{"id":2497,"date":"2023-06-14T18:54:06","date_gmt":"2023-06-14T21:54:06","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2497"},"modified":"2023-06-16T21:09:00","modified_gmt":"2023-06-17T00:09:00","slug":"freud-e-os-nao-europeus-convite-a-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/06\/14\/freud-e-os-nao-europeus-convite-a-leitura\/","title":{"rendered":"Freud e os n\u00e3o-europeus: convite \u00e0 leitura"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong><em>Freud e os n\u00e3o-europeus<\/em><\/strong><strong> &#8211; convite \u00e0 leitura<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong> <strong>S\u00edlvia Nogueira de Carvalho<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(&#8230;) a cl\u00ed<\/em><em>nica psicanal<\/em><em>\u00edtica nunca esteve desenraizada. Ao contr\u00e1rio, a economia ps\u00ed<\/em><em>quica <\/em><em>\u2013 cuja moeda \u00e9 a libido e cujo lastro \u00e9 <\/em><em>a puls<\/em><em>\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 sem rela\u00e7\u00e3o com as estruturas normativas da sociedade, da cultura e da religi\u00e3o<\/em><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da modernidade marcou o empreendimento freudiano; para Joel Birman (2004, p. 23), sua maior contribui\u00e7\u00e3o para uma teoria da cultura se encontra no questionamento sistem\u00e1tico de qualquer concep\u00e7\u00e3o linear do processo de constru\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o, ao sublinhar a tens\u00e3o permanente entre os supostos registros do arcaico e do civilizado \u2013 tens\u00e3o que se encontra no fundamento de suas elabora\u00e7\u00f5es sobre o inconsciente e o recalque. A resultante maior dessa cr\u00edtica \u00e9 registrada em <em>O mal-estar na cultura<\/em> (1930), que aborda o mal-estar ocidental produzido na modernidade como um desdobramento de nosso modelo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do termo <em>n\u00e3o-europeu<\/em>, o intelectual palestino Edward Said (2004, pp. 45-72) designa, antes de tudo, o mundo para al\u00e9m dos lugares em que Freud viveu e trabalhou \u2013 a \u00c1ustria e a Inglaterra. Said situa Freud em um lugar e numa \u00e9poca em que o interesse pelo Outro (que certamente \u00e9 aquele que se encontra fora dos limites da raz\u00e3o, da conven\u00e7\u00e3o e da consci\u00eancia) se dava sobre um Outro identific\u00e1vel (da tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3; da cultura greco-romana), pois s\u00f3 de passagem o texto freudiano se refere \u00e0 China e \u00e0 \u00cdndia e os apontamentos etnogr\u00e1ficos em torno das culturas do Pac\u00edfico (australiana e africana) se circunscrevem \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o em torno da universalidade da proibi\u00e7\u00e3o do incesto (<em>Totem e tabu<\/em>, 1913). Neste sentido, seria poss\u00edvel dizer que Freud possu\u00eda uma vis\u00e3o euroc\u00eantrica da cultura, num mundo que ainda n\u00e3o havia sido tocado pela globaliza\u00e7\u00e3o, pelas viagens r\u00e1pidas e pela descoloniza\u00e7\u00e3o. Vale lembrar que ele viveu imediatamente antes dos deslocamentos populacionais em massa, que levariam indianos, africanos, turcos e curdos ao cora\u00e7\u00e3o da Europa.<\/p>\n<p>Num segundo sentido de <em>n\u00e3o-europeus<\/em>, politicamente mais carregado, Said se refere \u00e0 cultura que emergiu no per\u00edodo p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial (ap\u00f3s a queda dos imp\u00e9rios cl\u00e1ssicos e a emerg\u00eancia de v\u00e1rios povos e Estados rec\u00e9m-libertados na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9ricas), sentido este que o autor considera intensificar a radicalidade e a atualidade dos escritos freudianos sobre a identidade humana \u2013 que n\u00e3o se assenta em funda\u00e7\u00e3o s\u00f3lida. Tal radicalidade se manifesta na interessante e desafiadora vis\u00e3o que Freud tem de <em>Mois\u00e9s <\/em>\u2013 um <em>personagem<\/em> forasteiro, n\u00e3o-europeu (um n\u00e3o-judeu eg\u00edpcio) fundador da comunidade (judaica) que o adotou como l\u00edder; um <em>tratado<\/em> em que n\u00e3o se encontram resolu\u00e7\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o, mas complexidade e disposi\u00e7\u00e3o ao epis\u00f3dico, ao fragmentado, ao interminado &#8211; e que possibilita pensar o que foi historicamente deixado para tr\u00e1s se apresentando em comportamentos universais atrav\u00e9s do retorno do recalcado.<\/p>\n<p>De todo modo, ser\u00e1 algumas d\u00e9cadas depois que caber\u00e1 ao antilhano Frantz Fanon (nascido na Martinica, col\u00f4nia francesa, em 1925) destacar as rela\u00e7\u00f5es entre \u201cGuerras coloniais e desordens mentais\u201d(escrito como ap\u00eandice ao livro <em>Os condenados da terra, <\/em>1961), por exemplo ao anotar que, para os europeus, o mundo n\u00e3o-europeu cont\u00e9m apenas nativos: \u201cas mulheres de v\u00e9u, as palmeiras e os camelos comp\u00f5em o cen\u00e1rio, o pano de fundo natural para a presen\u00e7a humana dos franceses\u201d e constatar que tal nativo \u00e9 diagnosticado pelo psiquiatra cl\u00ednico europeu como um assassino selvagem que mata sem motivo. Assim, Fanon proclama:<\/p>\n<p><em>Deixe essa Europa na qual nunca terminam de falar do Homem, mas matam os homens onde quer que estejam, na esquina de cada uma de suas pr\u00f3prias ruas, em todas as esquinas do globo&#8230; A Europa assumiu a lideran\u00e7a do mundo com ardor, cinismo e viol\u00eancia. Veja como a sombra de seus pal\u00e1cios se estende ainda mais longe! Cada um de seus movimentos rompeu as barreiras do espa\u00e7o e do pensamento. A Europa declinou toda humildade e mod\u00e9stia; mas tamb\u00e9m se voltou contra toda solicitude e ternura&#8230; Quando busco o Homem na t\u00e9cnica e estilo da Europa, vejo apenas uma sucess\u00e3o de nega\u00e7\u00f5es do homem e uma avalanche de assassinatos.