{"id":2081,"date":"2022-11-22T09:33:55","date_gmt":"2022-11-22T12:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2081"},"modified":"2022-11-24T09:16:12","modified_gmt":"2022-11-24T12:16:12","slug":"amanha-e-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/11\/22\/amanha-e-hoje\/","title":{"rendered":"Amanh\u00e3 \u00e9 hoje"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Amanh\u00e3 \u00e9 hoje<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Nanci de Oliveira Lima<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Escrevo em 31 de outubro e, quase incr\u00e9dula, respiro aliviada. Ali\u00e1s, respiramos todos. Foi apertado, mas deu.<\/p>\n<p>O Brasil mostrou sua for\u00e7a e recuperou o direito de sonhar. Por\u00e9m, h\u00e1 dez dias essa realidade parecia seriamente em perigo, e estava. Talvez ainda esteja, afinal, vencer Bolsonaro nas urnas \u00e9 muito diferente de vencer o bolsonarismo, que demonstra ter ra\u00edzes profundas em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um primeiro turno que jogou em nossas caras a dura realidade de 51.072.234 votos para a extrema-direita, mesmo ap\u00f3s tanto desalento, segu\u00edamos lutando para manter a vantagem conquistada; contudo, a sensa\u00e7\u00e3o amarga de incompreens\u00e3o e um frio na boca do est\u00f4mago me acompanhavam todo o tempo e eu, certamente, n\u00e3o era a \u00fanica.<\/p>\n<p>Foi nesse clima ag\u00f4nico que, agitados pela incerteza, fomos socorridos por um evento do Departamento: <em>Entretantos, democratizar a psican\u00e1lise no Brasil \u2013 propostas para os pr\u00f3ximos cinco anos<\/em>, realizado pelo Canal do YouTube do Instituto Sedes Sapientiae em 21 de Outubro.<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o organizadora \u2013 composta por Maria de F\u00e1tima Vicente<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, Paula Francisquetti<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> e S\u00edlvia Nogueira de Carvalho<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> &#8211; teve a sensibilidade de trazer este tema t\u00e3o necess\u00e1rio para um espa\u00e7o de di\u00e1logo entre os pares, agora n\u00e3o apenas pares do Departamento ou do Instituto, mas do campo psicanal\u00edtico e, desse modo, convidaram Benilton Bezerra Jr.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> e Miriam Debieux Rosa<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> para debaterem conosco.<\/p>\n<p>Posso dizer que foi uma lufada de oxig\u00eanio, uma sacudida em meu inconformismo amedrontado e, sobretudo, um fio de esperan\u00e7a no qual me agarrei para seguir at\u00e9 o dia 30.<\/p>\n<p>Na abertura, F\u00e1tima Vicente destacou a import\u00e2ncia de sairmos de dentro do Sedes, abrirmos m\u00e3o do nosso \u201cnarcisismo das pequenas diferen\u00e7as\u201d e, desse desejo, nasceu a proposta para o <em>Entretantos<\/em><a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> de 2022-2023. Encontrei neste evento de abertura resson\u00e2ncias para as perguntas que vinham me incomodando: \u201cQue pa\u00eds \u00e9 esse?\u201d e \u201cComo chegamos at\u00e9 aqui?\u201d.<\/p>\n<p>Benilton iniciou destacando que n\u00e3o temos uma democracia ainda, apenas a firme vontade de seguir avan\u00e7ando nela, por\u00e9m, o assombro com a amplifica\u00e7\u00e3o da necropol\u00edtica no pa\u00eds faz com que seja necess\u00e1rio estarmos de prontid\u00e3o para as trincheiras da resist\u00eancia. Miriam recuperou as origens freudianas do termo resist\u00eancia enquanto forma de se defender da tirania da sugest\u00e3o e, portanto, do assujeitamento.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar a conversa, diz Benilton, precisamos lembrar que vivemos no mesmo territ\u00f3rio que o da d\u00e9cada passada, por\u00e9m em um mundo completamente diferente. Ressalta que \u201cn\u00e3o \u00e9 como a jabuticaba\u201d \u2013 fruto brasileiro \u2013 mas um acontecimento inscrito na ordem mundial, como demonstra a recente elei\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia, Trump nos Estados Unidos e, at\u00e9 mesmo a Su\u00e9cia, com o fechamento do Minist\u00e9rio do meio ambiente. E, para al\u00e9m do p\u00eandulo hist\u00f3rico, alguns fatos novos contribu\u00edram para isso: a queda do muro de Berlim, h\u00e1 40 anos, como um s\u00edmbolo de uma mudan\u00e7a radical no mundo, com a expans\u00e3o do neoliberalismo e uma sociedade apoiada na l\u00f3gica monet\u00e1ria, na qual se ignora que existem coisas que t\u00eam valor e n\u00e3o pre\u00e7o. Soma-se a isso a populariza\u00e7\u00e3o da internet, a chegada dos <em>smartphones<\/em>, das redes sociais, etc.