{"id":2085,"date":"2022-11-22T09:41:17","date_gmt":"2022-11-22T12:41:17","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2085"},"modified":"2023-03-23T19:53:41","modified_gmt":"2023-03-23T22:53:41","slug":"25-anos-do-curso-de-psicopatologia-psicanalitica-e-clinica-contemporanea-historias-e-perspectivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/11\/22\/25-anos-do-curso-de-psicopatologia-psicanalitica-e-clinica-contemporanea-historias-e-perspectivas\/","title":{"rendered":"25 anos do curso de Psicopatologia psicanal\u00edtica e cl\u00ednica contempor\u00e2nea: hist\u00f3rias e perspectivas"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>25 anos do curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea: Hist\u00f3rias e Perspectivas<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Mario Pablo Fuks<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quero come\u00e7ar agradecendo a presen\u00e7a de todos voc\u00eas em resposta \u00e0 formid\u00e1vel iniciativa que tiveram meus colegas do Curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea, de promover este evento rememorando os 25 anos de sua funda\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais uma evid\u00eancia do estilo de fazer as coisas que soubemos construir todos juntos, com a valoriza\u00e7\u00e3o de um modo antiautorit\u00e1rio, informal e at\u00e9 divertido de sonhar o curso e lev\u00e1-lo adiante.<\/p>\n<p>Meus colegas perguntam por que me engajei na cria\u00e7\u00e3o do curso, l\u00e1 em 1988. N\u00e3o \u00e9 uma motiva\u00e7\u00e3o simples, e sim bastante complexa, dif\u00edcil de responder. Envolve, de partida, aspectos que poder\u00edamos definir como estritamente psicanal\u00edticos, pela preocupa\u00e7\u00e3o de renova\u00e7\u00e3o que existe permanentemente no movimento psicanal\u00edtico e que est\u00e1 muito associada \u00e0s demandas cl\u00ednicas, levando tamb\u00e9m a demandas formativas.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, t\u00ednhamos a percep\u00e7\u00e3o de que os profissionais da rede p\u00fablica, psic\u00f3logos, m\u00e9dicos, precisavam aprender a usar o instrumental psicanal\u00edtico para entender os pacientes que os procuravam. Precisavam compreend\u00ea-los como indiv\u00edduos, claro, mas tamb\u00e9m como parte de um conjunto social. Eis a complexidade que a situa\u00e7\u00e3o assumia, se pens\u00e1vamos em patologias: cabia entender que, por vezes, os sofrimentos requeriam uma abordagem psicanal\u00edtica e, a um s\u00f3 tempo, uma abordagem pol\u00edtica, que gerasse a abertura de espa\u00e7os democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Foi isso o que fizemos, por exemplo, quando come\u00e7amos a trabalhar com a rede p\u00fablica, quando acolhemos a aproxima\u00e7\u00e3o de um grupo da Coordenadoria de Sa\u00fade Mental, que procuravam psicanalistas que fornecessem forma\u00e7\u00e3o para os profissionais dos ambulat\u00f3rios. At\u00e9 esse momento, eles trabalhavam restritos a uma perspectiva totalmente hospitaloc\u00eantrica, sendo os ambulat\u00f3rios uma porta de entrada para os manic\u00f4mios. Os profissionais tinham apenas que receber seus pacientes, diagnostic\u00e1-los psiquiatricamente e ent\u00e3o envi\u00e1-los \u00e0s institui\u00e7\u00f5es manicomiais. N\u00e3o podiam discutir entre si, comentar cada caso, examinar com cuidado o que se passava com cada paciente, porque se impedia a intera\u00e7\u00e3o entre os pr\u00f3prios trabalhadores de sa\u00fade mental, por uma recusa a aberturas democr\u00e1ticas. Foi nisso que sentimos a m\u00e1xima pertin\u00eancia da nossa interven\u00e7\u00e3o, pela