{"id":2506,"date":"2023-06-14T19:13:54","date_gmt":"2023-06-14T22:13:54","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2506"},"modified":"2023-06-16T21:07:36","modified_gmt":"2023-06-17T00:07:36","slug":"momento-de-celebracao-e-de-reflexao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/06\/14\/momento-de-celebracao-e-de-reflexao\/","title":{"rendered":"Momento de celebra\u00e7\u00e3o e de reflex\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Momento de c<\/strong><strong>elebra<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o e de r<\/strong><strong>eflex<\/strong><strong>\u00e3o<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Camila Munhoz<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 13 de maio de 2023, dia que marcou os 135 anos da assinatura da lei \u00e1urea pela Princesa Isabel, tivemos um belo encontro no Instituto Sedes Sapientiae para comemorar o lan\u00e7amento do livro <em>Testemunho e e<\/em><em>xperi<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia <\/em><em>t<\/em><em>raum<\/em><em>\u00e1<\/em><em>tica: <\/em><em>trauma em t<\/em><em>empos de <\/em><em>cat\u00e1<\/em><em>strofe<\/em> (Editora Escuta), organizado pelo Grupo de Trabalho e Pesquisa Faces do Traum\u00e1tico<strong>. <\/strong>Reagir e resistir a momentos hist\u00f3ricos terr\u00edveis e potencialmente traum\u00e1ticos exige, al\u00e9m de muita luta e muito pensamento, bons encontros, boa comida, boa bebida, boa m\u00fasica. Foi isso que fizemos no \u00faltimo dia 13. Embalados por m\u00fasicas de protestos brasileiras, uruguaias e argentinas lembramos que n\u00e3o nos entregamos \u00e0s ditaduras que assolaram a Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A mesa de aut\u00f3grafos acolheu, al\u00e9m de colegas do Departamento (Myriam Uchitel, Mara Caff\u00e9, Camila Munhoz, Clarissa Motta, Fl\u00e1via Steuer e Marina Figueiredo), colegas de outras paragens (Paulo Endo, do IP-USP e M\u00e1rcio Seligman-Silva, da Unicamp) e que, infelizmente, n\u00e3o p\u00f4de contar com Marcelo Checchia, tamb\u00e9m do IP-USP e Mariana Wikinski, colega argentina e parceira nas quest\u00f5es e teoriza\u00e7\u00f5es estudadas pelo Grupo Faces do Traum\u00e1tico. Como premissa, o grupo pensa que os la\u00e7os de afeto e de pensamento devem se fortalecer para dentro do Departamento ao mesmo tempo que para fora dele, de forma a manter sempre aberta a possibilidade de questionamento e teoriza\u00e7\u00e3o, que tende a se fechar se estamos apenas entre os mesmos.<\/p>\n<p>Mas voltemos ao dia 13 de maio. Essa data comemorativa carrega em si a tristeza de ter vindo antes tarde do que nunca. Al\u00e9m disso, encobre as sangrentas lutas pela aboli\u00e7\u00e3o encabe\u00e7adas pela popula\u00e7\u00e3o escravizada e seus apoiadores e ainda ignora que essa aboli\u00e7\u00e3o, da maneira como foi feita, trouxe no bojo a continua\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o de degrada\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o preta descendente dos escravizados e dos n\u00e3o escravizados. Pois foi justo nesse dia ambivalente que fizemos o lan\u00e7amento de um livro que se dedica a pensar como as sociedades, a cultura, a justi\u00e7a, os cidad\u00e3os, os sujeitos enfim, tentam elaborar ou, ao contr\u00e1rio, encobrir e negar, traumas hist\u00f3ricos vividos coletivamente, como as ditaduras e os genoc\u00eddios.<\/p>\n<p>Esse livro \u00e9 o registro de um evento organizado pelo Grupo Faces do Traum\u00e1tico em 2019. No evento foi projetado um trecho do document\u00e1rio <em>Orestes<\/em>, de Rodrigo Siqueira, que aponta como as viol\u00eancias de Estado cometidas durante a ditadura brasileira se perpetuam nas viol\u00eancias policiais exercidas principalmente sobre a popula\u00e7\u00e3o preta e perif\u00e9rica nos dias de hoje. Esse \u00e9 o disparador de muitos cap\u00edtulos: o que n\u00e3o \u00e9 reconhecido e elaborado pelas coletividades, se apresenta novamente.