{"id":2534,"date":"2023-06-14T21:24:35","date_gmt":"2023-06-15T00:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2534"},"modified":"2023-06-16T21:20:03","modified_gmt":"2023-06-17T00:20:03","slug":"em-memoria-de-mario-pablo-fuks-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/06\/14\/em-memoria-de-mario-pablo-fuks-2\/","title":{"rendered":"Em mem\u00f3ria de Mario Pablo Fuks"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Em mem\u00f3<\/strong><strong>ria de Mario Pablo Fuks<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">p<strong>or S\u00edlvia Nogueira de Carvalho, pela equipe editorial do boletim <\/strong><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>on<\/strong><\/span><strong>line<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Boa noite. A discreta alegria de fazer-me escutar por esse audit\u00f3rio deriva do trabalho cotidianamente compartilhado com Adriana Dias, Camila Flaborea, Carmen Alvarez, Daniela Athuil, Fernanda Almeida e Nanci de Oliveira Lima, nossa equipe editorial do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line, a qual agrade\u00e7o, assim como \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do Jo\u00e3o Minetto. Cumprimento em especial Luc\u00eda Fuks, os companheiros de trabalho que se encontram nessa mesa e a diretoria desse Instituto. Felicito meus nove colegas na gest\u00e3o 2021-2023 do Conselho de Dire\u00e7\u00e3o do nosso Departamento, nossa secret\u00e1ria Claudia Dametta e a bibliotec\u00e1ria Selma Dias da Cruz, pela realiza\u00e7\u00e3o dessa homenagem \u00e0 vida e ao legado de Mario.<\/p>\n<p>Pois,\u00a0citando Ren\u00e9 Ka\u00ebs, em torno de \u201cTrauma e dessubjetiva\u00e7\u00e3o\u201d, um dia Mario escreveu:<\/p>\n<p>\u201c<em>n\u00e3o h\u00e1 luto estritamente privado, porque, embora qualquer trabalho de luto envolva a intimidade e a singularidade de cada sujeito, ele se d\u00e1 sempre sobre uma inscri\u00e7\u00e3o coletiva, social, cultural ou religiosa. Para isso est\u00e3o os rituais e os enunciados sobre a origem, sobre a morte ou sobre a rela\u00e7\u00e3o entre as gera\u00e7\u00f5es, que servem de apoio para o trabalho de luto<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Hoje abrem-se aqui algumas brechas que podemos aproveitar e pelas quais podemos avan\u00e7ar. Fiquem conosco \u2013 \u00e9 muito o que nos podem ajudar. Esta \u00e9 <\/em><em>a sua casa.<br \/>\n<\/em>Madre Cristina, 1977<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cPor uma hist\u00f3ria do curso de psican\u00e1lise\u201d, de 1988, \u00e9 o mais antigo escrito de Mario Pablo Fuks que conhecemos, publicado na edi\u00e7\u00e3o n. 1 da revista Percurso. Ali recolhemos a calidez e a for\u00e7a de solidariedade e de acolhimento das palavras da Madre Cristina Sodr\u00e9 D\u00f3ria, que foram sublinhadas pelo autor como motivo do sim que em 1977 lhe coube dizer ao Instituto Sedes Sapientiae, ao qual foi apresentado por Ana Maria Sigal e acompanhado por Luc\u00eda Barbero Fuks. O ent\u00e3o Curso de Psicoterapia de Orienta\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica, tramado pela madre como dispositivo de transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise para uma cl\u00ednica de voca\u00e7\u00e3o social, come\u00e7ara a existir havia apenas um ano e a importante crise que atravessava requeria que novos professores refor\u00e7assem o grupo inaugural. \u201cObviamente ficamos\u201d, registrou Mario, por fim assinalando: \u201cAqui foi, para mim, mais que um lugar fundamental de trabalho. Fiz aqui amigos \u2018entranh\u00e1veis\u2019, desses que n\u00e3o se perdem.\u201d<\/p>\n<p>Como dizer desse amigo que se foi, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/track\/1idr7HB4D2II52I7hXCZhO?si=-bdu5uT3SAKy9I5rps6npg\">Maninha<\/a><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>? Olhar azul, vivaz e profundo. Escuta afiada. Voz afinada ao viol\u00e3o. Postura\u00a0receptiva, respeitosa. Gosto pela reflex\u00e3o e pelo di\u00e1logo.