{"id":2058,"date":"2022-11-22T07:59:21","date_gmt":"2022-11-22T10:59:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2058"},"modified":"2022-11-24T09:08:42","modified_gmt":"2022-11-24T12:08:42","slug":"afirmando-a-vida-por-uma-psicanalise-pintada-de-urucum-e-jenipapo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/11\/22\/afirmando-a-vida-por-uma-psicanalise-pintada-de-urucum-e-jenipapo\/","title":{"rendered":"Afirmando a vida: por uma psican\u00e1lise pintada de urucum e jenipapo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Afirmando a vida: Por uma psican\u00e1lise pintada de urucum e jenipapo<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Miriam Chnaiderman<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2059\" aria-describedby=\"caption-attachment-2059\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2059\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b65_09a-556x1024.jpg\" alt=\"Miriam Chnaiderman e Moussa Jabate\" width=\"450\" height=\"828\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b65_09a-556x1024.jpg 556w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b65_09a-163x300.jpg 163w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b65_09a.jpg 576w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2059\" class=\"wp-caption-text\">Miriam Chnaiderman e Moussa Jabate<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acabei de finalizar o document\u00e1rio <em>Afirmando a vida<\/em>, um v\u00eddeo militante na luta pela prorroga\u00e7\u00e3o da lei 12.711, que tornou obrigat\u00f3ria a pol\u00edtica de cotas para negros, ind\u00edgenas e quilombolas. Conto aqui a hist\u00f3ria nada linear desse v\u00eddeo e de como ele me colocou importantes quest\u00f5es sobre esse meu lugar de branca, judia, psicanalista e documentarista.<\/p>\n<p><strong>Esse document\u00e1rio tem uma hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Entre 2007 e 2008 fui contratada para fazer um document\u00e1rio pelo Brasil afora sobre a implementa\u00e7\u00e3o das cotas nas universidades federais. Filmei V COPENE, congresso que reunia pesquisadores <em>negres,<\/em> em Goi\u00e2nia em 2007. Em 2008 fomos, eu e minha equipe, a S\u00e3o Carlos (UFSCar) e a Salvador (UFBa). Esse document\u00e1rio n\u00e3o foi finalizado naquele momento, pois a Ford Foundation, que patrocinou v\u00e1rios projetos relacionados \u00e0s a\u00e7\u00f5es afirmativas, passou a ter outras prioridades. Cheguei a editar o document\u00e1rio que ficaria na minha gaveta at\u00e9 2021.<\/p>\n<p>Quem diria que um dia seria retomado&#8230;<\/p>\n<p>Em 2021, em plena pandemia, recebo o pedido para realiza\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio para finaliza\u00e7\u00e3o do projeto de pesquisa <em>Transnacionalismo e proposta curricular para a educa\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais e da diferen\u00e7a na educa\u00e7\u00e3o<\/em>. Quando Anete Abramowicz prop\u00f4s ao CNPq essa pesquisa, alguns anos antes, o document\u00e1rio era parte do projeto, que acompanhava estudantes negros em diferentes pa\u00edses. A ideia era um document\u00e1rio que refletisse esse processo transcultural. Claro que o financiamento que o CNPq propiciou foi \u00ednfimo e, evidentemente, esse document\u00e1rio n\u00e3o aconteceu&#8230;. Aconteceu a pesquisa nos moldes poss\u00edveis&#8230;<\/p>\n<p>Em 2021, Anete Abramowicz me procura, propondo que, ainda assim, quase sem verba, eu realizasse um document\u00e1rio para o <em>site <\/em>do projeto. A verba de que dispunham era irris\u00f3ria. Anete argumentava sobre meu hist\u00f3rico de ter produzido document\u00e1rios que passaram a fazer parte da proposta educacional do N\u00facleo de Estudos Afrobrasileiros da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos.