{"id":2083,"date":"2022-11-22T09:38:39","date_gmt":"2022-11-22T12:38:39","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2083"},"modified":"2023-03-23T19:54:41","modified_gmt":"2023-03-23T22:54:41","slug":"resistencia-criacao-e-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/11\/22\/resistencia-criacao-e-esperanca\/","title":{"rendered":"Resist\u00eancia, cria\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Resist\u00eancia, cria\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>M\u00e1rcia de Mello Franco<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bom dia a todas e todos, \u00e9 com emo\u00e7\u00e3o que compartilho hoje com voc\u00eas esse momento t\u00e3o especial na hist\u00f3ria do curso de Psicopatologia e, tamb\u00e9m, na minha trajet\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer a presen\u00e7a de todas\/os e, em particular, \u00e0queles que contribu\u00edram para que esse encontro pudesse ocorrer: \u00e0 F\u00e1tima Vicente, como articuladora da \u00e1rea de eventos, sempre dispon\u00edvel a colaborar: \u00e0 comiss\u00e3o \u00a0composta por Ana Leal, Mara Selaibe e Marcelo Soares que, junto comigo, organizaram o evento; \u00a0\u00e0 Ana Lucia Panach\u00e3o que est\u00e1 conosco na mesa e que vem, h\u00e1 muitos anos, participando do corpo docente do curso com extremo coleguismo; \u00e0 Ana Leal por idealizar e levar \u00e0 frente com ajuda de Ana Panach\u00e3o, Elaine Melo e Victor Panach\u00e3o Maia, o projeto do v\u00eddeo que lhes mostraremos. Agrade\u00e7o ainda \u00e0 equipe editorial do boletim online que aceitou nosso convite de parceria e deu in\u00edcio \u00e0s nossas comemora\u00e7\u00f5es publicando uma amostra de nossa produ\u00e7\u00e3o no n\u00famero 63 do boletim dedicado ao tema da hist\u00f3ria e transmiss\u00e3o dentro do Departamento.<\/p>\n<p>Por fim, agrade\u00e7o a sustenta\u00e7\u00e3o institucional do Sedes e do Departamento de Psican\u00e1lise, sem o que o projeto deste curso e deste evento n\u00e3o seriam poss\u00edveis.<\/p>\n<p>N\u00e3o mencionei ainda o Mario pois sobre ele e sobre a atual equipe, pretendo me deter ao longo de minha exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos a ela:<\/p>\n<p>Em 1998, coincidentemente ano do nascimento do meu primeiro filho, surgia o <em>Curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea<\/em> \u2013 fruto, de um lado, de um <em>trabalho de resist\u00eancia<\/em> para fazer frente \u00e0 l\u00f3gica medicalizante da psiquiatria; e, de outro lado, fruto de um <em>trabalho de cria\u00e7\u00e3o<\/em> no campo da psican\u00e1lise. Faz\u00edamos parte de um movimento, dentro da psican\u00e1lise, de busca de novos modelos para abordar de forma complexa o sofrimento do sujeito, concebido como um sujeito atravessado pelo seu tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>Como se construiu o curso de Psicopatologia?<\/strong><\/p>\n<p>O Curso de Psicopatologia \u00e9 herdeiro do curso <em>Psicoses, Concep\u00e7\u00f5es Te\u00f3ricas e Estrat\u00e9gias Institucionais<\/em>. O curso de Psicopatologia foi criado ap\u00f3s o encerramento do curso de Psicoses, no momento em que o grupo de professores buscava novas brechas por onde permanecer produzindo em fun\u00e7\u00e3o dos fechamentos nas pol\u00edticas p\u00fablica da cidade.<\/p>\n<p>O <em>Curso de Psicoses<\/em> surgiu de um chamado do Mario e de um grupo oriundo do Setor de Sa\u00fade Mental e Institui\u00e7\u00f5es do Departamento, com a finalidade de contribuir para a forma\u00e7\u00e3o dos profissionais que atuavam nos equipamentos da rede municipal de sa\u00fade na gest\u00e3o de Luiza Erundina. Fiz parte da cria\u00e7\u00e3o deste curso junto com Alexandra Sterian, Eliane Berger, Mario Fuks, Nayra Cesaro Penha Ganhito, Renata Caiaffa e Fernando Cantalice de Medeiros (que infelizmente n\u00e3o chegou a ver o curso acontecer). Era um grupo composto, em sua maioria, por jovens psicanalistas que haviam conclu\u00eddo o curso de psican\u00e1lise h\u00e1 pouco tempo. Mario, que havia sido professor de muitos de n\u00f3s, exercia no grupo um papel de lideran\u00e7a e tornou-se naturalmente o coordenador do curso.<\/p>\n<p><em>Nos unia o desejo de criar coletivamente, de transmitir e de aprender transmitindo psican\u00e1lise num contexto marcado pelos avan\u00e7os da Reforma Psiqui\u00e1trica no Brasil.