\u00a0Faro fino, pensamento aceso. Desconcertante senso de humor.<\/p>\n<p>M\u00e9dico psiquiatra e psicanalista argentino formado em 1964 pela Universidade Nacional de Buenos Aires, Mario interessou-se pela psican\u00e1lise que se impregnara no ambiente cultural porte\u00f1o desde os anos 1950, e frequentou semin\u00e1rios e grupos com mestres j\u00e1 citados pela Ana (de Jos\u00e9 Bleger, Fernando Ulloa, \u00c1ngel Garma, Gilou Garcia Reynoso, Ra\u00fal Sciarretta, Isidoro Berenstein, assim como a Escola de Psicologia Social de Enrique Pichon-Rivi\u00e8re e o div\u00e3 de Diego Garc\u00eda Reynoso).\u00a0Gradativamente Mario tamb\u00e9m assumiu engajamento em organiza\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia ao golpe de Estado de 1966, antes como dirigente de gr\u00eamio, depois como professor na medicina e na psicologia e por fim como militante pol\u00edtico do peronismo revolucion\u00e1rio frente \u00e0 ditadura de 1976, ainda mais violenta que a anterior. Na articula\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica acompanhou a dissid\u00eancia do movimento Plataforma, em sua s\u00e9rie de questionamentos \u00e0 APA (Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Argentina), que levariam Marie Langer a dizer: \u201cPsican\u00e1lise ou Revolu\u00e7\u00e3o? J\u00e1 n\u00e3o fa\u00e7o essa op\u00e7\u00e3o. Escolho os dois.\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> Engajado na Federa\u00e7\u00e3o Argentina de Psiquiatras, Mario coordenou em Buenos Aires o Plano Piloto de forma\u00e7\u00e3o do Centro de Doc\u00eancia e Investiga\u00e7\u00e3o, da Coordenadoria de Trabalhadores da Sa\u00fade Mental.<\/p>\n<p>Ainda na Argentina, trabalhou no Servi\u00e7o de Psicopatologia do Hospital Dr. Gregorio Araoz Alfaro, na cidade de Lan\u00fas, que era dirigido por Mauricio Goldemberg sob um esp\u00edrito pluralista e democr\u00e1tico que constituiu um marco nas pr\u00e1ticas ligadas \u00e0 Sa\u00fade Mental. Lecionou Psicologia M\u00e9dica na Faculdade de Medicina da UNBA e, posteriormente, na Faculdade de Psicologia, at\u00e9 a interrup\u00e7\u00e3o devida \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar na Universidade em 1966. Em 1968, assumiu o cargo de m\u00e9dico-chefe do Departamento de Adultos do Servi\u00e7o de Psicopatologia do Policl\u00ednico de Lan\u00fas. Em 1974, coordenou o servi\u00e7o de cl\u00ednica psiqui\u00e1trica e interconsulta da c\u00e1tedra de Psicologia M\u00e9dica da Faculdade de Medicina no Hospital-Escola General San Martin.<\/p>\n<p>Radicado em S\u00e3o Paulo, Brasil desde 1977, foi professor do Curso de Psican\u00e1lise (1977-2022), membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae desde sua funda\u00e7\u00e3o, fundador do curso Psicoses: concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e estrat\u00e9gias institucionais (1993), coordenador do Curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea (1998-2021), integrante da Comiss\u00e3o de Admiss\u00e3o (1997-1999), articulador de Rela\u00e7\u00f5es Externas (2000-2002) e de Publica\u00e7\u00f5es (2007-2008) no Conselho de Dire\u00e7\u00e3o, integrante dos grupos de trabalho e pesquisa em Psican\u00e1lise e Contemporaneidade e em Problem\u00e1ticas Alimentares, membro da equipe editorial do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line por 16 anos (2007-2022), supervisor do Projeto de Pesquisa e Interven\u00e7\u00e3o em Anorexias e Bulimias, delegado do Departamento na FLAPPSIP no Congresso de Porto Alegre e integrante do grupo de apoio FLAPPSIP do nosso Departamento.<\/p>\n<p>Sua perspectiva de democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 psican\u00e1lise e larga experi\u00eancia no campo institucional possibilitaram significativa contribui\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica na \u00e1rea da Sa\u00fade Mental por meio de conv\u00eanios entre o Sedes e o Estado de S\u00e3o Paulo e depois, a Prefeitura.