<\/em><\/p>\n<p>Mais uma vez, portanto, \u201ca hist\u00f3ria posterior reabre e questiona o que parece ter sido a finalidade de uma figura de pensamento anterior, colocando-a em contato com forma\u00e7\u00f5es culturais, pol\u00edticas e epistemol\u00f3gicas com as quais jamais sonhou o autor, n\u00e3o obstante filiada a ele pelas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas. Todo escritor \u00e9 tamb\u00e9m, evidentemente, um leitor de seus predecessores (&#8230;) e a din\u00e2mica muitas vezes surpreendente da hist\u00f3ria humana pode (&#8230;) dramatizar as lat\u00eancias numa forma ou figura anterior que de repente esclarecem o presente\u201d (Said, 2004, pp. 55-56).<\/p>\n<p>Tal <em>inclina<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o amorosa<\/em> sobre Freud<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> seria poss\u00edvel porque \u201cFreud \u00e9 um exemplo not\u00e1vel de um pensador para quem o trabalho cient\u00edfico constitu\u00eda (&#8230;) uma esp\u00e9cie de escava\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica do passado enterrado, esquecido, reprimido e negado (&#8230;) Freud foi um explorador da mente (&#8230;), mas tamb\u00e9m, no sentido filos\u00f3fico, um inversor e remapeador de geografias e genealogias aceitas ou estabelecidas. Ele assim se presta de maneira especial a releituras em contextos diferentes, j\u00e1 que o seu trabalho \u00e9, todo ele, sobre como a hist\u00f3ria da vida se presta, pela mem\u00f3ria, pesquisa e reflex\u00e3o, a uma estrutura\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o sem fim, tanto no sentido individual como coletivo. Que n\u00f3s, diferentes leitores de diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos, em contextos culturais diferentes, continuemos a faz\u00ea-lo em nossas leituras de Freud, me parece nada menos do que uma justifica\u00e7\u00e3o do poder que o seu trabalho tem para instigar novos pensamentos, bem como para iluminar situa\u00e7\u00f5es com que ele mesmo talvez jamais tenha sonhado\u201d (Said, 2004, p. 57).<\/p>\n<p>Por fim, na formula\u00e7\u00e3o de Jacqueline Rose (2004, p. 95): \u201cL\u00ea-se um autor hist\u00f3rico n\u00e3o pelo que ele deixou de ver, n\u00e3o pelas coisas que sua ideologia n\u00e3o conseguiu antever (&#8230;), mas pela hist\u00f3ria ainda-n\u00e3o-vivida, ainda-em-forma\u00e7\u00e3o, que sua vis\u00e3o \u2013 o que compreende necessariamente as limita\u00e7\u00f5es daquela vis\u00e3o \u2013 parcialmente, experimentalmente, prev\u00ea e provoca\u201d.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Birman, J. \u201cFreud e a pol\u00edtica, entre juda\u00edsmo e judeidade\u201d in: Said, E. <em>Freud e os n\u00e3o-europeus<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2004.<\/p>\n<p>Freud, S. (1912-1913) <em>Totem e tabu<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.<\/p>\n<p>________ (1930) <em>O mal-estar na cultura<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020.<\/p>\n<p>Rose, J. \u201cResposta a Edward W. Said\u201d in: Said, E. <em>Freud e os n\u00e3o-europeus.<\/em> S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2004.<\/p>\n<p>Said, Edward. <em>Freud e os n\u00e3o-europeus. <\/em>S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Ianinni, G. &amp; Tavares, P. H. Para ler o mal-estar in: <em>Freud, S. Cultura, sociedade, religi\u00e3o: O mal-estar na cultura e outros escritos \/ Obras incompletas de Sigmund Freud.<\/em> Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020, p. 11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Cf. Nogueira de Carvalho, S. \u201cDe ouvidos e olhos bem atentos: para localizar\u00a0<em>O momento presente<\/em>\u201d. In\u00a0<em>Boletim Online<\/em>\u00a045, abril de 2018:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=45&amp;ordem=18&amp;origem=ppag\">http:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=45&amp;ordem=18&amp;origem=ppag<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 autores contracoloniais porque nunca foram colonizados e h\u00e1 os que consentem com nossa decoloniza\u00e7\u00e3o porque l\u00ea-los nos provoca a olhar al\u00e9m do per\u00edodo hist\u00f3rico no qual se enraizaram.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[81],"tags":[54,83],"edicao":[202],"autor":[133],"class_list":["post-2497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura","tag-decolonial","tag-leituras","edicao-boletim-67","autor-silvia-nogueira-de-carvalho","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2497"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2497\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2621,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2497\/revisions\/2621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2497"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2497"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}