forte motiva\u00e7\u00e3o de romper com esse modelo. Em lugar dele, prop\u00fanhamos uma abordagem diferente, que aliasse o trabalho pol\u00edtico-democr\u00e1tico com o trabalho psicanal\u00edtico de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Era poss\u00edvel construir nossa forma de atua\u00e7\u00e3o a partir dos modelos da antipsiquiatria surgidos no final da Segunda Guerra Mundial \u2013 como as comunidades terap\u00eauticas criadas por Maxwell Jones na Inglaterra, a psiquiatria democr\u00e1tica de Basaglia, e a psicoterapia institucional francesa. Seguindo essas experi\u00eancias pr\u00e9vias, parecia imprescind\u00edvel estabelecer entre n\u00f3s um grupo, para que nos lan\u00e7\u00e1ssemos num projeto de tamanha significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi a partir dessa vis\u00e3o que fomos definindo nosso funcionamento coletivo, com uma reuni\u00e3o semanal que contemplava tanto quest\u00f5es organizacionais quanto debates plenos. Era o que cabia fazer numa gest\u00e3o que se pretendia democr\u00e1tica, mas principalmente elaborativa. Por isso o grupo de professores se reunia regularmente nas quartas-feiras, na manh\u00e3 seguinte \u00e0s atividades programadas com os alunos, para falar sobre os acontecimentos do dia anterior, sintomais ou n\u00e3o. Nos lan\u00e7\u00e1vamos, por vezes, a realizar uma supervis\u00e3o coletiva da supervis\u00e3o, ou do trabalho com os alunos em semin\u00e1rio, apostando pensar o que se passava como opera\u00e7\u00f5es defensivas de diferentes modelos metapsicol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>A psicopatologia se mostrava potente para pensar psicanaliticamente a partir da cl\u00ednica, tanto nas experi\u00eancias cl\u00ednicas propriamente ditas, quanto naquelas que traziam uma forte implica\u00e7\u00e3o social, afetiva e pol\u00edtica. Nos entusiasmava muito a possibilidade de uma abertura e de um aprofundamento da psican\u00e1lise em espa\u00e7os variados do departamento, e para isso promovemos diversos eventos \u2013 a come\u00e7ar por <a href=\"http:\/\/revistapercurso.com.br\/pdfs\/p21_texto09.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Central do Brasil: vicissitudes da subjetiva\u00e7\u00e3o<\/a>. Lembro da empolga\u00e7\u00e3o que tomou conta do grupo quando definimos nosso projeto como um espa\u00e7o destinado a estudar e debater os problemas da subjetividade de nosso tempo, a partir de seus reflexos nas cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, nas manifesta\u00e7\u00f5es culturais, nas psicopatologias atuais da vida cotidiana, e nas demandas da cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Toda essa hist\u00f3ria, \u00e9 claro, tem os seus antecedentes. Foi em torno de 1985 que um grupo grande de psicanalistas do Sedes ligados ao Curso de Psican\u00e1lise nos engajamos nas pr\u00e1ticas institucionais p\u00fablicas da Sa\u00fade Mental. Apoiamos a Reforma Psiqui\u00e1trica e encontramos aliados nos movimentos antimanicomiais que floresceram nos anos 80 e 90, acompanhando o processo de democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A \u00e9poca coincidiu com a cria\u00e7\u00e3o do Departamento, que inclu\u00eda dentro de seus objetivos a des-elitiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os e modalidades de transmiss\u00e3o diferentes ao modelo vigente desde o final dos anos 30. Me ocupei desse tema num trabalho sobre psican\u00e1lise e pol\u00edtica, a exclus\u00e3o de <a href=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/06\/01\/reich-e-a-relacao-entre-psicanalise-e-politica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Reich e a psicologia de massas do fascismo<\/a>.