<\/p>\n<p>Extensa produ\u00e7\u00e3o intelectual acompanhou suas atividades formativas e cr\u00edticas \u2013 particularmente nos \u00e2mbitos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica e de seus dispositivos, do movimento psicanal\u00edtico e de sua deselitiza\u00e7\u00e3o, assim como da metapsicologia sociopol\u00edtica dos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>S\u00e3o 12 v\u00eddeos de comunica\u00e7\u00f5es orais e de entrevistas \u2013 em defesa da psican\u00e1lise e da permanente constru\u00e7\u00e3o de sua complexidade, em torno de sua hist\u00f3ria ou de seu di\u00e1logo com as ci\u00eancias sociais e a comunica\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>S\u00e3o 7 transcri\u00e7\u00f5es de suas participa\u00e7\u00f5es em debates do campo psicanal\u00edtico;<\/p>\n<p>\u00c9 sua biogr\u00e1fica entrevista <a href=\"http:\/\/www.bivipsi.org\/wp-content\/uploads\/percurso-2020-v32-n64-6.pdf\">Tempos sombrios novos: desafios para a psican\u00e1lise<\/a><a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> e s\u00e3o seus 9 artigos publicados em\u00a0 edi\u00e7\u00f5es (1, 2, 21, 35, 52, 56\/57, 63, 64 e 69) da revista Percurso,\u00a0 &#8211; nesta \u00faltima, edi\u00e7\u00e3o 69, j\u00e1 em sua homenagem;<\/p>\n<p>S\u00e3o seus 18 artigos publicados em livros de produ\u00e7\u00e3o interna, dos ciclos de debates dos cursos do Departamento, das jornadas do grupo do Feminino, do evento Ditadura civil-militar no Brasil: o que a psican\u00e1lise tem a dizer, e em livros e revistas de produ\u00e7\u00e3o externa;<\/p>\n<p>S\u00e3o suas homenagens, cr\u00f4nicas e aulas especificamente publicadas no boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line, cocriado com Lia Pitliuk, Natalia Gola e S\u00edlvia Nogueira de Carvalho em 2007 como espa\u00e7o de palavra fluida, resultante de nossa vida de desejo. E \u00e9 seu olhar cr\u00edtico e amoroso, que sempre tomou parte de nossa <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_ppag&amp;pub=54\">receita editorial<\/a>;<\/p>\n<p>S\u00e3o seus 5 escritos em coautoria para as 2 edi\u00e7\u00f5es do evento entretantos, de 2014 e de 2016, inclu\u00eddo Vozes em ato, a ser publicado como homenagem na edi\u00e7\u00e3o deste m\u00eas do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line;<\/p>\n<p>S\u00e3o os livros <em>Histeria<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/em>, coautoria com Silvia Alonso<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, hoje pr\u00e9-lan\u00e7ado em nova edi\u00e7\u00e3o revista e ampliada, como expressiva homenagem; <em>Atendimento psicanal\u00ed<\/em><em>tico da anorexia e bulimia<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, <\/em>coorganizado com Magdalena Ramos, o <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=09&amp;ordem=3&amp;origem=ppag\">Guia do Departamento de Psican\u00e1lise<\/a><a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><em>[8]<\/em><\/a>, coorganizado com Natalia Gola e S\u00edlvia Nogueira de Carvalho em desenho de Celso Longo e o livro <em>Psicopatologia psicanal\u00edtica e subjetividade contempor\u00e2nea<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/em>, que se encontra no prelo.<\/p>\n<p>S\u00e3o nomes de <em>schifs-brider<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a> <\/em>salpicados em seus escritos \u2013 os <em>irm\u00e3os de navio<\/em>, segundo a palavra recebida de seu pai para designar pessoas frente \u00e0s quais lhe sobrevinham especial afetividade e expressividade, tais como Marcelo Vi\u00f1ar, Helena Besserman Vianna, Leon Rozitchner, Emiliano Galende, Chaim Samuel Katz, Juan Carlos Volnovich, Eduardo Losicer \u2013 al\u00e9m dos incont\u00e1veis interlocutores em nosso Departamento e em suas proximidades, dentre os quais, <em>in memoriam<\/em>, Regina Schnaiderman;<\/p>\n<p>\u00c9 sua inolvid\u00e1vel