{"id":2549,"date":"2023-06-14T22:04:44","date_gmt":"2023-06-15T01:04:44","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2549"},"modified":"2023-06-16T20:56:12","modified_gmt":"2023-06-16T23:56:12","slug":"alisamento-trauma-e-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/06\/14\/alisamento-trauma-e-sintoma\/","title":{"rendered":"Alisamento: trauma e sintoma"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Alisamento: trauma e sintoma<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Carla Carneiro<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cO cabelo do negro na sociedade brasileira expressa o conflito racial vivido por negros<br \/>\ne brancos em nosso pa\u00eds. E\u0301 um conflito coletivo do qual todos participamos.<br \/>\nConsiderando a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do racismo brasileiro, no caso dos negros o<br \/>\nque difere e\u0301 que a esse segmento \u00e9tnico\/racial foi relegado estar no po\u0301lo daquele<br \/>\nque sofre o processo de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural e ao branco estar<br \/>\nno p\u00f3lo dominante. Essa separa\u00e7\u00e3o r\u00edgida n\u00e3o e\u0301 aceita passivamente pelos negros.<br \/>\nPor isso, pr\u00e1ticas pol\u00edticas s\u00e3o constru\u00eddas, pr\u00e1ticas culturais s\u00e3o reinventadas. O<br \/>\ncabelo do negro, visto como \u201cruim\u201d, e\u0301 express\u00e3o do racismo e da desigualdade<br \/>\nracial que recai sobre esse sujeito. Ver o cabelo do negro como \u201cruim\u201d e do branco<br \/>\ncomo \u201cbom\u201d expressa um conflito. Por isso, mudar o cabelo pode significar a<br \/>\ntentativa do negro de sair do lugar da inferioridade ou a introje\u00e7\u00e3o deste. Pode<br \/>\nainda representar um sentimento de autonomia, expresso nas formas ousadas e<br \/>\ncriativas de usar o cabelo\u201d.<br \/>\n(GOMES, Nilma Lino. <strong>Sem perder a raiz: corpo e cabelo como s\u00edmbolos<br \/>\nda identidade negra).<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha inten\u00e7\u00e3o ao me inscrever para o curso Conflito e Sintoma foi amealhar recursos que me ajudassem a compreender melhor o mundo&#8230; e eu. Ou seja: o lugar de onde parto \u00e9 o de ignor\u00e2ncia e curiosidade. N\u00e3o por acaso, o processo todo se revelou um desafio, desde a escolha do tema.<\/p>\n<p>Em um horizonte t\u00e3o cheio de perguntas, de n\u00e3o entendimentos e assombros, por onde come\u00e7ar? Como pensar conceitos psicanal\u00edticos n\u00e3o tendo qualquer experi\u00eancia na cl\u00ednica sen\u00e3o como analisanda? Como articular os conceitos que estudamos no curso com minhas observa\u00e7\u00f5es cotidianas? Na expectativa de que esse esfor\u00e7o me ajudasse a compreender melhor tanto os conceitos quanto o mundo, escolhi examinar algo com o que tenho contato h\u00e1 alguns anos: o cabelo crespo e os processos de modifica\u00e7\u00e3o por que ele passa. Trabalhando com pesquisa de mercado voltada para o p\u00fablico negro, esse \u00e9 um assunto recorrente e que ainda me provoca inquieta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na minha \u00e1rea de trabalho o objetivo final \u00e9 um olhar para o coletivo, num exerc\u00edcio de s\u00edntese: busca-se identificar as percep\u00e7\u00f5es gerais e os movimentos de um determinado conjunto de pessoas, as din\u00e2micas e for\u00e7as sociais que impulsionam esses movimentos. Mas o processo de trabalho \u00e9 bastante mais anal\u00edtico e individual: s\u00e3o entrevistas pessoais ou conversas em pequenos grupos, em que sou impactada por sinais de outra ordem: a escolha das palavras, a din\u00e2mica das entrevistas, os olhares, os gestos, as est\u00f3rias individuais que apontam que h\u00e1 mais acontecendo ali do que consigo alcan\u00e7ar. Algo do singular, do interno, que n\u00e3o tem utilidade para a pesquisa de mercado, mas que me incomoda, me interpela, e n\u00e3o consigo entender.<\/p>\n<p>Escolhi algumas falas dessas entrevistas, em recortes de cenas narradas, como material de apoio para explorar alguns conceitos que vimos no curso. As perguntas que me guiaram foram: Ser\u00e1 que essas cenas podem ser articuladas de alguma maneira com o conceito de sintoma neur\u00f3tico? Se sim, de que maneira? O que h\u00e1 de neurose e de trauma aqui nas cenas escolhidas? O quanto esses conceitos podem de fato ser mobilizados para explicar um comportamento recorrente em um grupo, e o quanto ter\u00e3o utilidade apenas se aplicados \u00e0s est\u00f3rias individuais?<\/p>\n<p>Comecei esse trabalho com o intuito de classificar, organizar, apreender, sistematizar. E, ainda, com a intui\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o era disso que se tratava \u2013 que o trabalho seria t\u00e3o mais produtivo quanto mais eu me dedicasse a percorrer caminhos que j\u00e1 foram percorridos, como algu\u00e9m que, para aprender pintura, copia um mestre. Com ajuda, consegui compreender isso. O que trago aqui para dividir com voc\u00eas, portanto, \u00e9 mais uma narrativa desse (curto) trajeto, e uma esp\u00e9cie de lista do que ficou pelo caminho, e que poderei voltar mais tarde para recuperar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cena 1: Instala\u00e7\u00e3o do Trauma<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>A rela\u00e7\u00e3o que eu tinha com o meu cabelo na inf\u00e2ncia era terr\u00edvel, era<\/em><br \/>\n<em>um filme de horror. Porque eu era crian\u00e7a e meu cabelo era mais<\/em><br \/>\n<em>crespo, e na escola a minha m\u00e3e fazia umas tran\u00e7as e o pessoal<\/em><br \/>\n<em>ficava me zoando. Agora \u00e9 super na moda essas tran\u00e7as nag\u00f4,<\/em><br \/>\n<em>mas antigamente n\u00e3o era t\u00e3o conhecida e a cabe\u00e7a toda ficava<\/em><br \/>\n<em>toda tran\u00e7ada. E muito tamb\u00e9m para n\u00e3o pegar piolho,<\/em><br \/>\n<em>porque meu cabelo sempre foi muito cheio.