{"id":2063,"date":"2022-11-22T09:06:15","date_gmt":"2022-11-22T12:06:15","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2063"},"modified":"2023-03-23T20:02:53","modified_gmt":"2023-03-23T23:02:53","slug":"apresentacao-de-um-livro-em-torno-das-neuroses-atuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/11\/22\/apresentacao-de-um-livro-em-torno-das-neuroses-atuais\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o de um livro em torno das neuroses atuais"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o de um livro em torno das neuroses atuais <\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Maria Sigal<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o imensamente a Flavio Ferraz e a Paulo Ritter, organizadores de <em>O gr\u00e3o de areia no centro da p\u00e9rola<\/em> (Blucher, 2022), pelo convite a comentar este lan\u00e7amento.<\/p>\n<p>Estou muito feliz por acompanhar meus queridos colegas na apresenta\u00e7\u00e3o deste livro que \u00e9 um verdadeiro colar de p\u00e9rolas, mas um colar de p\u00e9rolas de v\u00e1rias voltas. De muitos gr\u00e3os de areia, nossos companheiros fizeram artigos valiosos e interessantes, abordando as muitas quest\u00f5es que nos apresentam as patologias atuais.<\/p>\n<p>\u00c9 prof\u00edcua a produ\u00e7\u00e3o que nos apresentam num livro volumoso, que mostra o vigor das pesquisas no Brasil.<\/p>\n<p>Cada um \u00e0 sua maneira foi buscar, no gr\u00e3o de areia, aquilo que renasce hoje como uma nova apropria\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de conceitos que ficaram, por diversas raz\u00f5es, escondidos no conjunto da teoria. Este trabalho de pesquisa \u00e9 feito no retorno \u00e0s neuroses atuais, sem d\u00favida vistas sob uma nova luz. Estas pesquisas me relembram o modo como Laplanche investiga o conceito de <em>sedu\u00e7\u00e3o<\/em>, na obra freudiana.<\/p>\n<p>Laplanche nos apresenta um momento de recalcamento na teoria; ele percebe que Freud, a partir da carta 69, ao declarar j\u00e1 n\u00e3o acreditar mais na sua neur\u00f3tica, dedica todas as suas for\u00e7as para apoiar a ideia de que a suposta sedu\u00e7\u00e3o do adulto \u00e9 puramente fantasm\u00e1tica e \u00e9 aqui que apoia a organiza\u00e7\u00e3o das psiconeuroses, abandonando quase que totalmente a linha da sedu\u00e7\u00e3o real do adulto no seu encontro com a crian\u00e7a. Na volta aos textos primitivos, Laplanche retoma a ideia de uma sedu\u00e7\u00e3o real e traum\u00e1tica, mas constituinte, que est\u00e1 relacionada com o objeto fonte da puls\u00e3o. O conceito de <em>sedu\u00e7\u00e3o<\/em> pesquisado por Laplanche se transforma na formula\u00e7\u00e3o da <em>sedu\u00e7\u00e3o generalizada, <\/em>pela qual o adulto implanta a sexualidade na crian\u00e7a de forma traum\u00e1tica, mas necess\u00e1ria para instituir o corpo er\u00f3geno. A fonte pulsional abandona sua origem exclusivamente marcada pela zona er\u00f3gena e o er\u00f3geno passa a estar determinado n\u00e3o apenas por uma quest\u00e3o de mucosas com especializa\u00e7\u00f5es sensitivas \u00fanicas, mas tamb\u00e9m pelo objeto, pois o corpo se erogeniza a partir das fantasias e da linguagem do outro, deslocamento que lhe serve para rever muitos destinos da teoria.<\/p>\n<p>Esta pesquisa realizada por Laplanche nos traz a possibilidade de reencontrar quest\u00f5es que n\u00e3o tinham uma elabora\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria na obra freudiana; encontra assim, como nossos autores, um gr\u00e3o de areia que dar\u00e1 lugar ao nascimento de uma p\u00e9rola! A partir desta investiga\u00e7\u00e3o retoma o conceito das fantasias origin\u00e1rias, questionando o fato de serem filogeneticamente herdadas e introduz a presen\u00e7a do outro como fundante do <em>objeto fonte da puls\u00e3o<\/em>. \u00c9 atrav\u00e9s da implanta\u00e7\u00e3o da sexualidade do adulto, na qual cena prim\u00e1ria, sedu\u00e7\u00e3o e castra\u00e7\u00e3o \u2013 as conhecidas fantasias origin\u00e1rias \u2013 j\u00e1 t\u00eam registro, que se desenvolver\u00e3o, nas crian\u00e7as, tais fantasias origin\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u00c9 instigante descobrir o velho que fica novo, e \u00e9 este o caminho revisitado por nossos autores. Nas diversas abordagens e com estilos absolutamente pessoais, cada um adentra caminhos interessantes.