{"id":2402,"date":"2023-04-13T16:44:07","date_gmt":"2023-04-13T19:44:07","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2402"},"modified":"2023-04-13T16:44:07","modified_gmt":"2023-04-13T19:44:07","slug":"aula-inaugural-2023-apresentacao-do-curso-clinica-psicanalitica-conflito-e-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/04\/13\/aula-inaugural-2023-apresentacao-do-curso-clinica-psicanalitica-conflito-e-sintoma\/","title":{"rendered":"Aula inaugural 2023: apresenta\u00e7\u00e3o do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Aula inaugural 2023<\/strong><strong> \u2013 <\/strong><strong>Apresenta<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o do curso<br \/>\n<\/strong><strong>Cl\u00ed<\/strong><strong>nica Psicanal<\/strong><strong>\u00edtica: Conflito e Sintoma <\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[i]<\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>por Ana Maria Sigal <\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[ii]<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Caros alunos,<\/p>\n<p>Come\u00e7a um novo ano de nosso curso Conflito e Sintoma e estamos todos na expectativa de que, com o retorno permanente aos encontros presenciais e o oferecimento de uma turma <em>online<\/em>, seja poss\u00edvel percorrer os estudos com menos dificuldades. Ainda que a pandemia de Covid-19 continue como pano de fundo de nossas preocupa\u00e7\u00f5es, a vacina\u00e7\u00e3o trouxe o controle dessa doen\u00e7a, que j\u00e1 n\u00e3o apresenta os riscos que nos impunha no come\u00e7o, mesmo que siga rondando nosso entorno. Tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 se restabelecendo; sem negar que vivemos tempos de incertezas, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer passadas as mais sombrias amea\u00e7as de golpes e ataques \u00e0 democracia. Neste contexto, pareceu-me interessante percorrer algumas ideias que situam nosso curso no escopo das possibilidades de estudo que se oferecem.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise vem sendo cada vez mais procurada como um saber que oferece aberturas para entender a subjetividade e o mundo. Grande quantidade de cursos, alguns muito pouco confi\u00e1veis, se oferecem hoje para dar forma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o oferecidos cursos de fim de semana, pacotes de tr\u00eas aulas para aprender o manejo cl\u00ednico, assim como cursos que prometem titula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 trabalho remunerado; aceitam-se inclusive pessoas que n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria \u2013 condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima que Freud propunha para uma forma\u00e7\u00e3o de analista, em seu texto <em>A quest<\/em><em>\u00e3o da an\u00e1<\/em><em>lise leiga<\/em> (1926).<\/p>\n<p>A demanda e a oferta indiscriminadas t\u00eam banalizado a complexidade que implica conhecer uma teoria ou exercer uma pr\u00e1tica que demanda muito tempo de estudo e uma forma\u00e7\u00e3o permanente e intermin\u00e1vel. A justificativa de se ter percorrido muitos anos de an\u00e1lise cria a ilus\u00e3o que se pode exercer este of\u00edcio sem mais considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ainda que a psican\u00e1lise n\u00e3o seja uma <em>Weltanschauung<\/em>, ou esquema totalizante de mundo \u2013 como pretendia Jung \u2013, ela se oferece como <em>Weltanschauung<\/em> cient\u00edfica (Confer\u00eancia XXXV das <em>Novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias<\/em>, 1932). Isto delimita seu poder totalizante e deixa espa\u00e7o para o conceito de desamparo. Segundo Freud, a psican\u00e1lise tem muito o que somar \u00e0 ci\u00eancia para a compreens\u00e3o do homem e do funcionamento da psique, devido \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o e rigor cient\u00edfico com que se debru\u00e7ou sobre esses assuntos. De fato, Freud revia suas formula\u00e7\u00f5es \u00e0 medida que descobria novos fatores. A psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma filosofia ou uma religi\u00e3o; ela se situa em um lugar que responde a v\u00e1rios imagin\u00e1rios, e sua possibilidade de ocupar um espa\u00e7o extra-muros como saber de refer\u00eancia para outras pr\u00e1ticas a descola da ideia de ser simplesmente uma psicoterapia. Insisto na ideia de que poder ampliar a leitura de outros saberes, assim como de ser por eles afetada, n\u00e3o a transforma numa cosmovis\u00e3o, e sim diz respeito a uma abordagem \u00e9tica sobre a problem\u00e1tica que envolve o sujeito e suas rela\u00e7\u00f5es sociais, assim como em sua rela\u00e7\u00e3o com sua incompletude.<\/p>\n<p>Entendemos que nosso saber abre novos horizontes para entender o sujeito e o mundo, porque se oferece como ferramenta que, em sua forma ampliada, se engaja com a psicologia social, a antropologia, a pol\u00edtica, a hist\u00f3ria e oferece elementos que desvendam quest\u00f5es para a compreens\u00e3o das artes. Isso n\u00e3o exclui riscos de uma banaliza\u00e7\u00e3o do conhecimento, devido \u00e0 circula\u00e7\u00e3o leviana por teorias, ao consumismo cultural ou \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o superficial dos fen\u00f4menos pol\u00edticos \u2013 que, ao inv\u00e9s de nos enriquecerem, nos tornam simples sujeitos de consumo.