<\/em> \u2013 J\u00e9ssica<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cena narrada por J\u00e9ssica guarda coincid\u00eancias com a de muitas das outras entrevistadas; muitas coisas s\u00e3o contadas, outras tantas s\u00e3o caladas, outras ainda se deixam perceber, mas n\u00e3o se apresentam completamente. \u00c9 confiando nessas coincid\u00eancias, usando uma cena para me ajudar a compreender a outra, que consigo completar um quadro \u2013 que se decerto n\u00e3o corresponde \u00e0s experi\u00eancias singulares da entrevistada, pelo menos me ajuda a dar mais um passo em dire\u00e7\u00e3o ao entendimento do que est\u00e1 em jogo aqui.<\/p>\n<p>O seu \u201cfilme de horror\u201d come\u00e7a com ela chegando na escola, com os cabelos tran\u00e7ados, e as outras crian\u00e7as zombando dela. Por que esse \u00e9 o marco que ela escolhe para come\u00e7ar a contar da rela\u00e7\u00e3o com seu cabelo, assim como tantas outras entrevistadas?<\/p>\n<p>E h\u00e1 ainda uma outra pergunta (e que talvez, na verdade, seja a mesma): se prestarmos aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fala, observamos que h\u00e1 uma lacuna; algum pensamento que ocorre \u00e0 J\u00e9ssica e que n\u00e3o foi dito. Ela conta que a m\u00e3e lhe fazia tran\u00e7as nag\u00f4, comenta como hoje \u00e9 moda, e \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o era, e segue: \u201ce tamb\u00e9m para n\u00e3o pegar piolho\u201d. Ora, se \u201cn\u00e3o pegar piolho\u201d \u00e9 uma segunda raz\u00e3o pela qual a m\u00e3e lhe fazia tran\u00e7as (o que \u00e9 indicado pelo \u201ce tamb\u00e9m\u201d), pode-se entender que h\u00e1 uma primeira raz\u00e3o, e que aqui n\u00e3o foi verbalizada. Que raz\u00e3o \u00e9 essa, cuja exist\u00eancia se denuncia atrav\u00e9s desse ato falho?<\/p>\n<p>Uma das maneiras pelas quais o racismo opera \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o do branco como norma, como refer\u00eancia absoluta, e significado como o belo, o bom, o valoroso. Assim, explica Isildinha Baptista Nogueira (NOGUEIRA, 2018, p.148), \u201cser negro \u00e9 n\u00e3o ser branco; ser branco, e tudo quanto possa representar essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, o objeto do desejo: aquilo que falta\u201d. Ela argumenta que essa brancura, em tudo que representa de valores e significados (e possibilidades, eu adicionaria), n\u00e3o \u00e9 vivida apenas como uma falta do pr\u00f3prio corpo, mas tamb\u00e9m como uma impossibilidade de atender o desejo materno de brancura<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> &#8211; m\u00e3e essa que \u00e9, claramente, tamb\u00e9m ela, afetada por esse mesmo desejo<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o me trouxe \u00e0 mem\u00f3ria passagens de outras entrevistadas sobre suas lembran\u00e7as dos momentos de cuidado do cabelo quando eram crian\u00e7as, e falas de m\u00e3es sobre os cabelos crespos de seus filhos.<\/p>\n<p>Observando primeiro, abaixo, as falas de duas m\u00e3es de crian\u00e7as com cabelos crespos, encontramos ind\u00edcios desse desejo materno de brancura de que Nogueira fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>O meu [cabelo] e\u0301 liso, e o do meu marido e\u0301 crespo&#8230; As minhas filhas<\/em><br \/>\n<em>puxaram o cabelo dele, n\u00e3o tive sorte de nenhuma vir com o meu.<\/em><br \/>\n&#8211; Denise<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(Sobre um texto que mencionava crian\u00e7as negras e cabelos crespos)<\/em><br \/>\n<em>Se a gente perceber bem, o texto fala de um jeito carinhoso,<\/em><br \/>\n<em>acolhedor; \u00e9 legal, mas ele n\u00e3o deixa de falar \u201cpara crian\u00e7as negras\u201d.<\/em><br \/>\n<em>N\u00f3s somos m\u00e3es negras, n\u00e9? Ent\u00e3o de certa forma a gente se sente<\/em><br \/>\n<em>elogiada, lisonjeada, mas eles t\u00eam que formular melhor isso, porque<\/em><br \/>\n<em>soa como uma forma de preconceito, de discrimina\u00e7\u00e3o, e que n\u00e3o \u00e9<\/em><br \/>\n<em>bacana. Eu acho que essa palavra \u201cpele negra\u201d e tudo mais \u201cra\u00e7a negra\u201d, \u201ccor<\/em><br \/>\n<em>negra\u201d, eu acho que deveria abandonar tudo isso, excluir<\/em><br \/>\n<em>realmente, e falar s\u00f3 da fibra do cabelo, 3B, 4C<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>&#8230; Falar s\u00f3 do carinho,<\/em><br \/>\n<em>que mostra que tem afeto, sentimento, companheirismo, todo esse<\/em><br \/>\n<em>ciclo. Por\u00e9m, essa quest\u00e3o de cor, n\u00e3o \u00e9 bacana.<\/em> \u2013 Ma\u00edra<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Denise, ao conjugar o verbo em primeira pessoa, d\u00e1 mostra de que o cabelo crespo de suas filhas \u00e9 sentido, antes de tudo, como uma falta de sorte sua (e talvez menos de suas filhas), expressando quase que literalmente esse desejo de brancura. Ma\u00edra, ao incomodar-se com um texto que relaciona diretamente os cabelos crespos de seus filhos \u00e0 negritude deles, expressa o desejo de eliminar, <em>\u201c<\/em>excluir realmente<em>\u201d <\/em>palavras que os racializem \u2013 ainda que surja aqui alguma ambiguidade: sente-se lisonjeada pelas palavras, e ao mesmo tempo acha que devem ser eliminadas.<\/p>\n<p>O verso | dorso | reverso dessas falas pode ser percebido em uma outra cena muito recorrente: o desembara\u00e7ar e pentear o cabelo como um momento de dor f\u00edsica e ps\u00edquica para as filhas, e de raiva e frustra\u00e7\u00e3o para as m\u00e3es (\u201ceu passo creme porque sen\u00e3o a escova se prende nos <strong>carrapichozinhos<\/strong> do cabelo dela\u201d), e de embate entre as duas, quando as entrevistadas narram gestos como abaixo (mas n\u00e3o, curiosamente, os sentimentos envolvidos):<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Quando crian\u00e7a, eu chorava muito, eu apanhava para pentear os<\/em><br \/>\n<em>cabelos, eu n\u00e3o gostava de pentear.