<\/p>\n<p>O hiato entre o evento e a publica\u00e7\u00e3o do livro remete a mais acontecimentos de grande impacto social e, consequentemente, individual. Em 2019 est\u00e1vamos no primeiro ano do terr\u00edvel governo Bolsonaro, em 2023 estamos no primeiro ano do governo Lula; entre um e outro vivemos uma pandemia sanit\u00e1ria agravada pela desigualdade que impera no Brasil e que atesta qu\u00e3o mal feita foi a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Se a situa\u00e7\u00e3o em si j\u00e1 era grave, sofremos ainda com a figura de um governo e de um governante que, sem diques para conter seu sadismo frente ao sofrimento alheio, re-traumatizou pessoas e fam\u00edlias com suas falas jocosas. A nega\u00e7\u00e3o da realidade por parte da sociedade e deste mesmo governo dificultou sobremaneira as possibilidades de registro e elabora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. Tempos de cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Mas cat\u00e1strofe remete tamb\u00e9m a uma transforma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria nos modos de pensar<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, traz em si o trauma e a reconstru\u00e7\u00e3o. Nosso departamento foi enriquecido por colegas que vieram de outros pa\u00edses por n\u00e3o poderem viver nos pr\u00f3prios por conta das ditaduras do s\u00e9culo XX que tomaram conta da Am\u00e9rica Latina. O Sedes sempre acolheu os resistentes. Por isso mesmo, \u00e9 digno de nota que apenas nos \u00faltimos anos p\u00f4de se dar conta de como n\u00e3o inclu\u00edamos entre estes os colegas psicanalistas negros que resistiam ao racismo. Por\u00e9m, nesses \u00faltimos 4 anos, al\u00e9m das experi\u00eancias tr\u00e1gicas vividas por todos n\u00f3s, pudemos ver o Departamento de Psican\u00e1lise ser transformado pelo <em>Grupo de Trabalho A cor do mal-e<\/em><em>star <\/em><em>\u2013 <\/em><em>Psican<\/em><em>\u00e1lise e Racismo, da dor do trauma ao l<\/em><em>etramento <\/em>que vem problematizando o encobrimento da quest\u00e3o racial justamente em um espa\u00e7o que sempre se colocou contra as injusti\u00e7as sociais. Hoje, o evento, que fizemos em 2019, talvez fosse bem diferente.<\/p>\n<p>A dificuldade de reconhecer e reparar uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvia em um espa\u00e7o que se prop\u00f5e democr\u00e1tico e cr\u00edtico \u00e9 a prova de que pensar sobre os mecanismos de apagamento do trauma e as possibilidades ou n\u00e3o de elabora\u00e7\u00e3o, objetivo do livro lan\u00e7ado, \u00e9 urgente e fundamental.<\/p>\n<p>Ao escolher as flores, as comidas e as m\u00fasicas do lan\u00e7amento, ao abra\u00e7ar os amigos que foram prestigiar o livro, sentimos que somos fortes para continuar a pensar, trabalhar e lutar contra os encobrimentos traum\u00e1ticos.<\/p>\n<p>* O livro pode ser encontrado no site da Editora Escuta: <a href=\"https:\/\/www.livrariapulsional.com.br\/testemunho-e-experiencia-traumatica-trauma-em-tempos-de-catastrofe-p1304\">https:\/\/www.livrariapulsional.com.br\/testemunho-e-experiencia-traumatica-trauma-em-tempos-de-catastrofe-p1304<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. Co-coordenadora do grupo de trabalho e pesquisa Faces do traum\u00e1tico, professora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma e integrante do grupo A cor do mal-estar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lewkowicz, I \u201cConceptualizaci\u00f3n de cat\u00e1strofe social. Limites e encrucijadas\u201d In: Waisbrot, D. et al, (Comp)<em> Cl\u00ednica Psicoanal\u00edtica ante las Catastrofes Sociales: la experiencia argentina<\/em>. Buenos Aires: paid\u00f3s, 2003, p. 63 a 70.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em torno do lan\u00e7amento do livro Testemunho e experi\u00eancia traum\u00e1tica. Por Camila Munhoz.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[134],"edicao":[202],"autor":[203],"class_list":["post-2506","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-publicacoes","edicao-boletim-67","autor-camila-munhoz","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2506","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2506"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2506\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2619,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2506\/revisions\/2619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2506"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2506"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2506"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2506"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2506"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}