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise tamb\u00e9m virou novo objeto de desejo; assim, em 2023 fomos procurados por um grande n\u00famero de alunos, o que nos obrigou a fazer um corte mais restrito do que esper\u00e1vamos nas aprova\u00e7\u00f5es \u2013 corte necess\u00e1rio para manter a profundidade e a natureza de nosso trabalho.<\/p>\n<p>Este curso foi criado com m\u00faltiplos prop\u00f3sitos; fundamentalmente o pensamos h\u00e1 26 anos, com Luc\u00eda Barbero Fuks, como um curso que permitisse oferecer ferramentas novas para profissionais de diversas \u00e1reas que queriam ampliar seu conhecimento e poder delas dispor para alargar a pot\u00eancia de suas especialidades. Tamb\u00e9m o pensamos como uma primeira via de aprofundamento de conhecimento para quem estava pensando em percorrer, no futuro, uma forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, fomos pegos de surpresa ao constatar que muitos dos alunos que nos procuravam estavam buscando o caminho para iniciar uma nova profiss\u00e3o, seja porque j\u00e1 estavam encerrando uma vida profissional exitosa e queriam uma nova atividade para uma fase mais avan\u00e7ada da vida, seja porque se encontravam insatisfeitos com a profiss\u00e3o que tinham escolhido e tentavam fazer uma mudan\u00e7a sem precisar cursar uma nova faculdade. Aqui aparece um equ\u00edvoco, pois o fato de a psican\u00e1lise n\u00e3o ser uma profiss\u00e3o regulamentada n\u00e3o implica que seja um percurso mais curto ou menos exigente; pelo contr\u00e1rio, implica mais dedica\u00e7\u00e3o e trabalho j\u00e1 que o reconhecimento vir\u00e1 dos pares e dos pacientes e n\u00e3o da obten\u00e7\u00e3o de um certificado.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de um psicanalista requer muitos anos de estudo, muito tempo de an\u00e1lise e o exerc\u00edcio da pr\u00e1tica cl\u00ednica com uma supervis\u00e3o que permita entender a densidade da transfer\u00eancia e a dificuldade que implica trabalhar e sustentar a dor alheia, para que seja poss\u00edvel que o sujeito se confronte com seu desejo, antes recalcado ou renegado por conta de sua hist\u00f3ria pessoal. Um tratamento psicanal\u00edtico implica a grande responsabilidade do analista de entender que seu trabalho n\u00e3o trata de conduzir a vida do outro ou de lhe impor seus pr\u00f3prios desejos. Eis o sentido do conceito de abstin\u00eancia em psican\u00e1lise: n\u00e3o se refere a uma neutralidade pol\u00edtica do sujeito psicanalista, nem de eximi-lo do papel que lhe toca jogar na hist\u00f3ria; n\u00e3o se trata de se abster da vida, mas de ser capaz de suportar n\u00e3o se transformar em mestre nem se colocar como modelo. Trata-se, por fim, de poder renunciar ao narcisismo de acreditar que a falta s\u00f3 est\u00e1 no outro e n\u00e3o em si mesmo.<\/p>\n<p>Nenhuma produ\u00e7\u00e3o que se rege pelo desejo pode ser neutra; estamos sempre implicados, mas \u00e9 a partir da possibilidade que nos oferece nossa pr\u00f3pria an\u00e1lise que podemos nos colocar no lugar de suposto saber que o outro nos atribui, sem acreditarmos que de fato sabemos ou que ocupamos efetivo lugar do saber.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico em psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma decis\u00e3o t\u00e9cnica, cl\u00ednica ou cient\u00edfica: o diagn\u00f3stico \u00e9 tamb\u00e9m uma decis\u00e3o pol\u00edtica, j\u00e1 que implica o sujeito nos processos de emancipa\u00e7\u00e3o social de modo cr\u00edtico. A psican\u00e1lise \u00e9 um processo de desaliena\u00e7\u00e3o, um encontro do sujeito com a sua verdade. A teoria psicanal\u00edtica se refere \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de ideias e conceitos que se articulam tanto em processos individuais como de socializa\u00e7\u00e3o. Aborda o indiv\u00edduo mas tamb\u00e9m o la\u00e7o social, e esta \u00e9 uma raz\u00e3o expressiva para o papel importante que t\u00eam as institui\u00e7\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o. A psican\u00e1lise se pensa levando em conta as institui\u00e7\u00f5es que sustentam sua transmiss\u00e3o. Pol\u00edtica institucional, pol\u00edtica na teoria e pol\u00edtica na cidadania. O m\u00e9todo psicanal\u00edtico imbrica indiv\u00edduo e sociedade e os textos sociais de Freud tamb\u00e9m nos mostram os processos incipientes do que ser\u00e1 a psicologia individual.<\/p>\n<p>Em <em>Totem e tabu<\/em> (1913) identificamos os prim\u00f3rdios e a nascen\u00e7a do que ser\u00e1 metapsicologicamente o superego; em <em>O mal-estar na cultura<\/em> encontramos elementos que nos falam do indiv\u00edduo e sua interioridade, tocando os temas da repress\u00e3o e do recalque; assim como podemos encontrar, nos textos francamente metapsicol\u00f3gicos, elementos que nos falam do la\u00e7o social. Sem d\u00favida aprender psican\u00e1lise em nossa institui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o de responsabilidade, e \u00e9 necess\u00e1rio conhecer alguns dos alicerces em que nos apoiamos.