<\/em> O projeto requeria algumas ferramentas te\u00f3ricas e disponibilidade de investir (e muito!!!). O curso era artesanalmente constru\u00eddo e para isso cont\u00e1vamos com as reuni\u00f5es semanais dos professores, pr\u00e1tica que persiste at\u00e9 hoje no curso de Psicopatologia. Nessas reuni\u00f5es conversamos sobre os conte\u00fados te\u00f3ricos a serem desenvolvidos no curso; buscamos elaborar a experi\u00eancia vivida com os alunos; refletimos sobre as formas de transmiss\u00e3o e, ainda, sobre o contexto institucional (Sedes e Departamento de Psican\u00e1lise), e sobre o contexto social e pol\u00edtico em que ela ocorre. Al\u00e9m da reuni\u00e3o semanal, contamos tamb\u00e9m com o recurso de uns assistirmos \u00e0s aulas de outros professores para que possamos, de fato, desenvolver um projeto juntos. As caracter\u00edsticas, tanto da forma de coordena\u00e7\u00e3o exercida pelo Mario, que sempre compartilhou conosco as decis\u00f5es a respeito do curso, quanto dos dispositivos que criamos, trouxeram contribui\u00e7\u00f5es fundamentais para minha forma\u00e7\u00e3o como psicanalista e como professora e criaram as condi\u00e7\u00f5es para a transmiss\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de coordena\u00e7\u00e3o dentro da equipe.<\/p>\n<p>Depois de 5 anos coordenando o curso <em>Psicoses, Concep\u00e7\u00f5es Te\u00f3ricas e Estrat\u00e9gias Institucionais<\/em> e 23 anos coordenando o curso <em>Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea<\/em>, Mario Fuks deixou a coordena\u00e7\u00e3o do curso.\u00a0 Ele saiu da coordena\u00e7\u00e3o mas continuar\u00e1, de diferentes formas, contribuindo com a equipe de professores. Foi com satisfa\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, lisonjeada, que recebi do Mario, no in\u00edcio deste ano, o bast\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o inaugurando, no curso, uma pr\u00e1tica de revezamento desta fun\u00e7\u00e3o entre membros da equipe de professores.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, neste momento, queria agradecer ao Mario e aos colegas do curso pela preciosa participa\u00e7\u00e3o no meu processo de forma\u00e7\u00e3o e pela confian\u00e7a que me permite ser hoje coordenadora do Curso.<\/p>\n<p>Desde sua cria\u00e7\u00e3o, foram muitos os aportes e contribui\u00e7\u00f5es de colegas e grupos dentro do Departamento para que o projeto do curso pudesse se desenvolver.<\/p>\n<p>Com carinho conto para voc\u00eas que trabalharam conosco: Adriana Victorio Morettin, Alexandra Sterian, Aline Eug\u00eania Camargo, Ana Lucia Amoratti, Helena M. Albuquerque, Luciana Cartocci, Marli Ciriaco Vianna, Maria Beatriz Costa Carvalho Vannuchi, Nayra Cesaro Penha Ganhito, Renata de Azevedo Caiaffa.<\/p>\n<p>O Grupo de Trabalho e Pesquisa Psican\u00e1lise e Contemporaneidade, do qual tamb\u00e9m fiz parte, tem um lugar especial na constru\u00e7\u00e3o de nosso projeto e na busca de caminhos te\u00f3ricos para a reflex\u00e3o do que se passa na contemporaneidade. Do GTEP, tivemos o privil\u00e9gio de receber \u00f3timos professores que trouxeram de sua experi\u00eancia neste grupo uma especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como os alunos se apropriam daquilo que buscamos transmitir.<\/p>\n<p>Gostaria de lhes contar muitas coisas a respeito dessas contribui\u00e7\u00f5es, mas corro o risco de ficar falando at\u00e9 amanh\u00e3 e voc\u00eas n\u00e3o iriam gostar.<\/p>\n<p><em>Atualmente, formamos uma equipe<\/em> composta por psicanalistas com diferentes escolhas te\u00f3ricas e diferentes trajet\u00f3rias dentro e fora do Departamento. H\u00e1 algo que temos em comum, entretanto, que \u00e9 uma grande implica\u00e7\u00e3o com a tarefa da transmiss\u00e3o. Algumas vezes nos julgamos muito auto exigentes, mas o fato \u00e9 que temos nos mantido uma equipe que reinventa o curso a cada aula que d\u00e1. Isso \u00e9 muito trabalhoso, mas permite que a gente continue aprendendo ao transmitir. O retorno que temos de muitos alunos \u00e9 que nossa implica\u00e7\u00e3o \u00e9 percebida e isso favorece a constru\u00e7\u00e3o de um elo importante deles com o curso.