{"id":2538,"date":"2023-06-14T21:33:49","date_gmt":"2023-06-15T00:33:49","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2538"},"modified":"2023-06-16T21:14:33","modified_gmt":"2023-06-17T00:14:33","slug":"homenagem-a-mario-fuks-recuperando-lembrancas-de-sua-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/06\/14\/homenagem-a-mario-fuks-recuperando-lembrancas-de-sua-historia\/","title":{"rendered":"Homenagem a Mario Fuks:\u00a0recuperando\u00a0lembran\u00e7as de sua hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Homenagem a Mario Fuks:\u00a0<\/strong><strong>recuperando\u00a0<\/strong><strong>lembran\u00e7as de sua hist\u00f3ria<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Maria Sigal<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Queridos amigos, estamos aqui reunidos para recordar e homenagear Mario Fuks, um guerreiro inteligente, perspicaz e sens\u00edvel que dedicou sua vida a lutas que deixariam marcas em sua hist\u00f3ria e na nossa.<\/p>\n<p>Ao se perder um grande amigo, um companheiro de vida, um irm\u00e3o\u00a0de\u00a0cora\u00e7\u00e3o, se perde um peda\u00e7o nosso, mas n\u00e3o se perde uma hist\u00f3ria. Recordar significa manter vivo seu legado; \u00e9 por isto que trago algumas lembran\u00e7as das ra\u00edzes do trabalho de Mario na Argentina, antes de chegar ao Brasil, que explicam sua inser\u00e7\u00e3o no Sedes e no Curso de Psican\u00e1lise. Vou faz\u00ea-lo a partir do conhecimento de partes de sua hist\u00f3ria, derivado de um caminho e de trabalhos que compartilhamos e que desenvolvemos juntos.<\/p>\n<p>Minha hist\u00f3ria com Mario tem duas vertentes:\u00a0n\u00f3s nos conhecemos em 1966, h\u00e1 57 anos. Desde essa\u00a0\u00e9poca nos uniram duas\u00a0grandes paix\u00f5es,\u00a0a\u00a0Psican\u00e1lise e a Pol\u00edtica. Mario tinha\u00a0uma forma\u00e7\u00e3o marxista e isso o levou a assumir pap\u00e9is pol\u00edticos na hist\u00f3ria de nosso pa\u00eds, mas tamb\u00e9m o defrontou com a exig\u00eancia de questionar a psican\u00e1lise, que sempre pensou como um saber vivo e em permanente mudan\u00e7a, comprometida com seu momento hist\u00f3rico. <strong>Em psican\u00e1lise se dedicou \u00e0 pol\u00edtica da cl\u00ednica, \u00e0 pol\u00edtica da teoria e \u00e0 pol\u00edtica da forma\u00e7\u00e3o.<\/strong> Na cl\u00ednica pensava em como usar seu conhecimento para criar novas formas de inser\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o de uma popula\u00e7\u00e3o mais ampla, desenvolvendo politicas p\u00fablicas; na teoria, a refletir sobre o modo como os la\u00e7os sociais marcam quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas e metapsicol\u00f3gicas do texto freudiano e, na pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o, questionando estruturas hier\u00e1rquicas e antidemocr\u00e1ticas presentes nos institutos de ensino. A psican\u00e1lise nos permite captar o homem na sua singularidade, mas esta \u00e9 a singularidade de sua exist\u00eancia hist\u00f3rica e de sua inclus\u00e3o como ser social. Mario n\u00e3o se furtou delas. Nenhum produto humano que se rege pelo desejo pode ser neutro, ainda que os lugares\u00a0de\u00a0milit\u00e2ncia tenham sua especificidade. Era militante na\u00a0cidadania e militante na especificidade de seu of\u00edcio.<\/p>\n<p>Nos anos 70 trabalhamos\u00a0nas\u00a0\u201cequipes pol\u00edtico-t\u00e9cnicas\u201d:\u00a0grupos\u00a0de\u00a0superf\u00edcie do movimento Juventude Peronista, que pertencia \u00e0 esquerda do peronismo revolucion\u00e1rio. Nestas equipes se inseriam profissionais de todas as \u00e1reas, oferecendo\u00a0seu conhecimento para promover maior justi\u00e7a social; em seu caso, se dedicou \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas relacionadas \u00e0 sa\u00fade mental e \u00e0 luta antimanicomial.