<\/p>\n<p>A teoria n\u00e3o \u00e9 neutra: as leituras se fazem desde algum lugar. O Sedes \u00e9 um espa\u00e7o comprometido com a justi\u00e7a social, com a diversidade em todos os seus aspectos e com o combate ao racismo estrutural que atravessa nossa sociedade neocolonialista. Entendemos a patologia que cria uma sociedade injusta n\u00e3o como uma distor\u00e7\u00e3o individual, mas como produto de um mundo perverso que n\u00e3o oferece as mesmas possibilidades a todos os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Atravessada pelo nosso momento atual e por nossa hist\u00f3ria, no final de 2020 foi fundada a Pol\u00edtica de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas em nosso Departamento e come\u00e7ou em 2022 a implanta\u00e7\u00e3o de cotas raciais em todo o Instituto Sedes. Como expressa um comunicado do Departamento de Psican\u00e1lise, \u201cPara o conjunto do Departamento de Psican\u00e1lise, as cotas raciais s\u00e3o parte de uma pol\u00edtica de a\u00e7\u00f5es afirmativas, que visa \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o do racismo estrutural\u201d.<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o das cotas definidas pela Diretoria do Instituto confere a cada curso de especializa\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento possibilidades de receber cotistas pretos, pardos e ind\u00edgenas isentos do pagamento de suas mensalidades ao longo da dura\u00e7\u00e3o do curso. Que esse passo fundamental nos sirva para reiterar nosso compromisso com a luta antirracista e com a repara\u00e7\u00e3o das desigualdades que colonialmente tocam negros e ind\u00edgenas em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Voc\u00eas v\u00eam estudar psican\u00e1lise num instituto que tem hist\u00f3ria, que sempre se comprometeu com a justi\u00e7a social, que lutou contra a ditadura e que hoje em seu <em>aggiornamento <\/em>enfrenta a repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a que foram submetidos os povos escravizados. Este processo \u00e9 complexo e est\u00e1 em desenvolvimento. O Departamento de Psican\u00e1lise, em sua Assembleia do final de 2021, criou um fundo de reserva para poder apoiar outras a\u00e7\u00f5es afirmativas, tais como construir dispositivos que viabilizem an\u00e1lise pessoal e supervis\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o dos analistas cotistas. Foi criada uma Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas para elaborar e viabilizar estas a\u00e7\u00f5es, que obteve a aprova\u00e7\u00e3o da Assembleia do final de 2022 para a cria\u00e7\u00e3o de um aux\u00edlio forma\u00e7\u00e3o para nossos cotistas.<\/p>\n<p>No tocante ao sofrimento ps\u00edquico da popula\u00e7\u00e3o negra provocado pelo racismo, temos que implementar pol\u00edticas efetivas de repara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m desde nosso saber. Temos que estar atentos, repensar nosso fazer e rever a teoria \u2013 pois o que era tratado anteriormente como falta de autoestima em pacientes negros ou pardos, em uma compreens\u00e3o leviana, hoje tem que ser entendido como sofrimento ps\u00edquico causado em negros e negras devido ao preconceito e \u00e0s discrimina\u00e7\u00f5es raciais: \u00e9 necess\u00e1rio legitimar esse sofrimento e \u00e9 neste sentido que diz\u00edamos que o diagn\u00f3stico tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtico. Se n\u00e3o houv\u00e9ssemos deslegitimado as falas destes indiv\u00edduos, nossa escuta poderia ter sido outra. Sabemos que este \u00e9 um come\u00e7o, que muito temos a aprender e que toda esta luta afeta tamb\u00e9m a psican\u00e1lise e a n\u00f3s como psicanalistas.<\/p>\n<p>Muito tem se estudado hoje em dia sobre estas quest\u00f5es e numerosos autores desenvolvem pesquisas nesta dire\u00e7\u00e3o. Os psicanalistas negros t\u00eam impulsionado para que este caminho seja feito. Diz Neusa Santos Souza em seu excelente livro <em>Tornar-se negro<\/em> (p. 16): \u201cO racismo ronda sua exist\u00eancia na condi\u00e7\u00e3o de um fantasma desde o seu nascimento, ningu\u00e9m o v\u00ea, mas ele existe, embora presente na mem\u00f3ria social e atualizado atrav\u00e9s do preconceito e da discrimina\u00e7\u00e3o racial ele \u00e9 sistematicamente negado, se constituindo num problema social com efeitos dr\u00e1sticos sobre o indiv\u00edduo\u201d. Desmascarar o racismo e lutar contra o preconceito em rela\u00e7\u00e3o a todas as diferen\u00e7as de g\u00eanero e de ra\u00e7a faz parte de nosso trabalho para ressignificar a teoria.<\/p>\n<p>Os tempos tamb\u00e9m nos levam a pensar sobre o lugar diferente que ocupou a mulher ao longo da hist\u00f3ria, lugar que foi de submiss\u00e3o e de menos valia, e nos exigem uma compreens\u00e3o depurada de alguns artigos de Freud relativos ao conceito de pervers\u00e3o e ao car\u00e1ter perverso polimorfo da puls\u00e3o, que t\u00eam sido distorcidos. Em s\u00edntese, n\u00e3o se trata de desqualificar o que a teoria nos oferece, se trata de conhec\u00ea-la com profundidade e retrabalh\u00e1-la \u00e0 luz de novos aprendizados. Esta \u00e9 nossa tarefa.