<\/p>\n<p>E o <em>Mario<\/em>? Sem sua <em>for\u00e7a instituinte<\/em> o curso n\u00e3o existiria. Colega, professor e provavelmente amigo de muitos dos presentes, devem saber que Mario \u00e9 um <em>sonhador <\/em>entusiasmado. Ao longo dos anos, com frequ\u00eancia trazia alguma ideia de coisas que poder\u00edamos fazer. Algumas eram vi\u00e1veis, outras vinham pelo prazer de sonhar, um prazer que queria compartilhar conosco. Sempre curioso, Mario permanece buscando interlocutores para discutir com ele algum acontecimento da atualidade. A equipe do curso se presta muitas vezes a isso e pode compartilhar com ele suas hip\u00f3teses originais sobre o momento hist\u00f3rico que vivemos. Fundamental tamb\u00e9m a contribui\u00e7\u00e3o de seu conhecimento do texto freudiano, sempre na \u201cponta da l\u00edngua\u201d, o que muito nos ajuda em momentos de reflex\u00e3o te\u00f3rica. Mas a cria\u00e7\u00e3o do curso nos demandou, al\u00e9m de trabalhar os conceitos da metapsicologia, buscar novas ferramentas te\u00f3ricas. Mario, junto com a equipe, construiu um pensamento singular a partir do estudo do conceito freudiano de <em>recusa<\/em>, para pensar as formas como o sofrimento ps\u00edquico se apresenta na atualidade. Deteve-se ainda no estudo do la\u00e7o social na contemporaneidade e no estudo dos efeitos do neoliberalismo na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. Suas contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas alimentam nosso trabalho com os alunos e nos s\u00e3o \u00fateis em muitos dos eixos do curso.<\/p>\n<p>Dada a import\u00e2ncia do Mario que, al\u00e9m de ter tido papel fundamental na cria\u00e7\u00e3o do curso de <em>Psicopatologia<\/em>, participou tamb\u00e9m da funda\u00e7\u00e3o do Departamento de Psican\u00e1lise, \u00e9 uma responsabilidade grande receber dele o bast\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o. Tenho consci\u00eancia de que essa experi\u00eancia tem uma import\u00e2ncia n\u00e3o s\u00f3 para o nosso curso, mas para o conjunto do Departamento. Espero que ela possa nos ser \u00fatil para pensarmos na circula\u00e7\u00e3o de lugares, na transmiss\u00e3o geracional no Departamento e na valoriza\u00e7\u00e3o dos caminhos que nos possibilitaram chegar aonde estamos.<\/p>\n<p>Neste momento, gostaria de narrar um epis\u00f3dio ao qual j\u00e1 fiz refer\u00eancia na aula inaugural no in\u00edcio deste ano.<\/p>\n<p>Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o vivida h\u00e1 quase 30 anos atr\u00e1s, ocorrida provavelmente em 1994. Eu havia conclu\u00eddo o <em>Curso de Psican\u00e1lise<\/em> do nosso Departamento h\u00e1 pouco mais de 2 anos. O pr\u00f3prio Departamento de Psican\u00e1lise era, na ocasi\u00e3o, relativamente novo. Na \u00e9poca, eu trabalhava como psic\u00f3loga na rede municipal de sa\u00fade e participei da funda\u00e7\u00e3o do curso de Psicoses com a inten\u00e7\u00e3o de trazer, como contribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, minha experi\u00eancia em sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>A cena que quero compartilhar com voc\u00eas ocorreu quando presenciei Mario discutindo com os alunos deste curso uma situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica ocorrida dentro de um Hospital Dia (HD), dispositivo que veio a se transformar no que hoje chamamos de CAPS. Uma aluna, que trabalhava no HD, relatava um epis\u00f3dio muito dif\u00edcil vivido com um paciente. Infelizmente n\u00e3o me lembro do que se tratava, mas era uma situa\u00e7\u00e3o em que ela fizera uma interven\u00e7\u00e3o junto ao paciente e relatava isso de forma muito constrangida, pois temia que sua interven\u00e7\u00e3o fosse considerada uma \u201cheresia\u201d pelos psicanalistas.<\/p>\n<p>Mario perguntou a ela o que acontecera depois desta interven\u00e7\u00e3o e, ent\u00e3o, vieram novos dados que configuraram um relato muito rico e surpreendente da situa\u00e7\u00e3o. Depois Mario esclareceu que era assim que funcionava o racioc\u00ednio cl\u00ednico, havia uma hip\u00f3tese, algo era introduzido a partir desta hip\u00f3tese e s\u00f3 poder\u00edamos saber a posteriori, ao observar o que acontecia no campo a partir daquela interven\u00e7\u00e3o, se isso fizera sentido ou n\u00e3o e se havia sido uma boa interven\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o. Mario esclarecia ainda que uma boa interven\u00e7\u00e3o era aquela que punha algo em movimento e que poder\u00edamos acompanhar esse movimento formulando novas hip\u00f3teses, que poderiam se transformar em novas interven\u00e7\u00f5es e dar lugar a outras observa\u00e7\u00f5es. Em s\u00edntese, Mario ressaltava para os alunos a import\u00e2ncia da ideia de <em>processo<\/em> no trabalho cl\u00ednico.