{"id":2388,"date":"2023-04-13T16:08:42","date_gmt":"2023-04-13T19:08:42","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2388"},"modified":"2023-04-13T16:10:54","modified_gmt":"2023-04-13T19:10:54","slug":"resenha-do-livro-pai-voce-vai-chorar-se-eu-morrer-de-milena-david-narchi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/04\/13\/resenha-do-livro-pai-voce-vai-chorar-se-eu-morrer-de-milena-david-narchi\/","title":{"rendered":"Resenha do livro Pai, voc\u00ea vai chorar se eu morrer?, de Milena David Narchi"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Resenha do livro <em>Pai, voc<\/em><em>\u00ea vai chorar se eu morrer?<\/em>, de Milena David Narchi<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Maria Siqueira Leal<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[i]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em primeiro lugar gostaria de parabenizar Milena pela escolha gr\u00e1fica de seu livro. Desde a capa, que mostra uma borboleta azul, ao t\u00edtulo: <em>Pai, voc<\/em><em>\u00ea vai chorar se eu morrer?<\/em> se instala dentro de n\u00f3s um enigma: \u00a0\u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o ficar desassossegado diante dessa obra que fala de vida e morte.<\/p>\n<p>A borboleta azul \u00e9 uma indica\u00e7\u00e3o de vida, diante de quest\u00f5es t\u00e3o s\u00e9rias que um trabalho na UTI infantil e juvenil nos suscita.<\/p>\n<p>O tema central do livro s\u00e3o os cuidados paliativos, trabalho em que Milena est\u00e1 envolvida h\u00e1 mais de vinte anos, atuando no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.<\/p>\n<p>A borboleta, azul, antes foi lagarta, virou borboleta\u2026 sua vida \u00e9 fr\u00e1gil, como as desses pacientes.<\/p>\n<p>Vida e morte se cruzam nesse livro t\u00e3o importante para os profissionais da sa\u00fade, destacadamente os da sa\u00fade emocional.<\/p>\n<p>Milena, al\u00e9m de trabalhadora da sa\u00fade, \u00e9 psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a> e\u00a0 seu pensamento cl\u00ednico se faz notar nessa obra.<\/p>\n<p>Usa tamb\u00e9m trechos da nossa literatura para ilustrar as passagens que destaca no livro.<\/p>\n<p>Tecer \u00e9 o que a Milena faz, quando cruza em cada atendimento a dor da m\u00e3e que traz seu bebezinho doente para um procedimento, no qual\u00a0 foi avisada de que ter\u00e1 poucas chances, e se coloca junto aos dois, ouvindo a m\u00e3e, tentando acalm\u00e1-la, o que pode tamb\u00e9m acalmar o beb\u00ea.<\/p>\n<p>Milena relata: \u201cuma tarde chuvosa e nublada, na sala de espera das UTIs, a ang\u00fastia pairava no ar. Essa sala, composta por v\u00e1rios bancos, tem na frente uma porta fechada de vidro, o m\u00e9dico chama os familiares para realizar reuni\u00f5es, informar o boletim m\u00e9dico e os \u00f3bitos\u201d.<\/p>\n<p>Milena cita Bachelard<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201c\u2026 <em>com o nascimento de um ser que n\u00e3o pertence \u00e0<br \/>\n<\/em><em>fecundidade normal da Terra; devolvem-na imediatamente<br \/>\n<\/em><em>ao seu elemento, \u00e0 <\/em><em>morte pr<\/em><em>\u00f3xima, \u00e0 P\u00e1tria da morte total<br \/>\n<\/em><em>que <\/em><em>\u00e9 o mar infinito ou o rio mugidor.<br \/>\n<\/em><em>S\u00f3 a \u00e1gua pode desembara\u00e7ar a terra.<br \/>\n<\/em><em>Explica\u00e7\u00e3<\/em><em>o ent<\/em><em>\u00e3o que, quando tais crian\u00e7as abandonadas<br \/>\n<\/em><em>ao mar eram lan\u00e7adas vivas de volta \u00e0 praia, quando eram<br \/>\n<\/em><em>\u2018salvas das \u00e1guas\u2019, tornaram-se facilmente seres miraculosos.<br \/>\n<\/em><em>Tendo atravessado as \u00e1guas, tinham atravessado a morte.<br \/>\n<\/em><em>Podiam ent\u00e3o criar cidades, salvar povos, refazer o mundo<\/em>.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esta vinheta aparece em um cap\u00edtulo intitulado \u201cO sonho angustiado de uma m\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou relatar o sonho, por\u00e9m Milena relata: \u201cIsso foi contado ininterruptamente, com muita ang\u00fastia, dor e sofrimento\u201d.<\/p>\n<p>Esse sonho nos fala das diversas dimens\u00f5es da vida ps\u00edquica da m\u00e3e. Durante todo o relato vamos transitando por lugares escondidos, caminhos perigosos e tortuosos. Sem sa\u00edda e sem op\u00e7\u00e3o com forte poder de conduzir e encenar o destino tr\u00e1gico\u2026<\/p>\n<p>Penso que poder estar naquele espa\u00e7o com o analista, que compreende o sentido da experi\u00eancia do sonhar, pode criar novas melodias e compassos para o psiquismo.