<\/p>\n<p>Quando nos propusemos a pensar em um percurso para estudar a teoria psicanal\u00edtica, t\u00ednhamos bem estabelecida uma quest\u00e3o: o curso n\u00e3o pretendia ser uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise, e sim abordar os conceitos psicanal\u00edticos a partir dos n\u00facleos que comp\u00f5em os alicerces para a constru\u00e7\u00e3o da teoria. N\u00e3o seria um voo panor\u00e2mico pin\u00e7ando na superf\u00edcie todos os temas poss\u00edveis. Tampouco o curso pretendia ser uma forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Nosso curso n\u00e3o \u00e9 um curso de forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o prometemos isto. Cada curso de forma\u00e7\u00e3o de analistas estabelece seu percurso e trabalha baseado na travessia subjetiva da experi\u00eancia anal\u00edtica, a qual se torna um instrumento fundamental para a posi\u00e7\u00e3o de escuta, junto da pr\u00e1tica cl\u00ednica supervisionada e do arcabou\u00e7o te\u00f3rico. Estes tr\u00eas pilares t\u00eam que se manter aut\u00f4nomos pois, quando regulamentados, podem vir a se transformar em leis vazias. Os trabalhos de acompanhamento de uma forma\u00e7\u00e3o devem ser realizados em institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas que se prop\u00f5em, segundo seu referencial te\u00f3rico, realizar este trabalho, tendo em conta ademais que as institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o outorgam uma titularidade. As normas da forma\u00e7\u00e3o est\u00e3o formuladas segundo a \u00e9tica deste saber.<\/p>\n<p>A universidade tampouco poderia empreender uma carreira de forma\u00e7\u00e3o de analistas. A experi\u00eancia de tornar-se analista est\u00e1 marcada pela singularidade, o caminho a percorrer ser\u00e1 particular e original, num dif\u00edcil e longo percurso guiado pelo nosso desejo de ser analistas. A partir do Movimento Articula\u00e7\u00e3o das Entidades Psicanal\u00edticas Brasileiras temos empreendido uma intensa luta para brecar a implanta\u00e7\u00e3o de um Bacharelado em Psican\u00e1lise que, na contram\u00e3o da hist\u00f3ria, prop\u00f5e-se a formar analistas, outorgando aos estudantes um t\u00edtulo que os habilitaria a serem psicanalistas. O elemento do trip\u00e9 que exige an\u00e1lise pessoal seria preenchido no \u00faltimo quadrimestre do curso universit\u00e1rio, atrav\u00e9s de uma breve an\u00e1lise grupal! Est\u00e3o batalhando seu reconhecimento pelo MEC \u2013 o qual n\u00e3o seria dif\u00edcil, j\u00e1 que este \u00f3rg\u00e3o oficial esteve desestruturado por uma pol\u00edtica de beneficiar as institui\u00e7\u00f5es privadas que lucram com o ensino. Mais de 100 institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica do Brasil e do mundo inteiro assinam o apoio ao Movimento Articula\u00e7\u00e3o na luta contra esse contrassenso.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise \u00e9 a experi\u00eancia do sujeito com seu inconsciente. Nosso curso oferece o in\u00edcio de uma apropria\u00e7\u00e3o dos conceitos que pode vir a consolidar uma das tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a forma\u00e7\u00e3o: o estudo dos conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Pensamos que estudar psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma tarefa neutra, pois tamb\u00e9m nos exige entrar em contato com nosso inconsciente, ainda que de maneira diferente da que se passa em uma an\u00e1lise pessoal.<\/p>\n<p>Para introduzir a ideia fundante de Inconsciente, partimos da ideia de que cada momento hist\u00f3rico determina a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e cada autor tamb\u00e9m determina a forma em que mergulhar\u00e1 na sua produ\u00e7\u00e3o; por esta raz\u00e3o, come\u00e7amos o curso lendo um texto de 1925, <em>Um estudo autobiogr\u00e1<\/em><em>fico<\/em>, no qual Freud nos diz que se v\u00ea \u201cobrigado a procurar abordar a combina\u00e7\u00e3o diversa entre a posi\u00e7\u00e3o subjetiva e objetiva, entre o interesse biogr\u00e1fico e o hist\u00f3rico\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, o conhecimento foi se transformando, a moral foi tomando novos rumos, a medicina e outras ci\u00eancias ganharam abordagens diferentes. Mudou a tecnologia e a forma de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, que ofereceu novos par\u00e2metros para reler a psican\u00e1lise. Desenvolver a ideia de uma psican\u00e1lise engajada na sua \u00e9poca nos leva a come\u00e7ar o curso estudando a Viena na qual Freud estava inserido, assim como tamb\u00e9m avan\u00e7amos no tempo e incorporamos as novas condi\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade que nos oferecem os diversos momentos hist\u00f3ricos, culturais, sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos e nos permitem estudar os fen\u00f4menos contextualizados.<\/p>\n<p>Em sua vitalidade, a psican\u00e1lise nos permite identificar novos elementos que possibilitam pensar os novos problemas. Discutimos quest\u00f5es que se referem ao tempo no qual vivemos, quest\u00f5es relativas aos problemas com que nos enfrentamos no dia de hoje, mergulhamos nas novas formas de entender o sexual e os preconceitos, produtos do momento hist\u00f3rico que marcaram a psican\u00e1lise, ao negar a legitimidade dos grupos exclu\u00eddos socialmente como os grupos LGBTQIAP+, ou os conflitos relacionados \u00e0 diferen\u00e7a de g\u00eanero reivindicada pelo feminismo. Pensamos as condi\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia atual e uma nova moral, que difere das ideias propostas pela \u00e9poca vitoriana. Tamb\u00e9m abordamos quest\u00f5es de ra\u00e7a que imp\u00f5em a necessidade