<\/p>\n<p>O que estou contando pode n\u00e3o conter em si grande novidade, mas o efeito desta interven\u00e7\u00e3o na aluna e em mim, que me formava ali como professora, foi algo bastante significativo. Atualmente, eu ofere\u00e7o um conjunto de aulas para o segundo ano em que discuto a quest\u00e3o dos dispositivos cl\u00ednicos dentro de uma abordagem que busca relacionar a montagem dos dispositivos cl\u00ednicos com as transforma\u00e7\u00f5es simbolizantes envolvidas nos processos ps\u00edquicos. A ideia de processo dentro da cl\u00ednica me \u00e9 fundamental, bem como um pensamento sobre o que favorece transforma\u00e7\u00f5es e passagens de uma forma de funcionamento a outra. Nesta reflex\u00e3o, um dos autores em que me baseio \u00e9 Ren\u00e9 Roussillon.<\/p>\n<p>O valor que damos \u00e0 ideia de processo est\u00e1 presente tamb\u00e9m no fato de termos nos dedicado ao estudo do conceito freudiano de recusa. Tal conceito se presta, justamente, \u00e0 reflex\u00e3o sobre situa\u00e7\u00f5es em que a experi\u00eancia da processualidade fica impedida. Mediante a a\u00e7\u00e3o deste mecanismo de defesa, as transcri\u00e7\u00f5es de uma forma de registro a outra no aparelho ps\u00edquico n\u00e3o podem se dar. Em fun\u00e7\u00e3o disso, o vivido n\u00e3o pode ser apropriado significativamente pelo sujeito e transformado em experi\u00eancia. Instala-se uma paralisia do processo de significa\u00e7\u00e3o, em que uma coisa n\u00e3o pode mais ser transformada em outra. O sujeito fica preso num eterno presente, que n\u00e3o pode ser ent\u00e3o historicizado.<\/p>\n<p>Atualmente, passamos por um processo de revis\u00e3o do programa do curso. O curso foi criado partindo dos quadros cl\u00ednicos que a psiquiatria recortava amparada na l\u00f3gica do DSM e que eram amplamente divulgados pela m\u00eddia. Buscamos ent\u00e3o resgatar a especificidade do pensamento psicopatol\u00f3gico psicanal\u00edtico, formulando hip\u00f3teses a respeito do funcionamento ps\u00edquico subjacente \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es estudadas e, para isso, colocamos a metapsicologia para trabalhar. De acordo com a perspectiva psicanal\u00edtica em que acreditamos, tomamos essas problem\u00e1ticas, n\u00e3o como entidades nosol\u00f3gicas naturais, mas como <em>representantes do mal-estar<\/em> da \u00e9poca, para recuperarmos o <em>pathos<\/em><strong>,<\/strong> entendido como o sofrimento que, ao ser escutado, pode ser transformado em experi\u00eancia.<\/p>\n<p>No trabalho com os alunos precisamos, o tempo todo, transitar entre a transmiss\u00e3o de conceitos b\u00e1sicos da psican\u00e1lise e a busca de novos modelos te\u00f3ricos para refletir sobre as formas como o sofrimento ps\u00edquico se apresenta na atualidade.<\/p>\n<p>Ao pesquisar o programa do curso desde seu in\u00edcio, eu me surpreendi ao ver que come\u00e7amos com programas bastante focados em formas de funcionamento ps\u00edquico e, aos poucos, os quadros cl\u00ednicos tomaram mais relevo. Nos \u00faltimos anos, talvez acompanhando <em>as mudan\u00e7as no pr\u00f3prio campo psicanal\u00edtico<\/em>, nosso programa voltou a se estruturar menos a partir de quadros psicopatol\u00f3gicos e mais a partir de modos de funcionamento ps\u00edquico que podem estar presentes em um mesmo sujeito em diferentes momentos. Para que compreendam o que digo vou trazer alguns exemplos: o m\u00f3dulo que se propunha a problematizar a s\u00edndrome do p\u00e2nico, cuja professora hoje \u00e9 a Tatiana, foi se constituindo como um m\u00f3dulo para trabalhar a quest\u00e3o do campo do angustiante; o m\u00f3dulo que denominamos em certo momento como m\u00f3dulo sobre depress\u00f5es, hoje trabalhado pela Roberta no primeiro ano, passou a ser nomeado como um m\u00f3dulo para estudar as vicissitudes da perda do objeto; o m\u00f3dulo que foi, por muitos anos, nomeado toxicomanias, retoma no segundo ano, atualmente com Marcelo, a quest\u00e3o das vicissitudes da perda do objeto e aborda as adic\u00e7\u00f5es como um destino poss\u00edvel diante dos impasses da interioriza\u00e7\u00e3o do objeto.<\/p>\n<p>Neste momento, em que nosso programa passa aos poucos por altera\u00e7\u00f5es, formulamos que o eixo para o segundo ano do curso \u00e9 a passagem do irrepresent\u00e1vel para a possibilidade de simboliza\u00e7\u00e3o. Trabalhamos diversas quest\u00f5es a partir desse eixo e diferentes figuras cl\u00ednicas s\u00e3o abordadas desde essa perspectiva. Figuras cl\u00ednicas como, por exemplo, a hiperatividade, foram introduzidas para ilustrar um modo de funcionamento em que o corpo e o agir est\u00e3o diretamente implicados. \u00c9, neste contexto, que tenho trabalhado com a quest\u00e3o do dispositivo cl\u00ednico do analista, em sua rela\u00e7\u00e3o com a multiplicidade da fun\u00e7\u00e3o simbolizante.