{"id":1914,"date":"2022-09-15T19:14:23","date_gmt":"2022-09-15T22:14:23","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=1914"},"modified":"2022-09-20T17:18:13","modified_gmt":"2022-09-20T20:18:13","slug":"pode-uma-interpretacao-tremer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/09\/15\/pode-uma-interpretacao-tremer\/","title":{"rendered":"Pode uma interpreta\u00e7\u00e3o \u201ctremer\u201d?"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Pode uma interpreta\u00e7\u00e3o &#8220;tremer&#8221;?<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Lucas Ribeiro Arruda<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele &#8220;n\u00e3o tinha controle&#8221; quando estava na rua, n\u00e3o respeitava os sinais ou a aproxima\u00e7\u00e3o dos carros. Ele quase n\u00e3o falava nada e n\u00e3o interagia verbalmente como os outros, apenas repetia uma ou outra coisa que fal\u00e1vamos. H\u00e1 tr\u00eas anos acompanho o caso de Pedro (nome fict\u00edcio) como Acompanhante Terap\u00eautico (AT). Este acompanhado tem por volta de 40 anos, \u00e9 negro, diagnosticado com autismo, viveu em um hospital psiqui\u00e1trico por d\u00e9cadas, e em decorr\u00eancia da luta antimanicomial foi inserido em uma resid\u00eancia terap\u00eautica (SRT). Cada AT carrega consigo suas particularidades pessoais, e isso faz parte da abertura que vai sendo constru\u00edda com o acompanhado, na &#8220;cena&#8221; em que o trabalho se d\u00e1. Para cada pessoa de que vamos nos aproximar fazemos um caminho nosso, mas sempre diferente, conforme a caracter\u00edstica do dispositivo de AT, que conta com a flexibilidade. Fruto tamb\u00e9m de um longo percurso dentro da luta antimanicomial.<\/p>\n<p>No caso do acompanhamento de Pedro, o corpo estava presente como balizador de todo o trabalho.<\/p>\n<p>Se no consult\u00f3rio fazemos a &#8220;cura pela palavra&#8221;, como conceber um espa\u00e7o com algu\u00e9m que n\u00e3o fala? Como o corpo, ou melhor, o meu corpo, se colocou frente ao corpo do acompanhado? Considero que essa rela\u00e7\u00e3o &#8220;sem palavras&#8221; participou de minha forma\u00e7\u00e3o como AT, mas tamb\u00e9m indicou uma maior consist\u00eancia no meu trabalho no consult\u00f3rio. Como isso p\u00f4de ser poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Vou colocar uma cena em que estava com Pedro na rua, no in\u00edcio de nosso trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Esse homem, chamado algumas vezes de \u201ccachorr\u00e3o\u201d (!), n\u00e3o achou ainda um substituto das coleiras-paredes do antigo hospital psiqui\u00e1trico. Assim, era necess\u00e1rio criar um v\u00ednculo com presen\u00e7a corporal que n\u00e3o significasse mando, mas relacionamento. Ele j\u00e1 sabia ser cercado por paredes manicomiais e ser dito o que fazer a cada momento, isso j\u00e1 sab\u00edamos dele. Mas se sa\u00edssemos com ele na rua, ele ficaria &#8220;desgovernado&#8221;. Portanto, precisavam de &#8220;algu\u00e9m que o controlasse&#8221;. Mas utilizar a for\u00e7a n\u00e3o seria como uma &#8220;an\u00e1lise selvagem\u201d?<\/p>\n<p>Num dia particular sa\u00edmos. Estava com ele na rua. De s\u00fabito, em um instante, me vi com meu corpo em frente ao dele.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em uma esquina onde n\u00e3o se poderia atravessar, frente ao tr\u00e2nsito (anti)natural de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Senti meu corpo-cuidado sendo acotovelado por Pedro, gritos se esbo\u00e7aram naquele homem: ele tentava atravessar a esquina a todo custo, me atropelando. Naquele instante meu corpo inteiro ficou tremendo.<\/p>\n<p>Tremer foi a pr\u00f3pria energia, no corpo, relacionada \u00e0 minha interpreta\u00e7\u00e3o (colocar-me \u00e0 frente) do contorno-que-n\u00e3o-era-coleira. Sem a coleira ele ficou col\u00e9rico, tive que me contentar com administrar seu grande corpo atravessando a rua frente aos carros que subitamente pararam para deixar-nos passar. Dois corpos loucos, na vis\u00e3o dos motoristas, corpos fora do lugar. Sentindo a tend\u00eancia dos motociclistas e motoristas, me coloquei junto com o corpo do acompanhado, no meio fio do risco, a \u00faltima das coleiras, a morte. Por fim pararam e n\u00f3s atravessamos. O que da minha interpreta\u00e7\u00e3o-cuidado do corpo na frente que protege do atropelo (interpreta\u00e7\u00e3o-contorno) fez com que meu corpo tremesse? Uma interpreta\u00e7\u00e3o pode tremer?<\/p>\n<p>O consult\u00f3rio se d\u00e1 aparentemente em um &#8220;quebra cabe\u00e7a&#8221; verbal, onde se voc\u00ea sabe escutar, far\u00e1 um trabalho excelente. Mas quando me deparei com esse &#8220;cuidado-empurr\u00e3o&#8221;, esse &#8220;cuidado-briga&#8221;, percebi que o trabalho era muito diverso e ao mesmo tempo fundamental para meu desenvolvimento formativo como cl\u00ednico tamb\u00e9m no consult\u00f3rio. Nessa cena descrita acima, Pedro andava pelos seus primeiros caminhos na cidade, e ele me atropelou. No consult\u00f3rio tamb\u00e9m \u00e0s vezes sentimos um &#8220;atropelo verbal&#8221; vindo do paciente, mas caminhando pela cidade vamos tra\u00e7ando outro tipo de discurso. O corpo de Pedro poderia ser como uma &#8220;associa\u00e7\u00e3o livre&#8221;, &#8220;corpo-discurso&#8221;, e meu corpo na frente do seu poderia ser uma interpreta\u00e7\u00e3o, no sentido de dar uma contin\u00eancia \u00e0quele ato (toda interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria uma contin\u00eancia?). Ao longo do tempo pude ir criando essa contin\u00eancia-corpo para que fosse poss\u00edvel sairmos pela cidade. \u00c0s vezes, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio sentir tal &#8220;atropelo&#8221; que seu paciente do consult\u00f3rio lhe deu, pois ele estava como que querendo passar por cima de voc\u00ea com as palavras para se colocar em uma \u201cavenida cheia de carros\u201d, em um &#8220;risco da linguagem&#8221;.