de incluir e repensar a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade, rompendo com uma tradi\u00e7\u00e3o escravista que mant\u00e9m ainda hoje uma sociedade desigual; entendemos o racismo como uma marca estrutural de desigualdade de nossa sociedade, contra a qual lutaremos, para que a psican\u00e1lise mantenha o lugar de um saber que liberta e marca a forma\u00e7\u00e3o do sujeito em condi\u00e7\u00f5es de igualdade. Abordar os problemas que as diferen\u00e7as entre ra\u00e7as prop\u00f5em n\u00e3o ser\u00e1 entendido como manifesta\u00e7\u00e3o de sintomas individuais e sim como uma patologia da sociedade. N\u00f3s nos aproximamos tamb\u00e9m da possibilidade de repensar as patologias que se originam da exclus\u00e3o das classes sociais institu\u00edda pelo neoliberalismo \u2013 problemas estes que, na \u00e9poca em que Freud elabora a teoria, n\u00e3o s\u00e3o para ele significativos ou n\u00e3o s\u00e3o apreendidos do momento hist\u00f3rico de Viena final do s\u00e9culo XIX. O mal-estar na cultura de hoje \u00e9 radicalmente diferente daquele diagnosticado por Freud. O que fornece fundamentos para o car\u00e1ter patol\u00f3gico de certas condutas est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com os fundamentos \u00e9ticos e morais nas quais elas se evidenciam.<\/p>\n<p>Pensamos que a \u00fanica maneira de manter a psican\u00e1lise viva \u00e9 nos apropriarmos das novas formas de produ\u00e7\u00e3o do conhecimento que possam incorporar o novo e reorganizar o j\u00e1 conhecido dentro dos paradigmas que nos caracterizam como especificidade cient\u00edfica. Para dar conta da ideologiza\u00e7\u00e3o que se infiltra no campo psicanal\u00edtico e das novas quest\u00f5es que se nos apresentam \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o tomar a teoria como um corpo morto, coagulado ou estagnado. \u00c9 trabalhando-a e aprofundando-a que conseguiremos avan\u00e7ar. Faz-se necess\u00e1rio retrabalhar a obra freudiana \u00e0 luz dos progressos da ci\u00eancia, da filosofia, da antropologia, da sociologia, da economia, das artes e da cultura em geral.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que Freud elaborou o arcabou\u00e7o cient\u00edfico sobre o qual desenvolveria seu modelo metapsicol\u00f3gico, as ci\u00eancias estavam impregnadas pelos modelos da termodin\u00e2mica e pelos modelos deterministas de causa-efeito. Hoje os novos paradigmas cient\u00edficos nos permitem pensar de um modo diferente, oferecem-nos postulados que abrem novos modos de entender os fen\u00f4menos dos quais teremos que dar conta.<\/p>\n<p>A partir do s\u00e9culo XVI foram surgindo grandes transforma\u00e7\u00f5es nos processos de legitima\u00e7\u00e3o do conhecimento. As cis\u00f5es da igreja e o advento do protestantismo ocorreram pela negativa de alguns grupos em aceitar que existisse uma \u00fanica leitura poss\u00edvel das escrituras. De uma subvers\u00e3o religiosa decorreu, naturalmente, uma subvers\u00e3o no campo social e da ci\u00eancia, a partir da qual n\u00e3o mais se pode falar de verdades \u00fanicas. A epistemologia cl\u00e1ssica adaptou seu ideal de teoria cient\u00edfica \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da geometria euclidiana, na qual a teoria ideal \u00e9 um sistema dedutivo com uma defini\u00e7\u00e3o de verdade incontest\u00e1vel baseada em uma conjun\u00e7\u00e3o de axiomas, de modo que a verdade se desloque por caminhos definidos de infer\u00eancia v\u00e1lida, que se propagam por todo o sistema. Se o crit\u00e9rio de univocidade das ci\u00eancias emp\u00edricas foi, para fil\u00f3sofos como Comte, requisito de toda ci\u00eancia, um grande avan\u00e7o se promoveu na hist\u00f3ria do pensamento a partir das coloca\u00e7\u00f5es de Dilthey, que diferencia ci\u00eancias do esp\u00edrito e da natureza, com diversas metodologias e formas de pesquisa.<\/p>\n<p>Estas quest\u00f5es nos levam permanentemente a avaliar se interessa \u00e0 psican\u00e1lise se denominar como uma ci\u00eancia, ou se preferimos nos referir a ela como um saber que se formula atrav\u00e9s dos pr\u00f3prios enunciados, que correspondem a uma \u00e9tica. O pr\u00f3prio Freud se questionou permanentemente sobre como se formula e se transmite a psican\u00e1lise. Hoje n\u00e3o interessa promover o conceito de univocidade como se procurava nos sistemas galileanos e newtonianos. At\u00e9 mesmo no campo das ci\u00eancias exatas, a pluralidade de hip\u00f3teses \u00e9 admitida. Dizia Poincar\u00e9 (1902) que a cren\u00e7a de que as verdades das ci\u00eancias duras s\u00e3o certezas s\u00f3 pode ser admitida numa mente ing\u00eanua.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo cl\u00ednico, que \u00e9 o m\u00e9todo cient\u00edfico por excel\u00eancia no campo da psican\u00e1lise, guarda pouca conex\u00e3o com a ci\u00eancia \u201cfisicista\u201d do s\u00e9culo XIX. A verdade do paciente \u00e9 sempre conjectural. Inclusive no campo da medicina, podemos dizer que n\u00e3o h\u00e1 enfermidades, mas, sim, enfermos, partindo-se da impossibilidade de assumir qualquer tipo de certeza. Conservar a singularidade se faz fundamental na pesquisa psicanal\u00edtica. \u00c0 revolu\u00e7\u00e3o copernicana, que desloca a Terra do lugar de privil\u00e9gio, une-se \u00e0 ferida narc\u00edsica que promove a psican\u00e1lise, ao reconhecer que a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o elemento central que se deve analisar para entender as determina\u00e7\u00f5es que impulsionam os caminhos ps\u00edquicos do homem.