<\/p>\n<p>Estudamos quest\u00f5es muito complexas, de dif\u00edcil apreens\u00e3o, que requerem alto grau de elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Uma forma que temos de trabalhar com os alunos \u00e9 processar, com eles, os conceitos em forma de espiral, com a retomada dos mesmos elementos em novos contextos. Tatiana aborda no primeiro ano, por exemplo, a quest\u00e3o do traumatismo coletivo, um tema caro de pesquisa seu, e eu retomo a quest\u00e3o do ponto de vista dos dispositivos constru\u00eddos pelo analista para trabalhar com essa problem\u00e1tica. Ana Panach\u00e3o, no conjunto de aulas sobre sono e sonho, retoma conceitos fundantes da psican\u00e1lise, j\u00e1 trabalhados por Mania na introdu\u00e7\u00e3o ao curso. Eu, por minha vez, retomo o processo de simboliza\u00e7\u00e3o desenvolvido por Ana Panach\u00e3o a partir do modelo de aparelho ps\u00edquico contido na <em>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>, e mostro sua analogia com o dispositivo psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Nossa reflex\u00e3o no curso pretende abarcar, ainda, o questionamento das condi\u00e7\u00f5es que podem ser mais ou menos favor\u00e1veis \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o daquilo que produz dor e sofrimento na atualidade. Mario Fuks (1998\/99) aborda essas quest\u00f5es em seu precioso artigo intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/b63_mariofuks.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mal-estar na contemporaneidade e patologias decorrentes<\/a>\u201d. Segundo Fuks (1998\/99), \u201cas pol\u00edticas neoliberais resultam em fragmenta\u00e7\u00e3o social e rupturas dos la\u00e7os de sociabilidade e intersubjetividade, comprometendo os recursos elaborativos dispon\u00edveis para enfrentar as amea\u00e7as e car\u00eancias que estas mesmas pol\u00edticas imp\u00f5em\u201d (p. 63). Desta forma, Mario Fuks ressaltava, j\u00e1 em 1998, que vivemos num mundo em que os espa\u00e7os coletivos s\u00e3o esvaziados, os espa\u00e7os de encontro reduzidos, os v\u00ednculos s\u00e3o prec\u00e1rios e prevalece um modo de vida solit\u00e1rio, isolado, com aus\u00eancia de ideais e projetos compartilhados. Segundo Mario, neste mundo,\u201d hist\u00f3ria e projeto como media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e regula\u00e7\u00e3o narc\u00edsica v\u00e3o desaparecendo.\u201d (p. 70).<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que conduziram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do nosso curso, em 1998, n\u00e3o s\u00f3 permanecem presentes como se intensificaram como o avan\u00e7o das pol\u00edticas neoliberais e o desmonte das pol\u00edticas do Estado de bem-estar social. As condi\u00e7\u00f5es que davam alguma sustenta\u00e7\u00e3o para os cidad\u00e3os se fragilizaram e vivemos, durante o governo Bolsonaro, s\u00e9rias amea\u00e7as \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Assistimos ainda, nos \u00faltimos anos, \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e \u00e0s enormes mudan\u00e7as vividas a partir do desenvolvimento da tecnologia.<\/p>\n<p>Se o contexto j\u00e1 n\u00e3o estava favor\u00e1vel no fim do s\u00e9culo passado, o que dizer dos \u00faltimos anos em que as condi\u00e7\u00f5es de nossa ainda fr\u00e1gil democracia sofreram (e ainda sofrem) s\u00e9rios riscos? Vivemos, no Brasil, um cen\u00e1rio extremamente amea\u00e7ador com o avan\u00e7o da extrema direita representada por um governo que se pauta numa pol\u00edtica de \u00f3dio de car\u00e1ter claramente fascista. Com a recent\u00edssima elei\u00e7\u00e3o de Lula, temos novamente alguma luz no fim do t\u00fanel mas sabemos que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil&#8230;<\/p>\n<p>A essas condi\u00e7\u00f5es de nossa pol\u00edtica, somam-se ainda uma crise clim\u00e1tica que coloca o planeta em risco, uma guerra no continente europeu e uma grave crise sanit\u00e1ria, com seus feitos traum\u00e1ticos, que escancarou, ainda mais, a profunda desigualdade social existente no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Conforme aponta Roussillon (2019) acredito que os dispositivos institucionais ou sociais t\u00eam sua fun\u00e7\u00e3o na regula\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e na gest\u00e3o das ang\u00fastias. A esses dispositivos Roussillon atribui um papel de conter, sustentar ou atrapalhar outros dispositivos em que transforma\u00e7\u00f5es simbolizantes podem ocorrer. Nos \u00faltimos anos, com o governo Bolsonaro, vivemos, entretanto, num contexto de destrui\u00e7\u00e3o das garantias institucionais e prop\u00edcio \u00e0 confus\u00e3o mental. N\u00e3o sabemos mais no que acreditar e, conforme ressaltam nossas colegas Tatiana Inglez-Mazzarella e Ana Lucia Panach\u00e3o, em um texto apresentado por elas numa mesa da FLAPPSIP no XXXIII Symposium AEAPG realizado em 2021, \u201co sujeito fica exposto \u00e0 invas\u00e3o traum\u00e1tica e sofre graves consequ\u00eancias ps\u00edquicas que podem levar ao desamparo e ao desalento\u201d.