupo \u00e9tnico-racial. Ser negro \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com a constru\u00e7\u00e3o do sujeito branco, em muitos contextos.<\/p>\n<p>Ser negro n\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples, numa sociedade em que ser branco parece ser <em>normal<\/em>. Tornar-se negro \u00e9 uma luta hist\u00f3rica e cotidiana. S\u00e3o poucas as situa\u00e7\u00f5es em que o sujeito negro est\u00e1 imune aos efeitos do racismo. \u00c9 o que expresso na poesia <em>Porque o racismo \u00e9 estruturalmente estrutural<\/em>:<\/p>\n<p>Temos que ocupar todos os lugares&#8230;<\/p>\n<p>Vamos unir for\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Vamos estudar e transformar a hist\u00f3ria&#8230;<br \/>\nVamos nos manifestar, exigir e argumentar&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo sabendo que nenhum\/a negro\/a est\u00e1 imune aos efeitos do racismo,<br \/>\nque \u00e9 estruturalmente estrutural&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo que tenha diploma, mesmo que more em \u00e1rea nobre,<br \/>\nmesmo que fale ingl\u00eas, \u00e1rabe, franc\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>O racismo sempre d\u00e1 um jeitinho para nos alcan\u00e7ar&#8230; \u00c9 s\u00f3 olhar direitinho&#8230;<\/p>\n<p>E essa talvez seja uma de suas estrat\u00e9gias de atua\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u201cMesmo que te escondas, eu te encontro\u201d.<\/p>\n<p><strong>O\/A negro\/a e a cl\u00ednica <\/strong><\/p>\n<p>A partir dessas notas, podemos caminhar para outro aspecto. S\u00e3o v\u00e1rias as situa\u00e7\u00f5es em que o sujeito negro procura um\/a psicanalista negro\/a, pois teve uma experi\u00eancia com psicanalista que n\u00e3o era negro\/a e entende que n\u00e3o foi ouvido como queria. Ou se sentiu ignorado ou desconsiderado em sua subjetividade, ou express\u00f5es lingu\u00edsticas e culturais, lembrando que s\u00e3o aspectos do sujeito, tamb\u00e9m colocadas como uma quest\u00e3o para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Em entrevista da psicanalista Maria L\u00facia da Silva, intitulada <em>Impactos do racismo n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos pela psican\u00e1lise<\/em>, ao ser indagada sobre a abordagem do racismo na psican\u00e1lise, na atualidade, e como deveria ser tratada, afirmou:<\/p>\n<p><em>Na institui\u00e7\u00e3o Psican\u00e1lise n\u00e3o h\u00e1 um reconhecimento de que o racismo produz sofrimento ps\u00edquico, portanto, quando alguma pessoa negra num consult\u00f3rio de um psicanalista branco traz o tema do racismo, do seu sofrimento, esse tema n\u00e3o \u00e9 reconhecido, ele n\u00e3o \u00e9 tratado como ele merece ser tratado. E, a\u00ed, muitas vezes o psicanalista vai tratar esse tema de uma forma superficial, vai dizer pro sujeito: \u201cOlha, isso n\u00e3o existe mais, isso \u00e9 da sua cabe\u00e7a, isso \u00e9 sentimento de persegui\u00e7\u00e3o\u201d. Ent\u00e3o \u00e9 isso que n\u00f3s vamos vivendo no cotidiano. Eu tenho que levar em conta todos os fatores identit\u00e1rios daquela pessoa que t\u00e1 na minha cl\u00ednica. Portanto, se tem um negro em seu consult\u00f3rio, tem que levar em conta a hist\u00f3ria dele, a hist\u00f3ria cultural, o grupo que ele faz parte, ent\u00e3o \u00e9 quase que retomar os estudos que d\u00e3o origem \u00e0 pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a hist\u00f3ria do sujeito, a singularidade daquele sujeito<\/em>. (SILVA, 2017, p. 1, grifos do original).<\/p>\n<p>Esta cita\u00e7\u00e3o traz \u00e0 tona n\u00e3o somente a impossibilidade do processo anal\u00edtico do sujeito frente a um discurso que desconsidera a sua realidade, ele mostra a apropria\u00e7\u00e3o indevida do sujeito que se diz analista. Uma fala como esta: \u201cOlha, isso n\u00e3o existe mais, isso \u00e9 da sua cabe\u00e7a, isso \u00e9 sentimento de persegui\u00e7\u00e3o\u201d, fala mais do suposto analista, que sup\u00f5e saber sobre n\u00e3o somente o outro, mas, principalmente, sobre todas as formas de rela\u00e7\u00e3o existentes. Sua fala revela, para al\u00e9m da sua prepot\u00eancia, sua inaptid\u00e3o para o trabalho anal\u00edtico, e revela ainda, na tentativa de desqualificar e anular o discurso