<\/p>\n<p>Hoje em dia se faz necess\u00e1rio, portanto, repensar o modo como operavam na psican\u00e1lise os postulados cient\u00edficos da \u00e9poca, na forma como aparecem, por exemplo, na constru\u00e7\u00e3o <em>do Projeto para uma psicologia cient\u00ed<\/em><em>fica<\/em><a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a> (1895) que acompanha um modelo mais hipot\u00e9tico-dedutivo. Valeria incorporar novos modelos cient\u00edficos para pensar a psican\u00e1lise: a teoria do Caos, as teorias da complexidade, a teoria das estruturas dissipativas que t\u00eam como ponto de partida o n\u00e3o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>H\u00e1 entretanto os conceitos que prevalecem \u2013 aqueles que t\u00eam a ver com os fundamentos da teoria, os que consideramos pilares e que ser\u00e3o transmitidos no decorrer do curso; s\u00e3o conceitos que, independentemente da escola te\u00f3rica desde a qual se fala, tomam parte da estrutura que marca a constru\u00e7\u00e3o deste saber. Sejam quais forem as diferen\u00e7as na enuncia\u00e7\u00e3o dos conceitos, estes figuram em todas as constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que pretendem se manter no campo da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Consideramos importante por o acento nesses <em>inegoci<\/em><em>\u00e1veis<\/em> que caracterizam o campo da psican\u00e1lise. Esta conceitualiza\u00e7\u00e3o foi por mim elaborada e inclui dois aspectos, os metapsicol\u00f3gicos e os cl\u00ednicos.<\/p>\n<p>Na metapsicologia considera-se que estamos no campo da psican\u00e1lise quando trabalhamos com: 1. Conceito de Inconsciente 2. Conceito de Sexualidade Infantil 3. Conceito de Puls\u00e3o. Na cl\u00ednica, a psican\u00e1lise est\u00e1 presente ao trabalharmos com: 1. Conceito de Transfer\u00eancia 2. Abstin\u00eancia 3. M\u00e9todo Psicanal\u00edtico: Aten\u00e7\u00e3o Flutuante e Associa\u00e7\u00e3o Livre (esses t\u00eam que ser revisados nas situa\u00e7\u00f5es em que muda o enquadre).<\/p>\n<p>Um primeiro inegoci\u00e1vel que nos permite manter nossa especificidade te\u00f3rica \u00e9, portanto, considerar a constru\u00e7\u00e3o do conceito de <em>Inconsciente <\/em>como espa\u00e7o estrangeiro, que deixa o sujeito \u00e0 merc\u00ea de um desconhecido de si. \u00c9 necess\u00e1rio considerar o deslocamento que faz a psican\u00e1lise, de uma concep\u00e7\u00e3o ptolomaica de um Eu possuidor da verdade ao recentramento do lugar do Inconsciente. Freud nos diz que \u00e9 a partir deste conceito que ele estrutura uma nova forma de conhecer e entender os fen\u00f4menos da alma. Para permitir que se apropriem deste conceito, fazemos um percurso que vai desde os trabalhos chamados pr\u00e9-psicanal\u00edticos, oferecendo a leitura de dois casos cl\u00ednicos para acompanhar o processo atrav\u00e9s do qual Freud se aproxima do conceito de inconsciente. Vamos assim, a partir de seu trabalho com as hist\u00e9ricas, abordando os primeiros estudos de sintomas que n\u00e3o tinham compreens\u00e3o exitosa no campo da medicina. Incluindo seus conhecimentos como neurologista, Freud descobre que alguns sintomas n\u00e3o correspondiam \u00e0s vias neurol\u00f3gicas que lhes dariam sentido na medicina. Assim, a partir dos casos cl\u00ednicos, ele estuda como \u00e9 poss\u00edvel ter um comprometimento motor ou neurol\u00f3gico que inexplicavelmente produzia dorm\u00eancia ou dor nas m\u00e3os, sem que se registrassem os mesmos sintomas na parte anterior do bra\u00e7o. Assim come\u00e7a a pensar que estes sintomas teriam outra origem que n\u00e3o relativa a uma doen\u00e7a org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Ao acompanhar o caso de Elizabeth von R., que se encontra na passagem ao m\u00e9todo psicanal\u00edtico, fazemos uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 forma pela qual Freud vai fazendo suas descobertas. As no\u00e7\u00f5es de recalque, deslocamento, trauma, conflito e resist\u00eancia fazem suas primeiras apari\u00e7\u00f5es. Esbo\u00e7a-se a ideia de que existe uma temporalidade diferente na express\u00e3o de sintomas, enuncia-se os dois tempos do trauma e a ideia de ressignifica\u00e7\u00e3o ou posterioridade, que desenvolvera no caso Emma, no qual relata a instaura\u00e7\u00e3o dos dois tempos do trauma. Introduzir o conceito de ressignifica\u00e7\u00e3o nos permite entender como alguns fatos ganham sentido a partir de uma concep\u00e7\u00e3o de temporalidade que \u00e9 pr\u00f3pria \u00e0 psican\u00e1lise. O conceito de <em>apr<\/em><em>\u00e8<\/em><em>s-coup<\/em>, retomado e desenvolvido a partir do caso Emma, publicado no <em>Projeto de uma psicologia para neur\u00f3logos<\/em>, nos interessa fundamentalmente para mostrar como na psican\u00e1lise h\u00e1 um descentramento do sujeito e um tempo que n\u00e3o \u00e9 linear. A partir daqui retornamos \u00e0 leitura das <em>Cinco li\u00e7\u00f5<\/em><em>es de psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise<\/em> que nos abrem o caminho para trabalhar o sentido simb\u00f3lico das produ\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, parte das quais est\u00e3o ocultas ao pr\u00f3prio sujeito.