<\/p>\n<p>O sonho emerge num primeiro momento em que n\u00e3o h\u00e1 palavras para falar da dor. O encontro de confian\u00e7a com o outro. O sonho \u00e9 desvelado num momento de abertura profunda e sens\u00edvel para o trabalho, que possibilita a prote\u00e7\u00e3o do paciente de desorganiza\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Quando o sonho aparece na comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma preciosidade e ainda um importante aliado, auxiliar na aten\u00e7\u00e3o integrada ao paciente dos cuidados paliativos. \u201cEssa profundidade \u00e9 o levantar da tocha ol\u00edmpica da rela\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Continuando a tessitura, chego ao cap\u00edtulo \u201cLugar de vida X lugar de morte\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Ao ser apresentada \u00e0 m\u00e3e de um lindo e sorridente beb\u00ea, ela foi logo falando:<\/p>\n<p>&#8211; Ele tem uns defeitinhos, a orelha \u00e9 curta, o nariz \u00e9 tortinho, o leite sai pela boca e pelo nariz e o pezinho tamb\u00e9m \u00e9 torto.<\/p>\n<p>&#8211; Qual o sentido dela me contar do seu filho no momento do nosso encontro? Parecia meio angustiada, desamparada, confessou que necessitava de escuta e amparo.<\/p>\n<p>Descreve o tipo de gesta\u00e7\u00e3o complicada. Amea\u00e7a de eclampsia e outros males e as\u00a0 decorrentes dificuldades com o beb\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Eu o trouxe para fazer as consultas at\u00e9 que o m\u00e9dico pediu para ser internado. Achei que ia perder meu filho. Ficou roxo e uma espuma branca, sa\u00eda de sua boca.<\/p>\n<p>Teve uma convuls\u00e3o e foi horr\u00edvel. Agora est\u00e1 bem aqui comigo. Esperando para voltar para casa.<\/p>\n<p>\u201cPrecisa aprender a mamar\u201d.<\/p>\n<p>Em seu \u00e1rduo percurso, a m\u00e3e n\u00e3o percebeu as altera\u00e7\u00f5es em seu corpo e o impacto da not\u00edcia da gravidez que n\u00e3o poderia ter ocorrido.<\/p>\n<p>Que lugar o filho ocupou no desejo dos pais? E agora? O que aconteceu em sua hist\u00f3ria para n\u00e3o perceber as altera\u00e7\u00f5es f\u00edsicas? O que o corpo fala? Outro aspecto, seria o desamparo atravessando gera\u00e7\u00f5es e, ainda, a imposi\u00e7\u00e3o da vida sobre a morte, na sustenta\u00e7\u00e3o do desejo materno como um outro v\u00e9rtice em prol da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tatiana Inglez\u2013Mazzarella, no livro <em>Hist<\/em><em>\u00f3rias recobridoras &#8211; Quando o vivido n\u00e3o se transforma em experi\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>, nos conta o que as lembran\u00e7as encobridoras podem nos trazer.<\/p>\n<p>Num texto de 1899, em que Freud discute longamente as recorda\u00e7\u00f5es dos primeiros anos de vida, defende a ideia de que as primeiras experi\u00eancias deixam no sujeito tra\u00e7os inerradic\u00e1veis. Faz tamb\u00e9m uma detalhada pesquisa sobre os estudos dos Henris. Para esses autores, cenas relevantes podem ficar retidas na mem\u00f3ria de forma incompleta, pois o que \u00e9 esquecido relaciona-se ao que \u00e9 importante na experi\u00eancia. Freud concorda com tal posi\u00e7\u00e3o, mas diz preferir a ideia de omiss\u00e3o \u00e0 do esquecimento. Segundo ele, a retirada de algo relevante tem a finalidade de possibilitar o apaziguamento diante daquilo que provoca ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Os aspectos que percorrem esse livro seriam muito maiores. N\u00e3o podemos abarcar tudo numa resenha. Por isso os convido, a procurar pelo livro na Biblioteca Madre Cristina, de nosso Instituto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p>[i] Membro do Departamento de Psican\u00e1lise e professora do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Milena David Narchi \u00e9 psic\u00f3loga e psicanalista, especialista em Psicossom\u00e1tica pelo Instituto Sedes Sapientiae, com p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em cuidados paliativos pelo Hospital S\u00edrio Liban\u00eas. Atua em consult\u00f3rio particular e no Instituto Dante Pazzanese. \u00c9 membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Bachelard, Gaston. <em>A \u00e1gua e os sonhos &#8211; Ensaios sobre o imagin\u00e1rio da mat\u00e9ria<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relato da longa experi\u00eancia de uma psicanalista no corpo a corpo dos cuidados paliativos em UTI Infanto-juvenil. Por Ana Leal.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[81],"tags":[83],"edicao":[182],"autor":[184],"class_list":["post-2388","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura","tag-leituras","edicao-boletim-66","autor-ana-maria-leal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2388"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2388\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2389,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2388\/revisions\/2389"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2388"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2388"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}