\u00a0Este bra\u00e7o do peronismo encampou muitos trabalhos na universidade e al\u00e9m de atender companheiros entrosados na luta pol\u00edtica, que n\u00e3o pertenciam \u00e0\u00a0superf\u00edcie, apoiava trabalhos nas favelas, nos\u00a0corti\u00e7os, nas unidades b\u00e1sicas e nos hospitais. Mario tinha uma inser\u00e7\u00e3o importante nos hospitais gerais e nos hospitais psiqui\u00e1tricos. O hospital Lan\u00fas foi um lugar fundamental de pertencimento para Mario, tanto no trabalho pol\u00edtico quanto psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p>Assumiu fun\u00e7\u00f5es na cadeira de Psicologia M\u00e9dica da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires, onde me convidou a trabalhar. Criou-se ali uma marca hist\u00f3rica, ao se oferecer o atendimento vespertino no Hospital das Cl\u00ednicas, que funcionava das 19 \u00e0s 22 horas para possibilitar que os trabalhadores n\u00e3o precisassem pedir dispensa do trabalho para serem atendidos, o que evitava a estigmatiza\u00e7\u00e3o do sujeito como doente mental num tempo em que esse diagn\u00f3stico se aplicava a todos os que buscavam a psican\u00e1lise para enfrentar seus conflitos. Tamb\u00e9m se ensinava psican\u00e1lise para sensibilizar a escuta dos m\u00e9dicos e usar a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dico e paciente como ferramenta fundamental para entender o doente, mais al\u00e9m de sua doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A ditadura avan\u00e7ava nos por\u00f5es e, com o golpe de Estado de 24 de mar\u00e7o de 1976, foi poss\u00edvel trabalhar por apenas mais alguns meses exilados no nosso pr\u00f3prio\u00a0pa\u00eds, pois no meio do ano esta possibilidade se fez insustent\u00e1vel e tivemos que nos exilar. Cheguei ao Brasil em julho de 1976, Mario chegou com Luc\u00eda em maio de 1977, quando eu j\u00e1 estava em contato com Regina, Miriam e outros colegas brasileiros. Nos encontramos por acaso em um bar que ficava na avenida Ang\u00e9lica com a rua Maranh\u00e3o e a alegria foi grande ao nos sabermos vivos, pois a ditadura dizimava nossos grupos de trabalho e a amea\u00e7a \u00e0s vidas tinha uma cotidianidade iminente. A Am\u00e9rica Latina estava sendo tomada pelo imperialismo que se prop\u00f4s \u00e0\u00a0sistem\u00e1tica\u00a0tarefa\u00a0de desarticular\u00a0os movimentos de esquerda que tinham se desenvolvido; a esta altura, a ditadura civil-militar brasileira se encontrava em vias de arrefecimento. Depois desse encontro\u00a0convidei-os a conhecerem Regina e o Sedes e eles se somaram ao novo projeto que estava se gestando. Posteriormente uniu-se a n\u00f3s Silvia Alonso, que chegou ao Brasil em dezembro de 1976, e se incorporou ao nosso curso em 1979, assim como foram se aproximando com o tempo outras colegas exiladas, como Isabel Vilutis e Cristina Ocariz. Todos\u00a0traz\u00edamos uma origem comum de milit\u00e2ncia e de participa\u00e7\u00e3o nos movimentos que questionavam a psican\u00e1lise nas suas estruturas de poder. V\u00ednhamos de uma rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com a Sociedade de Psican\u00e1lise e suas estruturas formais\u00a0e pens\u00e1vamos na possibilidade de forma\u00e7\u00e3o de analistas fora dos marcos tradicionais. Mario trabalhou no grupo de Doc\u00eancia e Investiga\u00e7\u00e3o, grupo que dependia da Federa\u00e7\u00e3o de Psiquiatras dirigido por Emilio Rodrigu\u00e9 e que depois se transformou no grupo de Trabalhadores da Sa\u00fade Mental, fundamentalmente dando supervis\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o &#8211; espa\u00e7o que tamb\u00e9m compartilh\u00e1vamos. Ali se desenvolviam trabalhos cl\u00ednicos e institucionais engajados em projetos sociais e pol\u00edticos das popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas. Outros colegas que se uniram a n\u00f3s aqui no Brasil vinham de experi\u00eancias semelhantes desenvolvidas em outras institui\u00e7\u00f5es. Silvia trabalhava com Armando Bauleo no servi\u00e7o de Psiquiatria e Psicohigiene de uma maternidade p\u00fablica, aprofundando-se nas quest\u00f5es da feminilidade e se dedicava \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de analistas; Luc\u00eda trabalhava com Mario no hospital Lan\u00fas, importante centro de atendimento e forma\u00e7\u00e3o e refer\u00eancia em Buenos Aires, onde