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Abordamos assim a constru\u00e7\u00e3o do conceito de inconsciente, para depois mostrar, a partir da <em>Carta 69<\/em>, o fundante de realidade ps\u00edquica, na qual fantasia e realidade adquirem um relevo particular e produzem um giro importante na teoria. Mergulhamos na ideia de \u201cporque Freud n\u00e3o acredita mais na sua neur\u00f3tica\u201d.<\/p>\n<p>Outro elemento central e inegoci\u00e1vel para pensar a psican\u00e1lise \u00e9 o deslocamento que Freud produz nos <em>Tr<\/em><em>\u00eas ensaios<\/em><a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a> (1905) ao demolir o preconceito de uma sexualidade pr\u00e9orientada instintualmente no homem, em benef\u00edcio de uma <em>puls<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o<\/em> que s\u00f3 encontraria seu objeto de maneira totalmente aleat\u00f3ria na sua hist\u00f3ria individual, objeto esse essencialmente vicariante e contingente<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>. Essa substitui\u00e7\u00e3o tira o sujeito do campo da pura biologia e o constitui na sua pr\u00f3pria diferen\u00e7a, fora do determinismo biol\u00f3gico, a partir da valoriza\u00e7\u00e3o da fantasia e da linguagem. Abordamos aqui a diferen\u00e7a entre instinto e puls\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro inegoci\u00e1vel \u00e9 o que ressitua a <em>sexualidade infantil<\/em> como trilha pela qual transita a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade. Estes dois \u00faltimos enfoques j\u00e1 come\u00e7am a ser vislumbrados nos casos cl\u00ednicos que Freud nos apresenta, mas s\u00e3o temas aprofundados no segundo ano de nosso curso, ao estudarmos a puls\u00e3o e a sexualidade infantil de forma central na forma\u00e7\u00e3o de sintomas.<\/p>\n<p>Neste primeiro ano trabalhamos ainda com o esquema da primeira t\u00f3pica, uma primeira formula\u00e7\u00e3o de Freud para abordar o sistema ps\u00edquico. O conceito de inconsciente que transmitimos se refere a esta conceitualiza\u00e7\u00e3o, com a qual apreendemos uma nova perspectiva de exist\u00eancia de um inconsciente, que difere da forma pela qual o inconsciente era percebido pela filosofia e pela psicologia da \u00e9poca. Este conceito sofre grandes modifica\u00e7\u00f5es na obra freudiana. A primeira t\u00f3pica \u00e9 formulada de uma forma mais completa no cap. VII de <em>A Interpreta<\/em><em>\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em> (1900) e vai se modificando visivelmente na obra at\u00e9 que Freud formula a segunda t\u00f3pica, que ser\u00e1 estudada no segundo ano do curso. Estes esquemas pertencem ao que chamamos de metapsicologia. A metapsicologia elabora um conjunto de elementos conceituais, mais ou menos distantes da experi\u00eancia, e descreve processos ps\u00edquicos nas suas rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas, t\u00f3picas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Trabalhando as <em>cartas 69 e 71<\/em> de Freud a Fliess, nos detemos nos conceitos de trauma e fantasia. O texto do <em>Bloco m\u00e1<\/em><em>gico<\/em> nos serve como uma preciosa descri\u00e7\u00e3o das inscri\u00e7\u00f5es inconscientes. Atrav\u00e9s das <em>Cinco li\u00e7\u00f5<\/em><em>es de psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise<\/em> abordamos tamb\u00e9m as quest\u00f5es que diferenciam a forma pela qual um sintoma \u00e9 lido pela medicina e pela psican\u00e1lise. Elas s\u00e3o complementadas com trechos escolhidos de <em>Psicopatologia da vida cotidiana<\/em> (1901) e de <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em><a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[vii]<\/sup><\/a> (1900). Ao trabalharmos fundamentalmente o conceito de sintoma a partir da primeira t\u00f3pica, consideramos a coloca\u00e7\u00e3o freudiana de que \u201cnossos enfermos sofrem de reminisc\u00eancias\u201d e que os sintomas s\u00e3o restos e s\u00edmbolos mn\u00eamicos de certas viv\u00eancias traum\u00e1ticas, viv\u00eancias dolorosas \u00e0s quais os neur\u00f3ticos permanecem fixados, desenhando o conceito de neurose, que nos mostra que \u00e0s vezes os sujeitos se descuidam da realidade por conta destas viv\u00eancias recalcadas.<\/p>\n<p>O percurso te\u00f3rico vai sendo acompanhado por relatos de situa\u00e7\u00f5es que v\u00eam de outros campos de atua\u00e7\u00e3o profissional, assim como casos cl\u00ednicos tanto de Freud como dos pr\u00f3prios alunos ou introduzidos pelos professores para encarnar a teoria. Recorrendo \u00e0s diversas elabora\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao sintoma, destaca-se que em todas estas viv\u00eancias estava em jogo o surgimento de uma mo\u00e7\u00e3o de desejo que se encontrava em aguda oposi\u00e7\u00e3o com os demais interesses do indiv\u00edduo, e que parecia ser inconcili\u00e1vel com as exig\u00eancias \u00e9ticas e est\u00e9ticas da personalidade deste sujeito. A partir do conflito sobrevive uma representa\u00e7\u00e3o que devia ser recalcada e esquecida. Ao adentrarmos toda a complexidade dos conceitos de conflito e de sintoma, desenvolvemos a teoria do recalque, destacando componentes como dissocia\u00e7\u00e3o, fixa\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o substitutiva, sobredetermina\u00e7\u00e3o e sexualidade infantil \u2013 conceito que, junto a puls\u00e3o, sexua\u00e7\u00e3o e sexualidade, ser\u00e1 a base do programa do segundo ano.