<\/p>\n<p>Em 1991, iniciou-se um per\u00edodo de grande mobiliza\u00e7\u00e3o a partir das propostas inovadoras de uma nova gest\u00e3o municipal, a de Luiza Erundina. Principalmente a implanta\u00e7\u00e3o de um n\u00famero significativo de hospitais-dia e de centros de conviv\u00eancia comunit\u00e1rios, como equipamentos terap\u00eauticos alternativos ao modelo hospitaloc\u00eantrico. Foi s\u00f3 dois anos depois disso que iniciamos um curso sobre <em>Psicoses: Concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e estrat\u00e9gias institucionais<\/em>, que teve muito boa acolhida num momento de mobiliza\u00e7\u00e3o e trabalho com esses novos equipamentos de Sa\u00fade Mental.<\/p>\n<p>O trabalho com as institui\u00e7\u00f5es nos levou a abrir um dos nossos principais eixos te\u00f3ricos, centrado na <em>recusa<\/em>. Temos concebido esse conceito como um processo defensivo que se p\u00f5e em a\u00e7\u00e3o quando alguma percep\u00e7\u00e3o angustiante amea\u00e7a socavar as cren\u00e7as e ilus\u00f5es que d\u00e3o suporte ao narcisismo de indiv\u00edduos, grupos ou coletivos maiores. A recusa produz efeitos dissociativos favor\u00e1veis \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sintomas diferentes do sintoma neur\u00f3tico.<\/p>\n<p>Trata-se de um bloqueio no processo de subjetiva\u00e7\u00e3o, presente na hist\u00f3ria <em>pouco historizada<\/em> dos pacientes tratados nas institui\u00e7\u00f5es. Isso nos levava a investigar quais acontecimentos e processos intrafamiliares o produziam, o intensificavam na adolesc\u00eancia, e o reproduziam, no presente, no contexto institucional. Investig\u00e1vamos tamb\u00e9m que dispositivos podiam ser montados para superar a recusa e iniciar um processo de re-subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estudamos tamb\u00e9m as <em>rela\u00e7\u00f5es des-subjetivantes<\/em> presentes nas pr\u00e1ticas predominantes na institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, a evapora\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias singulares e a aus\u00eancia de interlocu\u00e7\u00e3o. E defendemos enfaticamente a possibilidade de uma recupera\u00e7\u00e3o da elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica atrav\u00e9s do trabalho das equipes nos hospitais-dia. Nosso modelo foram as experi\u00eancias relatadas por Bernard Penot em <em>Figuras da recusa,<\/em> em seu trabalho com adolescentes, reconstruindo a hist\u00f3ria do paciente em entrevistas de toda a equipe com a fam\u00edlia e atrav\u00e9s da detec\u00e7\u00e3o de repeti\u00e7\u00f5es de pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Nisso tudo, foi importante nossa afirma\u00e7\u00e3o do valor da cl\u00ednica psicanal\u00edtica como dispositivo promotor da elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e sua import\u00e2ncia como interlocu\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o de narrativas e possibilidade de elabora\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o chegamos de volta ao curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea, celebrando hoje os 25 anos desde seu surgimento em 1998. Vimos naquele momento, e ainda vemos, a necessidade de conceber um curso que permitisse a formula\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses a respeito do funcionamento ps\u00edquico nas chamadas \u201cpatologias contempor\u00e2neas\u201d, recolocando a import\u00e2ncia do pensamento psicopatol\u00f3gico psicanal\u00edtico. Isso requeria um trabalho de releitura dos conceitos j\u00e1 existentes e a cria\u00e7\u00e3o das articula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas a que estes novos tempos nos remetem.