<\/p>\n<p>Algumas ideias s\u00e3o recorrentes em alguns trabalhos, mas desenvolvidas a partir de um enfoque original. Gostaria de destacar algo que retomam v\u00e1rios autores, que me marcou durante anos e parte da formula\u00e7\u00e3o de Freud em <em>Luto e melancolia<\/em>. Aqui Freud nos diz que a melancolia \u2013 cuja defini\u00e7\u00e3o conceitual \u00e9 flutuante, at\u00e9 mesmo na psiquiatria descritiva \u2013 se apresenta em <em>m\u00faltiplas formas cl\u00ednicas, cuja s\u00edntese em uma unidade n\u00e3o parece certificada. Assim estas patologias, tratadas neste livro, podem aparecer em quaisquer quadros nosogr\u00e1ficos<\/em><strong>, <\/strong>pois as descargas pulsionais sem representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o constituem necessariamente uma nosografia consolidada como quadro \u00fanico! Em algumas estruturas ps\u00edquicas psiconeur\u00f3ticas podemos reencontrar tamb\u00e9m elementos incrustados como produtos de situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o encontraram tramita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica para devir posteriormente recalcadas, tendo em conta que as psiconeuroses s\u00e3o produto do recalcamento secund\u00e1rio. E nos perguntamos: O que aconteceu com aquelas situa\u00e7\u00f5es, produto de uma intrus\u00e3o da sexualidade materna, que n\u00e3o encontraram vias de enlace e se destinaram ao recalcamento prim\u00e1rio? Eis o ponto ao qual nossos autores se dedicam, visando a uma compreens\u00e3o nova das neuroses atuais, figuradas como descargas sem tramita\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1997 eu resistia a aceitar a <em>s\u00edndrome do p\u00e2nico<\/em> como uma manifesta\u00e7\u00e3o sem hist\u00f3ria, por me manter aderida \u00e0 formula\u00e7\u00e3o freudiana de <em>neuroses hist\u00f3ricas<\/em>. Naquele ano publiquei um trabalho na revista <em>Percurso<\/em>, intitulado \u201c<a href=\"http:\/\/revistapercurso.com.br\/pdfs\/p19_texto10.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dialogando com a psiquiatria \u2013 das fobias \u00e0 s\u00edndrome do p\u00e2nico<\/a>\u201d, no qual insistia veementemente em manter essas patologias como momentos agudos de neuroses f\u00f3bicas; quando defendemos algo com tanta \u00eanfase, podemos nos perguntar ao mesmo tempo o que h\u00e1 de defensivo e resistencial em nosso pensamento e foi assim que algo novo come\u00e7ou a se mexer em mim, no estudo da metapsicologia. Tr\u00eas anos depois publiquei um trabalho nomeado \u201cFrancis Bacon e o p\u00e2nico: uma falha no recalque prim\u00e1rio\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, e outro designado \u201cO arcaico e as patologias atuais\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, nos quais dava uma virada na minha pesquisa. Foi a partir de uma exposi\u00e7\u00e3o de quadros de Francis Bacon que comecei a estudar as presen\u00e7as sem hist\u00f3ria e publiquei v\u00e1rios trabalhos sobre o recalcamento prim\u00e1rio. Francis Bacon retrata, sobre uma superf\u00edcie, as presen\u00e7as de diferentes camadas: num \u00fanico plano, vemos m\u00fasculos, ossos, cora\u00e7\u00e3o e rostos sem a dimens\u00e3o da perspectiva. Num plano \u00fanico, sem profundidade, aparece tudo o que n\u00e3o pode ser contado, tudo o que \u00e9 pura presen\u00e7a. Ao se referir \u00e0 obra de Bacon, Deleuze afirma que \u201co contorno \u00e9 como uma membrana percorrida por uma dupla mudan\u00e7a. A pintura n\u00e3o tem nada a narrar, nenhuma hist\u00f3ria a contar, ela acontece sendo ela mesma a coisa\u201d, o que me remeteu ao conceito de <em>representa\u00e7\u00e3o coisa<\/em>. Comecei a entender que haveria fen\u00f4menos que seriam manifesta\u00e7\u00f5es no corpo, fora de toda rede de significa\u00e7\u00e3o. Voltei \u00e0 <em>Carta 52<\/em> e comecei uma nova pesquisa metapsicol\u00f3gica que podia ter suas ra\u00edzes no <em>Projeto de uma psicologia para neur\u00f3logos<\/em>. Na carta 52 a Fliess (1896), Freud retoma em parte o <em>Projeto<\/em> para falar de elementos que, por falta de possibilidade de liga\u00e7\u00e3o, impedem a apari\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia sinal e irrompem como energia n\u00e3o ligada, determinando um colapso do Eu, acompanhado de descargas neurofisiol\u00f3gicas e dist\u00farbios na representa\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, se d\u00e1 um desamparo do Eu face \u00e0 invas\u00e3o pulsional. Eis o reencontro com as neuroses atuais. Mas de algum modo Freud abandona esta pesquisa e vai ao encontro do trabalho com as neuropsicoses de defesa, aprofundando a histeria, a histeria de ang\u00fastia (fobias) e a neurose obsessiva. Justamente neste ponto nossos autores mergulham para encontrar o gr\u00e3o de areia nas neuroses atuais. V\u00e3o pescar na pr\u00f3pria hist\u00f3ria da psican\u00e1lise, naquelas vias recalcadas ou abandonadas.