<\/p>\n<p>Terminaremos o programa de primeiro ano com as <em>Confer<\/em><em>\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0<\/em><em> psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise<\/em>, de 1916-17, da confer\u00eancia 17 a 23, nas quais Freud nos introduz no sentido dos sintomas, desenvolvimento libidinal e organiza\u00e7\u00f5es sexuais e aprofunda os conceitos esbo\u00e7ados nas <em>Cinco li\u00e7\u00f5<\/em><em>es<\/em>. No decorrer dos anos temos substitu\u00eddo ou adicionado alguns escritos, porque as diferentes turmas nos v\u00e3o conduzindo a aprofundar ou discutir certos temas. O programa tem uma espinha dorsal, mas cada professor vai complementando com elementos que decorrem da sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com a teoria e do grupo com o qual trabalha.<\/p>\n<p>Nossa escolha program\u00e1tica tem se mostrado muito afortunada, incita aos alunos que j\u00e1 vinham com algum conhecimento a descobrir e fundamentalmente aprofundar conceitos cruciais para entender o complexo edif\u00edcio da teoria psicanal\u00edtica e suas liga\u00e7\u00f5es com a cl\u00ednica e, para os que n\u00e3o tinham um trajeto anterior, se apresenta como uma descoberta e um desafio que os incita \u00e0 leitura e lhes permite fazer v\u00ednculos com as tem\u00e1ticas que s\u00e3o de interesse na \u00e1rea espec\u00edfica de exerc\u00edcio profissional a que pertencem.<\/p>\n<p>Queridos alunos, desejamos a todos um trabalho produtivo, festejamos que a vacina\u00e7\u00e3o ganhou o caminho do povo, o que nos permitir\u00e1 os encontros presenciais.<\/p>\n<p>Bibliografia b\u00e1sica para o 1\u00ba ano do curso:<\/p>\n<ul>\n<li>Um estudo autobiogr\u00e1fico (1925), v. XX. Cap\u00edtulos I e II.<\/li>\n<li>Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise (1910), v. XI. Li\u00e7\u00f5es I a IV.<\/li>\n<li>Estudos sobre a histeria (1893-1895), v. II: Caso cl\u00ednico 5: Srta. Elisabeth von R.<\/li>\n<li>Projeto para uma psicologia cient\u00edfica (1950 [1895]), v. I: A <em>pr<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ton pseudos<\/em> (primeira mentira) hist\u00e9rica &#8211; apenas o \u201cCaso Emma\u201d.<\/li>\n<li>Extratos dos documentos dirigidos a Fliess (1950 [1892-1899]), v. I: Cartas 69 (21 de setembro de 1897) e 71 (15 de outubro de 1897).<\/li>\n<li>Uma nota sobre o \u201cbloco m\u00e1gico\u201d (1925), v. XIX.<\/li>\n<li>Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901), v. VI: O esquecimento de nomes pr\u00f3prios (cap\u00edtulo 1) e O esquecimento de palavras estrangeiras (cap\u00edtulo 2).<\/li>\n<li>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900), v. IV: A distor\u00e7\u00e3o nos sonhos (cap\u00edtulo IV), pre\u00e2mbulo \u2013 apenas o sonho \u2018Tio Joseph, tio da barba amarela\u2019.<\/li>\n<li>Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise (1916-1917), v. XVI: confer\u00eancia 17 a 23.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a>[i] Agrade\u00e7o a psicanalista S\u00edlvia Nogueira pelo trabalho de revis\u00e3o deste texto.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><\/a>[ii] Psicanalista. Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psican\u00e1lise e co-coordenadora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\"><\/a>[iii] Freud S. <em>\u00a0<\/em>(1925). <em>Obras completas<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu, 1975, vol. 20. Caps. 1 e 2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\"><\/a>[iv] Freud, S. (1985) Projeto de psicologia. <em>Obras Completas<\/em>. Buenos Aires: Amorrortu, 1988, v. 1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\"><\/a>[v] Freud, S. (1905) Tres ensayos de teor\u00eda sexual, <em>Obras Completas<\/em>, Buenos Aires, Amorrortu, 1988, v. 7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\"><\/a>[vi] Laplanche, J. (1987). <em>O inconsciente e o ello. Problematicas 1<\/em>. Buenos Aires, Amorrortu, p. 117.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\"><\/a>[vii] Freud, S. (1900) <em>Obras completas<\/em>, v. 4 \u2013 A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (Primeira parte).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Sigal situa a psican\u00e1lise na contemporaneidade e localiza a responsabilidade de sua transmiss\u00e3o em nosso Departamento. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[53,126],"edicao":[182],"autor":[148],"class_list":["post-2402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-conflito-e-sintoma","tag-psicanalise-e-politica","edicao-boletim-66","autor-ana-maria-sigal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2402"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2402\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2403,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2402\/revisions\/2403"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2402"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2402"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}