<\/p>\n<p>De fato, em outubro de 2004 eu conhecera o projeto <em>S\u00e3o Paulo Educando pela diferen\u00e7a para a igualdade<\/em>&#8230; Fui procurada para fazer um v\u00eddeo que seria parte do curso que tinha como objetivo instrumentar professores da rede p\u00fablica para lidar com a quest\u00e3o do preconceito em sala de aula. A proposta era acentuar o papel da escola e do educador frente \u00e0 diversidade. O pressuposto era de que o educador n\u00e3o est\u00e1 preparado para lidar com a alteridade, n\u00e3o recebeu essa forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A demanda de um v\u00eddeo a ser discutido por professores da rede p\u00fablica focando a quest\u00e3o do preconceito e, mais especificamente, a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, vinha em um momento todo especial \u2013 um momento em que a quest\u00e3o das cotas para negros passou a ocupar as discuss\u00f5es nos mais variados lugares da nossa cultura:\u00a0 universidades, jornais, teatro, cinema etc. Polemicamente. Voltar a falar em ra\u00e7a era bastante criticado por intelectuais progressistas. Era dif\u00edcil entender que \u00e9 preciso racializar para sair de um recalque secular. S\u00f3 assim, depois, seria poss\u00edvel des-racializar de verdade.<\/p>\n<p>Fiz dois v\u00eddeos: <em>Isso, aquilo e aquilo outro<\/em> e <em>Voc\u00ea faz a diferen\u00e7a<\/em>.<\/p>\n<p>Agora, o momento era outro. Em 2011, a obrigatoriedade das cotas em universidades federais foi aprovada por dez anos. E, agora, 2021, dez anos passados, ela deveria ser prorrogada.<\/p>\n<p><strong>Como fazer um document\u00e1rio em plena pandemia<\/strong><\/p>\n<p>No pedido do document\u00e1rio a ser feito, a demanda de um v\u00eddeo que fosse parte da luta pela prorroga\u00e7\u00e3o da lei 12.711\/2012.<\/p>\n<p>Era plena pandemia, n\u00e3o teria como me locomover para filmar. Nem t\u00ednhamos dinheiro. Foi quando me lembrei do document\u00e1rio que ficara sem finalizar. Entre 2007 e 2008 eu havia filmado em Goi\u00e2nia, no V COPENE (Congresso de Pesquisadores Negros) e entrevistara pessoas de todo o Brasil. Em 2008 filmei em Salvador, na Universidade Federal da Bahia, e em S\u00e3o Carlos, na Universidade Federal de S\u00e3o Carlos. Deram depoimentos v\u00e1rios benefici\u00e1rios das cotas e tamb\u00e9m professores e reitores. Lembro que a Federal de S\u00e3o Carlos tinha um vestibular espec\u00edfico para a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. N\u00e3o havia ainda a lei 12.711 e era uma escolha de cada universidade a ado\u00e7\u00e3o das cotas. Lembrei comovida de uma ind\u00edgena cantando na biblioteca da universidade, em S\u00e3o Carlos. Uma can\u00e7\u00e3o em guarani que falava da comunidade, do pertencimento.<\/p>\n<p>Agora, 2021, diante da demanda de um document\u00e1rio visando a luta pela perman\u00eancia da lei 12.711, surgiu a ideia de buscar as pessoas que haviam dado seus depoimentos entre 2007 e 2008, saber de seus paradeiros passados doze anos.<\/p>\n<p>Eu tinha esse material filmado guardado por 12 anos. As autoriza\u00e7\u00f5es de imagem teriam que ser atualizadas. De qualquer modo, para usar esse material, eu precisaria buscar as pessoas que deram depoimentos. E seria imensamente importante saber o que teria se passado com os estudantes depois desses 12 anos. Decidi usar os depoimentos enviados por WhatsApp.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi nada f\u00e1cil essa busca. Eu n\u00e3o tinha mais os endere\u00e7os&#8230; tinha algumas indica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fiz, junto com a equipe de professores que me contratou \u2013 Anete Abramowicz, Tatiane C. Rodrigues, Ana Cristina Juvenal da Cruz &#8211; uma verdadeira pesquisa de detetive. Acionamos o prof. \u00a0Joc\u00e9lio Santos, de Salvador, que nos colocou em contato com um departamento encarregado de acompanhar alunos egressos e beneficiados pelas cotas. Assim cheguei em alguns depoentes de 2008. Sempre era uma emo\u00e7\u00e3o. E cheguei a Edinaldo Rodrigues, atrav\u00e9s de uma ind\u00edgena que mora em Salvador e que afinal n\u00e3o deu depoimento.<\/p>\n<p>Em um caderno que me acompanhou em Goi\u00e2nia, cheguei at\u00e9 Bruno, que, em 2007, havia me comovido com seu depoimento.<\/p>\n<p>Tinha um e-mail&#8230; escrevi com o seguinte assunto: \u201cesse e-mail \u00e9 do Bruno?\u201d Por sorte, era! O depoimento dele em 2008 \u00e9 contundente e o de 2021 tamb\u00e9m. Ana e Tatiane tamb\u00e9m me possibilitaram contatos fundamentais. Jacqueline Jaceguai foi um deles.