<\/em> \u2013 Sabrina<\/p>\n<p>O conjunto dessas falas me levou a pensar no semin\u00e1rio que apresentei sobre o texto \u201cA Proton Pseudos (Primeira Mentira) Hist\u00e9rica\u201d (FREUD, 1996, p.269-272), e no conceito de <em>a posteriori<\/em>, em que Freud apresenta uma lembran\u00e7a que se torna traum\u00e1tica por a\u00e7\u00e3o retardada.<\/p>\n<p>Suponho que nesses primeiros momentos de cuidado com o cabelo, as entrevistadas, ainda muito pequenas para ir \u00e0 escola, vivenciaram o impacto dos gestos e palavras de suas m\u00e3es, mas cuja compreens\u00e3o lhes escapou<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> naquela ocasi\u00e3o \u2013 sentiram que havia algo errado, mas o qu\u00ea? Esses gestos n\u00e3o decodificados s\u00e3o a bomba-rel\u00f3gio de que Bernardo Tanis fala (TANIS, 2021, p.55), numa alus\u00e3o a inscri\u00e7\u00f5es temporalmente anteriores ao momento atual que ainda n\u00e3o foram metabolizadas. E, assim, ao chegar na escola e ao se deparar com colegas que, apontando seu cabelo, dizem que \u201c\u00e9 de bruxa\u201d, \u201c\u00e9 de bombril\u201d, nomeiam o que havia de enigm\u00e1tico, de n\u00e3o dito, provocando uma descarga afetiva relacionada ao primeiro momento, em que a m\u00e3e cuidava do seu cabelo com raiva e ressentimento<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> \u2013 e ali se instala o trauma, quando a compreens\u00e3o chega (UCHITEL, 2011, p.49)<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>O verbatim a seguir ilustra o que talvez seja essa mesma din\u00e2mica ao contr\u00e1rio: uma m\u00e3e que, tendo elaborado em alguma medida sua pr\u00f3pria est\u00f3ria, retira ou atenua o elemento end\u00f3geno (o desejo da m\u00e3e internalizado), e d\u00e1 \u00e0 filha alguma ferramenta para elaborar o momento vivido na escola de outra maneira (elemento ex\u00f3geno) &#8211; ainda que seja poss\u00edvel indagar se um outro trauma n\u00e3o se apresenta, o de n\u00e3o ser reconhecida como igual<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Minha filha Ra\u00edssa j\u00e1 sofreu bullying na escola por causa do cabelo.<\/em><br \/>\n<em>Ela estudava em uma escolinha particular e, no primeiro dia de aula,<\/em><br \/>\n<em>quando ela chegou na turma, algu\u00e9m falou: \u201cIh, cabelo de bruxa!\u201d \u2013<\/em><br \/>\n<em>ela chegou com um [penteado] black. Ela deu a resposta que eu<\/em><br \/>\n<em>ensinei: \u201cEsse foi o cabelo que Deus me deu, \u00e9 meu, amo meus<\/em><br \/>\n<em>cabelos\u201d. At\u00e9 hoje ela responde dessa forma. Ela tinha 6 anos.<\/em><br \/>\n\u2013 Amanda<\/p>\n<p>No texto mencionado, o modelo que Freud nos oferece atrav\u00e9s da an\u00e1lise do caso ainda guarda uma organiza\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica, talvez porque procurasse uma origem para o sintoma. Mas um aprendizado que Tanis sublinha (2021, p.55), e o que mais fortemente me impressiona, \u00e9 justamente a aus\u00eancia de temporalidade. Assim, sinto que essa separa\u00e7\u00e3o em dois momentos, que acabei de fazer (o momento do cuidado, em casa, e o momento da escola), \u00e9 artificial, e serve apenas para que eu consiga traduzir meu entendimento dessa din\u00e2mica ps\u00edquica, transpondo o modelo que Freud oferece.<\/p>\n<p>O momento de cuidado que as entrevistadas narram n\u00e3o \u00e9 exatamente uma cena, mas provavelmente um am\u00e1lgama, uma condensa\u00e7\u00e3o de acontecimentos diversos, anteriores e tamb\u00e9m posteriores ao ponto que as entrevistadas assinalam na linha cronol\u00f3gica, de forma que, por exemplo, talvez num primeiro acontecido, o choro fosse de impaci\u00eancia ou irrita\u00e7\u00e3o; em outros, mais tarde, fosse de dor ou revolta; em outros, mais tarde ainda, fosse de m\u00e1goa ou ang\u00fastia. De maneira semelhante, \u00e9 poss\u00edvel que o momento da escola ganhe car\u00e1ter traum\u00e1tico por pelo menos duas raz\u00f5es distintas: pela liga\u00e7\u00e3o que estabelece com o momento de cuidado e sua consequente ressignifica\u00e7\u00e3o, e pela atribui\u00e7\u00e3o social que ele tem, e que provoca vergonha<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Pensando ainda nessa aus\u00eancia de temporalidade, cumpre pensar se essa n\u00e3o seria uma bomba-rel\u00f3gio que vai explodir diversas vezes durante a vida, n\u00e3o s\u00f3 na escola, mas tamb\u00e9m quando o alisamento qu\u00edmico n\u00e3o ficar bom, quando o cabelo quebrar, quando houver corte qu\u00edmico, quando algu\u00e9m na rua novamente apontar para o cabelo: evidencia-se ali novamente a falta do corpo, e a incapacidade de manter esse desejo materno de que Isildinha Baptista Nogueira fala. Como diz Uchitel (2011, p.35), a ferida \u201cfica propensa a se abrir diante de qualquer nova agress\u00e3o externa que circunde ou atinja o foco pela associa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cena 2: Repeti\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Uma coisa que eu tento colocar nas pessoas, nos meus familiares<\/em><br \/>\n<em>mesmo, nas minhas tias \u2013 muitas delas alisavam fervorosamente e o<\/em><br \/>\n<em>cabelo sofrendo, quebrando, ficando cada vez mais curto<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a> \u2013 s\u00f3 que<\/em><br \/>\n<em>elas s\u00f3 se viam de um jeito que era com o cabelo liso escorrido,<\/em><br \/>\n<em>aquele liso escorrido mesmo. E o que estava acabando com a sa\u00fade<\/em><br \/>\n<em>do cabelo delas e acabando com elas consequentemente, porque elas<\/em><br \/>\n<em>estavam em uma luta sem fim, digamos assim. (&#8230;) Eu j\u00e1 estive nessa<\/em><br \/>\n<em>situa\u00e7\u00e3o e \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o castigante demais, castiga muito voc\u00ea, achar<\/em><br \/>\n<em>que seu cabelo tem que estar daquele jeito, que seu cabelo n\u00e3o comporta<\/em><br \/>\n<em>aquele jeito e ele vai se desfazendo, se acabando e voc\u00ea vai for\u00e7ando aquilo,<\/em><br \/>\n<em>querendo que ele chegue em um patamar, s\u00f3 que ele s\u00f3 vai piorando e voc\u00ea<\/em><br \/>\n<em>fica nesse ciclo. Ent\u00e3o voc\u00ea fica: \u201cMeu Deus, mas eu nunca consigo deixar<\/em><br \/>\n<em>meu cabelo do jeito que eu quero!