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, foi importante que defin\u00edssemos nos grupos de trabalho uma paridade entre alunos e professores. Foi importante contar com certa elasticidade organizativa. V\u00e1rios de n\u00f3s j\u00e1 v\u00ednhamos trabalhando juntos, no curso de psican\u00e1lise, nos ambulat\u00f3rios, ou dando supervis\u00f5es em diversos \u00e2mbitos. Mas aqui o que se constituiu foi um trabalho de pesquisa compartilhado, um trabalho em que as interroga\u00e7\u00f5es nunca se esgotavam. Coordenar o curso, como fiz ao longo desses 25 anos, ou apenas participar dele, era me perguntar o tempo todo sobre o que est\u00e1vamos falando, o que dev\u00edamos analisar, e o que cabia concluir diante de tantas vis\u00f5es e possibilidades.<\/p>\n<p>Havia algo de interessante nessa indefini\u00e7\u00e3o program\u00e1tica, nessa flutua\u00e7\u00e3o do rumo do pensamento. Est\u00e1vamos no limiar entre a psican\u00e1lise, a psicopatologia e a cl\u00ednica contempor\u00e2nea. E o curso era amea\u00e7ado pelas tradicionais distin\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas da institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, por exemplo entre a nobre psican\u00e1lise e a bastarda psicoterapia de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. Os colegas com quem trabalhei, assim como os que continuam trabalhando no curso, sempre desejaram romper com uma perspectiva \u00fanica e fechada, sempre quiseram uma psican\u00e1lise viva, ativa, aberta, inquiridora, criativa, uma psican\u00e1lise diferente que \u00e9 uma das marcas do curso desde o come\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que essas s\u00e3o marcas de v\u00e1rios trabalhos que fazemos aqui no Sedes, de uma forma de pensar que surgiu desde a funda\u00e7\u00e3o do Curso de Psican\u00e1lise. Mas sinto que essa forma de pensar e agir tem especificidades em cada curso, e que aqui soubemos construir um ambiente bastante singular.<\/p>\n<p>Pensemos, por exemplo, no enfoque que temos dado \u00e0s patologias da altera\u00e7\u00e3o do eu. O eu n\u00e3o se divide, n\u00e3o se parte: ele se distorce, se deforma, mas n\u00e3o se quebra. N\u00e3o se trata de psicose, e sim de algo que talvez se aproxime mais do que seria o modelo da pervers\u00e3o, ou do fetichismo. Ou seja, s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es que, pela deforma\u00e7\u00e3o, poupam o eu do sofrimento e n\u00e3o deixam que se torne um eu psic\u00f3tico, um eu fragmentado, um eu antissocial. Esse \u00e9 o tipo de abordagem que estamos fazendo nos \u00faltimos tempos a partir da releitura de \u201cNeurose e psicose\u201d, de Freud, um aprofundamento na estrutura das patologias contempor\u00e2neas. \u00c9 esse tipo de pensamento que tentamos construir e transmitir aos alunos.<\/p>\n<p>Somos um coletivo coeso, mas n\u00e3o perdemos nossas singularidades e nossos aportes pessoais. Alguns trouxeram suas experi\u00eancias ligadas ao trabalho com psicose em institui\u00e7\u00f5es, outros sua atua\u00e7\u00e3o em sa\u00fade p\u00fablica, outros com psiquiatria. Por essa diversidade inicial, fomos nos tornando capazes de abordar as mais variadas quest\u00f5es, como os novos transtornos do dormir e do sonhar na contemporaneidade, ou a complexidade dos transtornos alimentares. Vou falando e lembrando um pouco da contribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica das pessoas, sempre t\u00e3o especiais, t\u00e3o pr\u00f3prias. Cada lembran\u00e7a vem carregada de afeto e admira\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da certeza de que temos feito um trabalho importante.