{"id":2412,"date":"2023-04-13T17:12:25","date_gmt":"2023-04-13T20:12:25","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2412"},"modified":"2023-04-13T17:12:25","modified_gmt":"2023-04-13T20:12:25","slug":"vozes-em-ato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/04\/13\/vozes-em-ato\/","title":{"rendered":"Vozes em ato"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Vozes em ato<\/strong><strong>: pol\u00edticas da abertura da palavra no boletim online<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[i]<\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Equipe editorial do boletim <\/strong><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>on<\/strong><\/span><strong>line 2016<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[ii]<\/strong><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>O psicanalista n\u00e3o se furta ao ato.<br \/>\n<\/em><em>Ao psicanalista n\u00e3o se furta o ato.<br \/>\n<\/em>Manoel Ferreira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2009 o boletim online \u2013 jornal digital do Departamento de Psican\u00e1lise \u2013 apresentou aos leitores da edi\u00e7\u00e3o 12 uma nova se\u00e7\u00e3o: <em>Psican\u00e1lise e Pol\u00edtica<\/em>, que comemorava a reabertura, no Instituto Sedes Sapientiae, da an\u00e1lise e do debate pol\u00edticos num tempo promissor, de sintonia com um presente ressignificado historicamente, mais denso e mais rico. Nossa equipe editorial se dispunha a fortalecer essa possibilidade:<\/p>\n<p>\u201cReafirmar o poder das imagens e palavras vivas\u201d, tal um <em>Viva a linguagem!<\/em> comemorado por D\u00e9borah de Paula Souza (2015)<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>\u00a0 diante de um filme de Godard;<\/p>\n<p>Lembrar que o trabalho com a palavra fundou nosso campo cl\u00ednico e desde logo insistiu em apresentar-se em sua face escrita: da f\u00f3rmula da trimetilamina sonhada em 1895 aos registros das sess\u00f5es ao final de cada dia de trabalho de Freud, at\u00e9 a transmiss\u00e3o de sua obra \u2013 que alcan\u00e7a nossa atualidade e, h\u00e1 30 anos, fundou nosso Departamento;<\/p>\n<p>Tomar como nosso o dizer em que Jean Oury (2009)<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sub>[iv]<\/sub><\/a> identificou o trabalho cr\u00edtico de <em>enxertar a abertura<\/em> como fun\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, concebendo a neutralidade como processo ativo pelo qual o psicanalista busca superar a aliena\u00e7\u00e3o social e livrar-se dos preconceitos que atravessam a sociedade;<\/p>\n<p>Pensar assim nossas pol\u00edticas de abertura da palavra a partir de uma escuta acolhedora das m\u00faltiplas combina\u00e7\u00f5es percorr\u00edveis diante de impress\u00f5es e pensamentos de membros, alunos, ex-alunos e amigos do Departamento \u2013 tal como no passeio sonoro pela instala\u00e7\u00e3o<em> The Forty Part Motet<\/em> (2001)<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>, em que a artista Janet Cardiff gravou cada integrante de um coral, desde o burburinho dos preparativos at\u00e9 a execu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica de um moteto \u2013 pe\u00e7a derivada de<em> mot, <\/em>palavra<em> \u2013 <\/em>instala\u00e7\u00e3o que acompanhou a apresenta\u00e7\u00e3o de nossa edi\u00e7\u00e3o 36.<\/p>\n<p>Hoje, pensando que a pol\u00edtica justamente se d\u00e1 quando &#8220;um modo de ser da comunidade se op\u00f5e a outro modo de ser, um recorte do mundo sens\u00edvel se op\u00f5e a outro recorte do mundo sens\u00edvel&#8221; (Ranci\u00e8re 1996, p. 368), empreendemos uma leitura transversal de certos escritos freudianos, buscando configurar os corpos pol\u00edticos coletivos que encarnaram a racionalidade desses <em>dissensos<\/em>.<\/p>\n<p>Acompanhados por Fuks (1997)<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a> e por Safatle (2015)<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a> revisitamos <em>Totem e tabu<\/em>, <em>Psicologia das massas<\/em>, <em>O humor<\/em> e <em>O homem Mois\u00e9s e a religi\u00e3o monote\u00edsta<\/em>, identificando 4 diferentes vozes pol\u00edticas que se atualizam, de diferentes maneiras, na produ\u00e7\u00e3o coletiva veiculada ao longo desses 9 anos pelo nosso boletim<span style=\"color: #ff0000;\"> on<\/span>line. Nominamos tais vozes da seguinte maneira: guerreiros parricidas, poetas \u00e9picos, humoristas descrentes, desamparados inquietos.<\/p>\n<p><strong>A primeira voz: guerreiros parricidas<\/strong><\/p>\n<p>A primeira voz, <em>guerreiros parricidas<\/em>, nos remete \u00e0 figura de um coletivo que se organiza e luta contra uma domina\u00e7\u00e3o \u2013 luta que depois constituir\u00e1 pactos e ideais sociais numa fratria, coletividade que n\u00e3o se submete ao poder de um <em>indiv\u00edduo<\/em>.<\/p>\n<p>Ao <em>Entrevistar Oury,<\/em> Danielle Breyton e Andr\u00e9a Carvalho (2009)<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a> registram uma voz generosa sobre a quest\u00e3o do coletivo:<em> &#8220;<\/em>\u00e9 preciso tomar cuidado com \u2018eu fiz, eu isso, eu aquilo\u2019, cuidar para n\u00e3o fetichizar, n\u00e3o monumentalizar a pessoa. Nunca \u00e9 uma pessoa, h\u00e1 sempre uma multiplicidade de sujeitos\u201d. Essa coloca\u00e7\u00e3o fundamental marca uma posi\u00e7\u00e3o diferente da que predomina na atualidade, do \u201ccada um por si\u201d &#8211; ensimesmamento cego, movimento narc\u00edsico de auto-vangloriza\u00e7\u00e3o. Ela coloca luz no fato de que somos sujeitos de um conjunto intersubjetivo que nos precede.