<\/p>\n<p>Jacqueline, em 2007, em Goi\u00e2nia, no V COPENE, havia contado de viol\u00eancias racistas terr\u00edveis. No dormit\u00f3rio da universidade havia passado por uma cusparada. As sequelas foram terr\u00edveis. Agora, em 2021, seu depoimento \u00e9 potente, guerreiro. Fort\u00edssimo!<\/p>\n<p><strong>O encontro com Ednaldo<\/strong><\/p>\n<p>Em 2008, em S\u00e3o Carlos, na Federal, encontrei um grupo de 3 ind\u00edgenas. Edinaldo Rodrigues era um deles. Era estudante de psicologia. Contava como seu povo xukuru estava amea\u00e7ado. Os fazendeiros faziam mortes. O cacique deveria vir a S\u00e3o Carlos para uma fala, mas precisava de escolta o tempo todo.<\/p>\n<p>O que me impressionou em Edinaldo foi sua lucidez: vinha para a universidade para poder transmitir ao seu povo a modernidade. A sobreviv\u00eancia de seu povo dependia de se instrumentarem, com internet e todos os recursos do contempor\u00e2neo, para assim poderem manter suas tradi\u00e7\u00f5es e hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Transcrevo aqui dois momentos de Edinaldo: quando entrou na universidade e agora, em depoimento que enviou por WhatsApp.<\/p>\n<p>Em 2008<\/p>\n<p><em>J\u00e1 comecei a comprar alguns livros que tratavam de psicologia e foi um impacto muito grande as teorias. Eu tinha uma ideia de psicologia bem diferente daquela que comecei a ver dentro da universidade&#8230; n\u00e3o estava em harmonia com o desenvolvimento de todo um contexto.<\/em><\/p>\n<p>Em 2021<\/p>\n<p><em>Em 2008 eu ingressei na universidade atrav\u00e9s do programa de a\u00e7\u00f5es afirmativas. Um programa espec\u00edfico para candidatos ind\u00edgenas da UFSCar (Universidade Federal de S\u00e3o Carlos). Que teve uma import\u00e2ncia muito grande na minha vida, que foi a oportunidade de fazer um curso superior. Historicamente as popula\u00e7\u00f5es mais pobres, negros, ind\u00edgenas, tiveram poucas oportunidades de forma\u00e7\u00e3o superior.<\/em><\/p>\n<p><em>Especificamente, pelo processo de exclus\u00e3o. Sabemos que a constru\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o nesse pa\u00eds \u00e9 elitizada. Ainda hoje perpetuam ra\u00edzes dessa educa\u00e7\u00e3o das elites. Mas os \u00faltimos anos t\u00eam sido marcados pelas lutas de popula\u00e7\u00f5es que por muito tempo foram exclu\u00eddas desse processo, e se colocaram \u00e0 frente dessas quest\u00f5es por terem a oportunidade de entrarem numa universidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu vim de uma comunidade ind\u00edgena. Tem um interesse de dar um retorno pr\u00e1 comunidade. Esse foi o objetivo.<\/em><\/p>\n<p><em>Nesses mais de dez anos que se passaram, essa perspectiva continuou, embora tenha se adaptado \u00e0 realidade. S\u00e3o outras realidades e necessidades. De acordo com as oportunidades que eu fui tendo nessa trajet\u00f3ria. Muita coisa aconteceu nesses dez, doze anos. A principal delas est\u00e1 ligada \u00e0 minha atua\u00e7\u00e3o, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o que eu tive e \u00e0 oportunidade que estou tendo de atuar dentro do contexto da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. N\u00e3o diretamente com o que eu gostaria, mas muito pr\u00f3ximo. Eu gostaria de estar mais presente principalmente nos projetos que buscam protagonizar a hist\u00f3ria, a vida do meu povo e dos povos ind\u00edgenas. N\u00e3o \u00e9 um processo f\u00e1cil mas de algumas formas eu tenho feito um trabalho que tem uma certa aproxima\u00e7\u00e3o dessas quest\u00f5es, que \u00e9 pensar projetos que s\u00e3o espec\u00edficos da sa\u00fade mental dos povos ind\u00edgenas. Eu fa\u00e7o uma reflex\u00e3o de uma atua\u00e7\u00e3o junto aos povos ind\u00edgenas, e que possa, de alguma forma, quebrar paradigmas em rela\u00e7\u00e3o ao que seria um cuidado da sa\u00fade mas junto a esses povos. De eu poder pensar as interculturalidades, modos de vida e os projetos de bem viver que s\u00e3o da pr\u00f3pria comunidade inseridos no processo de curas dos adoecimentos mentais. Esse talvez seja um dos principais objetivos do meu trabalho com a forma\u00e7\u00e3o em psicologia, dentro dessa perspectiva que foi a oportunidade dada atrav\u00e9s do programa das a\u00e7\u00f5es afirmativas. Esse programa tem uma import\u00e2ncia muito grande pr\u00e1 mim, porque foi atrav\u00e9s desse programa que eu tive a oportunidade de ter uma forma\u00e7\u00e3o superior. Tamb\u00e9m de ter proporcionado a realiza\u00e7\u00e3o de um sonho que era de voltar pr\u00e1 comunidade e atuar junto ao meu povo.