do analisante, a manuten\u00e7\u00e3o de uma ordem e estrutura racista, que para se perpetuar precisa permanecer como n\u00e3o existente, para que possa operar sem ser denunciada e combatida. O silenciamento do sujeito \u00e9 uma tentativa violenta de incutir naquele que \u00e9 vitimizado uma d\u00favida sobre o que ele vive como sendo ela n\u00e3o existente, ou somente algo que ele cria para poder justificar a sua condi\u00e7\u00e3o. Uma mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o subjetiva faria com que o sujeito passasse a ser, ele mesmo, o agente daquilo que ele den\u00fancia. A este tipo de trabalho podemos atribuir v\u00e1rios nomes, menos o de an\u00e1lise, e um psicanalista racista n\u00e3o pode ser considerado analista. E um psicanalista atravessado pela l\u00f3gica racista, deve se rever.<\/p>\n<p>Somos todos seres humanos, mas como sujeitos somos sempre seres singulares. \u00c9 comum ouvir: \u201cSomos todos iguais!\u201d, como se fosse um protesto contra o reconhecimento da singularidade. Por exemplo, todos sentem fome, mas nem todos comem as mesmas coisas. Alguns fazem de quatro a cinco refei\u00e7\u00f5es durante o dia; muitos passam o dia sem comer. A fome \u00e9 de todos, mas o que mata a fome, o alimento, n\u00e3o chega para todos. Interessante, \u201cmatar\u201d a fome. A tentativa de quem n\u00e3o tem o que comer \u00e9 ser <em>assassino<\/em> de sua pr\u00f3pria fisiologia, \u00e9 ser o <em>assassino<\/em> de suas outras fomes.<\/p>\n<p>Penso tamb\u00e9m no ar que todos precisamos respirar; encher os pulm\u00f5es e esvazi\u00e1-los. A respira\u00e7\u00e3o \u00e9 intrigante: muitos respiram o ar puro das manh\u00e3s frescas e aromatizadas pelas hortali\u00e7as e pelos l\u00edrios do campo. Alguns respiram o ar contaminado dos aterros sanit\u00e1rios; o ar polu\u00eddo dos c\u00f3rregos; o ar f\u00e9tido do caminh\u00e3o de coleta de res\u00edduos. J\u00e1 outros, na atualidade, devido \u00e0 pandemia de Covid-19, lutam para respirar com a ajuda de aparelhos. Isto \u00e9, a respira\u00e7\u00e3o n\u00e3o envolve somente o oxig\u00eanio e g\u00e1s carb\u00f4nico. O que respiro me afeta e constr\u00f3i, corr\u00f3i. Respiramos sentimentos, mem\u00f3rias e viol\u00eancias. Sabemos se o clima est\u00e1 bom, ou n\u00e3o, pelo cheiro. \u201cIsso n\u00e3o t\u00e1 cheirando coisa boa!\u201d, h\u00e1 quem diga&#8230;<\/p>\n<p>Assim como a fome e a respira\u00e7\u00e3o, a ideia de ra\u00e7a\/cor tamb\u00e9m tem as suas especificidades e necessidades cotidianas. Ao falar de fome e respira\u00e7\u00e3o, trato de aspectos comuns: amparo, desamparo e autopreserva\u00e7\u00e3o; os quais nos fazem pensar nas perspectivas cultural e pol\u00edtica da forma\u00e7\u00e3o dos sujeitos negros.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es <\/strong><\/p>\n<p>Vivemos em uma sociedade plural, com marcantes diversidades sociais, culturais e \u00e9tnico-raciais. Entretanto, esses aspectos, por um lado, expressam converg\u00eancias e, por outro, demostram imensos contrastes e conflitos que envolvem o sujeito, principalmente no que se refere \u00e0 ra\u00e7a\/cor. Da\u00ed, pensar o racismo estrutural a partir de sua origem, trajet\u00f3ria e manifesta\u00e7\u00e3o na atualidade, convoca-nos a refletir sobre como afeta diretamente a constitui\u00e7\u00e3o e o modo de vida do sujeito. Por ser estrutural, o racismo tamb\u00e9m \u00e9 estruturante, pois se ramifica, atua cotidianamente, produzindo mais de si e recriando outras formas de atua\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o significa que n\u00e3o podemos subvert\u00ea-lo; mas, para isso, \u00e9 necess\u00e1ria a produ\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas antirracistas estruturais e estruturantes para combat\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Nas manifesta\u00e7\u00f5es de racismo, n\u00e3o \u00e9 somente o sujeito negro que \u00e9 afetado, mas o sujeito branco tamb\u00e9m, entorpecido por seu narcisismo, visto e posicionado como <em>Ideal do Eu<\/em>. Por\u00e9m, h\u00e1 diferen\u00e7as, pois o sujeito racista tem habilidades para identificar o outro que o incomoda, e reage. Como explicita Mbembe (2018, p. 76): \u201cO sujeito racista reconhece em si mesmo a humanidade n\u00e3o naquilo que o torna igual aos outros, mas naquilo que o distingue deles\u201d. O branco sabe quem \u00e9 negro. Enquanto o sujeito negro pergunta por si, tem que se construir contra as viol\u00eancias; defender-se; lutar para provar que sofreu racismo, como se estivesse contando uma mentira&#8230; E mesmo que n\u00e3o seja o que ele diz ter acontecido, eis a\u00ed um canal para analisar o seu discurso, as outras entranhas de sua subjetividade.