<\/p>\n<p>De volta ao aspecto de <em>luta<\/em> <em>coletiva<\/em>, em torno das ocupa\u00e7\u00f5es das escolas p\u00fablicas no estado de S\u00e3o Paulo, Ver\u00f4nica Melo e Chico Aires (2016)<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a> escreveram sobre os secundaristas \u2013 guerreiros parricidas da atualidade. Nas palavras deles:<\/p>\n<p><em>O final de 2015 foi marcado por uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o dos secundaristas, que lutaram contra a reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema p\u00fablico de ensino (do Estado de SP) imposta pelo governador Alckmin. N\u00f3s estudantes, mostramos que temos voz e exigimos participar das discuss\u00f5es que nos dizem respeito. Sa\u00edmos das ocupa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o sa\u00edmos da luta. Temos que nos organizar dentro das escolas para compor esse espa\u00e7o que \u00e9 nosso.<\/em><\/p>\n<p>Assim, no mar de um mundo de indiv\u00edduos-ilhas escutamos a voz de alguns sujeitos-continentes a lembrar a import\u00e2ncia e a pot\u00eancia dos coletivos que se organizam em torno da utopia construtora de um futuro no qual todos podem ter espa\u00e7o digno e subjetivado.<\/p>\n<p><strong>A segunda voz: poetas \u00e9picos<\/strong><\/p>\n<p>A segunda voz, <em>poetas \u00e9picos,<\/em> evoca hist\u00f3rias do passado, acontecimentos e seus registros; a voz do poeta \u00e9pico invoca uma sa\u00edda heroica diante da tarefa de narrar o que existe de transgressor a cada parric\u00eddio necess\u00e1rio para se fazer Cultura.<\/p>\n<p>&#8220;O her\u00f3i era um homem que, sozinho, havia matado o pai \u2013 o pai que ainda aparecia no mito como um monstro tot\u00eamico&#8221; (Freud 1921, p. 171). O her\u00f3i, assim, emerge como primeiro ideal do eu. O poeta liberta-se do grupo atrav\u00e9s de sua imagina\u00e7\u00e3o e retorna a este ao relatar as hist\u00f3rias inventadas \u2013 de modo que todos agora podem se identificar com o her\u00f3i.<\/p>\n<p>A cada edi\u00e7\u00e3o do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line se costuram escritos em torno de sujeitos criadores, por vezes artistas que fazem, de sua forma narrativa, poesia \u00e9pica. Sobre Frida Kahlo (2015)<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>, Tide Set\u00fabal fala do processo \u00e9pico pelo qual essa artista narra sua hist\u00f3ria atrav\u00e9s da arte e, ao narr\u00e1-la, faz\u00ea-la coletiva: \u201cPintar-se, portanto, para dar sentido a sua imagem, a sua vida, a sua dor. Pintar-se atrav\u00e9s de sua cultura, expressando algo que a constitu\u00eda\u201d.<\/p>\n<p><em>Em Fukushima mon amour, <\/em>D\u00e9borah de Paula Souza (2015)<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a> nos conduz a escutar e olhar a cidade da inf\u00e2ncia de Tadashi Endo, destru\u00edda por desastres naturais e por um acidente nuclear \u2013 produtor de <em>Godzillas<\/em><a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><em><strong>[xii]<\/strong><\/em><\/a>: \u201cUm artista em trabalho de luto. (&#8230;) Como pode um corpo se transformar at\u00e9 o desamparo total e definir seu movimento por uma rota que se estilha\u00e7a a cada passo?\u00a0 O que Tadashi dan\u00e7a \u00e9 a quebra de sentido\u201d.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a dessa voz po\u00e9tica entre n\u00f3s se imp\u00f4s em nossa edi\u00e7\u00e3o 39, de setembro de 2016 \u2013 pela luz dos olhos de Rubia Delorenzo<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[xiii]<\/a> acompanhamos a alegria e a gratid\u00e3o nos reencontros de todos n\u00f3s com o particular desenho das letras:<\/p>\n<p><em>J\u00e1 n\u00e3o posso olhar o mundo sem essas \u00e1guas org\u00e2nicas, que s\u00e3o tamb\u00e9m \u00e1guas de correnteza que movimentam perigosamente a vida. Dentro do hospital, o corpo perde seu tecido sens\u00edvel. (&#8230;) Ah, os livros n\u00e3o lidos (&#8230;) Saindo da letargia, finalmente a cortina se abre. Tudo l\u00edmpido, n\u00edtido, sa\u00ed do lis\u00e9rgico incolor. Novamente o mundo configurado. Novamente o belo desenho das letras, t\u00e3o particular. Molhei meu rosto de l\u00e1grimas. Eram l\u00e1grimas. Agrade\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p>A pot\u00eancia subjetivante da voz de Eduardo Losicer (2016)<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a> ressoou pronunciamentos inauditos: \u201cOs tempos s\u00e3o sombrios sim, mas como disse o general grego Le\u00f4nidas quando avisado de que as flechas lan\u00e7adas pelo inimigo eram tantas que obscureciam o sol: lutaremos \u00e0 sombra\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, diante do golpe sofrido pela presidente da Rep\u00fablica, convocamos Maiak\u00f3vski como parceiro editorial, nosso contempor\u00e2neo, a lembrar que quando fazemos dos fatos narrativas, fazemos a estranha beleza da vida:<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos alegres,<br \/>\n\u00e9 certo,<br \/>\nmas tamb\u00e9m por que raz\u00e3o<br \/>\nhaver\u00edamos de ficar tristes?