\u201d,\u00a0 e o cabelo: \u201cMeu Deus, por que ela<\/em><br \/>\n<em>est\u00e1 fazendo isso comigo?\u201d, e fica naquilo. Ent\u00e3o voc\u00ea fica numa guerra de<\/em><br \/>\n<em>voc\u00ea com o seu cabelo.<\/em> &#8211; Ta\u00eds<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se na cena anterior \u00e9 o conceito de instala\u00e7\u00e3o do trauma por a\u00e7\u00e3o retardada que ajuda a entender um pouco mais do que falam as entrevistadas, nessa segunda cena foram as no\u00e7\u00f5es de neurose obsessiva e repeti\u00e7\u00e3o do trauma que vieram ao meu socorro.<\/p>\n<p>O que me faz recorrer ao conceito de neurose obsessiva \u00e9 a pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o que Freud faz dela na Confer\u00eancia 17, \u201cO Sentido do Sintoma\u201d, descri\u00e7\u00e3o essa que guarda semelhan\u00e7a quase que literal com o que as entrevistadas contam sobre o alisamento. Freud (2014, p.345) caracteriza as manifesta\u00e7\u00f5es da neurose obsessiva como, entre outras coisas, \u201ca\u00e7\u00f5es cuja execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhes propicia nenhum prazer, mas que \u00e9 imposs\u00edvel deixarem de fazer\u201d. Isso coincide com o que Ta\u00eds fala sobre o cabelo s\u00f3 ir piorando e ainda assim a pessoa, que percebe com clareza o que est\u00e1 acontecendo e por quais raz\u00f5es, n\u00e3o conseguir parar de alisar. Coincide tamb\u00e9m com a possibilidade de os pensamentos serem absurdos, rid\u00edculos e \u201cna totalidade dos casos, o ponto de partida de uma atividade mental fatigante, que exaure o enfermo e \u00e0 qual ele s\u00f3 se dedica muito a contragosto\u201d, que a fala a seguir, da Ana, ilustra bem:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>O processo da qu\u00edmica [pelo qual a entrevistada passa pela primeira<\/em><br \/>\n<em>vez aos 6 anos] foi horr\u00edvel, doeu muito. E tinha uma frase que eu<\/em><br \/>\n<em>falava assim: \u201cPara ficar bonita, a gente tem que sofrer\u201d. Desde<\/em><br \/>\n<em>crian\u00e7a sempre falei isso. Tanto que as meninas, quando faziam o<\/em><br \/>\n<em>meu cabelo, elas ficavam: \u201cNossa, mas voc\u00ea nem reclama!\u201d. Tipo<\/em><br \/>\n<em>assim, a pessoa sabe que est\u00e1 sofrendo, mas voc\u00ea n\u00e3o reclama.<\/em><br \/>\n<em>Porque eu, no meu inconsciente, ficava assim: \u201cPara eu ficar bonita,<\/em><br \/>\n<em>eu tenho que sofrer.\u201d<\/em> \u2013 Ana<\/p>\n<p>A frase que Ana repete para si mesma, \u201cpara eu ficar bonita, tenho que sofrer\u201d, \u00e9 um bom exemplo de afirma\u00e7\u00e3o absurda, mas que o sujeito toma como uma verdade incontest\u00e1vel \u2013 por qu\u00ea, para ficar bonita, \u00e9 necess\u00e1rio sofrer? Al\u00e9m disso, ela rima com uma fala da Ta\u00eds, quando diz que essa \u00e9 uma \u201csitua\u00e7\u00e3o castigante\u201d. \u00c0 parte de as duas falas se referirem diretamente \u00e0 dor, me parece claro que ambas est\u00e3o falando de uma situa\u00e7\u00e3o em que \u00e9 devido sofrer<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>. Ao que est\u00e3o aludindo?<\/p>\n<p>Continuando sua explica\u00e7\u00e3o, Freud aponta que esses impulsos absurdos \u201cencerram conte\u00fado dos mais terr\u00edveis, como tenta\u00e7\u00f5es \u00e0 pr\u00e1tica de graves crimes\u201d, e mais \u00e0 frente ainda (FREUD, 2014, p.351), nos lembra que a a\u00e7\u00e3o obsessiva, como sintoma que \u00e9, \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso que tem em vista a satisfa\u00e7\u00e3o de um desejo. O que s\u00e3o esses graves crimes, de que desejo estamos falando?<\/p>\n<p>Retomando a ideia do negro como o n\u00e3o branco, e da pele negra (e, por extens\u00e3o, o cabelo crespo) como uma imperfei\u00e7\u00e3o, Isildinha Baptista Nogueira (2021, p.131) aponta que o negro trava uma \u201cluta sem fim\u201d, como diz Ta\u00eds, para sentir-se inclu\u00eddo no que \u00e9 bom e belo. N\u00e3o sendo isso poss\u00edvel, s\u00e3o disparados processos autodestrutivos que visam a exclus\u00e3o de si pr\u00f3prio, das caracter\u00edsticas f\u00edsicas que o fazem ser exclu\u00eddo e que, ao fim, s\u00e3o o seu corpo. Tenho a impress\u00e3o de que \u00e9 a essa tentativa que podemos atribuir o <em>grave crime<\/em> de que Freud fala, \u00e9 esse o desejo que o sintoma busca realizar. Nesse sentido, a indaga\u00e7\u00e3o que Ta\u00eds faz, usando a voz do seu cabelo, \u201cMeu Deus, por que ela est\u00e1 fazendo isso comigo?\u201d \u00e9 respondida por uma frase anterior sua: \u201cestava(m) acabando com a sa\u00fade do cabelo delas, e acabando com elas consequentemente\u201d.<\/p>\n<p>Mas tenho d\u00favidas: ser\u00e1 que essa repeti\u00e7\u00e3o do alisamento n\u00e3o pode ser pensada tamb\u00e9m a partir do trauma, em alguns casos? N\u00e3o poderia ser entendida sob a \u00e9gide n\u00e3o do princ\u00edpio do prazer, mas da puls\u00e3o de morte?<\/p>\n<p>Em \u201cAl\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer\u201d, Freud (2010) utiliza o modelo de um organismo elementar, uma ves\u00edcula, para teorizar sobre o trauma. Segundo esse modelo, a camada mais superficial, em contato com os est\u00edmulos do meio externo, se alteraria: tornar-se-ia menos flex\u00edvel e perme\u00e1vel, deixando passar apenas pequenas quantidades dos est\u00edmulos externos \u2013 \u201cmorrendo\u201d para preservar os elementos internos dessa mesma morte, e passando a funcionar como um \u00f3rg\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o somente. No trauma, essa barreira protetora \u00e9 rompida, o sistema interno \u00e9 inundado pelas excita\u00e7\u00f5es exteriores, e a capacidade reguladora do princ\u00edpio do prazer falha.