<\/p>\n<p>Mas deixo meu pensamento vagar e tomo um novo rumo, passo do local ao mundo mais amplo, como temos feito em nosso trabalho. Foi em 1993 que apareceu o livro <em>As novas doen\u00e7as da alma<\/em>, de Julia Kristeva, e pouco depois o livro <em>Entre dos siglos<\/em>, das psicanalistas argentinas Maria Cristina Rojas e Susana Sternbach. Neste \u00faltimo se visualizava como, atrav\u00e9s do debate <em>modernidade \u2013 p\u00f3s-modernidade<\/em>, o tema do sujeito voltava a se revestir do social-hist\u00f3rico. A crise iniciada nos anos 70 era vista como crise dos ideais e dos valores da modernidade face \u00e0s mudan\u00e7as subjetivas derivadas da queda das grandes utopias coletivas \u2013 o chamado fim da hist\u00f3ria, de Fukuyama \u2013, da ruptura de la\u00e7os sociais e da produ\u00e7\u00e3o de um novo tipo de subjetividade, narcisista e adictiva, decorrente das l\u00f3gicas induzidas pelas novas modalidades de produ\u00e7\u00e3o e as pr\u00e1ticas de consumo.<\/p>\n<p>Julia Kristeva afirmava que a experi\u00eancia cotidiana demonstra uma redu\u00e7\u00e3o da vida interior, perguntando-se se temos hoje o tempo e o espa\u00e7o necess\u00e1rios para arranjarmos uma alma, ou se, &#8220;pressionados pelo estresse, impacientes por ganhar e gastar, por desfrutar e morrer, os homens e mulheres de hoje economizam essa representa\u00e7\u00e3o de sua experi\u00eancia a que chamamos vida ps\u00edquica.&#8221; (2002, p. 14). Como ela diz mais adiante, \u201co ps\u00edquico pode ser o lugar onde se elaboram, e portanto se liquidam, tanto o sintoma som\u00e1tico quanto a proje\u00e7\u00e3o delirante: o ps\u00edquico \u00e9 nossa prote\u00e7\u00e3o, desde que a pessoa n\u00e3o se feche nele, mas sim o transfira pelo ato da linguagem para uma sublima\u00e7\u00e3o, um ato de pensamento, de interpreta\u00e7\u00e3o, de transforma\u00e7\u00e3o relacional\u201d, o que sup\u00f5e a abertura para um outro.<\/p>\n<p>H\u00e1, entretanto, dois advers\u00e1rios que a psican\u00e1lise deve enfrentar: 1) o psicof\u00e1rmaco que toma o lugar da palavra, e 2) o desejo de n\u00e3o saber. Tornava-se necess\u00e1rio desenvolver uma pol\u00edtica de sa\u00fade mental e uma transmiss\u00e3o contraposta aos modelos organicistas, que tendiam a naturalizar sintomas e s\u00edndromes, eram objetivistas e pragm\u00e1ticos, desprezavam a processualidade, e adoravam a quantifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Kristeva sustentava que h\u00e1 um agravamento da doen\u00e7a psicol\u00f3gica que caracteriza o mundo atual, que viria a ser a outra face da <em>sociedade do rendimento <\/em>e do<em> stress<\/em>, e pensava que o desassossego que se instala renova um chamado \u00e0 psican\u00e1lise para dar um sentido a esse desastre interior.<\/p>\n<p>N\u00e3o pod\u00edamos deixar de prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que se furtava da realidade nesse modo de pensar as psicopatologias. Era preciso relacion\u00e1-las com o funcionamento das pessoas e da vida cotidiana nas cidades, que apontavam para mudan\u00e7as no la\u00e7o social. Essas interroga\u00e7\u00f5es eram fundamentais para nos posicionarmos na contram\u00e3o do objetivismo pragm\u00e1tico, que esvaziava e ainda esvazia, na tend\u00eancia m\u00e9dica dominante, o pensamento psicopatol\u00f3gico t\u00e3o caro \u00e0 psican\u00e1lise. Tamb\u00e9m significava incluir em nossa reflex\u00e3o o impacto do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, do capitalismo avan\u00e7ado e dos novos la\u00e7os