{"id":2406,"date":"2023-04-13T16:51:37","date_gmt":"2023-04-13T19:51:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2406"},"modified":"2023-04-13T16:52:44","modified_gmt":"2023-04-13T19:52:44","slug":"notas-para-um-debate-revista-percurso-66-e-67","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/04\/13\/notas-para-um-debate-revista-percurso-66-e-67\/","title":{"rendered":"Notas para um debate: revista Percurso 66 e 67"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Notas para um debate: Revista Percurso 66 e 67<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Rafael Pinto Morais<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[i]<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\">\u00c0 mem\u00f3ria de Mario Pablo Fuks ofere\u00e7o esta breve s\u00edntese do debate que reuniu<br \/>\nautores e leitores da Revista Percurso de n\u00fameros 66 e 67. De seu quarto de<br \/>\ncuidados, Fuks participou do encontro, contribuiu com as discuss\u00f5es e, mais uma<br \/>\nvez, deu o testemunho de toda sua entrega \u00e0 psican\u00e1lise e a este Departamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ela n\u00e3o resiste. Tudo o que faz \u00e9 desviar: desvia os l\u00e1bios, desvia os olhos. Deixa que ele a leve para a cama e tire sua roupa: at\u00e9 o ajuda, levantando os bra\u00e7os e depois os quadris. Pequenos arrepios de frio a percorrem; assim que est\u00e1 nua, enfia-se debaixo do cobertor xadrez como uma toupeira que se enterra, e vira as costas para ele.<\/em><\/p>\n<p><em>Estupro n\u00e3<\/em><em>o, n<\/em><em>\u00e3o exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse resolvido ficar mole, morrer por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa se fecha em seu pesco\u00e7o. De forma que tudo o que lhe fosse feito, fosse feito, por assim dizer, de longe.<\/em><\/p>\n<p>Em <em>Desonra<\/em>, J. M. Coetzee nos leva \u00e0 \u00c1frica do Sul p\u00f3s-apartheid e narra a hist\u00f3ria de David Lurie. Professor universit\u00e1rio branco, de falas e gestos cheios de requintes liter\u00e1rios e estudioso de Lord Byron, Lurie enfrenta problemas depois de se relacionar com sua aluna Melanie Isaacs. A cena que abre estas reflex\u00f5es revela parte do que comp\u00f5e esse encontro desastroso e que, de certo modo, n\u00e3o deixa de estar presente na complexa problem\u00e1tica que o romance apresenta aos leitores.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 pouco mais de cem anos Joseph Conrad nos entregava, em <em>O cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/em>, o homem ocidental enlouquecido e horrorizado pelos efeitos de sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o em \u00c1frica, estamos agora diante de uma personagem totalmente oposta. Desprovido de qualquer afeto, Lurie parece estar sempre alheio ao que ele mesmo protagoniza, \u00e0s situa\u00e7\u00f5es em que se insere. O sentir est\u00e1 reservado aos poetas rom\u00e2nticos a que se dedica em seu trabalho intelectual. Para o leitor, mais desconcertante do que a cis\u00e3o do protagonista \u00e9 o fato de que nem mesmo do outro sobre quem exerce dom\u00ednio pode surgir o que lhe despertaria e denunciaria qualquer excesso. Melaine entrega-se como um coelho entre os dentes de uma raposa.<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul \u00e9 aqui, nosso <em>apartheid<\/em>, nosso desafeto. Como v\u00edrus ainda mais nefasto, disseminou-se pela sociedade brasileira certa dessensibiliza\u00e7\u00e3o diante da barb\u00e1rie. No centen\u00e1rio mesmo da Semana de Arte Moderna, vale o diagn\u00f3stico de Jos\u00e9 Miguel Wisnik a nos lembrar que prevalece, entre n\u00f3s, a baixa antropofagia sobre a qual j\u00e1 nos alertava Oswald de Andrade: inveja, usura, cal\u00fania e assassinato \u2013 sob a forma da cultura do ressentimento, do liberalismo oportunista, das <em>fake news<\/em> e da necropol\u00edtica ostensiva, respectivamente. E nada choca, e nada parece mobilizar. Algo nos tirou a capacidade de sentir a dor das fam\u00edlias negras que perdem seus filhos nos morros e periferias das grandes cidades, o terror dos ind\u00edgenas que, mais uma vez, s\u00e3o espoliados material e simbolicamente, a fome dos miser\u00e1veis na fila do osso. A viol\u00eancia se torna desejada e um gozo mort\u00edfero ronda sem mais assombrar. Se a vit\u00f3ria de Lula nas elei\u00e7\u00f5es indica que h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 indignados e a esperan\u00e7a de que voltemos a construir um pa\u00eds mais inclusivo, a composi\u00e7\u00e3o do poder legislativo sugere o contr\u00e1rio. Em terras paulistas, o j\u00e1 conhecido reacionarismo de terno e gravata abra\u00e7a o banditismo bolsonarista, entregando-lhe o Pal\u00e1cio dos Bandeirantes de bandeja. O futuro a ningu\u00e9m pertence; tudo est\u00e1 em aberto.