{"id":2525,"date":"2023-06-14T21:10:30","date_gmt":"2023-06-15T00:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2525"},"modified":"2023-06-14T22:20:29","modified_gmt":"2023-06-15T01:20:29","slug":"homenagem-ao-mario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/06\/14\/homenagem-ao-mario\/","title":{"rendered":"Homenagem ao Mario"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Homenagem ao Mario<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Bruno Esposito<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Queria fazer aqui um breve depoimento a partir da minha experi\u00eancia com o Mario, algo que me possibilitou o privil\u00e9gio de v\u00ea-lo e acompanh\u00e1-lo de pontos de vista muito diferentes, de construir uma conviv\u00eancia bastante intensa, mas de \u00e2ngulos diversos, e de constatar <strong>como ele era um ser humano incr\u00edvel, fora de s\u00e9rie, em todas essas facetas dele<\/strong>.<\/p>\n<p>O primeiro ponto de vista do qual vi o Mario foi do ponto de vista da crian\u00e7a pequena que eu era quando j\u00e1 conviv\u00edamos. Evidentemente, a maioria de nossas fam\u00edlias que vieram da Argentina por for\u00e7a do ex\u00edlio n\u00e3o tinham fam\u00edlia biol\u00f3gica aqui no Brasil exceto a pr\u00f3pria fam\u00edlia nuclear, portanto fizemos dessa col\u00f4nia argentina a nossa fam\u00edlia. Ent\u00e3o o Mario era meu tio, impl\u00edcita ou explicitamente. E eu lembro muito de v\u00e1rias vezes dormir l\u00e1 na casa deles, acordar no quarto do Juli\u00e1n e irmos ao quarto do Mario e da Luc\u00eda, para assistir F\u00f3rmula 1 aos domingos. No caf\u00e9 da manh\u00e3 l\u00e1, foi ele que me ensinou a cortar ma\u00e7\u00e3, de um jeito muito minimalista e eficaz, s\u00f3 usando a palavra \u201cno\u201d quando eu posicionava a faca meio em dire\u00e7\u00e3o aos meus dedos, e assentindo com a cabe\u00e7a quando eu estava indo bem.<\/p>\n<p>Na minha adolesc\u00eancia, e tenho certeza que para todos os meus primos da col\u00f4nia argentina tamb\u00e9m, ele foi decisivo na nossa forma\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o pol\u00edtica. Sempre o vi como um cara completamente atravessado pela pol\u00edtica, implicado, um sujeito-pol\u00edtico. Dos incont\u00e1veis Dias das M\u00e3es, Dias dos Pais e Natais que pass\u00e1vamos juntos, na mesma mesa em que ele me ensinara a cortar ma\u00e7\u00e3, sempre surgia o assunto da pol\u00edtica, no sentido de uma leitura do social, que ele fazia de um jeito bel\u00edssimo num vaiv\u00e9m entre a trajet\u00f3ria militante dele na Argentina e o Brasil do momento em que est\u00e1vamos, alinhavando tudo pelo seu pensamento psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Mais ou menos no come\u00e7o da minha pr\u00e1tica cl\u00ednica no meu pr\u00f3prio consult\u00f3rio, eu e o Tomas Bonomi, querido amigo tamb\u00e9m aqui do Curso e do Departamento, decidimos escolher o Mario como nosso supervisor. Foram mais de cinco anos nos reunindo semanalmente, <strong>deslumbrados com a capacidade que ele tinha de pensar clinicamente sempre duas, tr\u00eas, quatro vezes na frente de qualquer outro cl\u00ednico. Mas compartilhava seu saber de uma forma absolutamente humilde, democr\u00e1tica, gentil. Tudo isso permeado por um interesse absolutamente genu\u00edno e generoso pelo nosso percurso, vibrando com cada conquista, cada novidade, cada avan\u00e7o. E acima de tudo, de um jeito muito afetuoso, e muito, muito, muito bem humorado, com a risada mais deliciosa e verdadeira que um ser humano pode ter, que temperava toda nossa experi\u00eancia com ele.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi um tempo de ver tamb\u00e9m seu corpo acusar o golpe, progressivamente, e assistirmos a batalha que ele travou t\u00e3o bem, e por tanto tempo, contra as limita\u00e7\u00f5es do seu pulm\u00e3o. Com a pandemia, evidentemente, somada \u00e0s suas fragilidades pulmonares, foram raras as oportunidades de encontr\u00e1-lo, mas, de novo em um Natal, em uma viagem que fizemos, tive a \u00faltima chance de conviver de maneira pr\u00f3xima com Mario.<strong> E foi surreal a minha percep\u00e7\u00e3o de como ele simplesmente tinha transcendido. Parecia que ele tinha pensado assim: j\u00e1 que eu n\u00e3o tenho um corpo que me ancore, vou virar pura alma, puro intelecto, pura vida, rela\u00e7\u00e3o. Ele fazia as reflex\u00f5es mais belas e mais profundas sobre a vida, a partir do que quer que fosse. <\/strong>Nessas, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que ele p\u00f4de aproveitar tudo ao m\u00e1ximo, at\u00e9 o \u00faltimo instante que teve, e n\u00f3s tamb\u00e9m o aproveitamos ao m\u00e1ximo, at\u00e9 o \u00faltimo instante&#8230; Foi um prazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homenagem ao Mario por Bruno Esposito[1] &nbsp; Queria fazer aqui um breve depoimento a partir da minha experi\u00eancia com o Mario, algo que me possibilitou o privil\u00e9gio de v\u00ea-lo e acompanh\u00e1-lo de pontos de vista muito diferentes, de construir uma conviv\u00eancia bastante intensa, mas de \u00e2ngulos diversos, e de constatar como ele era um ser [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[214],"tags":[],"edicao":[202],"autor":[208],"class_list":["post-2525","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","edicao-boletim-67","autor-bruno-esposito","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2525","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2525"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2525\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2526,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2525\/revisions\/2526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2525"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2525"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2525"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2525"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2525"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}