participa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, cl\u00ednica, \u00e9tica, est\u00e9tica e pol\u00edtica na <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/arquivos_comunicacao\/Sedes%252520Miolo%252520Final%252520dupla.pdf\">Hist<u>\u00f3ria do Departamento de Psican\u00e1lise<\/u><\/a>;<\/p>\n<p>S\u00e3o 14 sess\u00f5es de cinema para as quais nos convidou a escutar seus personagens sociais \u2013 Um bonde chamado desejo<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>; O ovo da serpente<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>, A casa de Bernarda Alba<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kKiykbMCtRM\">Uma cidade sem passado<\/a><a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>; O enigma das cartas<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a>, Jurassic Park<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GrMzxXnfzxw\">Pasolini, um delito italiano<\/a><a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a>; O quarto poder<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a>, Central do Brasil<a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[19]<\/a>; Uma rela\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[20]<\/a>, A quest\u00e3o humana<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\">[21]<\/a>, Sobreviventes<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\">[22]<\/a>, Blue Jasmine<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[23]<\/a>, Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui<a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[24]<\/a>.<\/p>\n<p>S\u00e3o can\u00e7\u00f5es que Mario soprou pra n\u00f3s, \u00d4\u00f4\u00f4\u00f4\u2026. \u00c1\u00e1\u00e1\u00e1\u2026 com Chico Buarque, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/track\/2GAFZG9Z7UGS1iMm4Idrnr?si=jwo6GJIeQdmgB3E6nptm5A\">Apesar de voc\u00ea<\/a><a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[25]<\/a>; com Lenine, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/track\/6gBlkT2u5P7UyZUYH8WnKz?si=Jfcq6YVrRSmu2G-zBjEATA\">Paci\u00eancia<\/a><a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[26]<\/a>; com David Calderoni, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/track\/7M9tCn9rKtsk7nJT1qQ3Ci?si=d4FfeT1tQO-pnsa8jAPM5Q\">\u00daltimo Roque<\/a><a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\">[27]<\/a>; com Mercedes Sosa, <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/track\/0UKSse3fcKetDzXnXzE1Pv?si=yXjq9d7ZQICn0NK8NLneBw\">Gracias a la vida<\/a><a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\">[28]<\/a>, numa escuta para o comum.<\/p>\n<p>Dessa vida boa, nossa voz nos faz hoje testemunhas, em nome da equipe editorial do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Romeu e Julieta<\/em> (Ato 3, Cena 5):<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Julieta<br \/>\n<em>Voc\u00ea j\u00e1 tem que ir? O dia ainda demora. N\u00e3o foi a cotovia, foi o rouxinol<br \/>\n<\/em><em>que perfurou o seu ouvido temeroso. Ele costuma cantar na rom\u00e3zeira:<br \/>\n<\/em><em>foi ele que cantou, foi sim, amor.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira vez que visitei Mario no hospital era setembro. Curiosamente eu vestia vermelho e preto e ele, preto e vermelho\u2026 abordei o editorial que acabara de escrever para a edi\u00e7\u00e3o 64 do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line, nosso jornal digital. Contei-lhe da ousadia de haver citado Juli\u00e1n Fuks substituindo a terr\u00edfica palavra \u201cterrorista\u201d pelo codinome beija-flor. Referi a can\u00e7\u00e3o de Cazuza e mostrei-lhe a foto em que clicara um beija-flor aninhado entre as p\u00e1s de um ventilador. Ele foi direto: \u201cJ\u00e1 est\u00e1!\u201d. Editorial resolvido, Mario me olhou pensativo e perguntou, como quem n\u00e3o quer nada: \u201cBeija-flor \u00e9 como rouxinol?\u201d. Distra\u00edda, respondi simples n\u00e3o e seguimos conversando com Luc\u00eda.