<\/p>\n<p>Tais mudan\u00e7as no mundo material trouxeram mudan\u00e7as tamb\u00e9m em nossa subjetividade, alterando nossa rela\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria, com a aten\u00e7\u00e3o, e chegando at\u00e9 mesmo a estabelecer certa coloniza\u00e7\u00e3o de nosso inconsciente e de nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo, quando, por exemplo, embaralhamos opini\u00e3o com verdade. Miriam, concordando com as quest\u00f5es levantadas por ele, acrescentou o sequestro dos significantes e a mobiliza\u00e7\u00e3o de afetos prim\u00e1rios, como o \u00f3dio \u00e0 diferen\u00e7a, enquanto estrat\u00e9gias desta coloniza\u00e7\u00e3o e, juntos, convidaram-nos a construir boas perguntas, que nos levem a compreender algo que ainda n\u00e3o estamos acostumados a pensar.<\/p>\n<p>Benilton destacou o caldo de cultura em que estamos mergulhados, no qual h\u00e1 a fetichiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e da liberdade individual em prol da explora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria liberdade; a exacerba\u00e7\u00e3o do individualismo, num mundo sem piedade; como ref\u00fagio, grupos identit\u00e1rios oferecem a ilus\u00e3o de pertencimento.<\/p>\n<p>Miriam retomou que, nestes \u00faltimos tempos, com a queda dos v\u00e9us, revelou-se a pr\u00e1tica do gozo em surdina da classe dominante e caiu por terra a ilus\u00e3o que nos fazia crer na primazia da civiliza\u00e7\u00e3o e sua defesa dos direitos humanos. N\u00f3s nos deparamos, assim, com um presente em risco e um futuro incerto.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia da experi\u00eancia humana, dizem eles, \u00e9 o conflito e o inacabamento; a democracia e a psican\u00e1lise t\u00eam em comum a negatividade, o vazio necess\u00e1rio para a sustenta\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o desejante. Ressaltam que ser\u00e1 imprescind\u00edvel reencontrar a utopia esquecida para imaginarmos um futuro outro, um mundo que n\u00e3o seja regido apenas pela l\u00f3gica de mercado.<\/p>\n<p>Benilton diz que a democracia no Brasil ainda \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o uma realidade e que estamos pagando hoje um tributo pela anistia que \u201cnada mais foi do que uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso t\u00edpica da cultura brasileira, que faz uma moderniza\u00e7\u00e3o pelo alto\u201d, resultando numa democracia constru\u00edda pela exclus\u00e3o, pela elitiza\u00e7\u00e3o, da qual n\u00f3s, psicanalistas, fazemos parte quando reproduzimos a segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed a urg\u00eancia de nos perguntarmos: \u201cque tipo de democracia queremos?\u201d e \u201cque tipo de campo psicanal\u00edtico queremos construir?\u201d<\/p>\n<p>Trabalhar para a democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e9 buscar vigorosamente maneiras para trazer para dentro da forma\u00e7\u00e3o pessoas historicamente exclu\u00eddas. Mais inclus\u00e3o e mais acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de pensamento psicanal\u00edtico fora dos redutos sociais usuais s\u00e3o metas urgentes. E \u00e9 imposs\u00edvel alcan\u00e7\u00e1-las sem mexer nos privil\u00e9gios de uma classe social a qual a maioria de n\u00f3s pertence.