<\/p>\n<p>Em meio ao atordoamento que se produz em contexto t\u00e3o perturbador, recorro a dois filmes que me ajudaram a recuperar alguma condi\u00e7\u00e3o de pensamento.<\/p>\n<p>O \u00faltimo filme a que assisti no cinema antes da pandemia foi <em>Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui<\/em>, filme de 2018, dirigido por Ken Loach. Neste filme, um trabalhador ao perder o emprego submete-se a condi\u00e7\u00f5es muito ruins para trabalhar como \u201cempres\u00e1rio de si mesmo\u201d, fazendo entregas com uma van. Assistimos no filme \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais e de sa\u00fade do personagem, bem como \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos agravada pela falta de tempo para as rela\u00e7\u00f5es familiares. Um dos poucos momentos de distens\u00e3o no filme se d\u00e1 quando, ao in\u00edcio de uma refei\u00e7\u00e3o compartilhada, toca o telefone da m\u00e3e e ela precisa sair para socorrer uma velhinha de quem era cuidadora. A solu\u00e7\u00e3o surge do filho, adolescente desajustado, que sugere que fossem todos juntos levar a m\u00e3e para o trabalho na van do pai, quando poderiam, ent\u00e3o, cantar no caminho. N\u00e3o se tratava de uma sa\u00edda man\u00edaca, mas de uma sa\u00edda poss\u00edvel de resgate dos v\u00ednculos e da alegria quando tudo parecia ruir. O desenrolar do filme n\u00e3o \u00e9 otimista e n\u00e3o chega a se esbo\u00e7ar nele um projeto de futuro. A cena a que me referi, entretanto, \u00e9 daquelas cenas de cinema que eu n\u00e3o esquecerei. Ela nos apresenta uma brecha para o encontro e o compartilhamento. Isso curiosamente se d\u00e1 no mesmo \u201cespa\u00e7o van\u201d que \u00e9 tamb\u00e9m o espa\u00e7o onde se d\u00e1 a explora\u00e7\u00e3o do trabalho do pai. N\u00e3o sei quais ser\u00e3o as sa\u00eddas que encontraremos, mas acredito que, se algo novo puder surgir, isso ocorrer\u00e1 com a possibilidade de resgate de espa\u00e7os compartilhados. No filme, isso vem do jovem desajustado que tem tamb\u00e9m uma liga\u00e7\u00e3o com a arte urbana do grafite&#8230;<\/p>\n<p>Mais recentemente, quando j\u00e1 n\u00e3o precis\u00e1vamos ficar isolados e pudemos voltar a ir ao cinema, assisti ao delicado filme brasileiro Marte Um. Este filme foi realizado por uma produtora mineira denominada Filmes de Pl\u00e1stico e dirigido por um cineasta negro, Gabriel Martins. Os protagonistas da hist\u00f3ria pertencem a uma fam\u00edlia de negros de Contagem, localizada na Grande Belo Horizonte, mesma regi\u00e3o dos criadores do filme. Diferente de outros filmes em que os negros perif\u00e9ricos s\u00e3o retratados como miser\u00e1veis vivendo situa\u00e7\u00f5es limites, nesta fam\u00edlia a filha, Eunice, \u00e9 cotista e cursa Direito numa Universidade P\u00fablica; o garoto adolescente, Deivinho, tem um sonho de ser astrof\u00edsico e colonizar Marte e os pais trabalham e t\u00eam bons v\u00ednculos com os filhos. A casa possui algum conforto e as pessoas se divertem, comemoram o anivers\u00e1rio fazendo churrasco, dan\u00e7am, namoram. A fam\u00edlia passa alguns apertos financeiros, a quest\u00e3o da diferen\u00e7a social n\u00e3o \u00e9 escamoteada assim como surgem situa\u00e7\u00f5es de humilha\u00e7\u00e3o devido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o social. A m\u00e3e, T\u00e9rcia, personagem memor\u00e1vel, sofre com crises de ansiedade denunciando assim a crueza presente em certas situa\u00e7\u00f5es de seu cotidiano. Tamb\u00e9m h\u00e1 conflitos entre eles, o pai, Wellington, deseja algo para seus filhos diferente daquilo que esses desejam. Mas h\u00e1 muita delicadeza e solidariedade entre eles. Na \u00faltima cena, depois de alguns problemas, a fam\u00edlia fica junta em cima da laje olhando para o c\u00e9u e compartilhando o sonho do filho de ser astrof\u00edsico. Cena comovente.