<\/p>\n<p>Tremer \u00e9 o que fica <em>entre <\/em>relaxado (como o &#8220;louco&#8221; que atravessa a rua) e tenso (como a coleira, o tratar como um cachorro, o trancafiar). Tremer \u00e9 a pr\u00f3pria vulnerabilidade que senti como AT, vulnerabilidade necess\u00e1ria para achar a justa medida de estar com algu\u00e9m. N\u00e3o medi for\u00e7as com o Pedro na esperan\u00e7a que ele me &#8220;respeitasse&#8221;, mas pude ir \u2013 ora \u00e0 frente, ora ao lado \u2013, com afeto e afetado, desenhando esses caminhos n\u00e3o mais arriscados de uma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro \u00e9 um homem negro, que viveu muito \u00e0s margens, inclusive dos la\u00e7os sociais convencionais. Como garantir o seu caminhar, n\u00e3o mais &#8220;louco&#8221;, mas um andar com um sentido? Muitas vezes j\u00e1 andei \u00e0 sua frente, algumas horas o deixava passar e ele ia guiando o caminho. Hoje praticamente s\u00f3 ando ao seu lado. Se andasse somente \u00e0 sua frente talvez fosse excessivo para ele, se s\u00f3 deixasse ele ir \u00e0 frente talvez fosse omisso.<\/p>\n<p>Andar \u00e0 frente e atr\u00e1s, em um jogo relacional, \u00e9 poder <em>dar espa\u00e7o a um corpo<\/em>. A um corpo que recusa a ordem das &#8220;encruzilhadas&#8221; da cidade. Ser\u00e1 o tr\u00e2nsito indiferente das esquinas, ou ser\u00e1 o tr\u00e2nsito indiferente da esquina de nossos olhos que n\u00e3o nos deixa vermos o que est\u00e1 ao nosso redor? Pude aprender a estar atento ao outro n\u00e3o pelo mando, n\u00e3o medindo for\u00e7as, mas ajudando a guiar, a tornar independente e vis\u00edvel por si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O processo dos corpos, o corpo negro e o corpo branco, est\u00e3o longe de uma &#8220;neutralidade&#8221;, n\u00e3o podemos ser omissos nem excessivos um com o outro. \u00c9 preciso que haja espa\u00e7o para que os corpos se relacionem, no entanto, n\u00e3o um espa\u00e7o &#8220;vazio&#8221; ou com um tr\u00e2nsito de indiferen\u00e7as, mas sim um espa\u00e7o cheio de tens\u00f5es.<\/p>\n<p>No processo de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica tamb\u00e9m h\u00e1 um \u201ctremer\u201d! Talvez haja esse &#8220;duplo&#8221; em cada tremer, algo de uma energia solta, uma que vai pelos caminhos consagrados que por vezes tornam-se r\u00edgidos, e outros que n\u00e3o encontraram espa\u00e7o para se direcionar ainda, o que talvez aponte para os pr\u00f3prios pontos cegos do analista. Mas isso \u00e9 a riqueza de toda cl\u00ednica, esse poder suspender o saber, para que possamos ser atravessados pelo outro. \u00c9 somente na nossa particularidade como pessoa que podemos descobrir os recursos para achar essa justa medida t\u00e3o cara ao trabalho do AT, a medida da rela\u00e7\u00e3o. O consult\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o lugar verbal, mas \u00e9 tamb\u00e9m o lugar do corpo, um lugar impactante. Precisamos &#8220;entrar&#8221; nos nossos pr\u00f3prios corpos, no sentido psicanal\u00edtico, &#8220;corpo-pot\u00eancia-mem\u00f3ria&#8221; e compor a cl\u00ednica com todos os nossos recursos.<\/p>\n<p>No tr\u00e2nsito da vida brasileira, quem treme, quem tem a interpreta\u00e7\u00e3o tr\u00eamula (n\u00e3o acabada) \u00e9 quem est\u00e1 &#8220;lucrando&#8221;.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o que as palavras abrem \u00e9 sempre com um vi\u00e9s. N\u00e3o sei o quanto a pessoa que acompanhei fica vis\u00edvel nesse texto. Estou abrindo espa\u00e7o para qu\u00ea com essas minhas palavras?<\/p>\n<p>Me diga, qual o espa\u00e7o entre mim e voc\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Agosto 2022<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Acompanhante terap\u00eautico e psicanalista em forma\u00e7\u00e3o no Curso de Psican\u00e1lise do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um forte testemunho de Lucas Arruda: Qual o espa\u00e7o entre mim e voc\u00ea?<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[111],"tags":[106],"edicao":[143],"autor":[164],"class_list":["post-1914","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos-da-clinica","tag-escritos-da-clinica","edicao-boletim-64","autor-lucas-ribeiro-arruda","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1914","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1914"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1914\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2002,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1914\/revisions\/2002"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1914"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1914"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1914"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=1914"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=1914"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}