<\/p>\n<p>Quando o sujeito negro procura um psicanalista negro, pode estar expressando uma posi\u00e7\u00e3o de querer se cuidar; um modo peculiar de pedir ajuda; um modo de se ver no outro, como um espelho, para conseguir se sustentar na posi\u00e7\u00e3o de analisando. A procura de um psicanalista negro pode ser tamb\u00e9m uma expectativa de ser tratado melhor. Essa procura pode evidenciar viv\u00eancias anteriores, em que o sujeito n\u00e3o quis ou n\u00e3o conseguiu permanecer, al\u00e9m de ser ainda, uma maneira de expressar o lugar esperado. E avalio ser leg\u00edtima n\u00e3o somente essa busca, mas o que o sujeito encontrar\u00e1 no psicanalista n\u00e3o pode ser as respostas que ele procura, mas sim um lugar onde suas respostas possam ser constru\u00eddas.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o alguns tra\u00e7os de v\u00e1rios outros que podem ser identificados no trabalho de escuta. Sendo, portanto, relevante deixar claro que nem toda procura de um sujeito negro (que n\u00e3o s\u00e3o todos) por um psicanalista negro (ou n\u00e3o), tem por demanda afeta\u00e7\u00f5es sobre aspectos \u00e9tnico-raciais. S\u00e3o linhas t\u00eanues, muitos detalhes subjetivos que se apresentam falseados de outros valores e conte\u00fados.<\/p>\n<p>Recentemente, em determinado espa\u00e7o, ouvi algu\u00e9m indagar, em tom \u00e1spero e de estarrecimento: \u201cE o que voc\u00ea acha dessa psican\u00e1lise negra que t\u00e1 acontecendo a\u00ed?\u201d.\u00a0 Penso que n\u00e3o h\u00e1 uma <em>psican\u00e1lise negra<\/em>. Mas um movimento para a psican\u00e1lise reconhecer essa quest\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 porque se conhece a \u00c1frica, ou algum pa\u00eds daquele continente, que se conhece os africanos, por\u00e9m, o conhecimento das vertentes social, cultural, econ\u00f4mica e pol\u00edtica daquele continente pode contribuir para a escuta do sujeito perante o seu mundo. O campo da linguagem \u00e9 m\u00faltiplo, inclusive, dentre sujeitos da mesma cultura. Logo, o que se pode traduzir ao ouvir um angolano: \u201cSa\u00ed com uma rapariga. A bicha estava grande!\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 importante considerar Fanon que, em <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em> <em>(Peau noire, masques blancs)<\/em>, ao caminhar pelo caminho da sociogenia, afirma:<\/p>\n<p><em>Freud, atrav\u00e9s da psican\u00e1lise, exigiu que fosse levado em considera\u00e7\u00e3o o fator individual. Ele substituiu a tese filogen\u00e9tica pela perspectiva ontogen\u00e9tica. [&#8230;] Ao lado da filogenia e da ontogenia, h\u00e1 a sociogenia. [&#8230;] A sociedade, ao contr\u00e1rio dos processos bioqu\u00edmicos, n\u00e3o escapa \u00e0 influ\u00eancia humana. \u00c9 pelo homem que a Sociedade chega ao ser<\/em>. (FANON, [1952] 2008, p. 28).<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise foi constru\u00edda na Europa, por homens brancos, inicialmente no atendimento a sujeitos brancos, vivenciando valores daquela \u00e9poca, por isso, \u00e9 relevante a sua continuidade considerando as demandas atuais e, at\u00e9 mesmo, aspectos hist\u00f3ricos negligenciados durante a sua implementa\u00e7\u00e3o. Segundo Fanon ([1952] 2008, p. 127):<\/p>\n<p><em>As escolas psicanal\u00edticas estudaram as rea\u00e7\u00f5es neur\u00f3ticas que nascem em certos meios, em certos setores da civiliza\u00e7\u00e3o. Obedecendo a uma exig\u00eancia dial\u00e9tica, dever\u00edamos nos perguntar at\u00e9 que ponto as conclus\u00f5es de Freud ou de Adler podem ser utilizadas em uma tentativa de explica\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o de mundo do homem de cor. <\/em><\/p>\n<p>Hoje podemos dizer, de forma segura, que a psican\u00e1lise n\u00e3o construiu um saber universal, ela inaugurou uma forma de produzir conhecimento sobre o humano, mas muito ainda precisa ser feito, e muito precisa ser desconstru\u00eddo. O discurso psicanal\u00edtico deve rever sua posi\u00e7\u00e3o frente a diversas quest\u00f5es que ainda se encontram presentes na atualidade, como o racismo, o sexismo, o patriarcado e o colonialismo. Tal como ela foi concebida, e ainda mantida por diversos grupos, ela n\u00e3o pode ser tomada como um referencial para explicar a realidade hist\u00f3rica complexa em que se encontra o sujeito negro.