<\/p>\n<p>Me impressiona o paralelo quase que direto que podemos tra\u00e7ar entre esse modelo de ves\u00edcula e o processo continuado de alisamento do cabelo. Cabelo e pele est\u00e3o entre as principais marcas de pertencimento racial no Brasil. Nilma Lino Gomes (2019) lembra, no entanto, que h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre eles:\u00a0 o cabelo \u00e9 pl\u00e1stico, pass\u00edvel de modifica\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a> e, com isso, pode ser usado para camuflar ou afirmar esse pertencimento, bem como seu controle social (em forma de exig\u00eancias no ambiente de trabalho, por exemplo, ou cria\u00e7\u00e3o de um ideal de beleza e dignidade que s\u00f3 comporta o fio liso), pode ser uma das ferramentas de subjuga\u00e7\u00e3o utilizadas pelo racismo. Nesse sentido, n\u00e3o podemos pensar o cabelo como a camada superficial da ves\u00edcula-modelo de Freud que, ao ser \u201ccalcinada\u201d, como diz Uchitel, pelos sucessivos banhos qu\u00edmicos, se oferece em sacrif\u00edcio \u00e0 ordem social que imp\u00f5e \u00e0 mulher negra padr\u00f5es de comportamento estritos, de forma que ela possa existir e preservar algo de si? E quando ocorre o corte qu\u00edmico, n\u00e3o \u00e9 como se a barreira protetora, aquela que regula as trocas com o meio ambiente e impede que elas devastem as organiza\u00e7\u00f5es interiores, fosse ela tamb\u00e9m cortada?<\/p>\n<p>De toda forma, o que as entrevistadas observam (em si, em outras) e nos trazem \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do ato, que ignora a dor, o mal-estar, as experi\u00eancias negativas pregressas ou \u2013 at\u00e9 a despeito delas \u2013 o que acaso seja poss\u00edvel pensar como a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de que Freud fala (2010). Essa \u00e9 uma ideia que achei particularmente dif\u00edcil, e que pude acompanhar s\u00f3 at\u00e9 um certo ponto.<\/p>\n<p>Lendo e relendo os textos, consegui discernir o que me pareceu serem tr\u00eas l\u00f3gicas diferentes de funcionamento dessa repeti\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>1) A repeti\u00e7\u00e3o da cena \u00e9 uma tentativa de assimilar o acontecido \u2013 a intensidade do est\u00edmulo foi t\u00e3o grande que ele n\u00e3o p\u00f4de ser compreendido, interpretado, significado; assim, o impulso \u00e9 voltar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o para que isso possa ser feito. Nesse sentido, me parece que a repeti\u00e7\u00e3o substituiria a possibilidade de rememora\u00e7\u00e3o \u2013 dado que as excita\u00e7\u00f5es, por serem muito intensas, n\u00e3o foram registradas; e voltar \u00e0 cena \u00e9 poder viv\u00ea-la novamente, agora com mais recursos de metaboliza\u00e7\u00e3o. Seria a isso que Freud se refere quando fala que o elemento de susto tem papel fundamental no estabelecimento do trauma, \u00e0 medida que impede a ang\u00fastia (que teria o papel de alarme, preparando o sistema para o choque)? Tamb\u00e9m hesito em dizer que elas n\u00e3o foram \u201cregistradas\u201d \u2013 \u00e0 luz do que as entrevistadas contam (vide verbatim abaixo), me parece que talvez se trate de um registro que ocorra num n\u00edvel sensorial, qui\u00e7\u00e1 com falhas (algumas sensa\u00e7\u00f5es s\u00e3o registradas, outras n\u00e3o), que n\u00e3o ganha rela\u00e7\u00e3o causal e, por fim, n\u00e3o estabelece nexo; s\u00e3o marcas mn\u00eamicas soltas, impressas no corpo, mas sem sentido. Seria essa conex\u00e3o entre as marcas e a atribui\u00e7\u00e3o de sentido que Freud denomina \u201cligar\u201d?<\/p>\n<p>2) A repeti\u00e7\u00e3o visa o controle do acontecido \u2013 na cena original o sujeito encontra-se numa posi\u00e7\u00e3o passiva, aquele que sofre o impacto. Reencenar seria, nesse caso, um esfor\u00e7o para colocar-se numa situa\u00e7\u00e3o ativa, ou seja, capaz de controlar o que lhe acontece, e prevalecer. Dessa maneira, me parece, essa l\u00f3gica \u00e9 diferente da anterior porque aqui interessa menos a rememora\u00e7\u00e3o, e mais uma reconstru\u00e7\u00e3o do acontecido, agora sobre novas bases, em que o sujeito \u00e9 capaz de prever e determinar o que lhe acontecer\u00e1. O modelo que Freud oferece (ou antes, o acontecimento testemunhado que dispara sua investiga\u00e7\u00e3o) \u00e9 o da crian\u00e7a que brinca fazendo com que o objeto apare\u00e7a e desapare\u00e7a, numa tentativa de controlar o desaparecimento da m\u00e3e.<\/p>\n<p>3) A repeti\u00e7\u00e3o aspira \u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o do trauma, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o total das excita\u00e7\u00f5es como uma maneira de voltar ao estado original de quietude. Disso depreendo que, pressupondo que o trauma acontece no espa\u00e7o entre o fato material (o corte qu\u00edmico e, por conseguinte, o cabelo) e o afeto que isso causa no sujeito (susto, medo, dor, desgosto, afluxo de excita\u00e7\u00f5es), o trauma s\u00f3 pode ser eliminado se houver a elimina\u00e7\u00e3o das duas partes. E a\u00ed ter\u00edamos a situa\u00e7\u00e3o de que Ta\u00eds fala, do alisamento \u201cacabando com a sa\u00fade do cabelo delas e acabando com elas\u201d; um impulso direcionado \u00e0 volta ao inerte e ao inorg\u00e2nico, tanto do cabelo quanto delas como um todo. Penso se n\u00e3o \u00e9 disso que Raquel fala quando usa a palavra desistir, na cita\u00e7\u00e3o abaixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Se minha rela\u00e7\u00e3o com meu cabelo fosse um filme&#8230; Seria trag\u00e9dia em<\/em><br \/>\n<em>cima de trag\u00e9dia. S\u00e9rio, tudo que voc\u00ea possa imaginar j\u00e1 fiz nesse cabelo<\/em><br \/>\n<em>e n\u00e3o deu certo. Tudo eu j\u00e1 usei, tudo. J\u00e1 passei muitos produtos no<\/em><br \/>\n<em>cabelo, j\u00e1 fui a grandes sal\u00f5es, j\u00e1 fiquei careca dentro do sal\u00e3o. (&#8230;) Eu<\/em><br \/>\n<em>usava tran\u00e7a, e resolvi ir no sal\u00e3o para tentar alisar. Fizeram o teste<\/em><br \/>\n<em>certinho, mas quando chegou no meio da cabe\u00e7a, depois que passou o<\/em><br \/>\n<em>produto todo, caiu tudo, eu fiquei com um buraco aqui no meio. Eu tinha<\/em><br \/>\n<em>12 anos. Tive que aceitar. Eu sentia minha cabe\u00e7a queimar, eu falei: tira<\/em><br \/>\n<em>porque est\u00e1 queimando muito! N\u00e3o teve o que fazer, tive que raspar o<\/em><br \/>\n<em>cabelo. (&#8230;) A\u00ed passou um tempo, come\u00e7ou a crescer, voltei pra tran\u00e7a.