se conheceram e formaram uma vida em comum. Silvia e Luc\u00eda se conheciam desde a Argentina, onde juntas participaram do EPSO, institui\u00e7\u00e3o criada por Gregorio Baremblit dedicada \u00e0 transmiss\u00e3o. Esses projetos que todos traz\u00edamos tiveram sua continuidade em nosso engajamento no Sedes. Acontecia ent\u00e3o o enfrentamento feito ao poder da IPA pelos grupos Plataforma e Documento, movimento encampado por nossos analistas, supervisores e colegas de trabalho com os quais Mario compartilhava a realidade desse per\u00edodo hist\u00f3rico. Jos\u00e9 Bleger,\u00a0Marie\u00a0Langer, Emilio\u00a0Rodrigu\u00e9, Diego Garcia\u00a0Reinoso,\u00a0Gilou\u00a0Garcia Reinoso,\u00a0Fernando Uchoa, Gregorio\u00a0Baremblit,\u00a0Armando\u00a0Bauleo, Tato Pavlosky\u00a0foram alguns de nossos grandes companheiros; Pichon-Rivi\u00e8re era refer\u00eancia de todos eles.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca j\u00e1 existiam liga\u00e7\u00f5es\u00a0entre\u00a0brasileiros e argentinos que compartilhavam um pensamento comum. Helena Vianna, expulsa da Sociedade de Psican\u00e1lise por denunciar um torturador psicanalista que apoiava a ditadura, encontrou apoio nos movimentos argentinos que a ajudaram a avan\u00e7ar e a se defender nesta investiga\u00e7\u00e3o. No Brasil tamb\u00e9m estavam acontecendo grandes mudan\u00e7as na pol\u00edtica e na psican\u00e1lise, o que proporcionou a Mario\u00a0\u201cum bom encontro\u201d na sua chegada. Foi aberta e amorosamente recebido por Madre Cristina e Regina Schnaiderman, articuladas com Roberto Azevedo e Isaias Melsohn na organiza\u00e7\u00e3o de um curso de forma\u00e7\u00e3o abrangente, que abrisse espa\u00e7o para acolher grande n\u00famero de profissionais inseridos no campo da sa\u00fade mental e desejosos de aprofundar sua forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Aqui encontrou\u00a0ainda te\u00f3ricos que vinham trabalhando estas quest\u00f5es e esse\u00a0contato\u00a0com Helio Pelegrino, Eduardo Mascarenhas,\u00a0Jurandir\u00a0Freire Costa, Chaim Katz e outros lhe permitiu aprofund\u00e1-las ainda mais e conhecer mais profundamente o percurso de psican\u00e1lise no Brasil. O curso que estava se criando recebeu muitos colegas mais jovens que vieram a formar parte deste nosso espa\u00e7o de compromisso\u00a0pol\u00edtico com a psican\u00e1lise, alguns dos quais foram se incorporando posteriormente como professores.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida voc\u00eas podem conhecer mais desta hist\u00f3ria atrav\u00e9s do livro da\u00a0Hist\u00f3ria do Departamento de Psican\u00e1lise. O que quero enfatizar \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o de Mario, engajada e fundamental. Ele\u00a0tamb\u00e9m tinha excelente forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e de milit\u00e2ncia, formou parte de grupos de estudo com Sciarretta, professor que formou muitos de n\u00f3s em Marx e Lacan. Mas ele\u00a0tinha sobretudo uma capacidade de an\u00e1lise que ajudava a encontrar caminhos prof\u00edcuos. Nosso curso e nosso departamento sofreram muitas dificuldades e Mario sempre foi uma luz que ajudava a encontrar caminhos: agudo,\u00a0inteligente e\u00a0perspicaz.<\/p>\n<p>Sentiremos saudades, mas a luta continua. Salve,\u00a0Mario,\u00a0voc\u00ea\u00a0estar\u00e1 sempre na nossa mem\u00f3ria! Foi um privil\u00e9gio ter percorrido com voc\u00ea uma hist\u00f3ria, foi uma alegria ter voc\u00ea no curso e no Departamento de Psican\u00e1lise para seguir sua hist\u00f3ria e construir a\u00a0nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise e co-coordenadora no curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homenagem a Mario Fuks:\u00a0recuperando\u00a0lembran\u00e7as de sua hist\u00f3ria por Ana Maria Sigal[1] &nbsp; Queridos amigos, estamos aqui reunidos para recordar e homenagear Mario Fuks, um guerreiro inteligente, perspicaz e sens\u00edvel que dedicou sua vida a lutas que deixariam marcas em sua hist\u00f3ria e na nossa. 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