{"id":2074,"date":"2022-11-22T09:26:58","date_gmt":"2022-11-22T12:26:58","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2074"},"modified":"2023-03-23T19:58:22","modified_gmt":"2023-03-23T22:58:22","slug":"o-corpo-na-clinica-psicanalitica-sobre-a-conferencia-de-rene-roussillon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/11\/22\/o-corpo-na-clinica-psicanalitica-sobre-a-conferencia-de-rene-roussillon\/","title":{"rendered":"O corpo na cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u2013 sobre a confer\u00eancia de Ren\u00e9 Roussillon"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O corpo na cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u2013 sobre a confer\u00eancia de Ren\u00e9 Roussillon<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcia Bozon<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> e Camila Saboia<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2075\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b65_05_a.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"476\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b65_05_a.jpg 450w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b65_05_a-252x300.jpg 252w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No dia 8 de outubro nosso Departamento recebeu Ren\u00e9 Roussillon para uma confer\u00eancia sobre <em>O corpo nas patologias narc\u00edsicas<\/em>, tema que muito tem nos instigado e nos convocado enquanto psicanalistas a repensar o lugar do corpo em nossa cl\u00ednica, ampliando nossa escuta para o campo do indiz\u00edvel em busca da compreens\u00e3o das intrincadas rela\u00e7\u00f5es entre o ps\u00edquico e o som\u00e1tico nas formas contempor\u00e2neas de sofrimento ps\u00edquico.<\/p>\n<p>Ren\u00e9 Roussillon \u00e9 professor em\u00e9rito da Universidade de Lion, autor de in\u00fameros artigos e livros nos quais tem se dedicado a revisitar conceitos importantes sobre os prim\u00f3rdios do psiquismo e da compreens\u00e3o das psicopatologias atuais, colaborando com o desenvolvimento de nossa cl\u00ednica t\u00e3o desafiadora.<\/p>\n<p>O desejo de interlocu\u00e7\u00e3o com Ren\u00e9 Roussillon surgiu a partir das discuss\u00f5es de seu artigo &#8220;Desconstru\u00e7\u00e3o do narcisismo prim\u00e1rio&#8221;<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> publicado na Revista Percurso 63, nos dois grupos dedicados ao estudo do pensamento de D. Winnicott no Departamento de Psican\u00e1lise: Winnicott: leituras e reflex\u00f5es (coordena\u00e7\u00e3o de Marcia Bozon e de Lia Pitliuk) e Grupo de leitura \u2013 estudos sobre a obra de Winnicott (interlocu\u00e7\u00e3o de Renata Cromberg), justamente por sentirmos que sua leitura ia ao encontro de nossa proposta\u00a0 de estudar Winnicott pesquisando suas ra\u00edzes, sempre em conex\u00e3o com o pensamento freudiano, matriz do campo psicanal\u00edtico. Concomitantemente, no curso de aperfei\u00e7oamento <em>O corpo na cl\u00ednica<\/em> ministrado no Instituto Sedes Sapientiae (coordena\u00e7\u00e3o de Marcia Bozon), Camila Saboia, respons\u00e1vel pela transmiss\u00e3o do pensamento de Roussillon, discutia o mesmo artigo com os alunos, de modo que a possibilidade de estabelecer uma troca viva com o autor foi nos parecendo cada vez mais necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ouvir Roussillon compartilhando sua cl\u00ednica foi muito inspirador. Sua concep\u00e7\u00e3o de que o corpo ocupa um lugar em todos os n\u00edveis da expressividade humana, convoca o psicanalista a estar mais atento ao que o paciente expressa, seja com seus gestos, posturas, express\u00f5es faciais, seja pelo ritmo da sua voz ou pela sua respira\u00e7\u00e3o, cuidando para n\u00e3o negligenciar o que vem do corpo, j\u00e1 que este tamb\u00e9m \u00e9 portador de uma vida ps\u00edquica inconsciente, daquilo que foi clivado, do traum\u00e1tico. Roussillon tem se destacado pela sua fineza e precis\u00e3o da leitura da metapsicologia freudiana, contribuindo sobretudo na conceitua\u00e7\u00e3o de novas perspectivas para se pensar a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica a partir de um novos referenciais te\u00f3rico-cl\u00ednicos, propondo aberturas no que diz respeito \u00e0 escuta, \u00e0 interven\u00e7\u00e3o e ao manejo.