<br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nO mar da hist\u00f3ria<br \/>\n\u00e9 agitado.<br \/>\nAs amea\u00e7as<br \/>\ne as guerras<br \/>\nhavemos de atravess\u00e1-las,<br \/>\nromp\u00ea-las ao meio,<br \/>\ncortando-as<br \/>\ncomo uma quilha corta<br \/>\nas ondas.<\/p>\n<p><strong>A terceira voz: humoristas descrentes<\/strong><\/p>\n<p>A terceira voz \u00e9 a dos <em>humoristas descrentes<\/em>. A atitude humor\u00edstica implica num tipo peculiar de descren\u00e7a que Freud op\u00f4s \u00e0 ilus\u00e3o religiosa; tendo trabalhado os dois temas simultaneamente, publicou dois famosos artigos no mesmo ano, 1927 \u2013 <em>O humor<\/em> e <em>O futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>. O humor seria uma outra forma de lidar com estados de desamparo, diferente da submiss\u00e3o a alguma inst\u00e2ncia transcendente em troca da ilus\u00f3ria garantia de prote\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a aproxima\u00e7\u00e3o da figura do humorista com a do \u00f3rf\u00e3o que, ciente de sua insufici\u00eancia, aprende a rir <em>com <\/em>a vida na companhia de uma comunidade fraterna cujo esp\u00edrito (<em>Witz)<\/em> \u00e9 capaz de transformar o drama neur\u00f3tico no riso tragic\u00f4mico. Sa\u00edda sublimat\u00f3ria frente aos impasses da vida, diferente do recalque e consoante ao princ\u00edpio do prazer.<\/p>\n<p>A descren\u00e7a do humorista n\u00e3o se confunde com o niilismo. Para Freud, o humor \u00e9 <em>rebelde, nunca resignado<\/em>, tendo em suas dimens\u00f5es \u00e9ticas, est\u00e9ticas e pol\u00edticas as faces de um mesmo senso transgressivo: desidealizando e dessacralizando os poderes institu\u00eddos \u2013 divinos ou humanos \u2013, suspendendo provisoriamente um recalque atrav\u00e9s do dito espirituoso que subverte os sentidos habituais, abre novas vias identificat\u00f3rias, sublimat\u00f3rias e formas de sociabilidade. Ao contr\u00e1rio da comicidade, que faz recair o rid\u00edculo sobre o divergente, na linha do narcisismo das pequenas diferen\u00e7as, no humor ri-se ao mesmo tempo de si mesmo e do Outro, numa complexa rela\u00e7\u00e3o com o narcisismo que difere da simples defesa, da nega\u00e7\u00e3o ou do triunfo do eu. O humor freudiano guarda rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas com a precariedade da vida e a consci\u00eancia da finitude, numa clave que se aproxima de seu elogio da transitoriedade \u2013 mais pr\u00f3ximo do riso e do sorriso que da gargalhada, e que pode misturar-se \u00e0s l\u00e1grimas (Kupermann 2005) &#8230;<\/p>\n<p>Em <em>A morte \u00e9 brega<\/em>, Maria Elisa Labaki (2008)<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a> fez da tirada humor\u00edstica do paciente condenado \u00e0 \u201cmorte anunciada\u201d o t\u00edtulo de seu belo escrito:<\/p>\n<p><em>A morte \u00e9 brega. A doen\u00e7a tamb\u00e9m. Assim me dizia um paciente que morreu h\u00e1 poucos dias. Imagem de nobre, tinha a si pr\u00f3prio em alta estima. Ir\u00f4nico com a pr\u00f3pria vida e com a doen\u00e7a que carregava, enxergava nela marcas do pior dramalh\u00e3o mexicano, aquele das perucas, das peruas, dos choros incontidos, do solu\u00e7ar r\u00edtmico e aos soquinhos, que compunham o cen\u00e1rio das horas e das vezes em que esteve num hospital.<\/em><\/p>\n<p>Ao compartilhar conosco como se fez para ele a \u201cterceira pessoa\u201d, a que escuta um chiste e ap\u00f3s um momento de desconcerto ri, autorizando a subvers\u00e3o de sentido criada pela primeira, delega-nos essa fun\u00e7\u00e3o, permitindo compartilhar o medo e a dor envolvidos, assim como a coragem e o peculiar esp\u00edrito de humor do \u201ccondenado\u201d. No dizer de Nayra Ganhito (2009)<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[xvi]<\/a>, media\u00e7\u00e3o para o que \u00e9 da ordem do horror no psiquismo, que transforma o estranho em familiar.<\/p>\n<p>Em seu <em>Maioridade civil<\/em> (2015)<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[xvii]<\/a>, S\u00edlvia Nogueira de Carvalho ironizou a s\u00e9rie de medidas preconizadas para a economia da \u00e1gua no plano individual e dom\u00e9stico, diante do drama h\u00eddrico criado pela irresponsabilidade dos poderes p\u00fablicos. Para desmascarar a absurda insufici\u00eancia dessa abordagem, lan\u00e7ou m\u00e3o de uma lista par\u00f3dica:<\/p>\n<p>(&#8230;) <em>acrescente uma volta no parafuso da libera\u00e7\u00e3o feminina dos anos 60 e use e abuse dos vestidos compridos: permitem abolir a roupa \u00edntima<\/em><em>; <\/em><em>diante do medo de\u00a0o mar virar sert\u00e3o,\u00a0substitua seus vasos de flores ressecadas por cactos, dando um toque agreste \u00e0 decora\u00e7\u00e3o (&#8230;); inspire-se em Marilyn Monroe e vista apenas duas gotas de\u00a0<\/em>Chanel n. 5\u00a0<em>para dormir<\/em> (&#8230;)<\/p>\n<p>Por fim, as charges, que retiram sua especial pot\u00eancia humor\u00edstica da associa\u00e7\u00e3o de uma imagem caricata com um dito espirituoso \u2013 em especial as de Laerte e Henfil \u2013 t\u00eam pontuado de gra\u00e7a