<\/p>\n<p>No dia seguinte, falamos sobre alguma outra coisa, e aproveitei para dizer: \u201cVoc\u00ea ontem perguntou se beija-flor era o mesmo que rouxinol, e fiquei pensando se tinha uma hist\u00f3ria de rouxinol pra contar, tem?\u201d Respondeu: \u201cTem! Romeu, no quarto de Julieta, tenta esticar a noite o mais que puder, mas sente o canto do rouxinol.\u201d<\/p>\n<p>Me socorri em Shakespeare, que consentiu que eu lhe dissesse: \u201cA sorte \u00e9 que nossos bairros s\u00e3o cheios de passarinhos, Mario; \u00e9 o rouxinol e n\u00e3o a cotovia\u201d. Eu assim reiterava a esperan\u00e7a comum de voltarmos a partilhar de um churrasco de seu filho Emiliano, de volta \u00e0 casa.<\/p>\n<p>Em novembro, ao arrematarmos o boletim 65, advertiu: \u201cSilvia: o editorial est\u00e1 muito bom mas a quantidade de not\u00edcias \u00e9 imensa\u2026 n\u00e3o sei se as pessoas v\u00e3o ler at\u00e9 o final. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei se h\u00e1 algo a fazer\u2026! A quantidade esmaga a primavera, os passarinhos\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Tratava-se ent\u00e3o da foto de Daniela Athuil, salpicada de passarinhos coloridos, com a qual remarc\u00e1vamos a alegria diante de um futuro poss\u00edvel no Brasil desde as recentes elei\u00e7\u00f5es presidenciais. E era toda dele essa grandeza de corrigir poeticamente.<\/p>\n<p>A \u00faltima vez que visitei Mario no hospital ele estava feliz, bem feliz. O evento das bodas de prata do curso de Psicopatologia, ocorrido uma semana antes, era seu grande motivo. Seguia pulsando nele. Achou gra\u00e7a em ter sido ent\u00e3o identificado a seus sonhos, preferindo sublinhar seu humor. Aquele humor com o qual nos disse, sobre escutar seu texto em outra voz, a voz de seu filho Juli\u00e1n: \u201cFoi lindo, como se fosse eu e n\u00e3o era eu!\u201d.<\/p>\n<p>Mario era capaz de tramar uma rede de afetos imensa. Como registrou sua filha Flor\u00eancia, cada um de n\u00f3s guarda uma parte de seu \u201cgrande legado de palavras, de mem\u00f3rias, de hist\u00f3rias\u201d. Trata-se de coloc\u00e1-las em movimento. Tal como no desenho de Le\u00f3n Ferrari, que tanto amava, ao figurar ondas de gente que se adensa numa dire\u00e7\u00e3o comum, revoada de p\u00e1ssaros que tra\u00e7a novos movimentos.<\/p>\n<p>Que juntos sejamos algo assim, po\u00e9ticos, \u00e9ticos, est\u00e9ticos, pol\u00edticos. Como se f\u00f4ssemos ele, sem s\u00ea-lo. Que sejamos gratos, a cada um de seus companheiros, e em especial \u00e0 sua esposa Luc\u00eda, por aquilo que de sua vida testemunham.<\/p>\n<p>Em 5 de dezembro, Mario partiu. Passada uma semana, 12 de dezembro, \u00e9 manh\u00e3 de segunda-feira outra vez. Janelas bem abertas, escuto o primeiro analisante do dia. S\u00fabito um passarinho adentra a sala no quinto andar, pousa por um instante sobre a persiana de madeira e se vai: uma andorinha, buscando o ver\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 isso.<\/p>\n<p>Solange: agora passo a palavra pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Adriana Dias, Camila Flaborea, Carmen Alvarez, Daniela Athuil, Fernanda Almeida, Nanci de Oliveira Lima e S\u00edlvia Nogueira de Carvalho.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Maninha, 1977, Chico Buarque. Referida em Psican\u00e1lise, o futuro de uma des-ilus\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Langer, M. Psican\u00e1lise e\/ou Revolu\u00e7\u00e3o in <em>Cuestionamos<\/em>\u00a0II.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Percurso 64, junho 2020.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Casa do Psic\u00f3logo, 2004.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Editora Artes\u00e3, 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Zagodoni, 2015.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Departamento de Psican\u00e1lise \/ Imageria, 2009.