<\/p>\n<p>Eu fiquei pensando que havia ali sonhos, projetos de vida, ideais e conflito de gera\u00e7\u00f5es. Modelo quase fora de moda, bem distinto do filme de Loach. A emo\u00e7\u00e3o que ele produz se deveria \u00e0 delicadeza dos v\u00ednculos amorosos? \u00c0 humanidade dos personagens que permite nos sentirmos t\u00e3o pr\u00f3ximos deles? Ao reencontro com esse modelo de fam\u00edlia que talvez nos apazigue? Pode ser&#8230; Mas tem algo novo ali&#8230; \u00a0Se no filme de Loach uma brecha \u00e9 apontada pelo mais jovem, em Marte Um o mais jovem tem um projeto e tem tamb\u00e9m a sustenta\u00e7\u00e3o de seu grupo. O filme traz esperan\u00e7a depositada num projeto de futuro, com a particularidade de que <em>quem formula esse projeto \u00e9 um garoto negro da periferia de Belo Horizonte.<\/em> Gostaria de pensar que Marte Um representa uma possibilidade de esperan\u00e7a \u00e0 brasileira em que o futuro se mostraria capaz, como diz Fuks, (1998\/99 p. 65), de reparar as injusti\u00e7as do presente&#8230;<\/p>\n<p>Em 2022, depois de anos de intensa crise pol\u00edtica, sanit\u00e1ria, social e econ\u00f4mica, tentamos nos manter resistindo ao avan\u00e7o do fascismo e da necropol\u00edtica que marcaram os anos de pandemia e governo Bolsonaro no Brasil. Conforme discutimos no belo evento realizado com Benilton Bezerra e Miriam Debieux Rosa, \u00e9 hora de formular a pergunta: o que podemos e queremos construir neste momento? Com a elei\u00e7\u00e3o de Lula fica mais f\u00e1cil voltar a sonhar. Mesmo assim, precisaremos de muita imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para inventar novos futuros.<\/p>\n<p>Dentro de um recorte poss\u00edvel para esse nosso encontro de hoje, eu me remeto ao \u00e2mbito do Departamento de Psican\u00e1lise. Mario referiu-se, em uma reuni\u00e3o nossa, a uma pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o para o Departamento, em que os cursos sejam pensados dentro de um conjunto formativo. Eu penso que seria muito interessante se pud\u00e9ssemos avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de cursos para o Departamento que leve isso em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acredito que, para que isso ocorra, precisamos partir do que temos em comum ou, ao menos, do que acredito que dever\u00edamos ter em comum (incluindo o GTEP). Elenco agora alguns pontos que me ocorrem:<br \/>\n&#8211; A refer\u00eancia ao pensamento freudiano;<br \/>\n&#8211; A experi\u00eancia de uma psican\u00e1lise plural, que ultrapassa a linha das escolas, e abre espa\u00e7o para a diversidade;<br \/>\n&#8211; A refer\u00eancia a uma psican\u00e1lise que compreende que o sujeito se constitui com os outros, no la\u00e7o social, atravessado pelo momento hist\u00f3rico em que vive;<br \/>\n&#8211; O compromisso com uma psican\u00e1lise preocupada com as quest\u00f5es de seu tempo e implicada em um projeto de justi\u00e7a social, tal como consta na carta de princ\u00edpios do Sedes.<\/p>\n<p>A partir dessa <em>perspectiva \u00e9tico-pol\u00edtica<\/em>, somos convocados a refletir e desenvolver a\u00e7\u00f5es voltadas para a <em>democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. <\/em><\/p>\n<p>Temos avan\u00e7ado neste sentido dentro do Sedes e do Departamento. Temos o grupo a <em>Cor do Mal-Estar<\/em> trabalhando no Departamento com a quest\u00e3o do racismo. Come\u00e7amos a implantar uma pol\u00edtica de cotas, criou-se a <em>Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o,<\/em> iniciamos as <em>Oficinas de<\/em> <em>Aquilombamento Afetivo<\/em> e o atual CD prop\u00f4s o tema da democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise para o pr\u00f3ximo ciclo do Entretantos. Temos ainda, entretanto, e entretantos, muito a fazer&#8230;<\/p>\n<p>Meu desejo \u00e9 que a gente possa tornar os cursos mais porosos, com quest\u00f5es transversais que possam constituir um elo e uma marca entre n\u00f3s, al\u00e9m de podermos enriquecer o trabalho em cada curso. Uma utopia de forma\u00e7\u00e3o&#8230; em momento marcado pela presen\u00e7a de distopias em que o resgate da esperan\u00e7a \u00e9 t\u00e3o importante! Mas isso requer um trabalho de pensarmos juntos nas especificidades tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Atualmente, s\u00e3o muitos os colegas do Departamento que nos acompanham no cotidiano dos semin\u00e1rios do nosso curso em fun\u00e7\u00e3o de nossa leitura de seus textos. Acreditamos que esse tr\u00e2nsito da produ\u00e7\u00e3o dos colegas do Departamento pelo curso constitui tamb\u00e9m uma possibilidade interessante dos alunos se apropriarem da ideia do