nossas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A quarta voz: desamparados inquietos<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>O circuito dos afetos, <\/em>Safatle (2015) lembra que o conceito freudiano de desamparo n\u00e3o se subsume ao estado afetivo inicial de impot\u00eancia a ser ultrapassado pelo pequeno sujeito humano; convida-nos a apreciar as pot\u00eancias de sua deriva\u00e7\u00e3o nos fen\u00f4menos de <em>estranhamento<\/em>; de <em>vulnerabilidade<\/em> diante da for\u00e7a do outro; de <em>incredulidade<\/em> decorrente da desagrega\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o de mundo religiosa (p. 69). Em refer\u00eancia a Mario Eduardo Costa Pereira (2008), sublinha que desacidentalizar o estado de desamparo em rela\u00e7\u00e3o ao evento traum\u00e1tico lhe confere estatuto fundamental na vida ps\u00edquica, a indicar limites e possibilidades dos processos de simboliza\u00e7\u00e3o (<em>ibidem<\/em>).<\/p>\n<p>Seria ent\u00e3o ao nos encontrarmos diante de acontecimentos contingentes \u2013 que n\u00e3o se podem prever de modo algum \u2013, envolvidos em rela\u00e7\u00f5es por despossess\u00e3o \u2013 sem garantia de saber como o outro reagir\u00e1 \u2013 que, mais al\u00e9m da busca de amparo, reconhecimento e prote\u00e7\u00e3o, nos manifestamos enquanto <em>desamparados inquietos<\/em>. Essa quarta voz invocaria o percurso de Mois\u00e9s, assinalado na desconstru\u00e7\u00e3o freudiana \u2013 do beb\u00ea embarcado na corredeira do rio at\u00e9 a travessia do estrangeiro que conduz o povo hebreu. Ela nos remeteria ainda \u00e0 transmuta\u00e7\u00e3o do <em>infans <\/em>do conto de Andersen, menino que libera a palavra a fim de dizer que o rei est\u00e1 nu.<\/p>\n<p>Respondendo \u00e0 <em>incredulidade<\/em> produzida no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional, em nossa edi\u00e7\u00e3o 38 (junho de 2016) escolhemos justamente a charge em que Laerte Coutinho articulou um dito popular \u2013 <em>Em terra de cego quem tem olho \u00e9 rei <\/em>\u2013 a esse conto de Andersen, figurando uma proposi\u00e7\u00e3o inaudita: Em terra de cego pouco importa se o rei est\u00e1 nu. Pois \u201c(&#8230;) nos encantamos diante da economia de meios que o artista disp\u00f5e para nos ensinar, ainda um pouco mais, sobre as fontes culturais pelas quais a interpreta\u00e7\u00e3o das vicissitudes do desejo tamb\u00e9m chega ao psicanalista\u201d.<\/p>\n<p>Diante da morte da colega Maria \u00c2ngela Santa Cruz, a equipe da Cl\u00ednica do Sedes (2016)<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[xviii]<\/a> invocou a figura de uma constru\u00e7\u00e3o-desconstru\u00e7\u00e3o, na afirma\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica-ru\u00edna, <em>Ao jeito de tapera<\/em>:<\/p>\n<p><em>(&#8230;) como a ru\u00edna de um poema de Manoel de Barros. Nele, um monge descabelado lhe diz: \u201cEu queria construir uma ru\u00edna. Embora eu saiba que ru\u00edna \u00e9 uma desconstru\u00e7\u00e3o. Minha ideia era fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode n\u00e3o ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser tamb\u00e9m de um gato no beco ou de uma crian\u00e7a presa num cub\u00edculo&#8230;<\/em><\/p>\n<p>A experi\u00eancia da vulnerabilidade moveu <em>Happy new ears<\/em>, em que S\u00edlvia Nogueira de Carvalho (2015)<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[xix]<\/a> invocou a supera\u00e7\u00e3o das viol\u00eancias surdas diante do assassinato dos cartunistas do <em>Charlie Hebdo:<\/em><\/p>\n<p><em>A princ\u00edpio se disse: &#8220;Je suis Charlie&#8221; &#8211; e assim se dizia &#8220;Eu sou esse jornal que a morte quis calar&#8221; (&#8230;), para que por fim entretanto passasse a haver muitos que dissessem: &#8220;Je suis flic&#8221;. Eu sou policial?! Subitamente transportados do tremor diante da intensidade da perda ao temor perante o cont\u00e1gio fascista, partimos em busca do rastro das palavras de colegas que viveram de perto os acontecimentos do 7 de janeiro franc\u00eas.<\/em><\/p>\n<p>Viol\u00eancia cotidianamente produzida no Brasil atual, no retorno contundente de <em>Um novo dogmatismo e a produ\u00e7\u00e3o da intoler\u00e2ncia<\/em> do qual falou Liane Pessin (2015)<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[xx]<\/a> ao abordar avalia\u00e7\u00f5es absolutas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida dos outros, que se imp\u00f5em com poucas possibilidades para um <em>talvez<\/em>:<\/p>\n<p><em>Vivemos em tempos de derrocada mundial das promessas do capitalismo. Neste contexto, nos \u00faltimos anos, no Brasil, experimentamos um abalo importante na estabilidade das posi\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es sociais. No conjunto destes deslocamentos se esgar\u00e7am os limites das formas at\u00e9 ent\u00e3o constitu\u00eddas, amea\u00e7ando o retorno do que precisa ficar oculto, no nosso caso, a fragilidade da sustenta\u00e7\u00e3o das promessas do projeto de um capitalismo de mercado na Am\u00e9rica Latina<\/em>.