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, a psican\u00e1lise, que resiste, que vai de encontro, que vai ao encontro. H\u00e1 a psican\u00e1lise, que recebe os que ainda se dignificam na coragem de sentir e que acolhe tamb\u00e9m os indiferentes, pois n\u00e3o h\u00e1 desafeto sem sintoma. Nos consult\u00f3rios, nos coletivos de matriz psicanal\u00edtica, nas cl\u00ednicas p\u00fablicas espalhadas pela cidade, nos centros de debate e forma\u00e7\u00e3o, no Sedes Sapientiae, h\u00e1 uma abertura para o desejo de saber o que acontece, para a escuta dos vivos e dos mortos que, mais do que depressa, s\u00e3o depositados nas valas silenciadoras que impedem o advento do luto e da transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E n\u00e3o basta apenas querer saber. \u00c9 preciso estar preparado para faz\u00ea-lo bem. Se a psican\u00e1lise ainda se pratica por aqueles protegidos da viol\u00eancia, muitas vezes egressos da pr\u00f3pria classe de onde a brutalidade emana, h\u00e1 sempre o risco da escuta equivocada, culpada ou piedosa, que, ao dar \u00e0 quest\u00e3o social toda a primazia, permite que esta eclipse a trama da singularidade que deseja se fazer presente apenas com seu quinh\u00e3o pr\u00f3prio de atravessamentos pol\u00edticos. O analista implicado sabe que todo d\u00e9ficit de reconhecimento, mais cedo ou mais tarde, apresenta uma fatura, mas n\u00e3o viola sua \u00e9tica para que ela seja paga.<\/p>\n<p>Que toda d\u00edvida seja paga l\u00e1 onde ela foi contra\u00edda. Que seja poss\u00edvel pag\u00e1-la com outra moeda. Que algo fora da trama da viol\u00eancia possa despertar, de novo, nossa capacidade de se afetar. Em <em>Desonra, <\/em>Lucy, a filha do professor Lurie, decide pagar sozinha ao levar adiante uma gravidez resultante de um estupro coletivo do qual \u00e9 v\u00edtima quando sua fazenda \u00e9 invadida. E Lurie precisar\u00e1 do abismo para voltar a chorar.<\/p>\n<p><em>A gangue de tr<\/em><em>\u00eas. Tr\u00eas pais em um. Estupradores, mais do que ladr\u00f5es, foi o que Lucy disse deles. Um misto de estupradores e cobradores de impostos rondando a regi\u00e3o, atacando mulheres, se entregando a seus prazeres violentos. Bem, Lucy estava errada. Eles n\u00e3o estavam estuprando, estavam acasalando. N\u00e3o era o princ\u00edpio do prazer que os impulsionava, mas os test\u00edculos, sacos cheios de sementes ansiando por se aperfei\u00e7oar. E agora, eia, pois, um filho! Ele j\u00e1 est\u00e1 chamando de filho quando n\u00e3o passa de um verme no \u00fatero de sua filha. Que tipo de filho pode nascer de uma semente daquelas, semente enfiada na mulher n\u00e3o por amor, mas por \u00f3dio, misturada caoticamente, com a inten\u00e7\u00e3<\/em><em>o de suj<\/em><em>\u00e1-la, de marc\u00e1<\/em><em>-la, como urina de cachorro?<\/em><\/p>\n<p><em>Um pai sem a sensa\u00e7\u00e3o de ter um filho: \u00e9 assim que tudo vai terminar, \u00e9 assim que sua linhagem vai se encerrar, como \u00e1gua escorrendo para dentro da terra? Quem desejaria isso! Um dia como outro qualquer, c\u00e9u claro, sol ameno, e, no entanto, de repente tudo mudou, mudou completamente!<\/em><\/p>\n<p><em>Encostado no muro de fora da cozinha, com o rosto escondido nas m\u00e3os, ele arfa, arfa, e finalmente chora.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<br \/>\n<a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\"><strong>[i]<\/strong><\/a> Rafael Pinto Morais \u00e9 psicanalista e professor. Aluno do curso Psican\u00e1lise, \u00e9 formado em Filosofia pela USP e em Letras pela PUC-SP, onde tamb\u00e9m obteve o t\u00edtulo de Mestre em Ci\u00eancias Sociais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A discuss\u00e3o de artigos de Percurso como ocasi\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de um novo texto. Um escrito de Rafael Pinto Morais, especial para o boletim.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[176,126],"edicao":[182],"autor":[195],"class_list":["post-2406","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-percurso","tag-psicanalise-e-politica","edicao-boletim-66","autor-rafael-pinto-morais","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2406","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2406"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2406\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2409,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2406\/revisions\/2409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2406"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2406"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}