sociais presentes na sociedade de consumo e do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Nunca essas palavras foram mais v\u00e1lidas que no tempo que estamos vivendo, em que o negacionismo e o rep\u00fadio ao saber cient\u00edfico ganham uma dimens\u00e3o coletiva e s\u00e3o promovidos e liderados pelo presidente do pa\u00eds \u2013 que afortunadamente j\u00e1 se vai de seu posto. Na onda pand\u00eamica infernal que nos assolou, esse rep\u00fadio ao saber ganhou as fei\u00e7\u00f5es de uma doen\u00e7a demencial, irrespons\u00e1vel e genocida.<\/p>\n<p>Voltemos ao homem moderno, que est\u00e1 perdendo sua alma e n\u00e3o o sabe. A partir da grande virada neoliberal dos anos 80 e 90, iniciada e protagonizada por Thatcher e Reagan, come\u00e7ou a ser fabricado um novo sujeito que pode ser chamado de\u00a0<em>sujeito empresarial, empres\u00e1rio de si mesmo, sujeito neoliberal<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>neosujeito<\/em>. Um ser cuja subjetividade deve estar inteiramente envolvida na atividade que cumpra, em toda sua motiva\u00e7\u00e3o, sua vontade de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, no projeto que se prop\u00f5e a desenvolver. \u00c9 o <em>desejo<\/em> desse sujeito, \u201ccom todos os nomes que se queira dar a ele\u201d, que se torna \u201co alvo do novo poder.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos, a ideia de construir uma subjetividade neoliberal \u00e9 clara e expl\u00edcita. H\u00e1 uma frase famosa de Margareth Thatcher que revela muito sobre esse princ\u00edpio: \u201cA economia \u00e9 o m\u00e9todo, mas o objetivo \u00e9 a alma\u201d. \u00c9 essa frase que, de uma maneira insolitamente precisa, d\u00e1 fundamento ao sinal de alarme de Kristeva.<\/p>\n<p>No contexto do curso, sentimos que tudo isso precisava ser estudado e debatido em uma interlocu\u00e7\u00e3o entre pares. Foi a partir de uma convocat\u00f3ria dos professores que se criou um grupo de trabalho e pesquisa no Departamento, que continua at\u00e9 hoje com o nome de <em>Psican\u00e1lise e Contemporaneidade<\/em>, com coordena\u00e7\u00e3o rotativa \u2013 incluindo inicialmente os membros do grupo de professores e, posteriormente, aberto a todos os membros. Nele debatemos uma infinidade de assuntos e trabalhamos os textos de muitos autores. Compartilhar nossas experi\u00eancias e estudar juntos entre pares, paralelamente ao trabalho com os alunos do curso, foi uma tarefa gratificante e criativa.<\/p>\n<p>A tarefa comum e a solidariedade, essa possibilidade de contar uns com os outros, \u00e9 a \u00fanica que temos para enfrentar n\u00e3o s\u00f3 o desamparo frente \u00e0s for\u00e7as regressivas e anticivilizat\u00f3rias, mas tamb\u00e9m frente ao poder destrutivo do superego, que aumenta quando ficamos isolados.<\/p>\n<p>Um colega argentino de outros tempos, Emiliano Galende, comentando <em>Psicologia das Massas<\/em>, escreveu: \u201cO homem tem duas alternativas frente ao outro: ou se liga libidinalmente, identificando-se com ele para constituir alguma forma de la\u00e7o social, abolindo o dom\u00ednio do amo (pai primevo), ou, desgarrado dos membros da fratria, fica entregue ao poder absoluto desse outro interior que \u00e9 o supereu\u201d.<sup>.<\/sup><\/p>\n<p>A qualidade da uni\u00e3o amorosa entre os &#8220;irm\u00e3os&#8221;, o fluir dos reconhecimentos, o tipo de identifica\u00e7\u00f5es que estabele\u00e7am, o modo de processar as tens\u00f5es intragrupo e as formas de agir sobre a realidade exterior ser\u00e3o determinantes para seu destino ou sua hist\u00f3ria. S\u00e3o as vicissitudes da constru\u00e7\u00e3o do<em> comum<\/em>, simultaneamente essenciais para o desenvolvimento de qualquer pensamento pessoal e de qualquer atua\u00e7\u00e3o em conjunto.