<\/p>\n<p>Como lembra Cristina Barczinski (2014)<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[xxi]<\/a> ao assistir Tchecov <em>\u00c0 beira do trampolim<\/em>, \u00e9 sempre misterioso fazer parte de um trabalho original: \u201cO mergulho na piscina, num ritual liberador para que Irina, Olga e Maria possam seguir em frente, atravessando um luto que precisa ser superado \u2013 o objeto perdido deixa marcas que podem inaugurar sentidos\u201d.<\/p>\n<p>Mergulho que foi, por fim, o da escrita-corpo de Mara Caff\u00e9 (2016)<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[xxii]<\/a> em <em>junho de 2016 no espa\u00e7o Inquieta\u00e7\u00f5es, <\/em>ao discutir sess\u00f5es psicanal\u00edticas por <em>Skype<\/em>:<\/p>\n<p><em>Terminamos o debate tarde da noite. Demorei a dormir, \u00e0s voltas com o turbilh\u00e3o de ideias disparadas na conversa. Nos dias seguintes, recebi alguns coment\u00e1rios dos alunos e colegas, e at\u00e9 mesmo um e-mail com novas quest\u00f5es, divertindo-me com o fato de que nossa discuss\u00e3o ganhou tamb\u00e9m a m\u00eddia virtual! Logo depois, a equipe do boletim prop\u00f4s que eu escrevesse sobre o encontro, o que me produziu certo d\u00e9j\u00e0 vu. H\u00e1 nove anos atr\u00e1s, a Percurso, e agora o boletim: volto \u00e0 escrita! (&#8230;) Bem, mas o que e como escrever sobre a minha experi\u00eancia?: \u201c<\/em><em>\u2013 <\/em><em>Forma livre, espa\u00e7o aberto&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>O boletim <\/strong><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>on<\/strong><\/span><strong>line como espa\u00e7o transversal<\/strong><\/p>\n<p>Endere\u00e7ado \u00e0 comunidade ampliada do Departamento, o boletim online transversaliza posi\u00e7\u00f5es institucionais <em>mais ou menos<\/em> verticais \u2013 articuladores, coordenadores, interlocutores, membros, aspirantes, ex-alunos, alunos \u2013 assim como diferentes grupos de trabalho <em>mais ou menos<\/em> horizontais. Tal constata\u00e7\u00e3o levou-nos a buscar, na pesquisa do antrop\u00f3logo Viveiros de Castro<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[xxiii]<\/a>, a figura do <em>xam\u00e3 transversal<\/em>, figura que Christian Dunker assimilou \u00e0 atividade <em>bricoleur<\/em> do psicanalista \u2013 na cl\u00ednica e na pol\u00edtica \u2013 e que aqui identificamos aos corpos coletivos da psican\u00e1lise, que nos tornam int\u00e9rpretes atentos da contemporaneidade.<\/p>\n<p>Fun\u00e7\u00e3o analista-analisante presente na voz de Nayra Ganhito (2015)<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[xxiv]<\/a> em <em>Do som ao redor<\/em>:<\/p>\n<p><em>Quando os acontecimentos e seus impasses nos agitam at\u00e9 a paralisia com rapidez e turbul\u00eancia crescentes, menos analistas do que analisandos, precisamos pensar com o outro, em tempo, para tentar formular aquilo que ainda n\u00e3o tem palavra. \u00c9 desta posi\u00e7\u00e3o angustiada de analisanda que procuro as minhas para tecer algumas notas acerca desse som <\/em><em>\u2013<\/em><em> ou ru\u00eddo <\/em><em>\u2013<\/em><em> de fundo que vibra ao nosso redor, \u00e0s vezes estridente como os panela\u00e7os e buzina\u00e7os de 15 de mar\u00e7o, \u00e0s vezes graves como o murm\u00fario de nossos pr\u00f3prios pensamentos, ou nas m\u00faltiplas vozes da des-informa\u00e7\u00e3o em tempo real que nos afeta, inunda e confunde.<\/em><\/p>\n<p>Quando Freud, numa famosa nota de 1915, se op\u00f5e \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o dos homossexuais como <em>degenerados<\/em>, o faz atrav\u00e9s de uma declara\u00e7\u00e3o de forte conota\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (Freud 1915\/1989, pp. 136-137):<\/p>\n<p><em>A investiga\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica op\u00f5e-se com toda firmeza \u00e0 tentativa de separar os homossexuais dos outros seres humanos como um grupo de \u00edndole singular (&#8230;) No sentido psicanal\u00edtico (&#8230;) o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher \u00e9 tamb\u00e9m um problema que exige esclarecimento, e n\u00e3o uma evid\u00eancia indiscut\u00edvel que se possa atribuir a uma atra\u00e7\u00e3o de base qu\u00edmica.<\/em><\/p>\n<p>Passados cem anos de postulada a bissexualidade constitutiva do sujeito, escutamos <em>Os mil sexos de Ta\u00eds, Jo\u00e3o, Candy Mel, Laerte&#8230;e de todos n\u00f3s,<\/em> na transversalidade da psicanalista documentarista Miriam Chnaiderman (2014)<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[xxv]<\/a>. Sobre a inquieta\u00e7\u00e3o que a levou a dirigir o premiado document\u00e1rio <em>De gravata e unha vermelha,<\/em> afirma:<\/p>\n<p><em>A figura da esfinge, homem e mulher, volta a viver. O fato de que \u00c9dipo tenha respondido ao enigma n\u00e3o a destruiu para todo sempre. Hoje, a figura da esfinge est\u00e1 presente nos corpos onde o feminino e o masculino se misturam, obrigando a repensar as diversas leituras de uma sexualidade que se construiria a partir do complexo de \u00c9dipo.