\u00a0 E, al\u00e9m disso, junto a outros povos e ter novas experi\u00eancias. E hoje, mais ainda, de pensar uma psicologia pintada de jenipapo e urucum, que \u00e9 uma psicologia que pense tamb\u00e9m as quest\u00f5es ind\u00edgenas e as m\u00faltiplas diversidades.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 uma trajet\u00f3ria que desde a minha entrada na universidade eu busquei. Sempre esses objetivos que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o j\u00e1 contemplar essas especificidades das quest\u00f5es ind\u00edgenas, embora o curso n\u00e3o proporcionasse isso. Mas, construir esse caminho, e isso eu consegui de alguma forma. E tamb\u00e9m consegui, assim que eu me formei, construir um caminho dentro da sa\u00fade ind\u00edgena que proporciona essa aproxima\u00e7\u00e3o com essa popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e com as diversidades \u00e9tnicas e culturais e tamb\u00e9m pensando na perspectiva de constru\u00e7\u00e3o de algo que vai al\u00e9m de uma quest\u00e3o da psicologia, que \u00e9 poder dialogar com outros saberes. Que s\u00e3o tamb\u00e9m psicologias outras, que a gente precisa levar em considera\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Refor\u00e7ando a import\u00e2ncia do programa de a\u00e7\u00f5es afirmativas para a inser\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o que historicamente ficou de fora das universidades pela falta de oportunidades. Sempre defendi que o que precisamos s\u00e3o oportunidades para ter uma forma\u00e7\u00e3o superior, pr\u00e1 que essa forma\u00e7\u00e3o seja bem aproveitada, pr\u00e1 que possa dar o retorno pr\u00e1s comunidades. Acredito muito nisso e sou um exemplo disso.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 tocante o depoimento de Edinaldo. O depoimento que ele me mandou por WhatsApp foi gravado dentro de um apartamento com uma varanda. Na varanda era poss\u00edvel ver um gato pregui\u00e7oso e im\u00f3vel. Sei que os xucurus vivem na Serra Pescado, em Pernambuco. Ser\u00e1 que a grava\u00e7\u00e3o de Edinaldo foi feita em Recife? N\u00e3o sei e n\u00e3o importa.<\/p>\n<p>Edinaldo confirma a fala de Ana L\u00facia Silva Souza, professora da Universidade Federal da Bahia, gravada no dia 20 de novembro de 2021, dia da Consci\u00eancia Negra, na Avenida Paulista: \u201ca gente pensa que cada um estudante que entra pelas a\u00e7\u00f5es afirmativas \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o de toda uma comunidade\u2019.<\/p>\n<p><strong>20 de novembro \u2013 conhecendo Moussa<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do material captado entre 2007 e 2008, t\u00ednhamos as mensagens de\u00a0 \u00a0WhatsApp com depoimentos de estudantes de 2007 e 2008, professores desse mesmo per\u00edodo, e o material captado na av. Paulista no dia 20 de novembro de 2021.\u00a0 Era a festa do Dia da Consci\u00eancia Negra. Na Av. Paulista fizemos importantes entrevistas, com depoimentos contundentes de lideran\u00e7as do movimento negro e professorxs.<\/p>\n<p>Entre os entrevistados na Av. Paulista est\u00e1 Moussa Jabate (foto), que nasceu no Mali.\u00a0 Quando cheguei com a equipe \u00e0 Av. Paulista, vi um negro alto, vestido com um lindo cafet\u00e3, com adere\u00e7os de couro e a cabe\u00e7a coberta por um turbante. Logo soube que ele estava l\u00e1 para ajudar na filmagem, cuidar das autoriza\u00e7\u00f5es de imagem.\u00a0 Era uma figura altiva, linda. Parece que fazia quest\u00e3o de mostrar sua etnia, sua hist\u00f3ria. Moussa faz doutorado na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP com bolsa do CNPq. No depoimento que nos deu, contou: \u201cfui o primeiro negro, primeiro refugiado que entrou por concurso&#8230; fui aprovado, contemplado pela pol\u00edtica de cotas\u201d. Conta que trabalha com crian\u00e7as filhas de refugiados. Faz quest\u00e3o de marcar que trabalha dentro de posturas epistemol\u00f3gicas que assumem as diferen\u00e7as. E afirma que sua postura epistemol\u00f3gica foi criada pela vinda ao Brasil. Conta: \u201cno Mali eu n\u00e3o tinha o problema da ra\u00e7a. (&#8230;) No Brasil fui questionado sobre a minha pr\u00f3pria identidade. No metr\u00f4 me perguntavam: voc\u00ea \u00e9 angolano, voc\u00ea \u00e9 africano? N\u00e3o, eu n\u00e3o sou africano, eu sou malinense. As pr\u00f3prias perguntas come\u00e7aram a me revelar que eu sou negro. Descobri minha negritude no Brasil. Isso me ajudou na minha postura epistemol\u00f3gica (&#8230;) me lembraram que eu n\u00e3o sou daqui e que eu sou negro.