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe d\u00favida de que estamos imersos em tempos sombrios, tendo que penar por uma enorme quantidade de mortos, tendo que assistir a processos de destrui\u00e7\u00e3o material e moral de grande parte do que foi constru\u00eddo em nossa hist\u00f3ria democr\u00e1tica, somado a fatores conjunturais como o pr\u00f3prio coronav\u00edrus que n\u00e3o conhec\u00edamos, e o governo desastroso, negacionista, violento e fascista, que pod\u00edamos ter previsto, mas n\u00e3o quisemos ver. Muitos fecharam os olhos para essa realidade, a recusaram, elegeram o presidente mais lament\u00e1vel e mesmo agora, tendo sido derrotados nas urnas, querem preserv\u00e1-lo a qualquer custo no poder.<\/p>\n<p>Freud postulava que a subjetividade pr\u00f3pria de sua \u00e9poca estava sustentada por um la\u00e7o social que reunia tr\u00eas elementos: a ilus\u00e3o religiosa, a lealdade pol\u00edtica ao monarca e a proibi\u00e7\u00e3o de pensar a sexualidade.\u00a0Esse la\u00e7o envolve a produ\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>Eu conflituado<\/em>, o qual, impulsionado pela ang\u00fastia, tende a se defender atrav\u00e9s da opera\u00e7\u00e3o do recalque. Corresponde ao que \u00e9 conhecido, em termos de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade, como o\u00a0<em>sujeito disciplinado<\/em> dos primeiros tempos da modernidade.<\/p>\n<p>Aqui talvez caiba considerar a hip\u00f3tese de que, na contemporaneidade, tenha emergido um tipo novo de la\u00e7o social, caracterizado pela articula\u00e7\u00e3o entre a\u00a0<em>compuls\u00e3o consumista<\/em>\u00a0(sujeito do consumo),\u00a0a<em> fascina\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica pela m\u00eddia\u00a0<\/em>(sujeito do espet\u00e1culo) e a ilus\u00e3o de suprimir tecno-magicamente a dor e o sofrimento, atrav\u00e9s dos f\u00e1rmacos (hoje poder\u00edamos denomin\u00e1-lo, caricaturalmente,\u00a0<em>sujeito da cloroquina<\/em>).<\/p>\n<p>Nas situa\u00e7\u00f5es de crise, \u00e9 capaz de se instaurar uma cultura narc\u00edsica da viol\u00eancia e do \u00f3dio dirigido contra bodes expiat\u00f3rios. Trata-se aqui de um sujeito narcisista e violento, tendencialmente paranoico. Esta cultura, que \u00e9 uma anti-cultura, j\u00e1 existiu nas crises anteriores da era industrial, no come\u00e7o do s\u00e9culo XX. Esse presidente que se vai e sua base pol\u00edtica, seus Robertos Jeffersons, suas Carlas Zambellis e seus milicianos, s\u00e3o exemplos de sujeitos desse tipo. Os milhares de neonazistas que v\u00e3o surgindo em outras partes do mundo, e tamb\u00e9m aqui, para o nosso choque, s\u00e3o sujeitos desse tipo. E \u00e9 claro que no Brasil temos agravantes, por uma cultura da desigualdade, do racismo e da viol\u00eancia que v\u00eam da escravid\u00e3o, frente \u00e0 qual tem ganhado express\u00e3o pol\u00edtica crescente um movimento de resist\u00eancia e de revolta.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, esse sujeito se fez expl\u00edcito como poucas vezes, e produziu efeitos nefastos. Para realizar adequadamente uma preven\u00e7\u00e3o do crescente cont\u00e1gio massivo se requeria um reconhecimento do perigo, uma aceita\u00e7\u00e3o do conhecimento transmitido pela OMS, uma coordena\u00e7\u00e3o de iniciativas e recursos pelas inst\u00e2ncias sanit\u00e1rias do Estado, uma disciplina coletiva dos cidad\u00e3os, confiantes nessas inst\u00e2ncias e respeitosos da lei. Para que possamos pensar que o que cada um faz afeta os outros, \u00e9 preciso que as inst\u00e2ncias do p\u00fablico, de governo e de coordena\u00e7\u00e3o se sustentem. Trata-se de um pacto de civilidade, que em certas circunst\u00e2ncias se torna pacto civilizat\u00f3rio, como quando se promulgou a constitui\u00e7\u00e3o de 1988, e como pode voltar a acontecer agora, nas novas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas que conseguimos alcan\u00e7ar. N\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o ut\u00f3pico.