<\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m transversal \u00e9 o trabalho do Movimento <em>Articula\u00e7\u00e3o das <\/em>diversas <em>Entidades Psicanal\u00edticas Brasileiras<\/em> que h\u00e1 16 anos luta contra tentativas de regulamentar a psican\u00e1lise como profiss\u00e3o, iniciativa poss\u00edvel atrav\u00e9s da reuni\u00e3o de 20 associa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas de todo o Brasil. Escritos de Ana Sigal e Cida Aidar, representantes do Departamento nesse movimento cujas entidades integrantes continuam a se manifestar em nome pr\u00f3prio, reacendem \u201cuma luta que a psican\u00e1lise leva em frente h\u00e1 muitos anos, com o objetivo de manter vivos seus princ\u00edpios e sua \u00e9tica: a psican\u00e1lise \u00e9 leiga, (&#8230;) e n\u00e3o admite uma regulamenta\u00e7\u00e3o de sua forma\u00e7\u00e3o e de sua pr\u00e1tica\u201d<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[xxvi]<\/a>.<\/p>\n<p>Paulo Endo e Edson Sousa (2013) lembram que a psican\u00e1lise surgiu na afirma\u00e7\u00e3o do inconsciente e da sexualidade como campos inexplorados de uma ci\u00eancia adormecida: \u201cFreud assumia assim o seu prop\u00f3sito de remar contra a mar\u00e9\u201d. Justamente para se opor \u00e0 ressaca conservadora vigente no Brasil contempor\u00e2neo, psicanalistas de inser\u00e7\u00f5es diversas se reuniram em abril no <em>Ato pela sustenta\u00e7\u00e3o da democracia<\/em>, fundamental para o exerc\u00edcio de um of\u00edcio afeito \u00e0 diversidade. No <em>Boletim<\/em> 37 ressoou a fala de Heidi Tabacof<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\">[xxvii]<\/a>:<\/p>\n<p><em>\u00c9 tempo de inventar modos de subjetividade democr\u00e1tica em larga escala, porque al\u00e9m de sustentar a democracia, estamos vendo que \u00e9 preciso produzi-la, atrav\u00e9s da convoca\u00e7\u00e3o da fala e da escuta, em verdadeiros debates. (&#8230;) s\u00f3 assim teremos a chance de operar mudan\u00e7as pol\u00edticas mais profundas e consistentes.<\/em><\/p>\n<p><em>Multiplicar Tato Pavlovsky <\/em>foi a dire\u00e7\u00e3o seguida na homenagem de Pedro Mascarenhas (2015)<a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\">[xxviii]<\/a> que aqui retransmitimos radiofonicamente:<\/p>\n<p>Masca passa para Kesselman, que n\u00e3o estava pronto e devolve para Pedro; Pedro agradece a Tato \u2013 <em>at\u00e9 sempre<\/em> \u2013 e chama Lancetti; na tabelinha com Losicer, Antonio lan\u00e7a para Osvaldo e Said\u00f3n dribla sua dor diante da morte do amigo<a href=\"#_edn29\" name=\"_ednref29\">[xxix]<\/a>:<em> As\u00ed que aguant\u00e1, dale, un poco m\u00e1s. Hoy todav\u00eda no quiero despedirte.<\/em><\/p>\n<p>Atravessado por diferentes temporalidades, faz quase dez anos que o boletim online procura transmitir a seus leitores uma rela\u00e7\u00e3o alegre com o saber. Por isto, na conclus\u00e3o deste trabalho, invocamos a <em>Aula<\/em> de Barthes (1977\/1978) para arriscar um renovado sentido para a qualidade fundamental de nosso Sedes: \u201c<em>Sapientiae<\/em>: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o m\u00e1ximo de sabor poss\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Barthes, R. (1978). Aula. S\u00e3o Paulo: Cultrix.<\/p>\n<p>Birman, J. (2005). O tr\u00e1gico e o c\u00f4mico na desconstru\u00e7\u00e3o do poder. In Kupermann, D. &amp; Slavutzky, A. <em>Seria tr\u00e1gico&#8230; se n\u00e3o fosse c\u00f4mico<\/em>: <em>humor e psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae (2016). <em>Boletim Online<\/em>. Jornal digital de membros, alunos, ex-alunos e amigos do Departamento. Acervo 2007-2016.<\/p>\n<p>Dunker, C. (2015). <em>Mal-estar, sofrimento e sintoma<\/em>. <em>A psicopatologia do Brasil entre muros<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n<p>Endo, P. &amp; Sousa, E. (2013). Itiner\u00e1rio para uma leitura de Freud. In Freud, S. <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu. <\/em>Porto Alegre: L&amp;PM.<\/p>\n<p>Equipe Editorial do <em>Boletim Online<\/em> (Cristina Barczinski, Elaine Arm\u00eanio, Maria Carolina Accioly, Mario Pablo Fuks, Nayra Ganhito e S\u00edlvia Nogueira de Carvalho) Escrita e circula\u00e7\u00e3o. <em>Boletim Online \u2013 Jornal digital de membros, alunos e ex-alunos do Departamento de Psican\u00e1lise<\/em>. Edi\u00e7\u00e3o 31, outubro de 2014.<\/p>\n<p>Freud, S. (1913\/2012) <em>Totem e tabu, Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico e outros textos (1912-1914)<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p>________. (1915 [1905]\/1989). Tr\u00eas Ensaios sobre Sexualidade. <em>Obras completas<\/em>, Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago.<\/p>\n<p>________ (1921\/2013). <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu. <\/em>Porto Alegre: L&amp;PM.<\/p>\n<p>________. (1927\/1989). O humor. <em>Obras completas, <\/em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago.<\/p>\n<p>________. (1939\/2014). <em>O homem Mois\u00e9s e a religi\u00e3o monote\u00edsta<\/em>. S\u00e3o Paulo: L&amp;PM.<\/p>\n<p>Fuks, M. P. (1997). Psican\u00e1lise, o futuro de uma des-ilus\u00e3o. http:\/\/egp.dreamhosters.com\/EGP\/132-psicanalise.shtml<\/p>\n<p>________ (2012) O estranho, a elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e a cria\u00e7\u00e3o cultural In Ferraz, F. C.; Barbero Fuks, L. &amp; Alonso, S. L. <em>Psican\u00e1lise em trabalho<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta.<\/p>\n<p>Kupermann, D. (2005). O humor entre companheiros de descren\u00e7a. In Kupermann, D. &amp; Slavutzky, A. <em>Seria tr\u00e1gico&#8230; se n\u00e3o fosse c\u00f4mico<\/em>: humor e psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Nogueira de Carvalho, S. Entre a for\u00e7a e o sentido: arte e psican\u00e1lise diante da dor dos outros. <em>Percurso 58, <\/em>junho de 2017.<\/p>\n<p>Ranci\u00e8re, J. (1996). O dissenso. In Novaes, A. <em>Crise da raz\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras; Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Cultura; Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Arte.<\/p>\n<p>Safatle, V. (2015). <em>O circuito dos afetos<\/em>: c<em>orpos pol\u00edticos, desamparo e o fim do indiv\u00edduo.<\/em> S\u00e3o Paulo: Cosac Naify.<\/p>\n<p>Viveiros de Castro, E. Xamanismo transversal: L\u00e9vi-Strauss e a cosmopol\u00edtica amaz\u00f4nica. in: Ruben Caixeta de Queiroz &amp; Renarde Freire Nobre (orgs.). <em>Le\u0301vi-Strauss: leituras brasileiras<\/em>. Belo Horizonte, Editora da UFMG.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Trabalho originalmente apresentado no evento <em>Entretantos 2, 30 anos de psican\u00e1lise e pol\u00edtica<\/em>, do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, outubro de 2016 pela Equipe Editorial do boletim online, corpo coletivo da \u00e1rea de Publica\u00e7\u00f5es fundado em 2007, respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o bimestral do jornal digital de membros, alunos e ex-alunos do Departamento de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Cristina Barczinski, Elaine Arm\u00eanio, Maria Carolina Accioly, Mario Pablo Fuks, Nayra Ganhito, S\u00edlvia Nogueira de Carvalho e Tide Set\u00fabal.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Paula Souza, D. Adeus \u00e0 linguagem, viva a linguagem. boletim online<em> 35<\/em>, agosto de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Oury, J. S\u00edndromes patopl\u00e1sticas. Institui\u00e7\u00e3o e estabelecimento. As diversas formas de aliena\u00e7\u00e3o. boletim online 11, novembro de 2009 (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=a6S4uZvMlL8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=a6S4uZvMlL8<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Cardiff, J. &amp; Miller, G. B. Forty Part Motet: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8mYyGUdvU-c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8mYyGUdvU-c<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Ao se perguntar &#8220;at\u00e9 que ponto\u00a0a psican\u00e1lise e o movimento psicanal\u00edtico (&#8230;) podem estar atravessados por \u2018ilus\u00f5es\u2019 equivalentes \u00e0s estudadas por Freud no texto de 1927, o qual se refere, principalmente, \u00e0 ilus\u00e3o religiosa&#8221;,\u00a0Mario Fuks se refere ao trabalho de desassujeitamento &#8211; de des-ilus\u00e3o &#8211; como processo que, entre outros, se ancoraria em &#8220;um poder de a\u00e7\u00e3o &#8211; um \u2018ato-poder\u2019, tal como define G\u00e9rard Mendel &#8211; que possibilite a sa\u00edda do imagin\u00e1rio infantilizante \u2018psicofamiliar\u2019. Ao rastrear as pistas claramente indicadas por Freud em <em>Totem e tabu\u00a0<\/em>e em <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu<\/em>, Fuks refere a supera\u00e7\u00e3o da neurose infantil da humanidade e a sa\u00edda da psicologia das massas respectivamente \u00e0s figuras dos &#8220;guerreiros parricidas que inventam poemas \u00e9picos&#8221; e dos &#8220;companheiros de descren\u00e7a que cultivam o humor&#8221;. Foi a partir de nossa leitura dessa formula\u00e7\u00e3o que come\u00e7amos a compor as tr\u00eas primeiras vozes aqui apresentadas. Aquilo que em 2012 o autor condensou na figura polif\u00f4nica da \u201ccomunidade de descrentes\u201d pareceu-nos interessante aos fins deste trabalho desdobrar, a fim de apresentar suas singulares modula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> A quarta voz adveio de nossa leitura de Safatle (2015), por sua precisa indica\u00e7\u00e3o do desamparo como posi\u00e7\u00e3o que pressup\u00f5e a afirma\u00e7\u00e3o da <em>conting\u00eancia<\/em> e da <em>err\u00e2ncia &#8211; <\/em>dispositivos de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do aprisionamento na expectativa de cuidado ou de repara\u00e7\u00e3o a ser constru\u00edda pelo outro.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> Breyton, D. &amp; Carvalho, A. Entrevistar Jean Oury. boletim online 11, abril de 2009.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> Melo, V. &amp; Aires, C. Fica preparado que se fechar, n\u00f3is ocupa. boletim online 37, abril de 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> Set\u00fabal, T. Frida Kahlo e o autorretrato: a busca por reconhecer-se. boletim online 36, novembro de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> Paula Souza, D.\u00a0 Fukushima <em>mon amour<\/em>. boletim online 33, abril de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a> <em>Gojira <\/em>(1954), nome original de <em>Godzilla<\/em> no Jap\u00e3o, \u00e9 um monstro gigante fict\u00edcio de filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e terror, que personifica o medo das armas nucleares. Criado por uma explos\u00e3o nuclear, seu imenso rugido, for\u00e7a e destrui\u00e7\u00e3o evocam a f\u00faria das bombas at\u00f4micas lan\u00e7adas em Hiroshima e Nagasaki.