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Blucher, 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Cf. Trauma e dessubjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Um bonde chamado desejo, 1951, Elia Kazan. Referido no semin\u00e1rio Neuroses do Curso de Psican\u00e1lise, assim como no artigo Um bonde chamado&#8230; histeria, coautoria com Silvia Leonor Alonso.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> O ovo da serpente, 1977, Ingmar Bergman. Referido em Frente \u00e0 morte, frente ao mar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> A casa de Bernarda Alba, 1987, Mario Camus. Referido em A sexua\u00e7\u00e3o feminina da mulher na contemporaneidade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Uma cidade sem passado, 1990, Michael Verhoeven. Referido em Homenagem a Helena Besserman Vianna.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> O enigma das cartas, 1992, Michael Lessoc. Referido em Quest\u00f5es te\u00f3ricas na psicopatologia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Jurassic Park, 1993, Steven Spielberg. Referido em sonho de Emilio Rodrigu\u00e9, no qual Mario o interpelava: Transgress\u00f5es criativas: http:\/\/revistapercurso.com.br\/pdfs\/p27_debate.pdf<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Pasolini, um delito italiano, 1995, Marco Tullio Giordana. Referido em Homenagem a Helena Besserman Vianna.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> O quarto poder, 1997, Costa-Gavras. Referido em Mal-estar na contemporaneidade e patologias decorrentes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[19]<\/a> Central do Brasil, 1998, Walter Salles. Referido em Central do Brasil: vicissitudes da subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[20]<\/a> Uma rela\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica, 1999, Fr\u00e9d\u00e9ric Fonteyne, referido em A sexua\u00e7\u00e3o feminina da mulher na contemporaneidade, coautoria com professores do Curso de Psicopatologia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[21]<\/a> A quest\u00e3o humana, 2007, Nicolas Klotz. Referido em Trauma e dessubjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[22]<\/a> Sobreviventes, 2008, Miriam Chnaiderman e Reinaldo Pinheiro. Referido em Trauma e dessubjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[23]<\/a> Blue Jasmine, 2013, Woody Allen. Referido em Um bonde chamado&#8230; histeria, coautoria com Silvia Leonor Alonso.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[24]<\/a> Voc\u00ea n\u00e3o estava aqui, 2019, Ken Loach. Referido em Tempos sombrios novos: desafios para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[25]<\/a> Apesar de voc\u00ea, 1970, Chico Buarque. Referida em Apresenta\u00e7\u00e3o do livro <em>Ditadura civil-militar no Brasil: o que a psican\u00e1lise tem a dizer.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[26]<\/a> Paci\u00eancia, 1999, Lenine. Referida pela Equipe do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea em Uma experi\u00eancia constru\u00edda com os alunos do curso&#8230;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[27]<\/a> Faixa do disco Via\u00e7\u00e3o, 1998, David Calderoni. Compositor: David Calderoni. M\u00fasicos: F\u00e1bio Torres (teclados), Al\u00ea Siqueira (guitarra), David Calderoni (viol\u00e3o), Ximba Uchiyama (baixo el\u00e9trico), Luis Antunes (bateria), Christof Gunkel (coro), Cleusa Pavan (coro), Mario Fuks (coro).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref28\" name=\"_edn28\">[28]<\/a> Gracias a la vida, 1966, Violeta Parra, na voz de Mercedes Sosa. Referida no <a href=\"https:\/\/boletimpsicanalise.sedes.org.br\/edicao\/boletim-65\/\">editorial do boletim online 65<\/a>, novembro 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mem\u00f3ria de Mario Pablo Fuks por S\u00edlvia Nogueira de Carvalho, pela equipe editorial do boletim online[1] \u00a0 Boa noite. 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