\u00a0 Ele enfatiza a import\u00e2ncia de ampliar o trabalho de escuta para al\u00e9m da linguagem verbal, ao considerar que a escuta <em>associativa<\/em> deve ser tomada como <em>polif\u00f4nica<\/em> e n\u00e3o apenas como <em>linguageira<\/em>, ou seja, n\u00e3o apenas <em>nossos ouvidos<\/em> devem estar atentos ao discurso associativo do paciente mas tamb\u00e9m <em>nossos olhos<\/em> \u00a0e <em>nossa pele<\/em> para captarmos a linguagem que se manifesta atrav\u00e9s do corpo. O corpo assim \u00e9 tomado como um vetor de comunica\u00e7\u00e3o, <em>ele diz, <\/em>e p\u00f5e em cena o que o sujeito n\u00e3o pode dizer, como se a pr\u00f3pria estrutura do ato e da cena pudesse aqui ser uma tentativa de construir uma narrativa endere\u00e7ada a um outro. Essa tentativa de endere\u00e7ar-se ao outro atrav\u00e9s da linguagem pr\u00e9-verbal se manifesta justamente porque houve no passado uma falha nesse processo do encontro e do ajuste necess\u00e1rio com o outro. Como diz Roussillon, uma falha no <em>interjogo<\/em> entre o sujeito e o objeto. Sobre essa rela\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o objetal, Roussillon nos convida a repensar a import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o puls\u00e3o-objeto, tomando como ponto de partida o vi\u00e9s do <em>interps\u00edquico<\/em> que se sobrep\u00f5e ao <em>intraps\u00edquico<\/em>. Nesse sentido ele afirma que o objeto teria uma fun\u00e7\u00e3o simbolizante e n\u00e3o apenas um fun\u00e7\u00e3o apaziguadora da tens\u00e3o pulsional na busca da satisfa\u00e7\u00e3o. Nessa perspectiva prop\u00f5e o conceito de <em>puls\u00e3o-mensageira<\/em>, segundo o qual a puls\u00e3o seria carregada de protoelementos simb\u00f3licos endere\u00e7ados a um objeto-outro que tem como fun\u00e7\u00e3o traduzi-los. Por\u00e9m Roussillon preconiza que a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o para que esse objeto-outro exer\u00e7a sua fun\u00e7\u00e3o primordial especular \u00e9 que ele possa ser <em>semelhante<\/em> mas <em>n\u00e3o id\u00eantico<\/em> ao sujeito, pois ser\u00e1 essa pequena diferen\u00e7a que permitir\u00e1 ao beb\u00ea fazer os ajustes necess\u00e1rios para passar do processo da identidade de percep\u00e7\u00e3o para a identidade da representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Roussillon nos prop\u00f5e o conceito da <em>homossexualidade prim\u00e1ria<\/em>, na qual a puls\u00e3o s\u00f3 atinge a experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o se houver a experi\u00eancia de um prazer compartilhado proveniente do encontro do beb\u00ea com o objeto primordial. Nesse sentido, \u00e9 categ\u00f3rico ao afirmar que, nas patologias narc\u00edsico-identit\u00e1rias, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 justamente a aus\u00eancia da <em>fun\u00e7\u00e3o especular reflexiva<\/em> dos estados ps\u00edquicos do beb\u00ea, fun\u00e7\u00e3o esta que ir\u00e1 permitir que o sujeito possa, futuramente, gerenciar sua pr\u00f3pria regula\u00e7\u00e3o narc\u00edsica. Por essa raz\u00e3o dizemos que os pacientes que sofrem das patologias narc\u00edsicas-identit\u00e1rias sofrem justamente por uma falta do encontro com o objeto; n\u00e3o se trata assim da experi\u00eancia da perda do objeto ou da experi\u00eancia de uma <em>clivagem do eu<\/em> mas sobretudo uma <em>clivagem no pr\u00f3prio eu<\/em>.