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a> Delorenzo, R. V\u00e9spera: quase no escuro. boletim online 39, setembro de 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a> Losicer, E. As consequ\u00eancias ps\u00edquicas da viol\u00eancia de Estado: da ditadura civil-militar aos tempos presentes. boletim online 39, setembro de 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a> Labaki, M. E. P. A morte \u00e9 brega. <em>In <\/em>Festa dos 30 anos do Sedes: outros escritos<em>. <\/em>boletim online 07, dezembro de 2008.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[xvi]<\/a> Ganhito, N. Uma visita estranha e familiar. boletim online 09, junho de 2009.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[xvii]<\/a> Nogueira de Carvalho, S. Maioridade civil. boletim online 33, abril de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[xviii]<\/a> boletim online 38, junho de 2016<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[xix]<\/a> boletim online 33, abril de 2015<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[xx]<\/a> Pessin, L. Um novo dogmatismo e a produ\u00e7\u00e3o de intoler\u00e2ncia: sustenta\u00e7\u00e3o man\u00edaca do triunfo na denega\u00e7\u00e3o dos fantasmas. boletim online 35, agosto de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[xxi]<\/a> Barczinski, C. \u00c0 beira do trampolim. boletim online 30, setembro de 2014.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[xxii]<\/a> Caff\u00e9, M. Junho de 2016 no espa\u00e7o Inquieta\u00e7\u00f5es: sess\u00f5es psicanal\u00edticas por <em>Skype.<\/em> boletim online 39, setembro de 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[xxiii]<\/a> \u201cOs xam\u00e3s que [o antrop\u00f3logo] Hugh Jones classifica de \u201chorizontais\u201d s\u00e3o especialistas cujos poderes derivam da inspira\u00e7\u00e3o e do carisma e cuja atua\u00e7\u00e3o, voltada para o exterior do <em>socius,<\/em> n\u00e3o est\u00e1 isenta de agressividade e de ambiguidade moral, t\u00edpicos de sociedades belicosas. A categoria dos xam\u00e3s \u201cverticais\u201d, por sua vez, compreende o que se costuma chamar de mestres cerimoniais, guardi\u00e3es do conhecimento esot\u00e9rico, guardi\u00e3es pac\u00edficos de um conhecimento esot\u00e9rico precioso, especialistas na condu\u00e7\u00e3o a bom termo dos processos de reprodu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es internas ao grupo (inicia\u00e7\u00e3o, nomina\u00e7\u00e3o, funerais) cuidador das rela\u00e7\u00f5es internas ao grupo, sociedades mais pac\u00edficas, semelhante a um sacerdote. (&#8230;) As diferen\u00e7as de potencial transformativo entre os seres s\u00e3o a raz\u00e3o de ser do xamanismo, mas nenhum ponto de vista \u00e9 equivalente a nenhum outro: o xamanismo horizontal n\u00e3o \u00e9 portanto \u201chorizontal\u201d mas sim <em>transversal<\/em>\u201d. Viveiros de Castro, Eduardo. \u201cXamanismo transversal: L\u00e9vi-Strauss e a cosmopol\u00edtica amaz\u00f4nica\u201d p. 19-23.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[xxiv]<\/a> Ganhito, N. C. P. Do som ao redor. boletim online 33, abril de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[xxv]<\/a> Chnaiderman, M. Os mil sexos de Ta\u00eds, Jo\u00e3o, Candy Mel, Laerte\u2026 e de todos n\u00f3s. boletim online 28, abril de 2014.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[xxvi]<\/a> Sigal. A.M &amp; Aidar, M. A. K. Notas para o <em>boletim <\/em>sobre a reuni\u00e3o do Movimento Articula\u00e7\u00e3o. boletim online 34, junho de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[xxvii]<\/a> Tabacof, H. Produ\u00e7\u00e3o de democracia \u2013 da pol\u00edtica na psican\u00e1lise \u00e0 psican\u00e1lise na pol\u00edtica. boletim online 37, abril de 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref28\" name=\"_edn28\">[xxviii]<\/a> Mascarenhas. P. Multiplicando Tato Pavlovsky. boletim online 36, outubro de 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref29\" name=\"_edn29\">[xxix]<\/a> Saidon, O. Todav\u00eda no. boletim online 36, outubro de 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pol\u00edticas de abertura da palavra no boletim online: uma publica\u00e7\u00e3o em homenagem a Mario.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[181,126],"edicao":[182],"autor":[196,197,86,115,198,133,135],"class_list":["post-2412","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-entretantos","tag-psicanalise-e-politica","edicao-boletim-66","autor-cristina-barczinski","autor-elaine-armenio","autor-maria-carolina-accioly","autor-mario-pablo-fuks","autor-nayra-ganhito","autor-silvia-nogueira-de-carvalho","autor-tide-setubal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2412","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2412"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2412\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2413,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2412\/revisions\/2413"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2412"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2412"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}