<\/p>\n<p>Esse debate inacabado convoca as profiss\u00f5es para se posicionarem. E com a psican\u00e1lise \u2013 por n\u00e3o ser um mundo \u00e0 parte \u2013 n\u00e3o \u00e9 diferente. Reconhe\u00e7o a import\u00e2ncia da psican\u00e1lise na luta antirracista, inclusive, com o estudo aprofundado das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais na forma\u00e7\u00e3o do analista; na posi\u00e7\u00e3o do psicanalista entre os pares e as institui\u00e7\u00f5es; no manejo cl\u00ednico que considere a cultura do paciente; e na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento interseccional.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>FANON, Frantz. <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em> <em>(Peau noire, masques blancs)<\/em>. Salvador: EDUFBA, [1952] 2008.<br \/>\nFREUD, Sigmund. A identifica\u00e7\u00e3o [1921\/2011]. In: FREUD, Sigmund. <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu e outros textos.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, [1920-1923] 2011.<br \/>\nGONZALEZ, L\u00e9lia. A categoria pol\u00edtico-cultural de amefricanidade. In:\u00a0<em>Tempo Brasileiro<\/em>.\u00a0Rio de Janeiro, n. 92\/93, jan.\/jun., p. 68-82, 1988b.<br \/>\nKON, Noemi Moritz; ABUD, Cristiane Curi; SILVA, Maria L\u00facia da<em>. O racismo e o negro no Brasil: quest\u00f5es para a psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2017.<br \/>\nLACAN, Jacques. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos (1973)<em>. In:<\/em> LACAN, Jacques. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<br \/>\nLACAN, Jacques. <em>Semin\u00e1rio, l<\/em><em>ivro 06: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. [1958-59] in\u00e9dito. CD-ROM.<br \/>\nLACAN, Jacques. <em>Semin\u00e1rio, livro 15: o ato psicanal\u00edtico<\/em>. [1967-68] in\u00e9dito. CD-ROM.<br \/>\nMAIO, Marcos Chor (Org.). <em>Atitudes raciais de pretos e mulatos em S\u00e3o Paulo \u2013 Virg\u00ednia Leone Bicudo.<\/em> S\u00e3o Paulo: Sociologia e Pol\u00edtica, [1945] 2010.<br \/>\nMBEMBE, Achille. <em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra<\/em> <em>(Critique de la raison n\u00e8gre)<\/em>. S\u00e3o Paulo, n-1, 2018.<br \/>\nMUNANGA, Kabengele. Conflitos: traumas e mem\u00f3rias.\u00a0<strong><em>Revista da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores\/as Negros\/as (ABPN)<\/em><\/strong><strong><em>,<\/em><\/strong> [S.l.], v. 5, n. 11, p. 220-234, out. 2013. ISSN 2177-2770. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/abpnrevista.org.br\/index.php\/site\/article\/view\/198\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/abpnrevista.org.br\/index.php\/site\/article\/view\/198<\/a>. Acessado em: 11 de maio de 2020.<br \/>\nNASCIMENTO, Gabriel. <em>Racismo lingu\u00edstico: os subterr\u00e2neos da linguagem e do racismo<\/em>. Belo Horizonte: Letramento, 2019.<br \/>\nOSTEN, Suzanne. <em>Um <\/em><em>skinhead no div\u00e3<\/em> <em>(Tala! Det \u00e4r s\u00e5 m\u00f6rkt)<\/em>. Filme. Su\u00e9cia, 1993.<br \/>\nRAMOS, L\u00e1zaro. Programa Espelho. Entrevistadas: Neusa Santos Souza e M\u00e3e Meninazinha D\u2019oxum. 2009. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/youtu.be\/eugWGvhG48o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/youtu.be\/eugWGvhG48o<\/a>. Acessado em: 17 de maio de 2019.<br \/>\nSILVA, Maria L\u00facia da. Impactos do racismo n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos pela psican\u00e1lise. Entrevista. Luciana Console, jornalista. <em>Brasil de Fato.<\/em> S\u00e3o Paulo (SP), 31 jul. 2017.<br \/>\nSOUZA, Neusa Santos. <em>Tornar-se negro:<\/em> <em>ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social<\/em>. