{"id":2396,"date":"2023-04-13T16:20:22","date_gmt":"2023-04-13T19:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2396"},"modified":"2023-04-18T10:17:19","modified_gmt":"2023-04-18T13:17:19","slug":"no-desdobrar-das-margens-a-vida-se-recria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/04\/13\/no-desdobrar-das-margens-a-vida-se-recria\/","title":{"rendered":"No desdobrar das margens, a vida se recria"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">No desdobrar das margens, a vida se recria<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por M. Laurinda R. Sousa<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este tema foi pensado a partir da exist\u00eancia dos que sempre ficaram \u00e0s margens, revelando uma realidade extremamente cruel.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso falar das margens, n\u00e3o s\u00f3 para colocar de manifesto as desigualdades e as injusti\u00e7as, mas tamb\u00e9m, para reconhecer o valor criativo e vital daqueles que s\u00e3o deixados no campo do invis\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 significativo que o novo presidente, LULA L\u00c1, em sua primeira entrevista coletiva, coloque como prioridade o problema da fome. A fome \u00e9 um indicador daqueles que ficam \u00e0s margens. E fome, tem aqui, m\u00faltiplos sentidos: o da comida que garante a sobreviv\u00eancia f\u00edsica, o do reconhecimento, que garante a sobreviv\u00eancia ps\u00edquica, o da hospitalidade, que garante o direito \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o mais prim\u00e1ria: o de fazer parte da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>\u00c0s margens est\u00e3o todos que, tentando encontrar esse lugar hospitaleiro, para fora da mis\u00e9ria de suas terras de origem, n\u00e3o receberam a acolhida esperada. Para eles, restou a periferia das cidades, ou, o amontoado das ocupa\u00e7\u00f5es nos grandes centros.<\/p>\n<p>\u00c0s margens, est\u00e3o os que, fugindo das guerras, se perderam, antes mesmo da chegada em lugar seguro. Se perderam, no pr\u00f3prio percurso, em embarca\u00e7\u00f5es que os deixou \u00e0 deriva das \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u00c9 imoral que alguns refugiados sejam reconhecidos em seu direito \u00e0 hospitalidade em detrimento dos que vindo de lugares que sempre foram considerados periferia da civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tenham o mesmo direito.\u00a0 <em>Jamil Chade<\/em>, em carta recente, chamava a aten\u00e7\u00e3o para a seletividade imoral dessa pretendida hospitalidade.<\/p>\n<p>\u00c9 imoral, tamb\u00e9m, que o montante de dinheiro destinado a programas humanit\u00e1rios, ou ao combate da fome, seja infinitamente menor do que o destinado \u00e0 compra de armamentos ou \u00e0 publicidade de atos imorais \u2013 porque mentirosos \u2013 por parte dos governos.<\/p>\n<p>\u00c9 imoral que crian\u00e7as e jovens, a caminho da escola, sejam mortos por balas perdidas; \u00e9 imoral que n\u00e3o haja moradia e escolas de qualidade que possam responder ao desejo leg\u00edtimo de todas as crian\u00e7as, de viver em lugares protegidos, de aprender e de conhecer o mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 imoral que se mantenha a exclus\u00e3o dos que s\u00e3o diferentes de um padr\u00e3o dito normativo e se condene as pol\u00edticas leg\u00edtimas de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas margens dessa imoralidade n\u00e3o est\u00e3o apenas os quilombolas, os negros, os pobres, os cai\u00e7aras, o povos origin\u00e1rios, mas, como diz Ailton Krenak<em>,<\/em> est\u00e3o todos que deliberadamente foram largados \u00e0 beira do caminho daquilo que se entende por progresso, por vida \u00fatil.<\/p>\n<p>Para ele, \u00e9 a voz viva da Terra \u2013 as \u00e1rvores, os ventos, os peixes, as \u00e1guas &#8211; que foi deixada no esquecimento; \u00e9 ela que precisa ressurgir das margens para recriar a vida.<\/p>\n<p>Essa vida que est\u00e1 recolhida, acuada, est\u00e1 \u00e0 espera de sopros que a fa\u00e7a desdobrar, ganhar asas, encontrar florestas, encontrar pessoas, encontrar bichos que cantem can\u00e7\u00f5es e fa\u00e7am poemas sobre o tempo de sonhos para uma nova cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos esque\u00e7amos do que j\u00e1 afirmara Derrida ao falar da hospitalidade: Um ato de hospitalidade s\u00f3 pode ser po\u00e9tico. Imposs\u00edvel falar eu-outro, sujeito-objeto, pois o pr\u00f3ximo sou eu pr\u00f3prio; uma outra figura do pr\u00f3ximo; um \u201cestar consigo com o outro\u201d. Eu sou o h\u00f3spede e sou aquele que hospeda. A quest\u00e3o da hospitalidade \u00e9 a do gesto, um gesto de acolhida ao