curso como pertencendo a um conjunto, o Departamento, em que se produz conhecimento em psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Em alguns momentos, estiveram dando aula, em nossos semin\u00e1rios, psicanalistas do Grupo de Transtornos Alimentares. Decio Gurfinkel, ent\u00e3o professor do Curso de Psican\u00e1lise, j\u00e1 esteve presente nas aulas sobre toxicomanias. Em breve, teremos uma experi\u00eancia, que aposto que ser\u00e1 muito interessante, de oferecer aos alunos do segundo ano uma aula sobre Cl\u00ednicas P\u00fablicas com a Tide Set\u00fabal, professora do curso <em>Conflito e Sintoma<\/em>. Tide publicou um artigo, \u201cTerrit\u00f3rios Cl\u00ednicos\u201d, na revista Percurso n\u00famero 67. Lendo seu artigo tive vontade de estabelecer com ela uma troca sobre esse tema que me interessa muito. Disto resultar\u00e1 essa aula em que ela apresentar\u00e1 seu trabalho de mapeamento dos <em>territ\u00f3rios cl\u00ednicos<\/em> e vir\u00e1 ainda, Ana Carolina Barros, fundadora da Casa de Marias, relatar uma experi\u00eancia espec\u00edfica de cl\u00ednica p\u00fablica. \u00c9 uma proposta modesta, dirigida apenas aos alunos do segundo ano do curso, mas eu gostaria que se configurasse como uma experi\u00eancia do tipo de interc\u00e2mbio que pud\u00e9ssemos experimentar mais vezes entre os cursos.<\/p>\n<p>Tenho aprendido muito com a experi\u00eancia de trabalhar com as rodas de conversa do coletivo Escuta Sedes. Uma das melhores surpresas deste trabalho surgido em 2018, no calor do processo eleitoral, com a finalidade de abrir um espa\u00e7o de escuta para a dimens\u00e3o pol\u00edtica do sofrimento ps\u00edquico e favorecer a circula\u00e7\u00e3o da palavra, foi a experi\u00eancia de coordenarmos rodas de conversa com colegas do Sedes que muitas vezes nem conhec\u00edamos. Aprendi que aqueles que pareciam estrangeiros em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s, dentro do Sedes, eram muito mais pr\u00f3ximos do que pod\u00edamos imaginar. No meu sonho de Sedes, gostaria que esse tipo de experi\u00eancia pudesse ser mais frequente dentro do Instituto. Desejaria que nossas fronteiras pudessem ser mais flex\u00edveis.<\/p>\n<p>Ressaltei as fronteiras dentro do Departamento e do Sedes mas, ao falar em democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, obviamente que n\u00e3o basta o olhar para dentro. Neste sentido temos ainda muito a caminhar para abrir nossas fronteiras para aqueles que t\u00eam estado apartados da possibilidade de realizar uma forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. Como bem alertou Miriam Debieux no evento do Entretantos, \u00e9 preciso ainda que a gente consiga se abrir para aprender com aqueles que podem, como o garoto de Marte Um, formular seus pr\u00f3prios projetos de futuro.<\/p>\n<p>Termino agora fazendo dois \u00faltimos agradecimentos,<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a todos os ex-alunos e aos atuais alunos, meu obrigada por nos manter entusiastas da transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise e pelo tanto que aprendemos com voc\u00eas.<\/p>\n<p>Por fim, agrade\u00e7o ainda ao Mario pela ousadia de sonhar o curso, de sonhar junto no curso e de persistir sonhando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">05\/11\/2022<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fuks, M. P. &#8220;Mal-estar na contemporaneidade e patologias decorrentes&#8221;. <em>Revista Psican\u00e1lise e Universidade. <\/em>S\u00e3o Paulo, n. 9 e 10, 1998\/99.<\/p>\n<p>Panach\u00e3o, A. L. e Inglez-Mazzarella, T. Figuras do sofrimento ps\u00edquico contempor\u00e2neo no Brasil: entre a pandemia e o pandem\u00f4nio<em>. <\/em>Trabalho apresentado em 25\/09\/2021 na mesa FLAPPSIP no XIII Congreso, XXXIII Symposium AEAPG (Associacion Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados).<\/p>\n<p>Roussillon, R.<em> Manual da pr\u00e1tica cl\u00ednica em psicologia e psicopatologia.<\/em> S\u00e3o Paulo: Blucher, 2019.<\/p>\n<p>Set\u00fabal, T. \u201cTerrit\u00f3rios Cl\u00ednicos\u201d. <em>Percurso: Revista de Psican\u00e1lise.<\/em> Ano XXXIV, n. 67 (2021). S\u00e3o Paulo, p. 35-42.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, coordenadora do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea, integrante da Comiss\u00e3o Mista de Cursos e do coletivo Escuta Sedes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo desejo de transmitir psican\u00e1lise coletivamente. 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