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1983.<br \/>\nSPIELBERG, Steven. <em>Amistad. <\/em>Filme. Estados Unidos da Am\u00e9rica: DreamWorks Pictures, SKG e Home Box Office (HBO), 1997.<\/p>\n<p><strong>Agradecimentos<\/strong><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o a Sergio Lopes de Oliveira (Diretor do Instituto Langage), J\u00fania da Silva Costa e Ana Carolina Martins Gil pelas riqu\u00edssimas interlocu\u00e7\u00f5es que contribu\u00edram para a elabora\u00e7\u00e3o deste artigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Originalmente publicado na Revista da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores\/as Negros\/as (ABPN), v. 13, n. 37, p. 246-260, ago. 2021. O boletim online do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae agradece \u00e0 ABPN por autorizar nossa publica\u00e7\u00e3o deste artigo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Professor da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP), <em>campus<\/em> Baixada Santista, vinculado ao curso de gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social e ao Departamento de Sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o e Sociedade e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Viv\u00eancias Art\u00edsticas, Culturais e Perif\u00e9ricas. \u00c9 graduado em Servi\u00e7o Social pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Minas Gerais (PUC Minas). Tem especializa\u00e7\u00e3o Multiprofissional em Sa\u00fade Mental e Psiquiatria pela Escola de Educa\u00e7\u00e3o Permanente do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (EEP HCFMUSP) e em Arte-Educa\u00e7\u00e3o pelo Centro Universit\u00e1rio SENAC. Mestre (bolsista do<em> Ford Foundation International Fellowships Program<\/em>, turma de 2010) e doutor em Servi\u00e7o Social pela PUC-SP. P\u00f3s-doutor em Psicologia Social pela PUC-SP. Em forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise no Instituto Langage. Ex-aluno do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma I e II, do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. \u00c9 arte-educa(a)dor, <em>rapper<\/em> e poeta conhecido como Vulgo Elemento.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Neusa Santos Souza (1948-2008), psiquiatra, psicanalista e escritora baiana, ao ser entrevistada por L\u00e1zaro Ramos e Sandra Almada, no Programa Espelho, exibido em 2009, ap\u00f3s a sua morte, apresenta reflex\u00f5es de sua importante obra <em>Tornar-se negro<\/em>. Na ocasi\u00e3o, exp\u00f5e as suas novas concep\u00e7\u00f5es acerca da psican\u00e1lise e do negro no Brasil, dando \u00eanfase ao aspecto singular de como cada negro lida com o racismo que sofre. (RAMOS, 2009).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> De acordo com Gonzalez (1988b), \u00e9 necess\u00e1rio o reconhecimento dos valores africanos na rela\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural do Brasil, bem como da Am\u00e9rica Latina\/ \u201cAm\u00e9frica Ladina\u201d. Nessa perspectiva, a autora considera tamb\u00e9m os atravessamentos na forma\u00e7\u00e3o do inconsciente do sujeito negro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abismos e aproxima\u00e7\u00f5es. Por Daniel P\u00e9ricles Arruda, Vulgo Elemento.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[107],"tags":[54,40],"edicao":[143],"autor":[163],"class_list":["post-1912","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-decolonial","tag-decolonial","tag-negritude","edicao-boletim-64","autor-daniel-pericles-arruda","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1912","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1912"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1912\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2322,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1912\/revisions\/2322"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1912"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1912"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1912"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1912"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1912"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}