<\/p>\n<p>Falamos de um reencontro com as neuroses de ang\u00fastia, com as hipocondrias, com os atos compulsivos e com fen\u00f4menos psicossom\u00e1ticos. Ele permite uma via de releitura e uma nova compreens\u00e3o dos efeitos do recalcamento prim\u00e1rio. Seriam fen\u00f4menos sem hist\u00f3ria, motivo pelo qual abrem o campo da diferencia\u00e7\u00e3o entre neuroses hist\u00f3ricas e neuroses atuais.<\/p>\n<p>Assim reaparece a ang\u00fastia na contemporaneidade. Assim a vertigem do tempo moderno nos surpreende nos encontros com os outros e nos impede de criar hist\u00f3ria. Ao trabalharmos com uma concep\u00e7\u00e3o de inconsciente aberto ao real, no qual podem se dar novas inscri\u00e7\u00f5es, mais al\u00e9m daquelas da primeira inf\u00e2ncia, pensamos na <em>neog\u00eanese<\/em>, necess\u00e1ria diante de situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas que n\u00e3o conseguem ser tramitadas e ligadas com nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Este livro significa um grande trabalho ao reunir tantos escritos metapsicol\u00f3gicos engajados com a pesquisa e com a interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica; mostra-nos uma psican\u00e1lise com vida, uma psican\u00e1lise n\u00e3o coagulada em que s\u00f3 aparecesse a repeti\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte. Nestes trabalhos a puls\u00e3o de vida se faz presente na produ\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas liga\u00e7\u00f5es, <em>o livro em si \u00e9 puls\u00e3o de vida<\/em>. Parab\u00e9ns aos organizadores pela sensibilidade para pesquisar as p\u00e9rolas e parab\u00e9ns aos autores pelo desenvolvimento de tantos trabalhos promissores que criaram as diversas p\u00e9rolas, que nos s\u00e3o oferecidas neste colar. Uma alegria compartilhar este momento, momento e psican\u00e1lise que s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel sustentar se acompanhados pela luta por elei\u00e7\u00f5es livres e democr\u00e1ticas, em um pa\u00eds mais justo! Assim convoco a todos a lutar e votar contra o candidato fascista. Ditadura nunca mais!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">20 de agosto de 2022<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista. Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psican\u00e1lise e co-coordenadora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Originalmente publicado em Barbero Fuks, L. e Ferraz, F.C (orgs.) <em>A cl\u00ednica conta hist\u00f3rias<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2000.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Originalmente publicado na Revista do Laborat\u00f3rio de Psicopatologia Fundamental, PUC-SP \/ Unicamp, 2001, v.4, n. 4, pp. 112-118.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Possibilidades de um gr\u00e3o de areia \u00e0s muitas voltas de um colar de p\u00e9rolas. Por Ana Maria Sigal.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[90],"tags":[83],"edicao":[170],"autor":[148],"class_list":["post-2063","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-campo-psicanalitico","tag-leituras","edicao-boletim-65","autor-ana-maria-sigal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2063","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2063"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2063\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2318,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2063\/revisions\/2318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2063"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2063"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2063"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2063"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2063"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}