<\/p>\n<p>O que quero enfatizar \u00e9 que\u00a0<em>a recusa da realidade,<\/em>\u00a0que vem operando atualmente na subjetividade individual e coletiva, \u00e9\u00a0<em>tanto de origem estrutural<\/em>, baseada na l\u00f3gica neoliberal que trazemos desde os anos 80 sobre um fundo secular de escravid\u00e3o, <em>como de origem conjuntural<\/em>, associada \u00e0 ascens\u00e3o dos governos de ultradireita e fascistas,\u00a0<em>sendo induzida<\/em>\u00a0(por exemplo, atrav\u00e9s do medo)\u00a0<em>pela cultura narc\u00edsica da viol\u00eancia<\/em>\u00a0que eles imp\u00f5em. O resultado dessa soma, al\u00e9m da cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria, \u00e9 um\u00a0<em>empobrecimento crescente da subjetividade individual e coletiva.<\/em><\/p>\n<p>Entretanto, e em sentido contr\u00e1rio, como resist\u00eancia e contra-efetua\u00e7\u00e3o, emergem experi\u00eancias e processos que recriam o coletivo, e inventam novas formas de conv\u00edvio e auto-organiza\u00e7\u00e3o. Essas experi\u00eancias podem ser desencadeadas por viv\u00eancias compartilhadas de desamparo que suscitam rea\u00e7\u00f5es de solidariedade e investimentos libidinais rec\u00edprocos. Elas contribuem na cria\u00e7\u00e3o do<strong>\u00a0<\/strong><em>comum<\/em>, configurando um la\u00e7o social vivo baseado em iniciativas de coopera\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria e na sua capacidade de driblar a captura pelo individualismo e a rivalidade concorrencial promovidos permanentemente pelo modelo neoliberal. Unidos libidinalmente \u00e9 poss\u00edvel lutar juntos contra o perigo, \u00e9 poss\u00edvel esperar juntos apesar do isolamento, quando percebemos que\u00a0<em>esperar \u00e9 saber<\/em>. Unidos libidinalmente, atrav\u00e9s do trabalho do pensamento, da arte, da cria\u00e7\u00e3o cultural em geral e da mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poderemos enfrentar com sucesso a cultura do \u00f3dio que procura nos dominar e nos empobrecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favida de que neste curso que hoje celebramos, e nesta institui\u00e7\u00e3o em que nos encontramos, de corpo inteiro ou de pensamento inteiro, se vivencia essa mesma refunda\u00e7\u00e3o do coletivo, t\u00e3o proveitosa a cada indiv\u00edduo. Para mim, \u00e9 motivo de orgulho ter feito parte desse grupo, ter constitu\u00eddo com voc\u00eas um la\u00e7o social pensante e criativo. E espero ter sido capaz de dar, ao longo dessas d\u00e9cadas, uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 altura dos valores e dos afetos que pude obter nesse prazeroso conv\u00edvio. Muito obrigado a todos e a todas por essa companhia t\u00e3o estimada, essa fratria que soubemos construir, abrigo valioso contra o desamparo e os desenganos do eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professor no Curso de Psican\u00e1lise, professor no curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea, integrante da equipe editorial deste boletim online.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esperar \u00e9 saber. 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