<\/em><br \/>\n<em>Fiquei uns meses, e tirei a tran\u00e7a. Vamos cachear o cabelo&#8230; No primeiro<\/em><br \/>\n<em>dia ficou bonito, no segundo eu passava a m\u00e3o na cabe\u00e7a, deitava, e sa\u00eda<\/em><br \/>\n<em>cabelo no travesseiro. A\u00ed eu desisti. Depois voltei pra tran\u00e7a, bota tran\u00e7a,<\/em><br \/>\n<em>tira tran\u00e7a&#8230; Cheguei a passar alguma qu\u00edmica, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deu certo.<\/em><br \/>\n<em>Passei [alisantes] em casa, depois passei com uma amiga que tem um<\/em><br \/>\n<em>pequeno sal\u00e3o, e tamb\u00e9m n\u00e3o deu certo. Faz um ano e meio que eu tentei<\/em><br \/>\n<em>novamente, mas a\u00ed desandou tudo, desisti do produto de novo. Agora meu<\/em><br \/>\n<em>cabelo t\u00e1 caindo todo de novo. (&#8230;) Na minha vontade, eu usaria ele natural.<\/em><br \/>\n<em>Mas se eu ficar muito ansiosa, ou muito nervosa, estressada, meu cabelo cai<\/em><br \/>\n<em>muito, e o que acontece? Quanto mais ele cai, mais magoada eu fico comigo.<\/em><br \/>\n<em>Tem alguma coisa emocional que acontece comigo e a\u00ed atinge o cabelo. E me<\/em><br \/>\n<em>deixa sempre mais chateada.<\/em> \u2013 Raquel<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na tentativa de articular essas tr\u00eas l\u00f3gicas, e compreender sua conex\u00e3o com os conceitos de princ\u00edpio do prazer e puls\u00e3o de morte, Myriam Uchitel (2011, p.71) faz uma distin\u00e7\u00e3o que me ajudou. Ela fala de duas vertentes em que a repeti\u00e7\u00e3o pode ser pensada: uma que se volta para a elabora\u00e7\u00e3o do que ficou pendente, e que opera sob o princ\u00edpio do prazer, uma vez que visa a satisfa\u00e7\u00e3o de um desejo e a \u201cconserva\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o de uma unidade\u201d; e outra vertente, cujo objetivo \u00e9 regressivo, posto que o impulso \u00e9 de voltar a um estado inorg\u00e2nico, que \u00e9 regido pela puls\u00e3o de morte e n\u00e3o h\u00e1 liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa discrimina\u00e7\u00e3o que a autora faz tornou o ponto um pouco mais intelig\u00edvel para mim, mas trouxe tamb\u00e9m novas perguntas e conceitos, quando fala, por exemplo, de identifica\u00e7\u00e3o projetiva, ou quando coloca a necessidade de controlar o est\u00edmulo sob a puls\u00e3o de morte, e n\u00e3o sob o princ\u00edpio do prazer, como eu tinha imaginado originalmente. Al\u00e9m disso me resta entender melhor tamb\u00e9m o que \u00e9 exatamente o contrainvestimento de que Freud fala, e como ele se encaixaria nessas tr\u00eas l\u00f3gicas que consegui vislumbrar.<\/p>\n<p><strong>Arremate<\/strong><\/p>\n<p>Tomando emprestada a analogia de Freud para o trabalho da psican\u00e1lise, me sinto ao fim dessa escrita como uma arque\u00f3loga que mal come\u00e7ou o trabalho: algumas poucas pe\u00e7as foram destacadas do solo, mas ainda se encontram cheias de terra e poeira, de forma que ainda n\u00e3o as consigo compreender e apreciar completamente; outras pe\u00e7as se anunciam, mas est\u00e3o ainda total ou parcialmente enterradas, e \u00e9 poss\u00edvel intuir apenas sua presen\u00e7a; e outras ainda est\u00e3o longe do olhar, e sua quantidade e relev\u00e2ncia permanecem completamente ignoradas.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o consigo chegar exatamente a uma conclus\u00e3o; o que \u00e9, pelo menos em parte, coerente com aquilo a que me propus: registar o percurso mais do que chegar em algum lugar. Relendo o escrito at\u00e9 agora, me pego pensando em outros caminhos que poderia ter tomado ao me debru\u00e7ar sobre essas mesmas falas, e onde me levariam. \u00c9 um pensamento que me faz feliz, inquieta e esperan\u00e7osa pelo que h\u00e1 de vir.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, eu queria reconhecer a gra\u00e7a que essas entrevistadas, e tantas outras e outros, me concederam ao conversar comigo. Sem essa generosidade meu mundo seria muito mais pobre, e eu entenderia muito menos de mim mesma. Depois de tantos anos ainda me surpreende e impressiona a prontid\u00e3o e a abertura com que se predisp\u00f5em a conversar sobre assuntos \u00e0s vezes prosaicos, \u00e0s vezes delicados, com algu\u00e9m que n\u00e3o conhecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>N\u00e3o podemos nos dar valor do jeito certo sem antes quebrar as <\/em><br \/>\n<em>paredes de autonega\u00e7\u00e3o que ocultam a profundidade do auto-\u00f3dio <\/em><br \/>\n<em>dos negros, a ang\u00fastia interior, a dor sem reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>Como Avey, a personagem de Paule Marshall, uma vez que nossas<\/em><br \/>\n<em>nega\u00e7\u00f5es desmoronam, podemos trabalhar para nos curar atrav\u00e9s<\/em><br \/>\n<em>da consci\u00eancia. Eu sempre me surpreendo que a jornada para o lar,<\/em><br \/>\n<em>aquele lugar na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o onde nos recuperamos no amor,<\/em><br \/>\n<em>est\u00e1 constantemente ao nosso alcance, dentro de n\u00f3s, e, no entanto,<\/em><br \/>\n<em>muitas pessoas negras nunca encontram o caminho. Atolados na<\/em><br \/>\n<em>negatividade e na nega\u00e7\u00e3o, somos como son\u00e2mbulos. Contudo, se<\/em><br \/>\n<em>ousarmos despertar, o caminho est\u00e1 logo ali. Em Hope and History<\/em><br \/>\n<em>[Esperan\u00e7a e hist\u00f3ria], Vincent Harding pede que os leitores reflitam:<\/em><br \/>\n<em>\u201cEm uma sociedade composta em sua maioria por pessoas n\u00e3o brancas,<\/em><br \/>\n<em>que conheceram o desprezo e a domina\u00e7\u00e3o do mundo Euro-Americano,<\/em><br \/>\n<em>seria fascinante cogitar o autoamor como um chamado religioso\u201d.