outro, mais do que do lugar. \u00c9 preciso partir do deslocamento do sem-abrigo, do sem-teto, para se abrir para a autenticidade da hospitalidade. Talvez, nos diz o fil\u00f3sofo, apenas aquele que suporta a experi\u00eancia da priva\u00e7\u00e3o da casa possa oferecer a hospitalidade. Suportar a priva\u00e7\u00e3o da casa, \u00e9, tamb\u00e9m, poder suportar o estranhamento, a inquietude, a obscuridade desse encontro, at\u00e9 que, reconhecendo em n\u00f3s o escuro da noite, possamos nos familiarizar e desfazer esse mal-estar. A hospitalidade e a amizade s\u00e3o, como nos diz Levinas, retomado por Derrida, o que constituir\u00e1 a ess\u00eancia da linguagem. E voc\u00eas sabem, nos diz ele de forma t\u00e3o visceral, que os exilados, os deportados, os expulsos, os desenraizados, os n\u00f4mades, t\u00eam em comum dois suspiros, duas nostalgias, seus mortos e sua l\u00edngua&#8230;<\/p>\n<p>Nesta dobra, neste <em>Encontro das Raias<\/em>, nossa convoca\u00e7\u00e3o \u00e9 para o olhar delicado daquilo que nos acena das margens. Para que a elas ofere\u00e7amos hospedagem. Para que, tal qual Manoel de Barros, fa\u00e7amos a descoberta das coisas ditas mi\u00fadas, pois elas transformam o universo,<\/p>\n<p>como as palavras que vivem de barriga no ch\u00e3o, tipo pedra sapo,<br \/>\ncomo as que podem ser escovadas e dar sentido novo aos desperd\u00edcios,<br \/>\ncomo os del\u00edrios irracionais da imagina\u00e7\u00e3o que fazem mais real a linguagem,<br \/>\ncomo os momentos de calmaria que rompem a inquietude do excesso est\u00e9ril do palavrear,<br \/>\ncomo os contadores das hist\u00f3rias do rio e da floresta que fogem do excesso que nos convoca \u00e0 efic\u00e1cia; ao desempenho insensato,<br \/>\ncomo flechas que acertam o alvo do que precisa ser dito.<\/p>\n<p>Uma das coisas que precisa ser dita \u00e9 que vivemos num mundo onde nos tornamos consumidores do maior n\u00famero de coisas poss\u00edveis; coisas in\u00fateis, ociosas. Um ac\u00famulo muito mal distribu\u00eddo. Tornamo-nos cativos e n\u00e3o criativos.<\/p>\n<p>Foi nesse mundo onde tudo \u00e9 medido, contado e avaliado pelo custo de sua materialidade, onde at\u00e9 os beijos, ou melhor, os um ou dois miligramas de saliva depositadas na cara, que um dia, uma menina resolver fazer um pedido:<\/p>\n<p>&#8211; Gostava de ter um poeta. Podemos comprar um?<\/p>\n<p>Com essa f\u00e1bula dist\u00f3pica, Afonso Cruz<em>,<\/em> escritor, ilustrador, m\u00fasico, cineasta portugu\u00eas, vai, com humor, apontando para a fenda que um poeta pode vir a fazer na racionalidade neoliberal; ser estranho, esse, que n\u00e3o v\u00ea sentido na necessidade de consumir produtos amorfos e fazer circular a economia. Mas, antes, est\u00e1, em sintonia com outra necessidade: a liberdade.<\/p>\n<p>Como, quando ao sair da loja, logo ap\u00f3s ser comprado, o poeta, por duas vezes, deixa de caminhar e fica a olhar borboletas.<\/p>\n<p>Como ao deitar-se, espantou a todos, ao tirar do bolso do casaco um objeto estranho: um livro. Para que serve, perguntou o irm\u00e3o? Para ler!<\/p>\n<p>Como, quando convocado a dizer algum poema, falou sobre as margens: \u201cna margem extrema do olhar: a Mim buscar-me-\u00e1s em ti\u201d.<\/p>\n<p>Como, quando revelou \u00e0 menina, que um poema pode ser encontrado dentro de qualquer coisa ou mesmo espalhado pelo ch\u00e3o. Palavras que poderiam ter sido ditas por Manoel de Barros. E continuou: Est\u00e3o em todos os lados os poemas e, a maior parte das vezes, at\u00e9 preferem esconder-se nos objetos mais singelos.<\/p>\n<p>Com o tempo, a menina foi se tornando, tamb\u00e9m, uma inutilista; pensava nas coisas pela sua beleza e n\u00e3o por seu valor monet\u00e1rio. Descobriu que a poesia \u00e9 uma janela pela qual se constr\u00f3i uma outra realidade; ela pode ser um bocado de mar ou uma cotovia a voar. Descobriu que os poemas podem libertar as coisas: quando se debru\u00e7am sobre as pedras, elas perdem sua pedridade. \u00c9 assim que os poemas se tornam mundos. \u00c9 assim que as margens se fazem olhar. Foi assim que o Nordeste, nestas elei\u00e7\u00f5es, salvou o pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Barros, Manoel. <em>Mem\u00f3rias Inventadas.<\/em> Rio de Janeiro, Alfaguara, 2018<\/p>\n<p>Cruz, Afonso. <em>Vamos comprar um poeta<\/em>.\u00a0 Porto Alegre, Dublinense, 2020<\/p>\n<p>Dufourmantelle, Anne convida Jacques Derrida a falar <em>DA HOSPITALIDADE<\/em>.\u00a0 S\u00e3o Paulo, Editora Escuta, 2003.<\/p>\n<p>Krenak, Ailton. <em>A vida n\u00e3o \u00e9 \u00fatil<\/em>. S\u00e3o Paulo, Cia das Letras, 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por M. Laurinda R. 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