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m deste compromisso \u00e9tico, temos muito a aprender com quem sabe desde sempre <em>insistir, resistir, existir<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup><strong>[8]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Para p\u00f4r em jogo a ideia de futuro nos pr\u00f3ximos cinco anos, dizem os palestrantes, ser\u00e1 preciso recuperar o sofrimento como centro de gravidade, numa escuta n\u00e3o psicologizante; desconstruir a ideia de que vivemos num mundo dist\u00f3pico que n\u00e3o pode ser transformado; aprender a n\u00e3o sustentar a guerra do outro; afirmar a psican\u00e1lise\u00a0 como forma de estabelecer la\u00e7o social; a psican\u00e1lise enquanto resist\u00eancia democr\u00e1tica, tomando agora o significante <em>resist\u00eancia<\/em> em sua dimens\u00e3o de defesa, uma face da transfer\u00eancia que, quando trabalhada, permite retomar a possibilidade de articula\u00e7\u00e3o dos significantes, da produ\u00e7\u00e3o de sonhos, de sentidos para a vida.<\/p>\n<p>Tarefa ingrata tentar transpor em um texto a profundidade das ideias apresentadas e do bom di\u00e1logo que se seguiu a elas. O pensamento dos convidados correu livre e nos trouxe a beleza de lembrar que temos pares desta grandeza com quem conversar e isso, por si s\u00f3, torna a vida mais interessante. Para nossa alegria o evento est\u00e1 dispon\u00edvel na Eventoteca, no site do Departamento, e no YouTube, no canal do Sedes.<\/p>\n<p>E, agu\u00e7ando a curiosidade de quem ainda n\u00e3o p\u00f4de assistir, finalizo com uma pequena p\u00e9rola: num recuo metaf\u00f3rico \u2013 como nomeou ela \u2013 Miriam nos falou de um estudo desenvolvido no Laborat\u00f3rio de Psican\u00e1lise, Sociedade e Pol\u00edtica, sobre a narrativa dos monstros como representantes de algo do humano, numa bel\u00edssima constru\u00e7\u00e3o. Ela nos colocou em curto-circuito quando apresentou os vampiros e zumbis enquanto analogia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o colonizador\/colonizado. N\u00e3o adianto mais nada sobre a engenhosidade desta ideia para n\u00e3o atrapalhar o efeito de ouvi-la falar sobre isso. N\u00e3o gosto de <em>spoiler, <\/em>mas confesso que nunca mais, para mim, <em>Nosferatu<\/em> e <em>The Walking Dead<\/em> ser\u00e3o os mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Outubro\/2022<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial deste boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line, do GTEP e da Comiss\u00e3o de Admiss\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Membro do Departamento de Psican\u00e1lise, articuladora da \u00e1rea de Eventos no Conselho de Dire\u00e7\u00e3o do Departamento de Psican\u00e1lise 2021-2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Membro do Departamento de Psican\u00e1lise, integrante da Comiss\u00e3o Mista de Cursos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Membro do Departamento de Psican\u00e1lise, articuladora da \u00e1rea de Publica\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00e3o no Conselho de Dire\u00e7\u00e3o do Departamento de Psican\u00e1lise 2021-2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Psicanalista, membro do C\u00edrculo Psicanal\u00edtico do Rio de Janeiro e professor da UERJ.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Psicanalista, professora titular do Departamento de Psicologia da USP e Pr\u00f3-Reitora Adjunta de Inclus\u00e3o e Pertencimento.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>T\u00edtulo de evento do Departamento que se encontra em sua terceira edi\u00e7\u00e3o; as duas primeiras ocorreram em 2014 e 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Fa\u00e7o aqui refer\u00eancia ao t\u00edtulo de conhecido evento interdepartamental do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nanci de Oliveira Lima narra a abertura de entretantos 2023: quando a palavra circula, a esperan\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[166,181],"edicao":[170],"autor":[171],"class_list":["post-2081","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-democracia","tag-entretantos","edicao-boletim-65","autor-nanci-de-oliveira-lima","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2081"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2155,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081\/revisions\/2155"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2081"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2081"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}