<\/em><br \/>\n<em>Coletivamente, pessoas negras e nossos aliados somos empoderados<\/em><br \/>\n<em>quando praticamos o autoamor como uma interven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/em><br \/>\n<em>que mina as pr\u00e1ticas de domina\u00e7\u00e3o. Amar a negritude como resist\u00eancia<\/em><br \/>\n<em>pol\u00edtica transforma nossas formas de ver e ser e, portanto, cria as condi\u00e7\u00f5es<\/em><br \/>\n<em>necess\u00e1rias para que nos movamos contra as for\u00e7as de domina\u00e7\u00e3o e morte<\/em><br \/>\n<em>que tomam as vidas negras.<\/em><br \/>\nhooks, bell. <strong>Olhares negros: ra\u00e7a e representa\u00e7\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n<p>COSTA, Jurandir Freire. <em>Da cor ao corpo: a viol\u00eancia do racismo<\/em>. In: SOUZA, Neusa Santos. <strong>Tornar-se negro ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social<\/strong>. Pref\u00e1cios de Maria L\u00facia da Silva e Jurandir Freire Costa. 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. <em>A Proton Pseudos [Primeira Mentira] Hist\u00e9rica<\/em>. In: <strong>Publica\u00e7\u00f5es Pr\u00e9-psicanal\u00edticas e Esbo\u00e7os In\u00e9ditos (1886-1889)<\/strong>, v.1. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.<\/p>\n<p>________________. <em>Confer\u00eancias 17, 18, 20, 21, 23<\/em>. In: <em>Terceira parte: Teoria Geral das Neuroses [1917]<\/em>. In: <strong>Confer\u00eancias Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise (1916 &#8211; 1917) <\/strong>(Obras Completas, v.13)<strong>. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Sergio Tellarolli; revis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o por Paulo C\u00e9sar de Souza. 1.ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014.<\/p>\n<p>________________. <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer (1920).<\/em> In: <strong>Hist\u00f3ria de uma neurose infantil (\u201cO Homem dos Lobos\u201d), Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer e outros textos (1917-1920) <\/strong>(Obras Completas, v.14)<strong>. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. 1.ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n<p>GOMES, Nilma Lino. <strong>Sem perder a raiz: corpo e cabelo como s\u00edmbolos da identidade negra<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2019.<\/p>\n<p>hooks, bell. <em>Amando a negritude como resist\u00eancia pol\u00edtica<\/em>. In: <strong>Olhares negros: ra\u00e7a e representa\u00e7\u00e3o. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o de Stephanie Borges. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2019.<\/p>\n<p>LAPLANCHE, Jean &amp; PONTALIS, Jean-Bertrand. <em>Verbetes: Puls\u00f5es de Morte; Princ\u00edpio do Prazer<\/em>. In: <strong>Vocabul\u00e1rio da Psican\u00e1lise<\/strong>. Sob a dire\u00e7\u00e3o de Daniel Lagache; Tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Tamen. 4.ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<p>NOGUEIRA, Isildinha Baptista. <strong>A Cor do Inconsciente: significa\u00e7\u00f5es do corpo negro<\/strong>. 1.ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2021.`<\/p>\n<p>SOUZA, Neusa Santos. <strong>Tornar-se negro ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social<\/strong>. Pref\u00e1cios de Maria L\u00facia da Silva e Jurandir Freire Costa. 1.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.<\/p>\n<p>TANIS, Bernardo. <em>A lembran\u00e7a pat\u00f3gena<\/em>. In: <strong>O infantil na psican\u00e1lise: Mem\u00f3ria e temporalidades<\/strong>. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Blucher, 2021.<\/p>\n<p>UCHITEL, Myriam. <strong>Neurose traum\u00e1tica: uma revis\u00e3o cr\u00edtica do conceito de trauma<\/strong>. 3.ed. S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, 2011. Cole\u00e7\u00e3o cl\u00ednica psicanal\u00edtica\/ Dirigida por Fl\u00e1vio Carvalho Ferraz.<\/p>\n<p>XAVIER, Giovana. <strong>Hist\u00f3ria s<\/strong><strong>ocial da beleza negra<\/strong>. 1.ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Ana Carolina Carneiro \u00e9 aluna do 2\u00ba. ano do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, tem forma\u00e7\u00e3o em Artes Visuais e trabalha com pesquisa de mercado.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Ao parafrasear a autora, provavelmente fa\u00e7o uma interpreta\u00e7\u00e3o simplista, e deixo de fora conceitos importantes que comp\u00f5em o seu racioc\u00ednio, e que n\u00e3o pude compreender. O que Nogueira diz nessa passagem \u00e9 que \u201cA brancura, portanto, \u00e9 o objeto buscado pelos negros em seu processo de priva\u00e7\u00e3o. A brancura \u00e9 um desejo materno, uma condi\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, que vai se juntar a duas condi\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas: a cor da pele (zona er\u00f3gena) e a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a m\u00e3e, que mant\u00e9m a dupla demanda do desejo de brancura \u2013 condi\u00e7\u00f5es que fazem emergir a cor da pele como \u201cobjeto\u201d. (&#8230;) Como j\u00e1 vimos, nosso desejo se mant\u00e9m diante do desejo do outro, \u00e9 o desejo da m\u00e3e que o negro tenta manter, o desejo da brancura\u201d (NOGUEIRA, 2018, p.149).<br \/>\nH\u00e1 uma outra passagem que se relaciona com esta, dessa vez de Myriam Uchitel (UCHITEL, 2011, p.49). Embora falando de eventos de outra natureza, ela aponta que viola\u00e7\u00f5es paternas e maternas que atingem o lugar de direito das crian\u00e7as t\u00eam a capacidade de levar o sujeito a um lugar de <strong>n\u00e3o-identidade<\/strong> e inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> \u201cComo a brancura n\u00e3o pertence nem \u00e0 m\u00e3e, nem ao filho, s\u00f3 pode existir a baixa autoestima e a nega\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de negro, porque o grande Outro, o espelho em que o negro vai se mirar pela primeira vez, tamb\u00e9m o nega.