\u00a0 Isso me levou a mudar minha pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o. Minha pesquisa est\u00e1 sendo afrocentrada a partir das minhas pr\u00f3prias experi\u00eancias. Se n\u00e3o fosse o que aconteceu aqui no Brasil, o problema da ra\u00e7a nunca seria um problema pr\u00e1 mim.\u00a0 Hoje sei que \u00e9 preciso afirmar as diferen\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>Entrar na universidade \u00e9 um movimento de resist\u00eancia<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Essa contundente frase de Jacqueline Jaceguai est\u00e1 no depoimento que deu durante o V COPENE em 2007. Agora, em 2021, voltou \u00e0 universidade, de cabe\u00e7a erguida e agradece \u00e0s mulheres ancestrais guerreiras a quem homenageia.<\/p>\n<p>Bruno dos Santos, em 2007, no V COPENE, havia contado que no dia de sua formatura na PUC do Rio, sua m\u00e3e p\u00f4de entrar pela porta da frente. Relata: \u201cela s\u00f3 entrara na PUC pulando o muro pr\u00e1 pegar fruta. Nunca tinha entrado pela porta da frente. Meu pai, ele s\u00f3 entrou na PUC porque houve um desabamento quando teve uma enchente na Rocinha\u201d.<\/p>\n<p>Termina seu depoimento, enviado por WhatsApp, em 2021: \u201cAinda vai ter muita luta, ainda estamos no in\u00edcio&#8230; se nossa ancestralidade nos ajudar, nossos netos e bisnetos v\u00e3o ter um Brasil mais justo&#8230;\u201d<\/p>\n<p><strong>Finalizando<\/strong><\/p>\n<p>O que ficou muito evidente \u00e9 que uma importante transforma\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica acontece com a entrada na universidade de negros, ind\u00edgenas e quilombolas. Toda uma bibliografia \u00e9 descoberta e adotada. Os ensaios sobre o racismo at\u00e9 ent\u00e3o eram apenas aqueles feitos por brancos&#8230; agora, estudiosos negros passam a ser estudados e lidos. Junto com o novo colorido das salas de aula e corredores, descortinam-se horizontes at\u00e9 ent\u00e3o escondidos, recalcados.<\/p>\n<p>Muitas vezes me perguntei e perguntei para aqueles que me escolheram para fazer o document\u00e1rio, como poderia, como branca, alcan\u00e7ar essa hist\u00f3ria t\u00e3o dolorida e contribuir na transforma\u00e7\u00e3o de tudo isso. Lembro que na assembleia final do V COPENE eu e minha equipe fomos vaiadxs.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o tenho respostas&#8230; talvez minha origem judaica, talvez minha milit\u00e2ncia por um Brasil mais justo, talvez os muitos coloridos da minha vis\u00e3o de mundo&#8230; n\u00e3o sei&#8230; Fiquei feliz quando Deivison Faustino e Ana L\u00facia Silva, no debate no SESC que lan\u00e7ou o document\u00e1rio, afirmaram ter gostado de participar de minha a\u00e7\u00e3o antirracista&#8230;\u00a0 Acho que \u00e9 isso&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista e documentarista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, onde \u00e9 professora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trajet\u00f3ria de um trabalho que resiste e insiste. Por Miriam Chnaiderman.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[142],"tags":[145],"edicao":[170],"autor":[167],"class_list":["post-2058","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema","tag-cinema","edicao-boletim-65","autor-miriam-chnaiderman","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2058"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2058\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2153,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2058\/revisions\/2153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2058"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2058"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}