<\/p>\n<p>Roussillon destaca que o ser vivente est\u00e1 envolvido num envelope, que consiste num sistema de transforma\u00e7\u00e3o, de modo que aquilo que entra no meio interno vindo do meio externo precisa ser transformado para ser integrado; isso ocorre tanto no \u00e2mbito fisiol\u00f3gico como no ps\u00edquico. O primeiro envelope \u00e9 o envelope t\u00e1til, como descrito por Anzieu, o segundo \u00e9 o envelope visual, deduzido do est\u00e1dio de espelho de Lacan e por fim h\u00e1 o envelope narrativo, um envelope que conta uma cena ao &#8220;espelho&#8221;, e para isso \u00e9 preciso haver uma temporalidade. No in\u00edcio a vis\u00e3o \u00e9 &#8220;colada&#8221;, o que impede a diferencia\u00e7\u00e3o do que &#8220;sou eu&#8221; daquilo que &#8220;n\u00e3o sou eu&#8221;.\u00a0 Progressivamente, na presen\u00e7a de um outro que &#8220;cola&#8221; palavras e afetos \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a, tem in\u00edcio um processo de &#8220;descolagem&#8221; no qual o eu toma dist\u00e2ncia do objeto.<\/p>\n<p>Os psicanalistas p\u00f3s freudianos, entre os quais o autor se inclui, t\u00eam se debru\u00e7ado sobre as opera\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o fundamentais para que os processos ps\u00edquicos possam integrar nossas experi\u00eancias subjetivas, pois quando isso n\u00e3o ocorre teremos restos que ir\u00e3o invadir o aparelho ps\u00edquico e mobilizar\u00e3o defesas que estar\u00e3o subjacentes nas patologias narc\u00edsico-identit\u00e1rias. Estas defesas est\u00e3o relacionadas ao fato de que algo n\u00e3o foi transformado em algo compat\u00edvel para que pudesse ser integrado. Com Winnicott, Roussillon concebe o psicanalista como \u00e0quele a quem o paciente endere\u00e7a algo que j\u00e1 foi anteriormente endere\u00e7ado a um outro que n\u00e3o foi capaz de responder de forma que o processo de integra\u00e7\u00e3o ficou prejudicado. Com exemplos de sua experi\u00eancia ressalta a import\u00e2ncia da escuta ampliada ao n\u00e3o-verbal como um recurso cl\u00ednico, instigando-nos a estar mais atentos e vivos em nosso fazer cotidiano. Esperamos que tenha sido a primeira de muitas trocas futuras!<\/p>\n<p>* link para assistir a confer\u00eancia: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=f38b5H7dlak\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=f38b5H7dlak<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>Roussillon, Ren\u00e9. (2020). A criatividade: um novo paradigma para a psican\u00e1lise freudiana. <em>Revista de Psican\u00e1lise da SPPA, 27 n. 2,<\/em> pp. 291-311.<br \/>\nRoussillon, R. (2011).\u00a0\u00a0 A intersubjetividade e a fun\u00e7\u00e3o mensageira da puls\u00e3o. <em>Revista Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>. Volume 45, n. 3, pp. 159-166.<br \/>\nRoussillon, Ren\u00e9. (2019). &#8220;Desconstru\u00e7\u00e3o do narcisismo prim\u00e1rio&#8221;. <em>Revista Percurso. Volume 63, <\/em>pp. 11 &#8211; 24.<br \/>\nRoussillon R &amp;, Golse, B. (2010) Pour introduire la question du langage du corps et de l\u2019acte. In: <em>La naissace de l\u2019objet<\/em> Paris: Puf. pp. 177-189.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, professora no curso <em>O corpo na cl\u00ednica<\/em>, do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/revistapercurso.com.br\/index.php?apg=artigo_view&amp;ida=1358&amp;c_palavra3=narcisismo\">http:\/\/revistapercurso.com.br\/index.php?apg=artigo_view&amp;ida=1358&amp;c_palavra3=narcisismo<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Legado que inspira fazer atento e vivo. Por Marcia Bozon e Camila Saboia.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[132],"edicao":[170],"autor":[178,177],"class_list":["post-2074","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-eventos","edicao-boletim-65","autor-camila-saboia","autor-marcia-bozon","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2074"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2311,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2074\/revisions\/2311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2074"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2074"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}