\u201d (NOGUEIRA, 2018, p.149).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Em produtos para cabelos crespos \u00e9 comum se referir \u00e0 curvatura dos fios atrav\u00e9s de c\u00f3digos: 1A, 1B, 1C para cabelos considerados lisos; 2A, 2B, 2C para cabelos considerados ondulados; 3A, 3B, 3C para cabelos considerados cacheados e 3B, 3C, 4A, 4B e 4C para cabelos considerados crespos. Esse sistema de classifica\u00e7\u00e3o das curvaturas dos cabelos foi criado pelo cabeleireiro norte-americano Andre Walker nos anos 90, e mais tarde adotado no Brasil por marcas voltadas especificamente para cabelos crespos e cacheados, e tamb\u00e9m pelas consumidoras desses produtos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Ou talvez tenham uma significa\u00e7\u00e3o confusa, dif\u00edcil de conciliar nesse momento: 1) A ambival\u00eancia da m\u00e3e e possivelmente da pr\u00f3pria crian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao momento, que \u00e9 simultaneamente de amor (gesto de cuidado) e frustra\u00e7\u00e3o (gesto de agress\u00e3o) e 2) No caso espec\u00edfico de m\u00e3es que tamb\u00e9m elas t\u00eam cabelos crespos: como ela poderia n\u00e3o gostar em mim, do que, em amando eu nela, uso como modelo para amar tamb\u00e9m em mim? Mas sinto que aqui tenho poucos recursos para me estender \u2013 essas suposi\u00e7\u00f5es, me parece, apontam para a explora\u00e7\u00e3o de conceitos de que tenho pouco ou nenhum conhecimento, como Zonas Er\u00f3genas, Narcisismo e Complexo de \u00c9dipo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Raiva e ressentimento do cabelo, do filho e, provavelmente de si pr\u00f3pria: para a m\u00e3e, o filho ter cabelo crespo n\u00e3o seria vivenciado tamb\u00e9m como uma falta dela mesma, v\u00edtima da viol\u00eancia racial que \u00e9? Neusa Santos Souza, falando sobre essa viol\u00eancia racial, diz: \u201cA viol\u00eancia racista do branco exerce-se, antes de mais nada, pela impiedosa tend\u00eancia a destruir a identidade do sujeito negro. Este, atrav\u00e9s da internaliza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria e brutal de um ideal do ego branco, \u00e9 obrigada o a formular para si um projeto identificat\u00f3rio incompat\u00edvel com as propriedades biol\u00f3gicas do seu corpo. Entre o ego e seu ideal cria-se, ent\u00e3o, um fosso que o sujeito negro tenta transpor \u00e0s custas de sua possibilidade de felicidade, quando n\u00e3o de seu equil\u00edbrio ps\u00edquico\u201d (SOUZA, 2021, p.25)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Myriam Uchitel chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que pode haver um tempo de lat\u00eancia entre o impacto do acontecimento e o in\u00edcio das manifesta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas. Admitindo que o trauma se d\u00e1 no in\u00edcio da vida escolar, isso explicaria por que s\u00f3 mais tarde, ao entrar na puberdade, \u00e9 que a maioria das entrevistadas come\u00e7a a alisar o cabelo (entendendo o alisamento como uma tentativa de dominar o est\u00edmulo externo). (UCHITEL, 2011, p.85)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Em \u201cNeurose Traum\u00e1tica\u201d, Myriam Uchitel talvez explique isso melhor do que eu poderia: \u201c<em>Se em princ\u00edpio s\u00f3 poder\u00edamos falar de trauma a partir de um acontecimento traum\u00e1tico que um acontecimento gera, supondo que o evento em si n\u00e3o \u00e9 traum\u00e1tico, mas s\u00f3 o \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o que o sujeito lhe atribui, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio observar que a <strong>atribui\u00e7\u00e3o singular traum\u00e1tica de um evento vincula-se \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o que o social faz dele<\/strong>.<\/em>\u201d (UCHITEL, 2011, p.49)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> \u201cDessa forma, o trauma \u00e9 compreendido como toda impress\u00e3o ou viv\u00eancia que provoque afetos penosos de medo, susto, ang\u00fastia, <strong>vergonha<\/strong> ou dor ps\u00edquica que o sistema nervoso tem dificuldade para resolver por meio do pensamento associativo ou por uma rea\u00e7\u00e3o motora.\u201d (UCHITEL, 2011, p.33).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Ta\u00eds est\u00e1 aludindo ao h\u00e1bito de fazer alisamentos qu\u00edmicos frequentes e sucessivos. As subst\u00e2ncias usadas enfraquecem a fibra, fazendo com que o cabelo quebre ao longo do tempo ou, em situa\u00e7\u00f5es-limite, aconte\u00e7a o chamado corte qu\u00edmico, quando, pelo excesso de fragilidade do cabelo, erros na manipula\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias ou incompatibilidade entre diferentes processos qu\u00edmicos usados, uma por\u00e7\u00e3o grande do cabelo, muitas vezes em uma regi\u00e3o espec\u00edfica da cabe\u00e7a, se parta como num corte.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Aqui talvez o conceito de masoquismo moral pudesse tamb\u00e9m ajudar a compreender melhor a situa\u00e7\u00e3o, mas optei por n\u00e3o me estender.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> No Brasil n\u00e3o se concebe a pele como um elemento pass\u00edvel de ser modificado. Mas h\u00e1 pa\u00edses, como Estados Unidos e Nig\u00e9ria, em que existiram\/ ainda existem procedimentos de branqueamento da pele, em que s\u00e3o destru\u00eddas as c\u00e9lulas respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de melanina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Narrativas sobre o cabelo crespo e seus processos de modifica\u00e7\u00e3o, em di\u00e1logo com a psican\u00e1lise. 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